Quentin Tarantino: O pior realizador de sempre, decididamente – Versão Redux

Em linguagem urbana corrente, “tarantinizar” já significa copiar de maneira descarada. Seguem-se alguns dos melhores exemplos de um copycat, que fez carreira com mantas de retalhos, às quais os incautos chamam obras geniais. A boa notícia é que Tarantino disse que se vai retirar. Só lhe falta realizar o Charlot Unchained. Já ninguém se recorda que foi processado por plágio. Django… claro, Franco Nero. Quem? Django… 1966. O homem não consegue ser original. Daí que mereça a minha atenção. Pouca. Mas há coisas que ultrapassam os limites do bom senso. E eu ultrapassaria as 10 mil palavras se listasse aqui todas as cópias de planos, ideias, personagens, etc., dos filmes do pior cineasta que alguma vez teve a honra de ser tão aclamado. Seguem-se alguns exemplos.

kill bill vol 1

Quando Cameron Crowe quis ser crítico de música, Lester Bangs deu-lhe este conselho, a julgar pelo que é retratado no filme Almost Famous: “Sê honesto e impiedoso.”

bruce lee game of deathHá tantos filmes e livros bons que o tempo de uma vida não é suficiente para os conseguirmos ver e ler todos. É nesse pressuposto que assenta esta lista de referências. Se temos Dostoiévski, para quê perder tempo, primeiro, com o escritor da moda? Se temos Fuller, Scorsese, Leone, Fulci e inúmeros outros realizadores, para quê perder tempo com Quentin Tarantino?

Os seus filmes são estilizados, é certo que Uma Thurman no fato criado por Bruce Lee é uma ideia estética atraente, e foi o poster que me seduziu, embora tivesse pensado, “o que faz a Uma Thurman com o fato do Bruce Lee?…” É isto que ele faz bem. Pega no que já foi feito e torna-o mais atrativo. Só que já o fez tantas vezes, sistematicamente, desde o começo, que a linha que separa o plágio da homenagem não existe para ele.

Quando vi Pulp Fiction, era a sensação do momento. É certo que tem uns momentos com piada e parece original, mas, já nessa altura, me pareceu um filme colado aos bocados. Parecia feito por várias pessoas e não por uma só. Isso causou-me uma certa estranheza e, só anos depois, descobri os motivos, uma vez que tive a sorte de me interessar por cinema europeu. E, felizmente, não sofro da síndroma, “o cinema americano é o único e o melhor”.

Conheci várias pessoas que gostam de Tarantino e o acham genial, mas não me sabem dizer bem porquê. Algumas não percebiam nada de cinema. Outras tinham uma cultura geral invejável e são até pessoas minhas amigas, cujos gostos respeito, mas que nunca tinham ouvido falar de Django (1966). Outros cinéfilos, de uma geração anterior à minha, disseram-me, quase secretamente, que não percebiam este fenómeno Tarantino, pois iam ao cinema durante os anos 70, 80, 90, e ficaram posteriormente expostos a algo que não lhes dizia nada.

Gostos não se discutem, e não é a minha intenção, com este texto, ofender ninguém. Sempre evitei falar deste indivíduo no site. Mas continuo a considerar Tarantino um copycat sobrestimado, um estilista mecânico – e é mesmo esse o caso. Quando ouço falarem de moda, muitas vezes se referem os detalhes, e são imensos, dos anos 70, 80 e 90, que estão agora na moda. E isto abrange tudo o que possam imaginar; desde os penteados ao corte das calças. É isto que Tarantino faz: Cose e faz uma passagem de modelos, DiCaprio, etc. Mas isto não é realizar.

Isto não é cinema, e ele não é nada que se assemelhe a um cineasta. É moda, é sucesso, é aquilo que John Cassavetes descreveu tão bem, quando apelidou Los Angeles de “sissy town”, que vai atrás do último grito, para quem o êxito é palavra de ordem. Quando vi, na capa de uma revista, em janeiro, a parangona, «Django Libertado: O melhor filme do ano…» Mas serão videntes? Que desrespeito é este para com outros criadores? Que adivinhação é esta? É a tal atitude que Cassavetes referiu. Sissy.

