Dire Straits – Communiqué: O press release do jornalista enigmático

mark-knopfler-communique press photoPara a crítica, o segundo álbum dos Dire Straits foi um passo em falso. Melódico e mais abstrato, Communiqué é hoje um disco que os fãs não rejeitam – pelo contrário. Consistia nas observações de Mark Knopfler sobre o mundo que o rodeava, numa época turbulenta da sua vida, em que as atenções públicas provocaram nele um compreensível retraimento. A máquina dos Straits não podia parar. Tudo parecia suceder ao mesmo tempo, e o quarteto não virou costas ao desafio. Segue-se uma análise do teor do álbum, deste “comunicado oficial”, onde surge uma escritora na TV, passeios por Portobello, onde o vento noturno e indolente se lamuria em redor do Cutty Sark e ainda temos uma canção de amor feliz sob uma lua de Peter Pan.

Quando olhamos para um quadro de Van Gogh, pensamos que ele era um louco, um excêntrico a pintar o que lhe vinha à cabeça. Mas depois, quando visitamos o Museu Van Gogh e testemunhamos todo o alcance da sua obra, vemos como era talentoso, os numerosos estilos que dominava… um pouco como Mark.

David Knopfler

Embora Dire Straits tivesse sido um sucesso nos EUA e noutros países, o A&R da Phonogram John Stainze incentivou o grupo a gravar rapidamente a continuação. “Eu não sabia se ele [Mark] conseguia escrever mais canções, e depressa.” No início de 1978, a estratégia consistia em atuações como banda de suporte nalguns concertos europeus, uma digressão pelo Reino Unido e a gravação do segundo disco, antes do regresso aos EUA para nova tournée.

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Os Dire Straits começaram a aperceber-se rapidamente de que a máquina musical não dava tréguas. Jerry Wexler ia produzir o segundo disco, em dezembro de 1978, e a digressão americana começaria em fevereiro de 1979. Por isso, músicos, editora, manager e agentes não tiveram tempo para contemplações. “Estávamos a pôr a carroça à frente dos bois, não devido a mau planeamento, mas porque nos movíamos com rapidez”, diz Stainze, que referiu várias vezes a Mark Knopfler a citação de Elvis Costello: “Temos 15 anos para escrever o primeiro álbum, e 15 dias para escrever o segundo.”

Inquieto, John Stainze perguntava insistentemente a Mark se tinha canções suficientes, se chegavam para um segundo álbum. A resposta era sempre, “não te preocupes, está tudo OK”.

dire straits communique knopfler (11)Nesta época, o disco de estreia ainda não começara a vender em grandes quantidades, mas a ideia de Stainze era completar três álbuns em dois anos e chegar ao terceiro, o mais rápido possível. As dúvidas e a ansiedade de Stainze dissiparam-se quando ouviu as demos do segundo ciclo de canções: “Eram temas maravilhosos. Era nisso que eu apostava, era onde assentava toda a minha estratégia. Por vezes, o timing é lento em Inglaterra, e tínhamos de insistir até que as pessoas dissessem, ‘que grande banda!’”

Bob Dylan falava a sério quando disse que adorava a música de Mark e convidou-o para guitarrista no seu álbum Slow Train Coming, onde surge em destaque, bem como Pick Withers. Era um disco/acontecimento, depois de Bob se converter ao cristianismo, e a aprovação de alguém da estatura de Dylan foi importantíssima durante este período.

Os jornalistas escreviam bastante sobre o enigmático Mark Knopfler, agora com 29 anos, um homem que começava a ficar calvo e aparentava dedicar-se de corpo e alma ao trabalho, mas que, incompreensivelmente, era encarado como um sex symbol. A imprensa pesquisou o seu passado a fundo, vasculhando a sua vida em busca de pistas para as canções, o que o deixou tremendamente desconfortável.

