A face desconhecida de Clint Eastwood: Homem sem Nome

Clint Eastwood desenho David Furtado
Desenho: David Furtado (1990).

Há 25 anos que Clinton Eastwood Jr. deixa o mundo a seus pés com cada filme, e o mesmo deverá suceder a J. Edgar. Mas o ídolo tem pés de barro, como documenta a biografia Clint: The Life and Legend. Eastwood exigiu 10 milhões de dólares de indemnização, e o autor foi processado. Mas a publicação foi autorizada judicialmente depois de cortadas algumas passagens. Não foi o caso da seguinte: “Se reunissem todas as pessoas a quem Clint tramou a vida”, comenta um ex-colaborador, “um estádio de futebol era pequeno”.

– Como disseste que te chamavas?
– Não disse.

High Plains Drifter (1973).

Os relatos sobre a vida de Eastwood dividem-se entre os que exaltam a mitologia, como a biografia “encomendada” a Richard Schickel, e o livro não autorizado de Patrick McGilligan, resultado de uma pesquisa de quatro anos. O Daily Mirror, o The Times, a Empire, o The Observer, e a Time Out, entre outros, admitiram que a leitura é desagradável, mas sublinham que o biógrafo entrevistou literalmente todas as pessoas do círculo próximo de Eastwood, excetuando o próprio Clint.

De forma documentada, em mais de 500 páginas, é retratado o homem falível por detrás da lenda, alguém que subiu a destruir gratuitamente a carreira de quem se intrometia no caminho. A sua natureza vingativa e manipuladora não poupou quem contribuiu para o sucesso. Numa época em que a crítica se perde em elogios a cada novo filme – por vezes, com serventia –, convém recordar que Eastwood foi, durante décadas, violentamente atacado pela mesma crítica que está hoje do seu lado.

O BOM

Para Sergio Leone, com quem Eastwood trabalhou na trilogia de westerns spaghetti, o ator não foi a primeira a escolha:

“Clint tem duas expressões. Uma com chapéu e outra sem chapéu.”

Leone ambicionava uma grande estrela para os seus neo-westerns e, em meados dos anos 60, Eastwood era apenas a vedeta da série de televisão Rawhide. O realizador conseguiu o objetivo depois do sucesso inesperado de A Fistful of Dollars (1964), o que lhe permitiu contratar atores como Henry Fonda ou Eli Wallach em filmes posteriores. Mas nascera uma estrela nova: “Il Cigarillo”, o “Homem sem Nome”.

clint eastwood eiger
Nas filmagens de The Eiger Sanction (A Escalada).

Acabaram os papéis secundários em filmes obscuros. Começou a fama de ator de feitio irascível e intolerante. Aparentemente, o seu casamento era estável, embora Eastwood se envolvesse com as atrizes secundárias dos seus filmes. O ator afastava-se de pessoas como Shirley MacLaine, com quem contracenou em Two Mules for Sister Sara (1970). A personalidade forte de MacLaine colidiu com a do realizador Don Siegel, mas Eastwood não se intrometeu. Clint não se abstinha de divulgar as suas conquistas, porém, teve um caso com Catherine Deneuve, mantido em segredo durante anos, já que a reputação da atriz lhe poderia complicar a carreira.

Eastwood sabia a importância do controlo de uma equipa e fundou a Malpaso, no final da década de 60. A denominação, “passo em falso”, foi retirada do nome de um ribeiro que passava perto da sua propriedade. Estreou-se na realização em 1971, com o thriller Play Misty for Me, que viria a ser praticamente plagiado em Fatal Attraction, 16 anos depois. Em 1974, deu uma oportunidade ao estreante Michael Cimino, permitindo-lhe que realizasse Thunderbolt and Lightfoot, com Jeff Bridges. Este foi nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário, Cimino estava lançado e Clint a roer-se de inveja.

