O Bom, o Mau e o Vilão: O Bom, o Mau e o “Leão”

Os primeiros dois filmes da trilogia estabeleceram a reputação de Sergio Leone, e os mercados internacionais estavam recetivos ao seu trabalho, especialmente o americano. O cineasta referiu que houve uma progressão ao longo das três obras. “Já não me sentia pressionado no sentido de oferecer ao público uma obra diferente. Agora, podia fazer exatamente o filme que pretendia.”

Eli Wallach e Clint Eastwood.
Eli Wallach e Clint Eastwood.

(Continuação do artigo anterior.)

Foi ao analisar Por Mais Alguns Dólares e o antagonismo entre as personagens de Lee Van Cleef e Clint Eastwood, que ocorreu a Leone a ideia para o terceiro: “Sempre achei que os termos o ‘bom’, o ‘mau’ e o ‘violento’ não existem num sentido absoluto. Pareceu-me interessante desmistificar estes adjetivos no contexto de um western. Um assassino pode demonstrar um sublime altruísmo, ao passo que um homem bom pode matar com total indiferença. Uma pessoa pode parecer vil, mas, quando a conhecemos melhor, pode ter mais valor do que aparenta e ser capaz de ternura.”

Leone tinha uma antiga canção romana na cabeça quando idealizou o filme: “Morreu um cardeal/Que fez coisas boas e más/O mau, ele fez bem/e o bem, ele fez mal.” Foi neste conceito de moralidade que se baseou.

Tal como disse Hemingway, a moralidade baseia-se no facto de nos sentirmos bem ou mal depois de fazermos algo. Cada cabeça, sua sentença. E o Mau deste filme chama-se justamente ‘Sentenza’, na versão italiana.

O coargumentista Luciano Vincenzoni sugeriu então o título, Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, (traduzido à letra, o Bom, o Feio e o Mau) denominação que Leone adorou. Ambos decidiram que a história se passaria durante a Guerra Civil Americana, girando à volta de três patifes em busca de um tesouro, dispostos a espetar facas nas costas uns dos outros para o conquistar. Outra das intenções do cineasta era demonstrar o absurdo da guerra: “A Guerra Civil com que as personagens se deparam é inútil, estúpida; não assenta numa boa causa.”

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O filme mostra um campo de prisioneiros no Norte, e Leone admite que é uma referência aos campos de concentração nazis. “Li algures que 120 mil pessoas morreram em campos do Sul, como Andersonville, mas sei que também os havia no Norte. Ouvimos sempre falar do comportamento vergonhoso dos perdedores, mas nunca dos vencedores. (…) A Guerra Civil Americana é quase um tabu, já que é insana e inacreditável. Mas a verdadeira História dos Estados Unidos alicerçou-se numa violência que nem a literatura nem o cinema mostraram devidamente.”

HUMANIDADE HEREGE

As filmagens de O Bom, o Mau e o Vilão decorreram durante 13 semanas, em Roma, Tabernas, no deserto de Almeria, Guadix, Madrid e Burgos. Leone encontrou Orson Welles num restaurante de Burgos, e o realizador americano disse-lhe que um filme versando tal tema era “veneno para as bilheteiras”. Desta forma, a obra de Leone é quase herege: Não há bases morais, a Guerra Civil decorre em pano de fundo e oferece um cenário às aventuras surreais dos protagonistas que apenas querem o ouro.

Eastwood, Leone e Wallach.
Eastwood, Leone e Wallach.

Leone crescera em Itália durante o fascismo e, ainda por cima, este “estudo da imbecilidade humana e da brutalidade” (como Leone o descrevia) foi filmado em Espanha, com os auspícios do regime de Franco e o auxílio técnico do exército espanhol. Isto surpreendeu o público de um seminário do American Film Institute, em que Clint Eastwood foi orador.

clint eastwood (4)“Em Espanha”, explicou o ator, “eles não querem saber. Interessava-lhes se fosse sobre Espanha e sobre os espanhóis. Mas, já que o filme se passava na América, não lhes importava”.