Nos palcos, a persistência deu frutos. Em outubro de 1979, uma tournée europeia, projetada para englobar concertos em clubes, foi apressadamente reformulada devido à grande procura de bilhetes. Na Bélgica, um promotor mudou o local do concerto de um pub para uma sala maior e depois para uma tenda num campo, onde os Straits tocaram para 2.500 pessoas, numa cidade onde esperavam apenas 300. A digressão esgotou e, quando chegaram a Hamburgo e Berlim, John, Mark, David e Pick atuavam em salas com capacidade para 2.000 espectadores. As vendas na Austrália e na Nova Zelândia dispararam, tendo o primeiro álbum atingido o nº 1 do top em ambos os países, no Natal.

DESTINO: BAHAMAS

Knopfler e Illsley em Nassau, Bahamas.
Knopfler e Illsley em Nassau, Bahamas.

Em finais de novembro de 1978, os Dire Straits partiram para Nassau, nas Bahamas, para gravarem nos Compass Point Studios. (Por motivos fiscais, não o fizeram no Reino Unido.) Os músicos instalaram-se numa mansão luxuosa, de nome Capricorn, propriedade de um mecenas das artes milionário. Rodeados de pórticos gregos, com uma piscina à disposição, estátuas e porcelana chinesa, os músicos jantavam numa ostentosa sala, sendo as refeições supervisionadas por Jerry Wexler, que, fisicamente, se assemelhava a Ernest Hemingway e se sentava no extremo da mesa.

Ed Bicknell, o manager dos Straits, achava tudo aquilo muito estranho: “Ouvíamos as anedotas de Jerry, íamos tomar café e conhaque, tranquilamente ouvindo as gravações do dia. Ou então ficávamos a ouvir discos de Django Reinhardt, Blind Pegleg Loser ou coisa assim. Noutras alturas, passávamos o serão com Robert Palmer e a esposa, que lá viviam. Começámos a pedir emprestados os amplificadores de Robert, já que os do estúdio não valiam nada.”

As gravações começavam, a maioria das vezes, ao início da tarde, arrastando-se pela noite dentro. O experiente Wexler – figura lendária associada ao R&B e responsável por muitos êxitos, tendo trabalhado com Ben E. King, The Drifters, Ray Charles e Aretha Franklin – voluntariara-se como produtor. Wexler poderia ter ficado surpreendido pelo estilo vocal de Mark Knopfler, mas não foi o caso: Adorou as maquetes e a banda: “Vocês já fizeram o álbum”, disse-lhes, “agora só têm de gravar um remake”.

dire straits communique knopfler (2)Jerry Wexler não sabia como categorizar os Straits e não quis interferir no seu estilo. O álbum seria coproduzido por Barry Beckett, um teclista e excelente músico de estúdio que se encarregou do som, ao passo que Jerry era mais o organizador.

Entre todos os temas, só «Communiqué» foi composto em Nassau, no estúdio, durante uma tarde em que o engenheiro de som Jack Nuber se encontrava doente. Mark Knopfler tinha algum receio que Wexler quisesse adicionar metais ou outros instrumentos. “É uma questão de feeling”, comentou o guitarrista, “de compreender como funcionam os pick-ups, os tempos, as cadências. Ele era intuitivo quando algo não funcionava, e também se encarregou de gravar os vocais”. “Wexler era uma figura patriarcal”, recorda Ed Bicknell. “Recordo-me que adormeceu, certa vez, na sala de controlo.”

Os Straits encontraram a empatia do produtor, o que não sucedera com Muff Winwood no primeiro álbum. Wexler comentou: “Eles não enchem o som desnecessariamente. A música é sempre um equilíbrio entre o que se afirma e o que se deixa à imaginação, e a resposta reside no gosto pessoal. Esta banda é totalmente diferente de qualquer outra. Portanto, não interferi, e acho que Mark também não o permitiria.”

