Giallo: A Máscara da Sanidade

O que é o giallo? O termo designava livros policiais, traduções ou originais italianos, que começaram a ser publicados pela poderosa editora milanesa Mondadori em 1929. A sua popularidade deu origem a adaptações cinematográficas e, visto que a capa dos livros era amarela (giallo, em italiano), os filmes passaram a ser designados com o mesmo nome ou, no plural, gialli.

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Os gialli ainda são populares nos dias de hoje, e praticamente todas as publicações consistem em histórias de mistério, inglesas ou americanas, traduzidas para italiano. Nas suas páginas, começaram por surgir os nomes de Edgar Allan Poe, Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, acabando por abranger os autores do romance americano hard-boiled, figuras como James M. Cain, Dashiell Hammett e Raymond Chandler.

Para analisar melhor este filone (filão), como lhe chamavam os italianos, recorro a algumas opiniões de Peter Bondanella, o autor de obras aclamadas como Italian Cinema: From Neorealism to the Present, Hollywood Italians, The Cinema of Frederico Fellini e The Films of Roberto Rossellini. Em 2009, foi eleito para a Academia Europeia de Ciências e Artes devido às suas contribuições para a História do cinema italiano, bem como as suas traduções ou edições de clássicos italianos. Bondanella é também Professor Emérito e distinguido de literatura comparativa, estudos cinematográficos e italiano na universidade do Indiana. O que aprecio no seu trabalho, além de uma pesquisa intensiva, é o facto de, apesar de académico, não empregar uma linguagem rebuscada. E, acima de tudo, não subestima a importância dos vários subgéneros do cinema italiano, como a comédia, o western spaghetti ou o giallo, perante obras de Fellini, Antonioni ou Visconti.

A Rapariga Que Sabia Demais (1963) de Mario Bava. Para muitos, o primeiro giallo digno do termo.
A Rapariga Que Sabia Demais (1963) de Mario Bava. Para muitos, o primeiro giallo digno do termo.

Segundo Bondanella, “uma das características da moderna ficção italiana, nos séculos dezanove e vinte, é a falta de livros escritos segundo fórmulas populares, como ficção científica, thriller ou mistério, os quais eram sempre associados a autores anglo-saxónicos. Esta falta de tradição na literatura era obviamente um impedimento para a criação de uma tradição similar no cinema. Isto explica, em parte, por que demorou tanto tempo até que os temas do mistério e das investigações policiais surgissem no cinema italiano”.

Edwige Fenech, uma das atrizes que surgiu em mais gialli e também um sex-symbol em Itália na década de 70.
Edwige Fenech, uma das atrizes que surgiu em mais gialli e também um sex-symbol em Itália na década de 70.

Além disso, de acordo com o autor, “gerou-se um desprezo pelos géneros populares italianos, o western, o giallo, o peplum e o euro-crime ou poliziesco. Os intelectuais e os críticos de sobrancelha erguida troçavam destas obras, enquanto o público as aceitava como entretenimento”.

Nos primórdios, um crítico italiano, Alberto Savinio, afirmou que o mistério era algo de forçado e estranho à cultura italiana e que não tinha lugar nas localidades urbanas de Itália, obedientes à lei. Por contraste, hoje em dia, vemos autores não-italianos a escreverem romances de mistério passados em Itália.

Peter Bondanella cita o caso do romance italiano mais bem-sucedido do século vinte, O Nome da Rosa de Umberto Eco (1980), que vendeu dezenas de milhões de cópias em todo o mundo. “Trata-se de uma visão pós-moderna do romance policial tradicional, inspirado na tradição anglo-saxónica desde Poe até ao presente.”

Por outro lado, os western spaghetti e os peplum praticamente acabaram, mas ainda se produzem, de vez em quando, gialli em Itália. A sua influência ultrapassou fronteiras. Por exemplo, Vestida para Matar de Brian De Palma é, em essência, um giallo.