Se, nas salas de cinema, imaginemos, só estivessem em cartaz os filmes do último Festival de Sundance ou Toronto, o público ia na mesma. O cinema canadiano, por exemplo, tem autênticas pérolas, mas quem quer saber do cinema canadiano? Bastam umas estrelas, umas críticas, e é sempre a mesma Invasão USA, citando ironicamente um filme de Chuck Norris a que muitos torcem o nariz e nunca veriam por ser com Norris!

No entanto, vão diretos para o cinema, vítimas dessa mesma invasão! Bebem Coca-Cola, comem pipocas, comportam-se como espectadores americanos e são antiamericanos! E não há um modo de vida americano, há vários. É uma nação multicultural, ao passo que nós somos uma nação a reboque que despreza as minorias enquanto se diz tolerante. Como se classifica uma nação em que quase 90 por cento da população afirma, numa sondagem, que nunca viu um filme pornográfico? Só a posição de missionário é praticada? Ficções de uma nação de… missionários. E, no que toca ao cinema, também: É o eterno convento da americanice que todos detestam, e perante a qual todos se benzem, erguendo o olhar com devoção, em busca de gratificação fácil, imediata e aprovada socialmente.

É aqui que entra Tarantino. É um produto, é a Coca-Cola sem calorias, é o “filme que não dá que pensar mas tem a aprovação de inteligência crítica”. É o escape. É a nulidade transformada em excecionalidade. É a derradeira ignorância cinéfila pretensiosa.

Isto levar-nos-ia a outra discussão: Como são selecionados os filmes que são exibidos nos ecrãs portugueses e nos festivais nacionais? Sei algumas histórias anedóticas/repugnantes sobre isso, mas não as revelo, não vem ao caso. Digo apenas que o processo não é nada transparente. Passemos ao tema em causa:

Reservoir Dogs (1992)

Parte do enredo foi retirado quase literalmente de Lung fu fong wan (City on Fire) de 1987, um filme japonês. Tarantino deu-lhe o crédito, e aqui começa a longa sequência de “homenagens” na qual baseou os seus filmes.

A cena do corte da orelha foi diretamente retirada de Django (1966) do qual é confesso admirador.

Os assassinos vestidos de preto e com saídas sarcásticas são retirados de The Killers (1964), especialmente da personagem ‘Lee’, representada por Clu Gulager.

Não tem banda sonora original.

Tarantino seria sempre acusado de violência gratuita, mas basta ver as sequências violentas de um filme de Sam Peckinpah para ver um dos seus “professores” e as cenas durante as quais tomou notas.

Clu Gulager e Lee Marvin em The Killers.
Clu Gulager e Lee Marvin em The Killers.

Pulp Fiction (1994)

Mais influências de The Killers, especialmente no conceito da história contada através de flashbacks. Só que, neste caso, os relatos culminam num final com sentido e conjugam-se, o que não é o caso aqui.

O filme, como é hábito, não tem banda sonora original, mas toda a gente ficou a conhecer o tema de Chuck Berry.

 

O filme que reabilitou John Travolta, o que não foi uma boa coisa.

O conceito de dois assassinos, um branco e um negro, foi diretamente retirado de La mala ordina (1972), realizado por Fernando Di Leo.

La mala ordina (1972): Henry Silva e Woody Strode.
La mala ordina (1972): Henry Silva e Woody Strode.

Está avaliado com 9 na IMDB, o equivalente a O Padrinho II. Dá que pensar na fiabilidade da IMDb ou na ingenuidade cinéfila de muita gente. Por esta bitola, o filme de Coppola merecia 18.

Jackie Brown (1997)

Jackie Brown The GraduateMuito do filme é inspirado pelo estilo blaxpolitation, que esteve na moda nos anos 70, especialmente nos filmes protagonizados por Pam Grier. Aqui, Tarantino foi buscar Pam Grier. Em jeito de “homenagem”, suponho. Um parêntesis: Jackie Brown é um filme bem concebido, escrito e realizado com competência e rasgos de criatividade. Na época, falou-se que Tarantino se envolvera com Pam Grier. Uma boa inspiração.

Robert De Niro anda perdido (e pedrado) o filme todo. Nunca o vi assim, nem quando estava pedrado no New York, New York. Parece que anda a perguntar a Bridget Fonda, “o que hei-de fazer? Não percebo nada disto”.