“Além do mais”, prossegue Wexler, “Mark não toca aquele estilo de guitarra aos berros, que depende meramente de voos sonoros. Ele improvisa melodiosamente, o que, para mim, define um grande músico, em vez de apenas improvisar meramente dentro da estrutura dos acordes e orientar-se por harmonias.”

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Em Compass Point, durante as sessões, Mark Knopfler foi entrevistado por Ian Birch do Melody Maker e revelou alguns traços que estariam presentes nas canções que escreveria futuramente. O guitarrista confessou-se mais distanciado dos novos temas.

“Por vezes, quando ouço estas canções, acho que nada têm a ver comigo enquanto tipo. Por exemplo, «Follow Me Home» é muito importante por imensas razões. Sim, eu estava numa ilha, e sim, havia uma rapariga – mas não é muito diferente de outro turista qualquer, a dormir na praia, a subir até umas ruínas e a olhar para o mar, comendo carne e bebendo vinho. Mas a ideia vai para além disso, acabando por ser uma canção que não pertence realmente a quem a escreveu. Gosto de me sentir ‘divorciado’, nesse sentido, da canção.”

A VERDADEIRA ‘LADY WRITER’

Marina Warner, "lady writer on the TV..."
Marina Warner, “lady writer on the TV…”

As canções de Communiqué não são todas sobre Mark Knopfler, a temática é mais abstrata do que em Dire Straits. «News», por exemplo, não se baseia nos tempos em que Mark era repórter, como erroneamente se especulou, mas sim, num motociclista que faleceu num acidente de viação. A paixão de Mark por motorizadas já vem dessa altura. 

«Communiqué», essa sim, é, se assim podemos dizer, “a canção do jornalista”, e encontra-se repleta de termos da profissão, como “no comment”, “há rumores”, “especula-se muito”, “comunicado de imprensa”, “um artigo de fundo”. E é também sobre as reações de Mark ao ser entrevistado, uma referência à sua posição enquanto objeto noticioso importante. Foi composta do ponto de vista de um ex-jornalista. É um relato na terceira pessoa e é esse o personagem, “talvez ele pudesse falar dele mesmo”, “talvez pudesse falar do dinheiro que ganha”, “está incomunicável”… 

«Where Do You Think You’re Going» deixa o romance no ar, indefinido. «Lady Writer» é sobre uma aparição da prestigiada escritora Marina Warner na TV, e não podemos deixar de notar alguma semelhança física da autora com Holly Beth Vincent, com quem Mark já estaria envolvido por esta altura, ou prestes a envolver-se. (Situação relatada no artigo «Romeo and Juliet: A história da canção de Mark Knopfler».) Mas o assunto parece outro, já que é sobre um amor do passado, provavelmente a ex-mulher de Mark – o relacionamento com a misteriosa ‘Lady Writer’ não parece feliz, e encontramos uma certa hostilidade no tema. Pessoalmente, julgo que Knopfler já estaria atraído por Holly Vincent mas pressentia um mau desfecho. Desta especulação, passemos aos factos:

A própria Marina Warner comentou a canção, que começa com “Lady Writer on the TV, talking about the Virgin Mary” e prossegue com “she had all the brains and the beauty”. Numa entrevista à Time, em 1999, algo embaraçada, a escritora riu-se: “Acho que era eu.” O seu segundo livro Alone of All Her Sex, a study of the Virgin Mary, foi editado na mesma época. “Gostaria de reclamar uma distinção mais elevada em termos de cultura popular, mas acho que não posso”, comentou Warner com humor.

«Portobello Belle» é uma viagem pela conhecida zona londrina, e o ritmado «Single-Handed Sailor» é igualmente sobre Londres, de acordo com o próprio Knopfler, tendo sido composto nas redondezas do estúdio onde a banda ensaiava, em Greenwich, “numa noite em que o vento se lamuriava em redor do Cutty Sark”.