A INFLUÊNCIA DE MARIO BAVA

Ainda que o género seja difícil de categorizar, devido às componentes de terror, sexualidade e violência que os italianos lhe adicionaram, o primeiro giallo digno do nome foi realizado por Mario Bava, que captou, a preto e branco, o teor dos livros, concebendo A Rapariga Que Sabia Demais (La ragazza che sapeva troppo), em 1963 – o título é uma clara alusão a Hitchcock. O filme seguinte de Bava, Sei donne per l’assassino (1964), explora de modo fabuloso as cores, e influenciou – tal como toda a obra do cineasta – realizadores como Argento, Scorsese, Tarantino e Tim Burton, só para citar alguns. Com Reazione a catena (1971), Bava influenciaria decisivamente os filmes slasher americanos, como a franchise de Halloween, a de Sexta-feira 13 (cujo segundo episódio plagia cenas), ou a de Pesadelo em Elm Street.

Trailer americano de Sei donne per l’assassino:

Sei donne per l’assassino desenrola-se no mundo da moda, numa casa de haute couture. Este mundo de beleza, sensualidade e glamour, filmado em Technicolor, oculta tráfico de droga, chantagem e assassínios. Foi um caso em que o baixo orçamento obrigou Bava a imaginar uma abordagem tão original “que espantaria um realizador de Hollywood”, comenta Bondanella.

A fotografia notável - e ainda hoje inquietante - de Seis Mulheres Para Um Assassino (1964) de Mario Bava.
A fotografia notável – e ainda hoje inquietante – de Seis Mulheres Para Um Assassino (1964) de Mario Bava.

“As tracking shots noturnas, no salão da casa, repleta de manequins reminiscentes de De Chirico, foram executadas ao colocar-se a câmara num carrinho de bebé. As modelos vão sendo assassinadas de modos criativos, uma sequência despoletada pelas informações incriminadoras contidas num diário.”

A criatividade de Bava despoletou imitações redundantes, numa série de películas que procuravam misturar o policial e o terror, repletas de uma atmosfera de estranheza, acentuando o aspeto visual. Mas, entre elas, surgiram trabalhos importantes de Giuliano Carnimeo, Aldo Lado, Sergio Martino, Luciano Ercoli, Umberto Lenzi e Pupi Avati, quase todos provenientes dos subgéneros do cinema italiano. “Tendo em conta os standards de hoje, parecem ligeiros, mas, na época, os gialli eram sexy e audazes, sendo muitas vezes censurados em Itália e no resto do mundo, tal como sucedeu aos western spaghetti mais violentos”, comenta Bondanella.

ARGENTO ACERTA NO ALVO

Dario Argento segue os passos de Mario Bava e estabelece o fenómeno.
Dario Argento segue os passos de Mario Bava e estabelece o fenómeno.

O Pássaro Com Plumas de Cristal (L’uccello dalle piume di cristallo) acaba por ser, para o giallo, o que Por um Punhado de Dólares foi para o western spaghetti. Embora houvesse antecedentes ilustres, ambos foram inesperados sucessos internacionais. Em 1970, entra em cena um jovem nascido no meio cinematográfico, ex-crítico de cinema, apaixonado pela sétima arte, que fora já coargumentista de Aconteceu no Oeste. Inspirando-se em Sergio Leone e especialmente em Mario Bava, realizou uma obra de estreia que se tornou num êxito em Itália e no mercado internacional: L’uccello dalle piume di cristallo.

Dario Argento e restantes realizadores tinham de contar, no elenco, com um ator reconhecido internacionalmente. Neste caso, foi Tony Musante, que se comportou com imodéstia nas filmagens, provocando conflitos com Argento. A obra relata a aventura de um escritor americano em Roma, que testemunha a tentativa de assassínio de uma mulher por um serial-killer. Mas as aparências iludem. O realizador estabeleceu a forma básica do giallo e dos seus temas – um assassino com um trauma, e os chamados “setpieces”, sequências elaboradas de assassínio, assim como a ideia de um estrangeiro num país estranho, que acaba por resolver o caso, perante a inoperância de uma polícia incompetente. O conceito de interpretar mal algo que se viu, surge também aqui. A elegância com que Argento filmou a história despoletou o filão.