Samuel L. Jackson começa a fazer o que sempre fez desde então: A representar o mesmo papel, seja no espaço sideral ou nas ruas de uma metrópole. A maneira de falar, as expressões e postura são as mesmas. Pelo menos, em Pulp Fiction, algo lhe mudava os maneirismos: A peruca.

Kill Bill (2003)

O fato de Uma Thurman é copiado do de Bruce Lee em The Game of Death (1978). Refira-se que o fato foi desenhado pelo próprio Bruce Lee. Crédito? Inexistente.

Baseado nos filmes de artes marciais dos anos 70, que Tarantino, enquanto vídeo geek, e empregado de um videoclube, devorou. Aliás, Shurayukihime aka Lady Snowblood (1973) e a sua sequela são plágios descarados, não são “homenagens” nem “inspirações”. A minha grande dúvida é como Tarantino conseguiu vender a tralha do Kill Bill; só por ignorância, inclusive a minha. Até copiou o formato da sequela. E Ennio Morricone venceu um Óscar por um filme de um “realizador” tão reles… Não é menos que insultuoso. É a fraqueza do povo italiano, e de toda a gente: O dinheiro… Porque a América é o grande mercado. Mas como muitos insiders da indústria de cinema italiana acham, os americanos nunca deviam ter entrado no processo cinematográfico italiano. Desceram ao nível… deu nisto: Créditos em mãos alheias ou, reformulando, crédito aos amigos do alheio.

A banda sonora retirada de vários filmes desconhecidos do grande público e que exerceram grande influência no “cineasta”, como os western spaghetti, Ennio Morricone, Bernard Herrmann. Até surge a banda sonora de um filme de Lucio Fulci. São demasiadas para enumerar, basta consultar a IMDb.

O visual da personagem de Daryl Hannah, de pala no olho, foi copiado da protagonista do filme Thriller – En Grym Film (1974), Christina Lindberg. Trata-se de um filme de vingança protagonizado por uma mulher, em que o slogan é “they call her one eye”. Antigo e obscuro, como convém.

Uma das coisas que provoca asco em Tarantino é o facto de não dar o mérito devido a quem merecia: Christina Lindberg em Thriller - en grym film.
Uma das coisas que provoca asco em Tarantino é o facto de (excetando o óbvio plágio descarado ao qual não pode fugir) não dar o mérito devido a quem merecia: Christina Lindberg em Thriller – en grym film.

Harvey Weinstein e Quentin Tarantino foram acusados por Dannez Hunter de terem usado ideias suas nos dois filmes Kill Bill, sem lhe atribuírem crédito. Estas ideias terão sido retiradas de um conceito que Hunter apresentou à Miramax em 1999. O processo judicial foi noticiado no jornal The Guardian a 10 de março de 2010.

O meu DVD avariou de vez enquanto via este filme. Acho que foi um presságio.

Obviamente, que David Carradine representa um papel inspirado pela série Kung Fu.

Kill Bill 2 (2004)

Além de ser uma sequela desnecessária, visto que os dois filmes podiam ser reunidos num só, tem um dos finais mais lentos e maçadores da História. Arrasta-se como um caracol manco. Enquanto Sergio Leone criava finais de 10 minutos sem falas, usando imaginação e estilo, Tarantino usa diálogos em cima de diálogos durante uns 20 minutos de planos contrapostos, no suposto clímax. Julgo que é aqui que lhe devemos chamar “génio”.

Ashley Judd saindo do caixão, de forma muito semelhante a Thurman.
Ashley Judd saindo do caixão, de forma muito semelhante a Thurman.

Uma Thurman é enterrada viva e sai do caixão à força de punhos. Depois ainda gozam com os filmes de Chuck Norris. Mas aqui, perdoa-se, porque Tarantino é “genial”. Quando não há solução para um momento no enredo, envereda-se pela coisa mais estúpida e impensável.

Além disso, Ashley Judd também saiu de um caixão – como Uma Thurman em Kill Bill 2 – no filme Double Jeopardy (Duplo Risco) de 1999. O filme de Tarantino é de 2004.

Death Proof (2007)

Sinceramente, só o vi porque admiro Kurt Russell. Imaginemos este filme realizado por John B. Smith. Ninguém o via e, quando muito, ia diretamente para vídeo. As cenas de automóveis lembram bastante Dirty Mary Crazy Larry (1974). Nesse, entrava Susan George. Aqui, fiquei a conhecer Vanessa Ferlito, atriz muito interessante. Na verdade, o melhor que o filme tem. Russell é competente.