A rodagem de The Eiger Sanction, no ano seguinte, ficou marcada pela morte de um alpinista de 27 anos. Eastwood pensou em cancelar a produção e ganhou o respeito da equipa, ao interpretar diversas cenas a 12 mil pés de altitude. Numa delas, escorregou montanha abaixo, a meio de um take e gritou, “take 2”, sem se recompor. Aliás, queria certificar-se de que o público o identificava nas cenas perigosas, quase provocando um acidente com um helicóptero que não se conseguia aproximar o suficiente para seu gosto. As cenas íntimas com a coestrela prolongavam-se a ponto de a equipa abandonar o set, depois de já não haver filme na câmara.

O MAU

Eastwood e a Malpaso afirmaram-se, apesar das críticas: O ator tinha problemas em memorizar os diálogos, e as produções eram realizadas em cima do joelho. Em 1971, nasceu o Inspetor Dirty Harry, que originou quatro sequelas, mas Eastwood e Don Siegel sofreram ofensivas furiosas. A New Yorker descreveu o filme como “fascista”, por exemplo.

“A partir de Dirty Harry, cristalizou-se a imagem de Eastwood como sendo perigosamente reacionária.” A reputada colunista de cinema Pauline Kael dizimava cada filme do ator, descrevendo Dirty Harry como “fantasia de direita e um notável ataque simplório aos valores liberais”. Clint “detestava a cabra, mas lia sempre primeiro as suas críticas”.

Quando acabava, atirava o jornal contra a parede. Isto quando não destruía o escritório, enraivecido, lançando cadeiras pela janela e saindo porta fora, perante o silêncio dos empregados da Malpaso.

Ted Post realizou a sequela Magnum Force e ouviu vários reparos, “e se filmasses antes dali”, “e se excluíssemos esta cena”, “e se…” Até que respondeu, “desculpa, Clint, mas és um ator. O realizador sou eu”. Post nunca mais teve descanso. Percebeu que cometera um erro. Eastwood, com o seu carisma, sabia que conseguia carregar aos ombros qualquer filme medíocre.

Nalgumas produções posteriores, quando não realizava, contratava realizadores-fantasma, dizendo-lhes exatamente o que fazer, e estes obedeciam com todas as mordomias. A equipa comentava, “se isto não é realizar, não sei o que é”. Mas não se atreviam a falar demasiado, já que Eastwood tinha por hábito descompor e insultar os colaboradores diante da equipa, humilhando-os gratuitamente se cometiam qualquer erro técnico.

O realizador foi aprimorando a técnica “corta, revela”, poucos takes e a produção a terminar com o orçamento aquém do previsto, o que agradava à Warner Brothers. Alguns apelidam isto de “génio” e “visão”, outros de desleixo. Há planos fáceis e óbvios, e também enquadramentos cuidados. Mas Clint já começara a construir uma mitologia. Entre filmes dirigidos ao grande público, realizou obras magníficas como The Outlaw Josey Wales, de 1976. Apesar de hoje ser considerado um dos seus melhores trabalhos, na época não causou impacto. Aliás, durante a década de 80, em Portugal, foi uma raridade em vídeo. O intimismo de Bronco Billy (1980) não convencia tanto como a ação de The Gauntlet (1977). A crítica, salvo raras exceções, continuava indiferente, remetendo-o para a categoria de “estrela de cinema” e “ator de segunda”. No entanto, Clint sempre foi especialista numa coisa: A projeção da sua imagem. No ecrã, defendia que “um homem tem de conhecer as suas limitações”, mas, em privado, não seguia o lema. Era obcecado com a aparência e ingeria megadoses diárias de nutrientes e drogas experimentais anti-envelhecimento.

O VILÃO

O livro de McGilligan explora o lado desconhecido de Eastwood, e o tom é muitas vezes hostil. No entanto, o biógrafo confirma as histórias exaustivamente com várias fontes, citando processos judiciais, gravações vídeo do tribunal, entrevistas com outros atores e com centenas de colaboradores diretos de Eastwood.

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Sondra Locke e Clint Eastwood em The Gauntlet (1977).