O tema de Ennio Morricone com imagens do filme:

“Basicamente, o mundo do giallo consiste em cinismo, ganância, depravação sexual e violência”, descreve Bondanella, “todos, incluindo o assassino, têm algo a esconder. Praticamente todos estes filmes contêm provas de que o comportamento humano assenta em bases irracionais e assustadoras”.

Non si sevizia un paperino (1972) de Lucio Fulci.
Non si sevizia un paperino (1972) de Lucio Fulci.

Foram Bava e Argento que moldaram o subgénero, incluindo a vestimenta do assassino, composta por chapéu, gabardina e luvas, tudo negro. Outro traço constante é o p.o.v, (point of view) cenas filmadas do ponto de vista do criminoso, sendo os assassínios fotografados e filmados de forma espetacular. Peter Bondanella assinala que “os críticos não apreciaram estas obras, visto que o enredo de algumas, pouco sentido fazia, uma lacuna compensada pelo visual dramático e a música, o design e até a montagem. São também comuns as pistas enganosas na narrativa, confundindo o espectador, deixando-o frustrado, no final, por não ter solucionado o enigma”.

Dario Argento viria a completar a “trilogia animal” com O Gato das Sete Vidas (Il gatto a nove code) e Quatro Moscas de Veludo (4 mosche di velluto grigio), ambos de 1971. Este último foi lançado em DVD, há poucos anos, por uma obscura editora alemã, depois de circular durante décadas em cópias piratas. O filme conta com a participação da bela “scream-queen” Mimsy Farmer, que participaria noutros gialli. Ennio Morricone compôs, não só as bandas sonoras da trilogia, como a de inúmeras obras, desenvolvendo outra marca dos gialli: A sonoridade inventiva.

As produtoras italianas, francesas e espanholas apostaram forte nos gialli. Surgiram realizadores vindos de outros quadrantes, que compreenderam o giallo, realizando trabalhos que ultrapassaram as expectativas e revelaram talentos desaproveitados.

O PERFUME DE MIMSY FARMER

O Perfume da Senhora de Negro (Il profumo della signora in nero), de Francesco Barilli, realizado em 1974, é uma “tour de force” para Mimsy Farmer, que começou a carreira nos EUA e acabou por se consagrar no cinema italiano e europeu. Foi a ninfa de More, de Barbet Schroeder, com música dos Pink Floyd, especializando-se em papéis de mulheres psicologicamente desequilibradas.

Mimsy Farmer.
Mimsy Farmer.

Lucio Fulci dar-lhe-ia um dos seus últimos grandes papéis em Gatto Nero (1981). O talento de Mimsy Farmer, atriz subestimada, pode ser apreciado no excelente O Perfume da Senhora de Negro. Interpreta uma cientista vítima de estranhas alucinações que têm origem num trauma infantil, o suicídio da mãe. Este filme de terror psicológico, influenciado por Aquele Inverno em Veneza (Don’t Look Now) de Nicolas Roeg, influenciou, por sua vez, o trabalho de Dario Argento, numa fase em que o giallo já era um fenómeno de proporções mundiais.

Mas há outras atrizes mais associadas ao giallo: A espanhola Nieves Navarro, a.k.a Susan Scott, a brasileira Florinda Bolkan, a sueca Anita Strindberg, a checa Barbara Bouchet e, talvez mais do que qualquer outra, a beldade argelina Edwige Fenech, cujas cenas de nudez ficariam na memória de muitos espectadores.

Um pormenor curioso para os fãs do giallo (algo que também sucede no euro-crime) é a constante aparição da garrafa de J&B, que deixou muitos críticos incrédulos. Bondanella explica que, na década de 70, o whisky (ao contrário de outras bebidas), “era visto como chique e internacional em Itália, o que corresponde ao tipo de público que o giallo procurava”. Apesar de soar plausível, suspeito que a constante aparição da garrafa verde de logotipo amarelo e vermelho terá sido, quem sabe, uma manobra publicitária excessiva.