A banda sonora é… digamos que, se virmos todos os filmes dos quais foram retirados estes temas, gastamos melhor o tempo do que a assistir a mais um pastiche grosseiro de quase duas horas, ao qual podia ser cortado 40 minutos de tralha.

Inglorious Basterds (2009)

Antenção ao
Atenção ao “A” em Bastards. Já feito também.

Aqui, Tarantino assume-se como o “sacana sem lei”. Por falar em pastiche, o conceito do filme é retirado de um outro, realizado por Enzo G. Castellari, em 1978, com o título original Quel maledetto treno blindato, que já era uma imitação de The Dirty Dozen. O título em inglês era justamente The Inglorious Bastards (com A) e o enredo é semelhante. Tarantino chegou a ponto de comprar os direitos deste filme para que não o acusassem de plágio! Não estou a imaginar Woody Allen a fazer isto.

Não posso comentar este filme, porque adormeci passados 10 minutos, acordei no intervalo e dormi durante quase toda a segunda parte. Por esta altura, já estava farto dos compêndios e mantas de retalhos visuais, conceptuais e sonoras deste inglorious bastard.

Meses depois, vi um filme chamado Revolver, de 1973 e, quando fui procurar o tema do filme «Un Amico», de Ennio Morricone, que me agradou bastante, deparo-me com o YouTube infestado com a banda sonora do Inglorious Basterds. Isto não me surpreendeu, já que, aqui, o homem foi buscar novamente temas de filmes muito melhores que o dele, ao ponto da náusea. E nem nisto é original. Martin Scorsese também o fez, várias vezes, mas com sensatez. E, quando quis uma banda sonora de Bernard Herrmann, pediu-lhe uma. Tarantino não pode fazer o mesmo, já que Herrmann faleceu há muitos anos. Mas podia sempre abordar Ennio Morricone, de uma vez por todas, e dizer-lhe, com o seu tom anormal, “Ennio, podes fazer uma banda sonora para a minha nova obra de arte? Chama-se O Padrinho mas isso é apenas uma homenagem, até porque o Samuel L. Jackson faz de ‘Don Impostore’ e o O Leonardo DiCaprio é o seu braço direito!” Acho que Morricone lhe diria, em bom italiano: “Vaffanculo.” 

Mas não o disse. Preferiu o Óscar. Eu? Prefiro olhar para o lado. Já Fabio Frizzi lhe recusou o uso do tema de Zombi 2, confessando que a proposta (financeira) de Tarantino foi “verdadeiramente vergonhosa”. O italiano Frizzi acrescenta: “Gosto pouco da maneira como os americanos nos tratam, têm tendência a ver-nos como uma colónia.” Mais respostas destas seriam bem merecidas, porque, de facto, isto sempre aconteceu. 

E agora temos a coqueluche: O ‘Django’ finalmente “libertado” sabe-se lá de quê. Do caixão? Presumo que o de 1966, realizado por Sergio Corbucci, fosse o acorrentado, já para não falar das 300 sequelas, quase todas medíocres. A última das quais, faz agora o delírio das massas. Esparguete. Apenas isso. Esparguete. 

The Hateful Eight nem merece referência, a não ser uma de tristeza por ver Kurt Russell metido nesta enchilada. Mas como Al Pacino disse, “é assim que está. Ou aceitamos papéis de que não gostamos ou não trabalhamos. Prefiro trabalhar”. Depois sai disto e toda a gente diz: Sim, senhor. Palmas para o público…

David Furtado

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6 Comments Add yours

  1. Peter Gunn diz:

    Não sou nenhum guru do cinema nem nada que se pareça, mas também não me considero nenhuma maria vai com as outras pelo que para não me alongar muito apenas vou dizer isto:

    O conceito “cinema” como o conhecemos já existe à 100 anos.. existem milhões de filmes já feitos até hoje, com milhares de ideias diferentes, algumas centenas de enredos em tudo iguais, sendo que desde a sua origem foram dezenas os realizadores visionários que conseguiram fazer-nos sentir o amor que hoje sentimos pela 7ª arte… Obrigado a todos!

