Os gialli de Edwige Fenech: O vício é uma porta fechada e só ela tem a chave

Edwige Sfenek, atriz argelina, natural de Annaba, é para muitos a rainha do giallo e um dos maiores ícones do cinema italiano. Entre 1970 e 1975, protagonizou cinco filmes de mistério/terror/thriller, hoje incontornáveis. Não é exagero dizer que, se não fosse a sua presença e carisma, estas obras não teriam o mesmo impacto. Da genialidade de Mario Bava no pop art 5 Dolls for an August Moon a Strip Nude for Your Killer, passando pela parceria com os irmãos Luciano e Sergio Martino em The Strange Vice of Mrs. Wardh ou o psicadélico All the Colors of the Dark, são aqui abordados todos os gialli de Edwige Fenech, que (para espanto de muitos, não duvido) é, segundo dizem, a única atriz em Itália que qualquer pessoa abordada ao acaso na rua conhece ou de quem já ouviu falar.

edwige fenech 4 (1)Para esta popularidade, contribuíram os dotes físicos e a conhecida desenvoltura nas cenas de nudez, mas a escultural Fenech, nascida a 24 de dezembro de 1948, que conta com 80 créditos como atriz desde 1967, foi também uma intérprete versátil na comédia e no drama, ao longo de uma carreira com quase 50 anos. Este cinco filmes coincidiram com o seu lançamento enquanto sex symbol internacional, sendo ao mesmo tempo marcos do giallo.

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The Case of the Bloody Iris (1972).

Um papel secundário no banal produto de mentes enfermas chamado Hostel: Part II (2007) do seu fã Eli Roth é, ironicamente, o único filme em que o público apreciador de consumíveis americanos a poderá reconhecer. Mas tudo começou há mais de 40 anos, em obras adaptadas de Agatha Christie e Edgar Allan Poe, mais precisamente com Fenech a dançar na sequência inicial de…   

5 Dolls for an August Moon

(5 bambole per la luna d’agosto aka Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto, 1970.) Personagem: Marie Chaney. Realizador: Mario Bava.

Filmada em outubro de 1969 e estreada em fevereiro de 1970, esta obra é uma versão da primeira história de mistério de Agatha Christie, que originalmente se intitulava 10 Little Niggers, já que decorria em Nigger Island. O título foi mudado para 10 Little Indians e acabou por se chamar And Then There Were None. Foi, desde o início, concebida como um veículo para Edwige Fenech, atriz promissora na época.

edwige fenech promo (4)Dias antes de começar a filmagem, o realizador original saiu do projeto e Mario Bava foi contratado. Bava não gostou nada da história de Agatha Christie, que os produtores Pietro e Mario Bregni insistiam que fosse filmada literalmente. Segundo o realizador:

“Suplicaram e eu concordei, desde que me pagassem de imediato. Esqueci-me totalmente da ideia até que me convocaram. Num sábado de manhã, entregaram-me um cheque e disseram-me que teríamos de começar a filmar na segunda-feira seguinte! Guardei o cheque no bolso e assinei o contrato, mas disse-lhes que o argumento era anedótico e que precisava de, pelo menos, 10 dias para trabalhar nele, o que não serviu de nada!”

Especula-se que Mario Bava tenha vindo substituir Guido Malatesta, pois este, além de ser responsabilizado pela descoberta da ex-modelo Edwige Fenech, realizara vários dos seus filmes anteriores. Malatesta faleceu no ano seguinte, aos 50 anos, pelo que os seus problemas de saúde terão sido o principal fator na substituição.

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Para Mario Bava, nudez só insinuada.

Bava viria a dizer a Dario Argento em 1974 que este tornou possível que todos realizassem gialli e agradeceu-lhe, isto segundo Argento. De facto, The Bird with the Crystal Plumage e o seu sucesso estrondoso revitalizaram um género no qual Bava fora pioneiro; e o realizador mais velho, “mentor” de Argento, não se importou de o retomar, ainda que consciente da rivalidade com Argento e dos riscos que corria de o julgarem oportunista. Bava refletiu que o cinema italiano, em início dos anos 70, se encontrava em crise, com muitos a perderem o emprego por recusarem seguir as tendências em voga, e não viu nada de estranho na opção. A filosofia do seu pai era a de continuar a trabalhar e de não se fixar especificamente num sucesso, algo de que Mario Bava também era apologista.