GIALLO NAS MÃOS DE FULCI

Florinda Bolkan, que protagonizou dois gialli de Fulci.
Florinda Bolkan, que protagonizou dois gialli de Fulci.

Una lucertola con la pelle di donna, realizado em 1971 por Lucio Fulci, é outro exemplo do conhecimento que o cineasta possuía da perversidade da alma humana e das suas tendências mais obscuras. Nesta obra-prima, Florinda Bolkan junta-se ao célebre Stanley Baker e a Jean Sorel, num cenário psicológico que desafia o melhor dos detetives amadores.

De acordo com Bondanella, “Fulci disseca impiedosamente o mundo corrupto da aristocracia inglesa, a zona cara de Belgravia e as fascinantes mansões no campo, um mundo disfuncional que esconde vícios secretos. A obra usa brilhantemente as sequências de sonho e joga habilmente com um enredo complicado mas intrigante”. O modo como Fulci filma a hippy lançadora de facas, molhadas previamente em tinta (a atriz Penny Brown), vale o “preço do bilhete”.

Dario Argento era já considerado um génio, ao passo que Fulci era encarado, imerecidamente, como um realizador a contrato. No ano seguinte, Fulci regressou com Non si sevizia un paperino, que, além de ser uma obra-prima do cinema, é um incisivo ataque aos preconceitos e também uma resposta à crueldade da sociedade, sendo proibido, na época, pelo Vaticano. “A obra mostra Fulci como criador original de uma atmosfera totalmente diversa, numa abordagem ainda mais perturbadora a um serial-killer”, na opinião de Peter Bondanella.

A hippy lançadora de facas: Penny Brown em Serpente com Pele de Mulher (1971).
A hippy lançadora de facas: Penny Brown em Serpente com Pele de Mulher (1971).
Tomas Milian e Barbara Bouchet em Non si sevizia un paperino.
Tomas Milian e Barbara Bouchet em Non si sevizia un paperino.

Hoje em dia, é perfeitamente atual, um filme imperdível, com a musa de Lucio Fulci, a bela Florinda Bolkan, se bem que Barbara Bouchet não lhe fique atrás. Tomas Milian é o jornalista que, com a ajuda de Bouchet, procura resolver uma série de assassínios de crianças ocorridos numa aldeia imaginária do sul da Itália, Accendura, dominada pela superstição e por uma religião opressiva. (Na verdade, o filme foi rodado em Monte Sant’Angelo em Puglia, a região mais a leste de Itália.) Fulci ficou com a carreira comprometida durante vários anos após ter realizado a obra. Inclui elementos de gore agressivos para a época, entre os quais um espancamento brutal com uma corrente. Como curiosidade, refira-se que o combate entre Marc Porel e Tomas Milian, por motivos de rivalidade profissional, passou para o plano da realidade.

OUTROS MESTRES

Giancarlo Giannini em La tarantola dal ventre nero (1971), um dos melhores desempenhos de um ator num giallo.
Giancarlo Giannini em La tarantola dal ventre nero (1971), um dos melhores desempenhos de um ator num giallo.

Luciano Ercoli foi um dos primeiros a seguir os passos de Argento, realizando três filmes em três anos, le foto proibite di una signora per bene (1970), La morte cammina com i tacchi alti e La morte accarezza a mezzanotte. Susan Scott, que participa nos três filmes, casou com Ercoli, pouco antes deste herdar uma fortuna. Ercoli centra-se mais no potencial erótico das histórias, embora filme com elegância e sofisticação. Na última destas três obras, contou com os argumentistas Sergio Corbucci e Ernesto Gastaldi e, no primeiro, com a belíssima atriz Dagmar Lassander.

O Ventre Negro da Aranha (La tarantola dal ventre nero), de Paolo Cavara, é mais um filme indispensável. O reputado Giancarlo Giannini foi um dos melhores atores a integrar o elenco de um giallo. Interpreta um inspetor absorvido por uma série de crimes em que as vítimas são paralisadas e estripadas da mesma forma que a tarântula é morta pela vespa.