O orçamento de 1,3 milhões de dólares permitiu um grande cuidado com o realismo em pormenores como o armamento, parte dele emprestado pelo Museo del Ejercito em Madrid. A famosa bateria Rodgers foi construída com base em fotos da época. Com tantos meios ao dispor, Leone pareceu seguir o velho adágio de Orson Welles acerca de um realizador: “É como termos o nosso comboio em miniatura.” Mas foi em tamanho real que se construiu uma ponte de 180 metros, em madeira de balsa, com o responsável pelos efeitos especiais a dinamitá-la antes que as câmaras estivessem a filmar.

A rodagem foi um pouco caótica. Numa das cenas, Eli Wallach estava em cima de um cavalo, de corda ao pescoço e mãos atadas, prestes a ser enforcado. Sugeriu a Leone que pusessem algodão nas orelhas do animal, para que este não se assustasse com o tiro que cortaria a corda. Segundo Wallach, era prática corrente nos westerns filmados na América, mas o realizador não ligou. “Mal o cavalo ouviu o tiro, desatou a fugir a toda a brida, comigo em cima!”, relembra o ator.

Noutra altura, pegou numa garrafa de limonada e ia bebendo ácido, por culpa de um “palerma de um elemento da equipa técnica”. Já para não falar do momento aterrador em que quase foi decapitado pelo estribo de um comboio.

Além do humor irónico de Leone, existem outras influências no filme, como a de Viagem ao Fim da Noite de Céline, o livro favorito do cineasta, que, apesar de não ser grande leitor, era uma pessoa bastante astuta.

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BAILADO DE MORTE

O enredo da ópera cinematográfica O Bom, o Mau e o Vilão desdobra-se em três personagens, o arlequim, o pícaro e o vilão, o que provocou o seguinte comentário de Clint Eastwood: “No primeiro filme, era só eu. No segundo, éramos dois. Agora, somos três. Vou acabar com um destacamento de cavalaria.” Eastwood, apesar de continuar a ser o Homem sem Nome, é aqui chamado de ‘Blondie’, o “lourinho”, o Bom. Lee Van Cleef, ‘Sentenza’, o ‘Olhos de Anjo’ é o Mau. E é mau como as cobras.

No entanto, perante os rostos de póquer de Eastwood e Van Cleef, quem rouba o filme é o Vilão, representado por Eli Wallach: ‘Tuco Benedicto Pacifico Juan Maria Ramirez’. Era um ator do Método, pelo que desaconselharam Leone a trabalhar com ele, mas o realizador ignorou a advertência.

'Tuco' (Eli Wallach).
‘Tuco’ (Eli Wallach).

Assim, ‘Tuco’ surge vestido com trapos mexicanos, bebe whisky como um desalmado, é católico, (embora nada tenha de praticante) fala de mais e é um simpático trapaceiro. Desentendeu-se com o irmão que é frade, o que muito o faz sofrer. Leone aborda estes conceitos de moralidade com mestria. Há uma dignidade em ‘Tuco’ que não é comum em gente traiçoeira e velhaca que nem a si própria se respeita. É-nos apresentado no início do filme, a saltar por um vidro com uma perna de carneiro numa das mãos e uma pistola na outra, depois de ter liquidado três bandidos que lhe interromperam o repasto. Insulta a personagem de Eastwood de modos criativos: “Sabes o que és, Blondie? És filho de mil pais, todos bastardos como tu! Hijo de una gran…”, uma tirada oportunamente interrompida pela famosa banda sonora de Ennio Morricone.

clint eastwood (5)O tema que o compositor criou ainda hoje é ouvido em todo o lado, de filmes publicitários a toques de telemóvel. A ideia foi criar “uivos de hiena”, explica Morricone. “Duas vozes masculinas cantam sobrepostas, uma grita ‘ah’ e outra ‘eh’, evocando a selvajaria do Oeste.” A edição de som, complexa e bizarra, inclui guitarras elétricas e sons naturais; o raspar de botas em cascalho ou o assobio do vento.