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Fenech rouba o protagonismo a todos em 5 bambole per la luna d’agosto (1970).

5 bambole per la luna d’agosto, como o filme foi reintitulado, é um thriller mais convencional, menos selvático do que os gialli habituais. É um mistério movido pela ganância com um desfecho inesperado. Bava não gostou dos resultados e até diria em entrevistas que era o seu pior filme. De facto, não é dos melhores, mas também não é a catástrofe que Bava achava. O argumento era pobre, bem como a débil caracterização dos personagens, mas tal permitiu-lhe explorar os aspetos técnicos e a criatividade.

Extravagante e psicadélico, com forte dose de kitsch e uma ótima banda sonora de Piero Umiliani, 5 bambole per la luna d’agosto mostra-nos vários personagens que passam férias numa ilha. Um deles, um professor, tem uma fórmula valiosa e, para a adquirir, o assassino começa a eliminar quem se interpõe no caminho. Visto que Mario Bava foi contratado tão apressadamente, não pôde escolher o elenco e não conhecia os atores nem o seu trabalho; nem sequer os seus nomes, os quais esquecia com frequência.

A principal atriz era a alemã Ira von Fürstenberg, uma socialite abastada e divorciada de um príncipe. Era mais conhecida pela fortuna do que pelo talento e só fizera meia dúzia de filmes. Mas, como uma das principais financiadoras da película, recaíam nela as atenções para a promover. Contudo, Edwige Fenech ofuscou-a totalmente, tornando-se na principal figura dos cartazes, do marketing e a atriz com quem o filme se tornou mais conotado.

edwige fenech promo (2)Pouco depois, Fenech associar-se-ia ao produtor Luciano Martino e ganharia fama como protagonista de vários gialli, ou psycho thrillers, ao estilo de Argento. O irmão de Luciano Martino, Sergio, realizou várias destas obras, e lançou a atriz internacionalmente. Em 1972, Fenech casa com Luciano Martino, união que duraria até 1982, tendo o casal permanecido amigável posteriormente. Fenech, além de sex symbol italiano dos anos 70; tornar-se-ia produtora (fundando a companhia Immagine e Cinema com o filho Edwin em 1987) e uma das figuras mais poderosas do cinema de Itália.

Na rodagem de 5 bambole, Mario Bava desencorajou Fenech quanto a cenas de nudez, embora a atriz tenha andado lá perto, quase contraindo uma grave gripe ao filmar sequências na praia, seminua, em outubro! Por falar em vestuário, outra atriz, Ely Galleani, afirmou que o orçamento era tão reduzido que os atores tiveram de usar a sua própria roupa. Um dos vestidos da estreante Galleani foi-lhe oferecido por Fenech, que disse ser uma grande amiga.

Insolitamente, a adaptação de Mario Bava tem lugar numa casa de aspeto modernista, tal como é descrito por Agatha Christie, e não num castelo com ar medieval e o mordomo sinistro da praxe. O génio visual e o perfecionismo de Bava surpreenderam tudo e todos, até devido às restrições de tempo e orçamento e, além disso, Bava teve, pela primeira vez na sua carreira, de fazer a montagem do filme inteiro. Galleani chamou-lhe um “ilusionista”: “Ele próprio pintou a casa numa vidraça”, o chamado “glass matte”, que sobrepôs aos planos, criando vários efeitos que não se notam e são muito mais eficazes que os computorizados, empregues nos filmes contemporâneos. (Mas o que tem o génio de Bava a ver com técnicas computorizadas?)

