O Polvo (La Piovra) Sempre Atual

Perguntaram-me por que gosto tanto de La Piovra. Uma série italiana, de há 20 e tal anos… Resumidamente… porque é atual e parece um livro. Via em pequeno, mas só percebia os tiroteios… Como alguém disse na IMDb, se o público americano não fosse exposto ao fenómeno de O Padrinho ou Os Sopranos, provavelmente elegeria O Polvo como a melhor série sobre a Máfia. Mas a questão é que não é bem uma série… e não é apenas sobre a Máfia. Há o bem e o mal, e as zonas cinzentas, e é aqui que a história se desenrola.

la piovra polvo

É um épico, mas não é aborrecido nem exige uma predisposição especial. Não cai em clichés. Uma obra de arte feita em conjunto – realizador, atores, argumentista, compositor – pode ser uma batalha de egos, mas há um verdadeiro esforço por demonstrar o que é a vida das pessoas, a corrupção e o crime. A tal ponto que foi alvo de pelo menos um processo judicial, de tão realista.

A história deve ter inspirado Ennio Morricone, porque a banda sonora parece – é – música clássica. Um dos seus melhores trabalhos.

Há um herói, o ‘Comissário Cattani’ (Michele Placido), que não é convencional. Há vários vilões, entre os quais ‘Tano Carridi’ (Remo Girone), uma mistura de vilania e tristeza que nos faz sentir compaixão. O comissário é obviamente trucidado a meio da série e quem continua a luta contra o mal é uma juíza, ‘Silvia Conti’ (Patricia Millardet).

Há as paisagens fantásticas de Itália. E os advogados, que não são mais do que a ponta dos tentáculos, cortados quando é mais conveniente.

Há filosofia – para o espírito vil, o bom é um ingénuo, um inocente, um mártir estúpido, um idealista. E vice-versa.

Para quem quiser saber como funciona a política, a sociedade, ou os media, e como se interligam, é um curso intensivo. É notável que uma série de ficção consiga ir tão fundo, tocar tantas pessoas em todo o mundo e não ter uma nota de artificialidade, a não ser a dobragem de certos atores.

Já vou em vários parágrafos e ainda não consegui dizer um centésimo, depois de tantas horas… É inevitável que regresse a esta série. As temporadas 8 e 9 não são más, mas são um anti-clímax. Na décima, o círculo fecha-se.

E a melhor maneira de resumir O Polvo é a resposta da juíza, quando lhe perguntam para quê continuar a lutar contra uma força que é obviamente tão intransponível e omnipresente. “Porque, enquanto conhecer pessoas nas quais não deteto traços de maldade, nunca deixarei de lutar.”

David Furtado

Fica aqui um vídeo que mostra cenas em que nada é dito e em que a música de Ennio Morricone “fala”.

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