John Cassavetes por Peter Falk: A comédia dramática de dois amigos

Husbands (Maridos), em 1970, foi a primeira de seis colaborações entre o ator e o cineasta, se não contarmos com o episódio de Columbo, «Étude in Black» (1972), no qual Cassavetes interpreta o vilão. Entre ambos, estabeleceu-se uma relação de grande amizade nos bastidores, que perduraria até à morte do ator/realizador em 1989. Aqui, Peter recorda como se conheceram, o que admirava em John, como trabalhavam, e assinala também a enorme admiração que tinha por Cassavetes. Chamam-lhe o “pai do cinema independente”, “um dos pioneiros do cinema verité americano”. Peter Bogdanovich apelidou-o de “maior e espantoso realizador maverick americano desde Orson Welles”. Martin Scorsese, Pedro Almodóvar, Olivier Assayas ou Samuel Fuller são alguns dos cineastas que admiram aquele que é “discutivelmente, o maior realizador americano dos últimos 50 anos”, nas palavras de um estudioso da sua obra, Tom Charity. No caso de John Cassavetes e Peter Falk, tudo começou num jogo de basquetebol.

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John e eu estávamos num jogo dos Lakers, e John envolveu-se numa discussão com um tipo sentado sete filas à nossa frente. Eles discutiam mesmo a sério, trocando comentários – a multidão seguia agora a troca de palavras entre ambos, quando o tipo lá à frente se virou, de súbito, apontou para John e disse, “faz-me um favor – vai-te f***r”. John ripostou logo, “levanta-te e diz isso”. O tipo levantou-se, tinha 1,90m, olhou de cima para baixo para John e disse, “vai-te f***r”. John, o eterno realizador, retorquiu, “agora senta-te e diz isso”. A multidão desatou a rir, eu também, e até o tipo de 1,90m sorriu quando se começava a sentar.

A primeira vez que falei com John foi num jogo entre os Knicks e os Lakers. No intervalo, estávamos na fila dos cachorros-quentes e falámos de basquetebol durante uns três minutos, recebemos os cachorros e foi só.

A segunda vez, foi por causa de Mikey and Nicky. Era um argumento de Elaine May que me deixara entusiasmadíssimo. Eu ia representar ‘Mikey’ e, tanto Elaine como eu, achámos que John daria um sensacional ‘Nicky’.

Mikey and Nicky.
Mikey and Nicky.

Telefonei a John. Encontrámo-nos para almoçar nos Estúdios da Paramount. Disse-lhe que Elaine escrevera e realizaria o script, comigo a representar ‘Mikey’. Ambos o queríamos para ‘Nicky’. Comecei a contar-lhe, de modo muito resumido, em que consistiam os personagens, que se conheciam desde miúdos. Agora que estavam nos 40, eram ambos marginais de pouca monta. Trabalhavam para um corretor de apostas que também alugava máquinas de pinball.

Neste ponto, John interrompeu-me. “Eu faço-o”, disse ele.

Fiquei especado a olhar para ele… obviamente irritado. Disse-lhe de chofre que, tanto Elaine como eu, levávamos a sério este projeto. Significava muito para nós.

John respondeu, num tom sério, “eu disse que o fazia. Que mais queres?”

“Quero que faças algumas perguntas inteligentes”, disse eu.

Era só aquilo que John precisava de ouvir. Levantou voo. E que performance. Ele tinha uma voz forte. As pessoas nas outras mesas ouviam-no. “Achas que estou como tu… preocupado?! Ansioso? Será que vai ser um êxito? Será que os críticos vão gostar?! O meu papel é bom? O teu é melhor?” Dois minutos nisto, uma pausa e o final: “Elaine escreveu-o e tu vais entrar nele. É tudo o que preciso de saber.” E sentou-se.