«Angel of Mercy» é a exceção à regra, uma canção de amor feliz, sobre um relacionamento divertido e sem angústias, acompanhado pela vocalização desprendida de Knopfler e apontamentos de guitarra notáveis.

O título Communiqué foi escolhido à revelia de Jerry Wexler, que preferia News – Em sua opinião, expressava melhor as circunstâncias em que foi gravado. Era um disco suave e langoroso. E também seria o mais controverso. Stainze achou as canções “tremendas” mas considera que, em Communiqué, os Straits jogaram demasiado pelo seguro. O A&R insiste que as demos são excelentes e que poderia ter sido o melhor álbum dos Straits se tivesse sido gravado seis ou nove meses depois, já após a tournée americana. “Mas o grupo achava que era o melhor que podia fazer, na altura. Foi muita coisa num curto espaço de tempo.”

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Acontece então um imprevisto: Os Dire Straits começam a digressão nos EUA, o primeiro álbum vende dois milhões, e a editora opta por adiar a edição do segundo até junho de 1979. Porém, o single «Lady Writer», que pretendia ser uma espécie de sequela de «Sultans of Swing» (a estrutura musical é semelhante), não foi um sucesso, atingindo apenas o 51º lugar da tabela de vendas britânica. Os Straits promoveram Communiqué em festivais com notoriedade – tocaram na Holanda com os The Police e Elvis Costello, na Bélgica com Rory Gallagher e, na Alemanha, com os Barclay James Harvest.

“COMUNICADOS” DE IMPRENSA

dire straits communique knopfler (22)Depois vieram as críticas da imprensa britânica, que, tal como sucedera com o primeiro disco, foram pouco amistosas. À distância de quase 34 anos, não deixam de revelar alguns preconceitos e pedantismo por parte de quem as escreveu, jornalistas mais preocupados em exibir a sua prosa do que em ouvir com atenção. 

“Um communiqué, pelo que sei, emitido por um palácio ou embaixada, diz muito pouco da forma mais elegante possível”, foi a opinião de Susan Hill no Melody Maker, a 9 de junho de 1979. “Tão elegante, tão encantador, na verdade, que mal nos apercebemos de que nada foi transmitido até que o lemos e relemos. E este LP emprega o mesmo truque esperto: Foi concebido de modo agradável e cuidadoso, cheio de atmosfera, mas pouco substancial. É um passo atrás em relação ao arrebatador álbum de estreia e, lamentavelmente, não há qualquer sinal de ‘Harry’ [Referência a «Sultans of Swing]. As histórias são subdesenvolvidas, sem o imaginário mordaz; é hesitante, a nível melódico e de letras e, por fim, uma repetição inferior do material já apresentado.”

Bela prosa. Infelizmente, foi esta a opinião generalizada na altura, em relação a Communiqué. Ao vivo, os críticos achavam o grupo mais enérgico e elogiavam o trabalho de Mark Knopfler, com frases, “ele toca de um modo tão doce e seguro em «News», que parece ter asas…”, disse poeticamente John Orme, também do Melody Maker. David Knopfler não escondeu a irritação:

“Apenas pegámos num monte de canções, fomos três semanas para um estúdio e gravámo-las. Só isso. O que fizemos não vai mudar a vida de ninguém – nem o pretende.” Nos bastidores, aumentava a tensão entre o quarteto. Pick Withers disse não confiar na aptidão de John Illsley e especialmente na de David Knopfler, argumentando que Mark se sairia melhor com outro guitarrista, o que provocou discussões amargas. 

A foto capta bem a postura de cada elemento do grupo, numa fase em que já surgiam conflitos.
A foto capta bem a postura de cada elemento do grupo, numa fase em que já surgiam conflitos.