Clint teve vários problemas bizarros com a Justiça. O estacionamento reservado à Malpaso era parte do seu “território psicológico”. Certa vez, entrou num automóvel prevaricador e destruiu-o contra uma vedação. Outra vez, ao ver um Nissan de uma produtora no seu espaço, foi direto a ele com a sua carrinha GM, estilo bulldozer. Entrou no escritório e saiu colérico, armado de um martelo, face ao espanto da equipa da série Murphy Brown, que filmava ao lado. Só os empregados da Malpaso, já acostumados, conseguiam desmotivá-lo. Comparecia com ar arrogante em tribunal, depois de um destes episódios e, quando lhe perguntavam se queria pagar os estragos, dizia apenas que a mulher em questão podia passar um fim-de-semana em sua casa, onde teria acesso à sua vasta videoteca privada.

Perante o pasmo de todos, era absolvido. Mais estupefacta ficava a assistência quando o juiz lhe pedia um autógrafo. A ré ficava com o Nissan destruído e a carreira terminada. “Eu admirava-o, nunca pensei que fosse assim.” Aliás, muitos diziam o mesmo – O Eastwood do ecrã não era o mesmo da vida real.

Mas, perante o público, a imagem de Eastwood era a do pistoleiro que defende os oprimidos. Clint era Conservador, e Ronald Reagan, de quem era amigo, empregava as suas frases em discursos de campanha: “Go ahead, make my day.” Os contactos políticos ajudaram bastante quando Eastwood foi eleito mayor de Carmel, na Califórnia, no final dos anos 80. No entanto, a autopromoção era mais importante do que o município, e Clint abandonava sessões da assembleia com frases agressivas, deixando a autarquia atolada em dívidas no fim do mandato.

O verdadeiro “malpaso” de Clint foi Sondra Locke, atriz nomeada para um Óscar quando se estreou em The Heart Is a Lonely Hunter (1968). Contracenaram em vários filmes e viveram juntos mais de 10 anos, mas a relação começou a azedar quando Clint a obrigou a fazer um aborto. Não seria a primeira vez. Não teve tempo de a ir buscar depois do segundo, já que estava com uma das amantes. Para terminar, convenceu-a a fazer uma laqueação de trompas. Impulsionou a sua carreira como realizadora em meados de 80, quando Locke se cansou de viver à sombra da estrela. No entanto, a companheira começou a receber incentivos e boas críticas, conquistando alguma autonomia. Eastwood mexeu os cordelinhos na Warner.

“Nenhum executivo aprovava um projeto meu. Aparentemente, preferiam pagar-me para ficar ali sentada sem fazer nada, o que me destruiria profissional e emocionalmente.” Em 1992, descobriu que era Clint que lhe estava a pagar, processando a Warner e o ator por fraude.

Surgiram as primeiras histórias desagradáveis na imprensa mundial, batalhas jurídicas por quebra de contrato, danos psicológicos e apropriação de bens. Afinal, o exemplar pai de família tinha vários filhos ilegítimos, uns reconhecidos, outros não. Clint já não era o “herói do povo”, mas sim um maquiavélico, um tirano e um “Dirty Clint”, como diziam os cabeçalhos. Quando os jornalistas televisivos o confrontavam com o Caso Locke em direto, começaram a receber o olhar de aço que conheciam dos filmes. Os contactos com a imprensa passaram a ser restritos, e as perguntas controladas.

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Eastwood e Locke em Any Which Way You Can (1980).

A princípio, Sondra Locke foi humilhada em público. Eastwood aproveitou-se de uma fase em que a atriz se encontrava vulnerável, ao saber que sofria de cancro, para a atacar de todas as formas, pondo-lhe os telefones sob escuta, vandalizando-lhe o automóvel e processando-a. Mas Locke foi tantas vezes a tribunal com Eastwood que acabou por obter uma indemnização considerável. Saiu vitoriosa na imprensa. Na sua autobiografia, relata as tentativas de controlo demencial exercidas por Eastwood. No dia em que realizava uma cena difícil de Impulse (1990), foi informada de que o ex-companheiro mandara retirar todas as suas posses da casa de ambos e as deixara na via pública. Ficou de tal forma espantada que desmaiou. Tal como muitos ex-colaboradores, Locke nunca mais conseguiu reconstruir a sua carreira em Hollywood.