Demorei um minuto a recompor-me, mas percebi que estava errado. Ele falava a sério. Ele assinou o contrato. Concordou em interpretar ‘Nicky’. Era o que eu queria. Eu estava errado mas fiquei feliz. O almoço foi agradável, rimo-nos um pouco e já estávamos à espera do café quando John disse: “Vou fazer um filme. Eu vou entrar nele e também quero Ben Gazzara. É sobre uns tipos de Long Island. Vão e vêm todos os dias, de e para Manhattan. São casados… são maridos. São três. Quero que sejas um deles. O que achas?”

Fiquei ali sentado… a abanar a cabeça e a sorrir… até me devo ter rido. Olhei para John com um sorriso irónico… aquele homem era qualquer coisa… armou-me bem a ratoeira. “Serei um dos maridos”, disse eu, estendendo a mão direita. Ele disse, “eu serei ‘Nicky’” e apertámos as mãos.

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NO SET DE JOHN

As pessoas querem saber como se fazia um filme de John Cassavetes. Quais as diferenças. Número 1: O local de trabalho nos filmes de John era mais descontraído. O set, o cenário, quero dizer, era menos formal e menos estruturado.

Num grande filme de Hollywood, há uma demarcação muito firme entre a preparação – ter tudo pronto – e as filmagens propriamente ditas. Mesmo antes de filmarmos, há quatro assistentes de realização, mais os seus assistentes, gritando, “silêncio no set”. Estes gritos continuam até ao ponto em que poderíamos ouvir um alfinete cair. Silêncio total. E só então o realizador, com a sua voz majestosa, diz: “Luzes, câmara, AÇÃO!”

Nos filmes de John, muitas vezes, a câmara filmava e eu nem sequer sabia. Talvez ouvisse John dizer, “não te quero apressar, Peter, mas já estamos a filmar há algum tempo”. Isso fazia-me rir. Eu dizia que havia muito barulho. Ele respondia, “começa apenas, eu calo-os”.

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Por acaso, isto é uma coisa que eu talvez tenha aprendido nos filmes de John… represento muito melhor se me rir a valer, mesmo antes de o realizador gritar, “ação”. E não faz diferença se é uma cena leve e divertida ou uma sombria e trágica. O importante é que me sinto solto e disponível. O que significa “disponível”? Estou totalmente livre para que me afete uma e só uma coisa – o que o outro ator está a fazer ou a dizer. Não tenho ideias pré-concebidas – nenhumas. Se me rio, não me recordo de quaisquer outras intuições prévias. Graças a Deus. Não estou preparado para fazer determinada expressão ou em colocar a voz. Estou solto por completo, excluindo tudo o resto, disponível apenas para ouvir e ver o outro ator.

Não me interpretem mal. Não era assim que me sentia quando começámos o trabalho no filme.

Trabalhar num filme de Cassavetes foi uma experiência totalmente nova. Ninguém fazia filmes como John. Para mim e provavelmente para Benny [Ben Gazzara], tudo aquilo era novo e diferente. Nem sempre percebia qual o nosso rumo e, com frequência, não sabia bem donde tínhamos partido, mas era sempre empolgante, sempre vivo. Podia ser enfurecedor, mas nunca banal. No final, deu origem à variedade e à espontaneidade que contribuíram para que fosse um filme fantástico.

A primeira vez que trabalharam juntos: Husbands (1970).
A primeira vez que trabalharam juntos: Husbands (1970).

SONHADOR E HOMEM DE AÇÃO

John era muito astuto em questões monetárias. Sabia que o dinheiro não valia nada. Servia apenas um propósito – ajudar a encontrar um bocado de filme ou um palco para que ele pudesse captar a vida, tal como ele a via.

John tinha uma visão. Não receava, em nome da sua obsessão, fazer figura de tolo. E, se tal como alguém disse, “o homem é Deus em ruínas”, John via as ruínas, e via-as com uma clareza que o resto de nós acharia insuportável. Mas ele era atraído pela parte de Deus, a necessidade que o homem tem de amor, e andava sempre em busca de uma história que expressasse a estupidez, as fraquezas, os pontos fracos que se intrometem nessa necessidade.

No episódio de Columbo Étude in Black (1972).
No episódio de Columbo, «Étude in Black» (1972).