Além da banda sonora de Morricone, este giallo de 1971 conta com a presença de três Bond Girls: Claudine Auger, Barbara Bouchet e Barbara Bach.

Enquanto entrevista um entomologista para obter mais informações sobre a vespa, Giannini apercebe-se que o especialista trafica cocaína, trazendo-a para o país disfarçada de areia branca dentro das jaulas dos insetos. E prende-o! Esta cena inesperada contribui para o conceito de que todos nós temos pequenos segredos, presente no giallo.

Edwige Fenech: Sempre muito requisitada para os gialli. (Vá-se lá saber porquê...)
Edwige Fenech: Sempre muito requisitada para os gialli. (Vá-se lá saber porquê…)

Se bem que ache a maioria das suas obras inferiores ao trabalho de outros cineastas, Sergio Martino é mais um nome incontornável. O sucesso dos seus gialli é inegável. Lo strano vizio della Signora Wardh, La coda dello scorpione (ambos de 1971), Tutti i colori del buio e um dos títulos mais mirabolantes do género: Tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave. (Em português, “o teu vício é um quarto fechado e só eu tenho a chave”.) Para esta obra, Nora Orlandi compôs o belo tema «Dies Irae», utilizado por Quentin Tarantino para a sua personagem de ‘Budd’ (Michael Madsen) em Kill Bill 2 (2004), o que Bondanella diz, e com razão, ser “apenas uma das muitas referências aos subgéneros do cinema italiano presentes no seu trabalho”.

Em 1973, Martino realizou também o excelente Torso (I corpi presentano tracce di violenza carnale), que influenciaria o género slasher americano. Torso gerou alguma controvérsia, já que, além de uma dose extra de violência e lesbianismo, os ferimentos são realistas, longe do ketchup que assola diversas obras do período. Refira-se que o sangue claramente falso agracia também superproduções americanas dos anos 60 e 70.

Outra obra de exceção é um filme de Pupi Avati, La casa dalle finestre che ridono (A Casa das Janelas que Riem, traduzido à letra) de 1976. A meio da década de 70, os títulos bizarros já se tinham tornado num traço típico. O curioso é que existe, de facto, uma casa com grandes grafitis pintados nas janelas, dando a ilusão sinistra de que se riem. Há também espaço para uma história de amor e para uma fotografia excecional. Trata-se da história de um restaurador de quadros, contratado para reconstituir um fresco sobre São Sebastião, da autoria de um pintor obcecado por rostos em agonia, e que acaba por entrar numa realidade de pesadelo. O filme aposta num visual assustador e, por vezes, contido ao ponto da angústia, contraste exemplarmente explorado.

A casa verdadeira de La casa dalle finestre che ridono (1976), excelente giallo de Pupi Avati.
A casa verdadeira de La casa dalle finestre che ridono (1976), excelente giallo de Pupi Avati.

La corta notte delle bambole di vetro (A Breve Noite das Bonecas de Vidro) de Aldo Lado, é outro excelente giallo de 1971. Um repórter americano em Praga procura a namorada que desapareceu misteriosamente, vendo-se envolvido numa enigmática seita secreta que se dedica a orgias e assassínios. Lado realizaria também Chi l’ha vista morire? (1972). Ennio Morricone continuava a ser o compositor de serviço, progredindo cada vez mais na interpretação de sonoridades psicopáticas.

Em O Que Fizeram a Solange? (Cosa avete fatto a Solange?) de Massimo Dallamano (1972), várias raparigas são assassinadas num colégio, e a polícia suspeita de um professor que mantém uma relação com uma aluna. O professor tenta provar a sua inocência, mas, para os conhecedores do giallo, isso não quer dizer nada… A extraordinária banda sonora é, mais uma vez, de Morricone, que não tinha mãos a medir.