    Agora crucificar assim um dos poucos realizadores que consegue ainda motivar alguém a ir a uma sala de cinema só porque rouba/adapta/homenagea ou seja lá o que for… mas que querem que o homem faça??? Em 100 anos como é que não se há-de repetir o que quer que seja??? É como dizer que todos os filmes pornográficos são iguais… e no fim de contas são!

    Por mim que venham mais 4 ou 5 filmes de “merda” como os que o Tarantino tem feito que não me importo de gastar os poucos tostões que o Governo ainda me deixa no bolso ao fim do mês para os ir ver…

    Cumprimentos cinéfilos

    1. Caro Peter Gunn,

      Neste espaço, não há gurus (eu não o sou), mas há certos sites/blogs em que eles existem; pessoas que acham ter a verdade suprema. Gosto do termo. Aqui, prefiro que a expressão seja livre, embora possa diferir da minha, e não tenho um “espírito fechado”. Além do mais, fiquei com vontade de ver o Django Unchained devido aos três comentários.

      2º parágrafo: Totalmente de acordo.

      Não estou a crucificar ninguém. Estou a dar a minha opinião de modo fundamentado. Olhe, os filmes pornográficos também motivavam 90 por cento dos clientes dos videoclubes a lá irem, pelas conversas que tive com os donos de vários. E isso faz deles o quê? “Citizens Kanes”? Além do mais, os filmes pornográficos não são todos iguais, desculpe que lhe diga. O David Duchovny confessou-se “viciado em pornografia”, corrija-me se estou errado, e isso não impediu que o Californication fosse o sucesso que (justificadamente) foi, e não me lembro de acusarem o ator de “anormal”.

      Não chamei aos filmes do Tarantino, “filmes de merda”. A produção é refinada, as verbas que lhe dão são altíssimas. As verbas que davam a Lucio Fulci, por exemplo, eram uma miséria, pelo que ele tinha de recorrer à imaginação. Tarantino tem a vida facilitada nesse aspeto, e pode contratar atores que pedem balúrdios, não esqueça isso. E recorde também que foi Harvey Keitel que permitiu, em grande medida, que Reservoir Dogs (Cães Danados) fosse feito, através dos seus contactos e de dinheiro do seu próprio bolso.

      E isso leva-nos à sua última frase, que abrange quase Portugal inteiro: Se vai ao cinema, gasta os seus “poucos tostões” para ir ver um filme e sai de lá satisfeito, é dinheiro bem gasto, independentemente do filme ou do realizador em causa. Se calhar, eu preferia gastar os meus tostões noutro, mas o que importa é usufruirmos da Sétima Arte.

      Portanto, obrigado pelo comentário. E cumprimentos cinéfilos.
      David

  2. Quem está tentando meramente plagiar algo procura, no mínimo, esconder bem suas fontes. Tarantino não só não esconde como as alardeia. As citações/cópias/pastiches nos seus filmes só faltam ter legendas indicando de quais filmes foram tiradas e nas entrevistas o diretor se demora em listar, um por um, todos os filmes que o inspiraram (muitos dos quais ele chegou a facilitar relançamentos e restaurações). Sou cinéfilo e, como tal, ao ver um filme do Tarantino, me sinto conversando com um colega, alguém tão apaixonado pelos filmes originais quanto eu, alguém que parece piscar o olho pra mim toda vez que uma música de um giallo de repente ressurge numa cena inesperada, criando inúmeras novas associações. O que eu sinto ao ver os trabalhos dele, é que ele não se conforma que aqueles filmes fantásticos pelos quais tem profundo amor sejam esquecidos, relegados ao limbo de lixo cinematográfico, considerados sub-cinema. Ele os trata com enorme carinho e respeito em suas recriações, quer comulgar com eles, fazer parte deles, tanto que não lhe basta recriar cenas ou emular a estética, ele quer filmar nos próprios países e estúdios em que os originais foram filmados, quer usar os mesmos atores, técnicos e dublês, faz questão que os nomes de seus ídolos surjam em destaque, despertem curiosidade no público de saber quem são, de onde vieram, por que esse cara gosta tanto deles. Sente-se o desejo de compartilhar a paixão. É fato que muitos que vão ver “Bastardos Inglórios” ou “Django Unchained” não tem a menor ideia que existem os filmes italianos de onde esses títulos foram tirados, mas não o sabem porque não estão interessados em saber, pois quaisquer resenhas e críticas poderiam informa-los. É um público que apenas consome, não só o Tarantino, mas qualquer coisa. Quem se apaixona pelo cinema do Tarantino são ou cinéfilos (ou proto-cinéfilos), que acabarão, fatalmente, chegando nas suas fontes, exatamente como ele espera que aconteça. Não foram poucos os filmes, cineastas e estilos que eu tive contato pela primeira vez com o Tarantino e, depois, fiquei obcecado em saber mais. E conhecer, finalmente, os filmes originais, não diminuiu o impacto dos filmes dele, muitas vezes até o ampliou. É um prazer conversar com gente que, até ontem, nunca tinha ouvido falar do Django do Franco Nero e agora não vê a hora de encontrar uma cópia. É um movimento de uma qualidade muito diferente do que seria provocado por um mero plágio.