O ator Maurice Poli recorda-se que Fenech “tinha muito orgulho no seu corpo e porque não?” A certa altura, saiu do chuveiro nua, o que embaraçou Bava. “Tudo tinha de ser insinuado”, afirma Poli. “Mario não queria nada disso, mas eu não me importava!”

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Galleani afirma astutamente que a “mensagem” que Mario Bava pretendeu transmitir em 5 bambole, bem como em todos os seus filmes, é a de que “no final, a energia negativa que as pessoas projetam, acaba por se virar contra elas. Tão simples como isso”.

Lançado no dia de São Valentim de 1970 (!) Cinco Bonecas para a Lua de Agosto não foi um sucesso comercial imediato em Itália. Só dois anos depois adquiriu notoriedade internacionalmente, em grande medida, devido ao estatuto de superstar de Edwige Fenech.

The Strange Vice of Mrs. Wardh

(Lo strano vizio della Signora Wardh aka O Estranho Vício da senhora Ward, 1971.) Personagem: Julie Wardh. Realizador: Sergio Martino.

Em Lo strano vizio della Signora Wardh, o maior sucesso da temporada.
Em Lo strano vizio della Signora Wardh, o maior sucesso da temporada.

Luciano Martino queria aproveitar o sucesso de O Pássaro com Plumas de Cristal (1970) de Argento e contratou Ernesto Gastaldi para escrever o guião. Tentando evitar comparações, reuniu um elenco associado a outro tipo de filmes, acentuou o teor erótico, chamou o irmão para realizar e Edwige Fenech para protagonizar. Esta coprodução italo-espanhola, filmada em Sitges, Barcelona e em Viena, Áustria, foi o maior sucesso da temporada, conquistando 600 milhões de liras de lucro; o público acorreu em massa aos cinemas e nascia o thriller erótico.

Luciano Martino já trabalhara com Carroll Baker em filmes, segundo classifica, “na linha americana, mais clássicos e soft. Com Fenech, havia cenas sexy mais intensas e a violência era mais forte”. O produtor recorda que Argento “era seguramente mais original” e também gastava muito mais. “Os nossos filmes com Fenech e George Hilton eram, por outro lado, de baixo custo.”

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George Hilton e Edwige Fenech nas filmagens.

Fenech, que surge aqui acompanhada de Hilton, Cristina Airoldi e Ivan Rassimov, começava a demonstrar grande dificuldade em manter-se vestida, o que não é problema nenhum. O problema, se é que existe, é a falta de finesse com que Martino filma, (ao contrário de Bava e Argento) num estilo mais convencional. Há quem lhe chame obra-prima, embora esteja longe disso. O êxito de Signora Wardh deveu-se mais ao foco numa personagem que era o protótipo da mulher dos anos 70, já depois da revolução sexual. Em 5 bambole, Fenech destacara-se no elenco, aqui Luciano Martino pretendeu que o foco fosse ela.

edwige fenech promoA nível pessoal, a vida da atriz parecia atribulada. Quando filmava, já estava grávida e, no outono de 1970, desaparece do set e refugia-se em casa. Em junho de 1971, dá à luz um filho de um homem que não quis assumir a paternidade e cuja identidade não é divulgada há 40 anos porque Fenech quis proteger a sua privacidade e a da criança. Sabe-se que a abandonou.

edwige Lo strano vizio della signora wardhDurante a filmagem de Lo strano vizio della Signora Wardh, a atriz envolve-se com o produtor Luciano Martino, que já a conhecia desde I peccati di Madame Bovary (1969) em que fora produtor associado, e que classifica de “horrendo”. Fenech queria agora casar com Luciano Martino, mas este objetava, sendo já casado (e infeliz no matrimónio). Os dois tornaram-se amantes.

A ficção seguia parcialmente a realidade, com Edwige a interpretar Julie Wardh, que mantém um relacionamento extraconjugal com George, enquanto procura fugir a um antigo e sádico amante. Tudo isto, enquanto um maníaco anda a assassinar mulheres pela cidade. Dir-se-ia que andam todos atrás de Edwige Fenech neste filme, a sua primeira colaboração com os irmãos Martino, associação que produziu filmes de qualidade desigual em vários géneros.