As pessoas extraordinárias olham para qualquer coisa e veem três coisas, uma pessoa mediana vê apenas uma. John conseguia ver 10 e, de algum modo, era capaz de as unir todas. Reunia em si mesmo, sob um único telhado, todas as contradições. Era um homem de ação, mas também um sonhador. Fervilhava com sentimento, era emocional, mas extremamente inteligente. Há revolucionários que querem deitar qualquer coisa abaixo e fazer algo de inédito. E também temos os conservadores, os que veem a sabedoria no passado. John via ambas. Era ambas. Um homem complexo – possuía antenas como Proust, mas era um competidor como Vince Lombardi [o primeiro treinador campeão do Super Bowl]. Era um animal feroz, mas, ao mesmo tempo, a família ocupava um lugar central no seu universo. Há alturas em que é fácil sermos pessimistas. Mas, se a “tribo” consegue originar alguém como John, ainda há esperança.

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John faleceu em 1989. Tenho sorte, porque, quando for a minha vez de conhecer o meu Criador, John já estabeleceu o standard – basta seguir-lhe o exemplo –, ninguém lidou melhor com a perspetiva da morte.

Devo dizer que John e eu frequentámos o liceu nos anos 40, e a maioria das estrelas masculinas dessa época – Clark Gable, Spencer Tracy, Tyrone Power, Eddie Robinson – já conheceram o seu Criador e estão no Céu.

Seja como for, estávamos agora no final dos anos 80, e eu sabia que John estava doente, mas não com que gravidade. Admito que nunca enfrentei essa questão de modo frontal. Para mim, nada de realmente mau lhe podia acontecer – ele era indestrutível. Talvez John soubesse que não era, e talvez achasse que era altura de por os pontos nos ii.

Por isso, estávamos ao telefone, e John diz-me, “soube que estás a fazer o…” (blá, blá, blá), mencionou qualquer trabalho. “Parabéns.” Fiquei espantado por ele saber disto, porque, só nessa manhã, eu próprio o soubera. 

– Como sabes! És o quê, um bruxo? Só soube esta manhã.
– O Tyrone Power contou-me.

COSMO

Por vezes, eu ando abstraído sobre o que sucede em meu redor, parte de mim está na Lua. Além disso, em termos de saúde, tive sorte – nunca fico doente, por isso não encaro de modo fiel a realidade de que coisas más podem acontecer. E talvez, mesmo só talvez, tenha sido por isso que John optou por me contar a história do seu cão, Cosmo, um pastor alemão.

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Estávamos de novo ao telefone, alguns meses após a história do Tyrone Power, e o estado de John, especialmente no que tocava a subir encostas íngremes e degraus, nunca fora pior. Movia-se muito devagar. Infelizmente, a casa de John ficava no topo de um caminho bastante inclinado, que serpenteava até à rua e à caixa do correio, cá em baixo.

E, durante 11 anos, sempre que ele descia para ir buscar o jornal da manhã, Cosmo acompanhava-o, liderando o caminho à descida e também na subida por aquela colina íngreme. Este cão, e o que ele fez, foi o motivo pelo qual John me telefonou.

Começou por me dizer o quanto Cosmo era dedicado. Disse-me que, quando tinham ido buscar o jornal, essa manhã, Cosmo decidiu não caminhar à frente dele. Para John, era embaraçoso, ter de se mover tão devagar e Cosmo sabia-o. Tendo em consideração os sentimentos de John, em vez de ir à frente, recordando constantemente a John a lentidão com que se movia, Cosmo deixou-se ficar para trás, longe da vista, caminhando atrás dos calcanhares de John, que apreciou isso e me disse:

“Ele mostrou muita consideração. É um cão invulgar. E, quando chegámos ao cimo do caminho, sabes o que ele fez? Foi lá para o fundo, para o extremo da nossa propriedade e, quando finalmente lá chegou, vomitou e morreu. Peter, achas que ele me estava a tentar dizer alguma coisa?”

David Furtado

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