BIZARRAMENTE ATRAENTE

Uma entrevistadora da Rolling Stone encontrou Mark à sua espera, estendido no quarto de hotel, “como um paciente aguardando o anestesista”. “Apesar da sua testa alta e casaco coçado, é um homem bizarramente atraente.” Daisann McLane reparou na relutância de Knopfler ao falar das suas canções:

“As pessoas pensam que as canções são sobre mim. Perguntam-se sobre o que são. Perguntam-me coisas sobre imagens, sobre água. Só a minha mãe nunca me perguntou sobre o que eram. Disse-me apenas, ‘ah, estavas a desabafar bastante, não foi?’”

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Mais importante do que a crítica, os fãs atentos: Um deles, David Shields, enviou uma carta ao Melody Maker, demolindo a opinião pretensiosa de Susan Hill: “A meu ver, é dada demasiada ênfase ao progresso musical por parte da imprensa especializada, que espera que um grupo mude totalmente de sonoridade de um dia para o outro. Communiqué, para mim, representa, não tanto um progresso, mas mais uma ‘tradução’ dos melhores aspetos dos Dire Straits, do poder cru e agressivo do primeiro álbum até uma atmosfera mais descontraída e acessível. Adoro os Dire Straits, pois eles restauraram a minha fé no bom gosto e na justiça, e provaram que não é preciso ser os Abba para ter sucesso.”

dire straits communique knopfler (21)FUGA À FORMULA

Não eram só os fãs. Também algumas vozes, entre a crítica musical, expressavam apreço genuíno pela banda. Richard Williams, a 23 de junho, comentou o concerto dos Dire Straits no Hammersmith Odeon londrino, sob o título «O Fim da Inocência»: 

“Tenha, ou não, sido essa a intenção de Mark Knopfler, «In the Gallery» é o tema mais significativo do reportório dos Dire Straits. Talvez – como ele alega – tenha sido escrito na terceira pessoa; no entanto, esta diatribe contra o que está na moda e o monopólio dos gostos nas artes (o que implica uma defesa do ‘realismo’) encontra um nítido eco na história de sucesso dos Dire Straits. Recusando-se a dobrar o joelho perante a moda, poderiam facilmente ter continuado na rua, inscrevendo os seus retratos realistas, aparentemente fora de moda, nas lajes do pavimento. Em vez disso, encontram-se, na verdadeira aceção da palavra, na galeria – no centro do mercado artístico.”

Williams assinalou ainda a “difícil transição efetuada, de uma banda de pubs a uma que toca em anfiteatros. Isto trai aquele encanto discreto dos primeiros dias do grupo, mas acaba por ser uma necessidade, no contexto do estrelato”. O jornalista lamentou que Mark não revelasse que uma das melhores canções da noite, «What’s the Matter Baby?» fora escrita em coautoria com “o seu irmão Dave”.

Numa crítica lúcida, o repórter apontou ainda a perícia dos outros três músicos e a sua “altruísta dedicação”.

“Mark Knopfler continua a ser o único guitarrista contemporâneo de rock a usar o instrumento como uma extensão da sua voz, ao estilo dos grandes músicos de blues. Tal como eles, Knopfler consegue dizer coisas que escapam à linguagem verbal com a sua guitarra.”

dire straits communique knopfler (10)Na semana seguinte, talvez devido a esta crítica, Williams entrevistou Mark, embora o timing tenha sido azarado: “Nessa mesma manhã, ele lera as críticas da imprensa musical britânica a Communiqué, e o tom delas, que variava entre a indiferença afetuosa e o insulto descuidado, tinham-no afetado notoriamente. Desconfiado, Mark pediu que a entrevista fosse publicada em formato pergunta-resposta, por achar que tinha sido sistematicamente incompreendido ou mal interpretado pelos jornalistas.

Mark Knopfler concordou que o seu estilo de vida mudara de forma drástica nos últimos 18 meses e também no lapso de tempo entre a altura em que compusera o primeiro álbum e o segundo. Insinuou que compor uma sequela do primeiro álbum equivaleria a render-se a uma fórmula.