O argumentista Ernesto Gastaldi comenta:

“Só falei com Edwige umas três vezes, não a conheço muito bem, embora tenha interpretado muitos papéis que escrevi. Não me atrai muito, nunca percebi porquê. Trabalhei em colaboração mais estreita com Luciano. Não assisti ao filme durante 20 anos, porque nunca fiquei satisfeito com ele, não gostava muito dos atores e o nível da produção era inadequado. Mas sabia que Martino obedecia às leis do mercado e não podia gastar muito dinheiro.”

edwige fenech wardhÉ um filme eficaz, ainda que com um ritmo algo lento. O clima de medo é mantido ao longo da obra, uma das dezenas despoletadas pelo sucesso de Argento no giallo. A música de Nora Orlandi tornar-se-ia clássica. É curioso que estas produções fossem todas filmadas em cinco, seis semanas, no máximo.

All the Colors of the Dark

(Tutti i colori del buio aka Todas as Cores da Escuridão, 1972.) Personagem: Jane Harrison. Realizador: Sergio Martino.

Já depois do nascimento do filho, a atriz regressa ao trabalho com este mistério psicadélico, filmado em Londres, talvez o melhor e mais imaginativo dos seus gialli. Depois de sofrer um aborto na consequência de um acidente de viação, Jane é atormentada por pesadelos em que é perseguida por um estranho homem de olhar glacial (Ivan Rassimov). Sem obter auxílio do marido (George Hilton), pede ajuda à irmã e a um psicanalista, enquanto as fronteiras entre a realidade e o sonho se vão tornando difusas. Perseguida por uma seita, Jane descobre que o homem dos seus… pesadelos é verdadeiro!

“He’s coming to get you!”

Um dos grandes trunfos de Tutti i colori del buio é a bizarra e genial banda sonora de Bruno Nicolai, com o poderoso tema «Sabba» a mostrar por que era apelidado de compositor fantasma de Ennio Morricone. Muitas das melodias de Nicolai não ficam atrás do génio de Morricone, embora fosse menos prolífico do que este.

Diversos gialli socorrem-se de psicologia pop, mas é notório como alguns argumentistas mais engenhosos ultrapassaram tal superficialidade. Aqui, por exemplo, é mais acentuado o aspeto visual do que os diálogos, ainda que estes sejam curiosos. Por exemplo, o psiquiatra sossega Jane, quando esta teme estar a enlouquecer: “Não se considere louca nem alguém que está a ver coisas. Os loucos de verdade são os que não pensam que o são.” Nada mau…

E quando Jane se queixa de estar a ser seguida por alguém, a vizinha riposta: “Eu só terei medo quando os homens deixarem de me seguir!” “Como sabe que era um homem?”, pergunta Jane. “Os homens perseguem mulheres desde que o mundo começou. Com ou sem uma moca.” Hilariante.

O sucesso desta obra reside no modo como “concilia angústia, terror e libido ao estilo de Poe”, declarou o Il Messagero em março de 1972, realçando a “técnica refinada de Sergio Martino”. Com efeito, Todas as Cores da Escuridão conjuga o mistério policial, sequências oníricas, imagens distorcidas, ritos satânicos e bastante imaginação, numa trama hábil em que todos perseguem Edwige Fenech…

All-the-Colours-of-the-Dark Edwige FenechHá uma notória influência de Rosemary’s Baby de Polanski, o êxito de 1968, mas o carimbo italiano, no modo como Londres é filmada, por exemplo, de modo quase gótico, distingue a obra, adicionando-lhe um cariz operático à italiana, com a majestosa banda sonora de Nicolai e a beleza de Fenech em grande plano. Comercialmente, não foi tão bem sucedido, lucrando 300 milhões de liras (metade do que o filme anterior rendera).