Particularmente genial é também a música na cena do duelo, em que Leone e Morricone parecem ter-se inspirado mutuamente, (como sempre acontecia). Decorre numa arena junto a um cemitério, reunindo os três protagonistas, e Morricone dá rédea solta à inspiração: Órgão de igreja, música estilo mariachi, coro, piano, caixa de música e castanholas, num autêntico bailado de morte com os característicos planos de Leone.

Vemos os olhos do Bom, (serenos, calculistas) do Mau (apreensivos e amedrontados) e do Vilão (nervoso e concentrado). Leone achava que os olhos dizem tudo. “Quis que o público achasse que assistia a um bailado”, com os “mortos a assistirem ao duelo”. Lee Van Cleef recapitula:

“De início, não percebi o que Leone queria. Filmou close-ups de todos nós, de planos esquisitos. Quando assisti ao resultado, apercebi-me de que era uma das cenas mais impressionantes que vi no cinema, já para não dizer que foi a cena mais fantástica em que estive envolvido.”

Morricone viria a demonstrar o seu talento em inúmeros filmes, alguns deles medíocres, como O Exorcista II: O Herege, ao qual ofereceu um tema-título excecional. Ao contrário do que Eastwood sugeriu, não houve O Bom, o Mau e o Vilão e o “destacamento de cavalaria”. Leone não gostou do facto de o ator ter exigido 250 mil dólares para entrar neste terceiro filme, além de 10 por cento dos lucros. Existia já uma certa inveja profissional entre Leone e Eastwood, muito por culpa das ambições de realizador que este já acalentava. Quando realizou Imperdoável, Eastwood não se esqueceu de Leone, dedicando-lhe o filme. (To Sergio and Don [Siegel].)

Estava terminada a trilogia, e Leone quis começar o seu filme seguinte com Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach, matando-os aos três na primeira cena, como forma de despedida a essa fase da sua carreira. Van Cleef e Wallach concordaram, mas Eastwood não. Comentário de Sergio Leone: “O homem não tem sentido de humor.”

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Aprigio Alves de Oliveira Filho diz:

    O estilo apresentado por Sergio Leone em seus filmes nunca foi igual ao de David Lean. São raros os big closes nos filmes do diretor Inglês. Leone é muito mais operístico e perfeccionista e em nenhum filme de Lean existe tanta música como nos do diretor italiano. As críticas de Eastwood mostra o quanto ele era pouco observador. Certas declarações do ator americano em entrevistas são feitas em tom de pilhéria, como que querendo reduzir os filmes de Leone a uma espécie de gostosa diversão que aconteceu lá na Europa em período de férias,denotando que tinha e talvez tenha ainda certa inveja do enorme talento de seu descobridor. Foi o maior acontecimento na vida dele ter sido escolhido para ser o ator principal da trilogia e deveria agradecer isso pelo resto da vida, pois com certeza- e eu seria capaz de apostar- em Hollywood ninguém daria uma oportunidade melhor a ele. Faria alguns filmes em papéis secundários e logo desapareceria. Ele é o que é hoje graças ao gênio Sergio Leone.

    1. Olhe, Aprigio, sem que ninguém nos ouça… estou de acordo. Se não fosse a trilogia dos dólares, provavelmente, hoje não haveria o Clint Eastwood que muitos idolatram ao ponto da cegueira. E, pelo que li sobre o assunto, havia invejas, sim. É certo que Imperdoável foi dedicado a Leone e Don Siegel, mas acredito mais nos factos que Patrick McGilligan referiu, quando teve a gentileza de me conceder uma longa entrevista. E aconselho também o seu livro.

      Na verdade, tais factos foram demasiado “pesados” para alguns fãs incondicionais de Clint, que seguiam este site e deixaram de o fazer. O que não me incomoda, mas revela bem a idolatria cega do mundo do cinema.

      Obrigado pelo seu comentário.

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