Williams: O segundo disco é obviamente melhor produzido e tocado.
Knopfler: É diferente. O baixo e a bateria foram gravados doutro modo, e as faixas são mais sólidas, nesse sentido.
Williams: Em que medida isso interfere no conteúdo das canções, no que tentam transmitir?
Knopfler: Não considero isso de importância vital. Julgo que o conteúdo é muito mais importante do que passar imenso tempo a pensar na apresentação.

dire straits communique knopfler (6)Nesta época, Mark tentava controlar a forma como o grupo era promovido, desde anúncios a capas de álbuns. Coerente com a sua crítica, Williams disse-lhe que os Dire Straits eram um exemplo raro de como o gosto das pessoas comuns decide o que vende. O músico revelou que lhe foram impostas adaptações a novas mudanças devido ao sucesso, e que este nem sempre era fácil.

“A nível pessoal, é mais difícil telefonarmos aos amigos ou escrevermos cartas… Saímo-nos bem no que se refere a tocar o que queremos e a sermos quem queremos. Não gosto muito de falar sobre os outros tipos, mas julgo que temos uma identidade fortemente enraizada, tal como quando começámos, enquanto indivíduos, que é muito diversa daquilo que as pessoas julgam que somos. Tudo isso existe numa bolha enorme, acima das nossas cabeças ou seja onde for. É exterior a nós.”

“Sentimo-nos apenas um grupo de tipos normais. E, se outras pessoas nos querem tratar de forma diferente, é problema delas. Não achamos que seja nosso. Se um dos músicos pega num cigarro e surgem seis isqueiros, então meia dúzia de pessoas com isqueiros tem um problema. Foi traumático, de várias formas, esse tipo de situação… mas acaba por não ter grande importância.” 

O EPISÓDIO DA LAVANDARIA

Uma parte da entrevista tornou-se numa anedota no meio musical e jornalístico de Londres. A certa altura, Mark não escondeu a pressão de estar sobre o foco das atenções públicas. Tratou-se do “episódio da lavandaria” e mostrou bem o humor grotesco da classe jornalística britânica.

“Encaro estas constantes digressões intermináveis como uma dor de cabeça. É ótimo irmos tocar para pessoas em digressão, é maravilhoso. Eu adoro-o mesmo. Mas não podemos deixar de sentir que é um disparate completo. Achamos que talvez fosse mais proveitoso dedicar o nosso tempo a outras coisas… ir ao cinema, ler um livro.”

“No próximo ano, devemos trabalhar 10 ou 12 semanas e gravar um álbum, o resto do tempo será de folga. Vou apenas regressar à lavandaria. Quero dizer, fui hoje à lavandaria e adorei cada segundo. Foi a primeira vez que caminhei pela Deptford High Street e fui lavar a roupa num ano. Tenho sentido falta de muitas coisas comuns.”

“Mas agora tens escolha. Podes lavar a roupa ou não.”
“Mas eu gosto de lavar a roupa, eu gosto de ir às compras.”

A uma jornalista, Knopfler disse que o grupo não precisava de limusines. “Podemos conduzir nós próprios, de concerto para concerto, tal como fazemos. Não começámos o grupo por dinheiro, era apenas algo que sabíamos que tínhamos de fazer.” Ao The Guardian, o guitarrista confessou que tocar num grupo era o que sempre quisera fazer que havia uma faceta de “é agora ou nunca”, nisso. “Mas não foi nada de frenético ou desesperado.”

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O álbum de estreia era agora, nas palavras de Mark Knopfler, “tripla platina na Austrália, dupla platina na Nova Zelândia, surgiu no Top 10 japonês, na Grécia, na Escandinávia e, na Alemanha, Communiqué entrou diretamente para número um, ao passo que o primeiro se mantém no número três. É ridículo. E depois temos os States, é claro…” Esta coincidência do sucesso retardado de Dire Straits e da edição simultânea de Communiqué confundiu o público e prejudicou as vendas do segundo disco.