    1. Olá, Rodrigo.

      Vou-lhe citar o Sting (julgo que foi ele que disse isto) “A originalidade consiste em escondermos o melhor possível as nossas influências.” Esse alardear do Tarantino, pessoalmente, irrita-me. Os pastiches são tantos que só lhes falta legendas? Acha isso bom? Eu acho péssimo. Geralmente são para percebermos diálogos originais falados noutro idioma.

      É verdade que ele fez relançamentos, como foi o caso de The Beyond, de Fulci. E, a certa altura, pensou realizar um remake de The Psychic.

      Uma característica que não aprecio é a sensação de ter o realizador “ao meu lado”, como amigo. Ele pode ter essa faceta de tentar regenerar o chamado “eurotrash”. Isso é bom. Mas acho que tanto decalque, em todas as facetas que refere, é uma atitude algo obsessiva. Se ele quer listar as influências, há um espaço para isso: A entrevista. Além disso, se já foi feito, para quê repetir? Lucio Fulci, que daria lições de cinema a Tarantino, caso tivesse orçamentos maiores, não apreciaria decerto a atitude, a julgar pelo que disse: “Primeiro, copiámos os americanos, depois, eles copiaram-nos a nós.” No caso italiano, com rasgos de criatividade, no caso inverso, e aí sim, tentando, a maioria das vezes, ocultar.

      Se Tarantino exerceu esse efeito em si, acho louvável, mas não será regra geral. O Django original têm elementos hilariantes e originais, mas também tem outros toscos e grosseiros. A meu ver, a sua importância é mais histórica do que cinematográfica. Isto sem desprezar Sergio Corbucci, obviamente, que assinou autênticas obras-primas.

      Uma das coisas que quis dizer no meu artigo, ao qual parece retirar toda a importância, contrapondo argumentos inversos, é que Tarantino é do establishment. Os estúdios apostam forte porque querem dinheiro e já sabem que vai tudo a correr para o cinema, seja o Django, ou o The Psychic, ou outra coisa qualquer. Essa falta de espírito crítico é que lamento, nas multidões, embora a compreenda: Veem no cinema uma fuga, uma distração. A sua experiência pessoal com Tarantino, enquanto cinéfilo, como refere, não lamento nada. Acho-a positiva.

      Gostaria de acrescentar um dúvida: Por que motivo, quando escrevi um ciclo dedicado a Samuel Fuller, poucos comentários houve? Por que motivo, quando escrevi outros sobre Raoul Walsh, poucos atacaram ou defenderam o artigo? E, por fim, por que razão, quando critico um dos realizadores da moda, os comentários opostos surgem? Há uns anos, se eu criticasse o Mel Gibson, a reação seria semelhante. Mas quando escrevi dois sobre ele, (elogiosos, até), a reação foi quase nula. Porque já não é politicamente correto dizer bem de Gibson.

      Para mim, o cinema não é uma moda. E tanto vejo filmes antigos como recentes, sem precisar dos “guias visuais” do Tarantino para me orientar. Bem sei, há a velha teoria de que “nada se cria, tudo se recria”. Mas não julgo que se aplique a ele.

      Obrigado.

  3. Lena diz:

    OK…!Tambem não gosto! É difícl gostar de uma imitação .por mais fiel que seja. Eu não percebo de cinema.Mas nunca fui ver uma imitação da A
    MÁLIA. A crítica que fizeste é bem clara! MUTOS PARABÉNS….!

    1. Agradeço, M H C. Sei que a intenção é boa, mas é melhor ver, pois, se calhar, gostarás dos filmes mencionados.

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