No final da década de 80, Clint Eastwood, amante de jazz, concretizou um sonho ao realizar Bird, tendo a obra sido honrada em Cannes. Depois de uma infatigável campanha de relações públicas internacional, a sua reputação começou a modificar-se. Em França – onde os cineastas americanos são vistos a outra luz –, Eastwood era um autor. Mas Pauline Kael ainda não estava convencida:

“Quando um homem que não é um artista faz um filme artístico, o resultado é aquilo que se esperaria: diligente mas sem vida”, constatação que se pode aplicar a vários dos seus filmes posteriores.

O triunfo de Unforgiven foi unânime. Apesar de, em 1992, ter dito que adorara o argumento original, The William Munny Killings, de David Webb Peoples (escrito em 1984) e se batia por realizá-lo há uns 10 anos, Eastwood, na altura, não lhe ligou muito. O guião foi-lhe entregue por Megan Rose, uma analista de scripts da Warner, posteriormente afastada à força do projeto, “por diferendos criativos”, sem receber qualquer crédito. O problema terá derivado do caso amoroso entre Eastwood e Rose, mas os processos jurídicos foram abafados. Outras pessoas que deram contributos para o guião acharam a atitude de Clint tão desprezível que declinaram o crédito. Acabava a fase do “ator de filmes de pancadaria”. Afinal, tinha classe, uma classe cada vez mais imperdoável para alguns.

clint eastwood 2A aceitação despoletou críticas imaculadas, ignorando a fraca reputação e o desprezo dos anos 70 e 80. Salvo raras exceções (como o caso do extinto Semanário Vídeo) a imprensa portuguesa lamentou a circunstância em duas frases, e Clint entrou na moda.

A ÚLTIMA CANÇÃO

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Alison Eastwood, a filha rebelde, com o pai.

A década de 90 foi um renascimento. A nova geração não queria saber se The Outlaw Josey Wales ou Honkytonk Man tinham sido raridades no circuito vídeo dos anos 80, ganhando pó, com a fita torcida, no armazém de um videoclube. Todos se curvavam (merecidamente) perante a poesia de The Bridges of Madison County (1995) a mediocridade de Midnight in the Garden of Good and Evil (1997) ou a mediania de True Crime (1999). Eastwood era Eastwood e tudo o que imprimia em celuloide merecia cinco estrelas. O seu poder em Hollywood e, progressivamente, na Europa, passava despercebido a entrevistadores embasbacados perante a lenda.

O próprio Steven Spielberg tornar-se-ia num pau-mandado do ator. Os críticos portugueses elogiaram Absolute Power, filme mediano, em que Clint atribuiu um papel secundário a Kimber, uma das filhas ilegítimas. O papel de pai ausente começou a tornar-se num sub-argumento recorrente das suas obras. A relação problemática com a filha (legítima) Alison parece ser também uma das inspirações. Refira-se que Alison teve uma estreia auspiciosa num filme do pai, Tightrope (1984). Kyle, por seu turno, desiludiu em A Última Canção (Honkytonk Man), filme em que o pai o tentou lançar.

Depois de fracassos como Space Cowboys, Clint chegou a Mystic River e a Million Dollar Baby, em que os fantasmas reaparecem. Para Eastwood, o filme foi uma catarse, e só admirou não ter vencido o Óscar de Melhor Ator.

Agora não interessam os elogios monocórdicos da imprensa nacional a Letters from Iwo Jima ou a Flags of Our Fathers. São uma caricatura de que Eastwood já não precisa. Como disse um crítico francês, citado por McGilligan, “para quem gosta dos filmes, nada mais importa”. Nem sequer a crítica, porque essa, em relação a Eastwood, perdeu toda a credibilidade.

O livro de McGilligan termina com uma descrição de Clint Eastwood, descendo as escadas de um palco; velho, cansado, com um discurso confuso. Os olhos azuis brilham e o cabelo transplantado já é raro. Mas Eastwood sorri com um olhar triste.

Esperamos o próximo filme e a próxima surpresa. Clint completa 82 anos em maio, e algumas das suas obras podem prender uma criança de sete ao ecrã. Tem um lugar na História e sabe-o.

David Furtado

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