Mark defendeu que “o punk foi a melhor coisa que aconteceu na música desde que Elvis gravou as Sun Sessions”.

“O que mais me entusiasma é quando um pequeno grupo de pessoas se reúne simplesmente para tocar e sai algo de bom. As pessoas acham que fazemos ‘boa música’ mas há muitos músicos tecnicamente sábios que me deixam petrificado.”

E insistia no mesmo problema: “Andamos arrasados há meses, e trabalhamos tanto que parece que não pensamos como os outros. Mas agora, sempre que quero uma cerveja, seis pessoas vão a correr, procurar uma, e oponho-me a isso.”

Exaustos, os Dire Straits seguiam caminho, e a vida privada de Knopfler seria afetada pelo rompimento com Holly Beth Vincent. Parecia o preço irónico do sucesso. Os três últimos meses de 1979 seriam um pandemónio, e o grupo, por pouco, não se separou. Mas o sucesso não impediria Mark Knopfler de se comportar como um adulto.

David Furtado

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7 Comments Add yours

  1. Roberto Hubner diz:

    Conheci o Dire Straits ainda na epoca de “Sultan of swing”, eu tinha apenas 6 anos!:Amor a primeira audiçao!Mas os Straits evoluiram como tinham que evoluir,se fosse eu com uma banda,talvez eu tambem tenha feito mesmo na epoca em virtude do momento.Isso nao deixa de fazer do Dire Straits uma das melhores bandas do mundo.

  2. Angelo Mota diz:

    O Dire Straits sempre foi uma banda injustiçada liderada por um guitarrista injustiçado. Mark Knopfler é o melhor guitarrista que existe, as pessoas não conhecem sua obra durante e pós Straits, é um músico completo. Comecei a ouvir o Dire Straits no ginásio e ouço todos os dias, meus filhos ouvem e cantam suas canções. Agradeço por ter encontrado essas informações que me ajudam a compreender melhor cada canção e a ótica de MK.

    1. Olá, Angelo, e obrigado pelo comentário. Não acho que tenham sido “injustiçados”. Talvez por andarem contra a corrente e as modas tenham sido criticados, porque isso nunca é boa coisa… Knopfler é um músico completo, também acho. Muitas pessoas não conhecem ou não ligam aos discos a solo. É pena. Apesar de muitas pessoas não gostarem, acho que o lugar de Mark Knopfler na música é reconhecido quase unanimemente. Ainda bem que os seus filhos ouvem boa música…

  3. Glaubert diz:

    Mark Knopfler,um Gênio musical. Dire straits… não sei qual o melhor adjetivo a se usar para qualificar está banda, mas diria que MARAVILHOSA cai bem. sou um singelo conhecedor da obra de mark. sou grande fã desde a épica formação originaria, até os tempos áureos da ultima formação. mas queria aproveitar este espaço, visto que é frequentado por grandes conhecedores de MK para lançar uma curiosidade que tenho, por que MK nunca participou de nenhuma edição do evento organizado por Eric Clapton,o crossroads festival? se alguém souber ou tiver alguma opinião gostaria de saber. abraço a todos.

    1. Olá, Glaubert. Não faço ideia. Talvez dificuldades de agenda. Ele já tocou muitas vezes com Clapton, como sabe. Pelo que sei, dão-se bem. Abraço.

      1. Olá David, gostarias de entrar num grupo de fãs, no facebook? O grupo chama-se “The Best of Dire Straits & Mark Knopfler”. É sempre uma alegria encontrar verdadeiros fãs de Mark Knopfler 🙂
        Cumprimentos,

        Ancila Ladeiro

      2. Olá, Ancila. Muito obrigado pelo simpático convite. 🙂 Também fico contente por encontrar verdadeiros fãs de Mark Knopfler. O problema é que não tenho Facebook e o site também não. Senão aceitava, claro.
        Cumprimentos,
        David

Comentários:

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