PROFONDO ROSSO REVISITADO

A supremacia do compositor, nos gialli, viria a ser desafiada por um grupo, os Goblin, que Dario Argento descobriu e a quem propôs que compusesse a banda sonora de O Mistério da Casa Assombrada (Profondo Rosso). Realce-se aqui a infelicidade de alguns títulos portugueses. “Vermelho-escuro”, tornou-se em algo que lembra uma aventura d’«Os Cinco». É o mais popular dos gialli, uma obra-prima do cinema e, porventura, o ponto mais alto da arte de Dario Argento.

David Hemmings em Profondo Rosso. Frequentemente considerado o melhor giallo de sempre.
David Hemmings em Profondo Rosso. Frequentemente considerado o melhor giallo de sempre.

É incrível que a magia de O Mistério da Casa Assombrada (Profondo Rosso) esteja a 37 anos de distância. David Hemmings é um pianista de jazz que testemunha o assassinato de uma famosa parapsicóloga. Alia-se a uma jornalista (Daria Nicolodi) para descobrir o criminoso, envolvendo-se na trama de um dramático segredo. Filme sobre a dificuldade de comunicação, traumas infantis e sobre o raciocínio retorcido de um psicopata, Profondo Rosso é também estranhamente verosímil, opera a nível cinematográfico e no consciente e subconsciente do espectador.

Argento e Bernardino Zapponi – nomeado para um Óscar pelo seu trabalho com Fellini (cineasta com quem trabalhou em Toby Dammit, Fellini Satyricon, Casanova e Roma) – elaboraram um argumento que utilizou todos os clichés do terror, dando-lhes uma reviravolta. Outro elemento essencial foi a banda sonora dos Goblin (todos formados pelo conservatório). Argento achava que a música é 40 % de um filme. O realizador escolheu David Hemmings, o protagonista de Blow-Up de Antonioni, filme em que este também procura solucionar um crime através de uma pista visual.

A casa sinistra de Profondo Rosso. Também ela existe.
A casa sinistra de Profondo Rosso. Também ela existe.

Para Peter Bondanella, “a arquitetura também desempenha um papel importante no filme, bem como os invulgares ângulos de câmara de Argento. No centro de Roma, entre a Piazza Navona e o Panteão, Argento construiu um cenário que copia o famoso quadro de Edward Hopper, Nighthawks. Trata-se do Blue Bar, onde Hemmings toca”.

O "Blue Bar", construído à semelhança do quadro Nighthawks de Edward Hopper.
O “Blue Bar”, construído à semelhança do quadro Nighthawks de Edward Hopper.

Mas outro cenário, este real, foi a sinistra mansão abandonada. A casa chama-se Villa Scott e situa-se em Vanchiglia, Turim:

Zapponi explica: “Tudo o que se relaciona com a infância é assustador. A cantiga infantil… por exemplo, poucos de nós sabem o que é ser alvejado, mas todos já nos queimámos em água a escaldar. Utilizámos sensações que as pessoas conhecem. E os elevadores são outro exemplo típico do filme de terror. Os ascensores antigos, em Itália, tinham dois botões; um para chamar e outro para o reenvio”, esclarece Zapponi, explicando o desfecho do filme.

“O Dario veio a minha casa para trabalharmos no argumento e ficou fascinado pelo elevador. Apresentei-lhe Daria Nicolodi como escolha potencial para protagonista, e, algum tempo depois, ele telefonou-me, dizendo: “Não só encontrei a atriz para o meu filme, como também encontrei “la mia ragazza!” (a minha namorada!) E o crédito é meu…”, graceja Zapponi.

EPÍLOGO

Os mestres do giallo têm uma perceção clara do psicopata. O intuitivo Argento mostra em imagens as mentes distorcidas. Caracterizado como um comportamento imoral e anti-social crónico, a psicopatia é o desvio de personalidade mais estudado, e frequentemente confundido com outros distúrbios correlacionados. Para título, escolhi «A Máscara da Sanidade», tradução literal de The Mask of Sanity de Hervey Cleckley, publicado em 1941 e ainda hoje considerado um trabalho pioneiro no estudo da psicopatia.

David Furtado

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