All-the-Colours-of-the-Dark Edwige Fenech 2Contudo, com o revivalismo do giallo, começava a criar-se uma tradição que ainda perdura. Repare-se em L’étrange couleur des larmes de ton corps (The Strange Color of Your Body’s Tears) de 2013, um filme que homenageia, ou melhor, copia os elementos todos criados nesta época. Já para não falar do desnorteio de Amer (2009), outra “homenagem” desenxabida ao estilo fulgurante, tanto sonoro como visual dos gialli, por parte de autores dotados de técnica mas desprovidos de qualquer réstia de inspiração – o que sucede quando críticos endinheirados e presunçosos pegam numa câmara. Muito estilo, conteúdo nulo.

The Case of the Bloody Iris

(Perché quelle strane gocce di sangue sul corpo di Jennifer? aka As lágrimas de Jennifer, 1972.) Personagem: Jennifer Osterman. Realizador: Giuliano Carnimeo.

O segundo de três filmes lançados em 1972, novamente com argumento de Ernesto Gastaldi, The Case of the Bloody Iris é outra obra com suspense e um mistério cativante, ainda que a realização de Carnimeo deixe algo a desejar. Gastaldi, que era antigo colega de Carnimeo na escola de cinema, achava-o um “bom realizador que nunca teve muita sorte”.

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Em The Case of the Bloody Iris.

Desta vez, num prédio de apartamentos, uma sequência de assassínios de jovens modelos semeia o medo em Génova. Jennifer (Fenech) é uma das potenciais vítimas e tem de escapar ao maníaco e também ao depravado ex-marido! Isto enquanto a polícia suspeita do dono do prédio, interpretado por George Hilton. Bruno Nicolai é novamente o compositor, contribuindo com um nostálgico tema-título.

Your Vice Is a Locked Room and Only I Have the Key

(Il tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave aka Vícios Proibidos, 1972.) Personagem: Floriana. Realizador: Sergio Martino.

Repare-se na imaginação com que se traduzem os títulos portugueses. Do literal O teu vício é um quarto fechado e só eu tenho a chave, como devia ter sido chamado, passamos ao “apelativo” Vícios Proibidos. Com ou sem um título extravagante (retirado de uma misteriosa nota anónima que Fenech recebe em The Case of the Bloody Iris), como requer o giallo, o último filme da trilogia de Sergio Martino é mais uma obra apelativa e recomendada. Não tanto por ser uma adaptação bastante livre do conto «O Gato Negro» de Edgar Allan Poe, mas porque é repleto de suspense e depravação, como convém. Além disso, os irmãos Martino variaram o elenco; George Hilton já cansava e não participa.

Há gatos com sorte.
Há gatos com sorte.

Oliviero (Luigi Pistilli) é um escritor caído em desgraça e alcoólico, que vive numa casa de campo com a esposa (Anita Strindberg), maltratando-a nos tempos livres e organizando festas com jovens de um acampamento próximo. Como se não bastasse, o infiel Oliviero também sofre de complexo de Édipo. Chega então a tentadora sobrinha Floriana, que acaba na cama com os dois e um empregado da mercearia e motoqueiro nas horas vagas, (em separado, digo)…

edwige viceA chegada de Floriana interrompe o equilíbrio, ou antes, o desequilíbrio depravado do feliz lar e, após algumas aparições de um homem mistério (novamente interpretado por Ivan Rassimov), o desfecho é digno de Poe. Entretanto, um gato negro apropriadamente chamado Satanás caminha omnipresente pela mansão… porquê?

Descrito assim, o enredo parece cómico. Fenech exibe os seus dotes e, por esta altura, os espectadores já se indagavam quanto tempo era capaz de ficar vestida. Não muito. Certas dificuldades nesse campo… A Stracult apelidou o filme de “porno thriller”, mas é bastante mais do que isso e não é porno, contém erotismo inofensivo pelos padrões de hoje.

Mais uma vez, mudou-se o local das filmagens, que decorreram em Pádua. Ernesto Gastaldi voltou a colaborar no argumento que inclui, curiosamente (ou talvez não) uma cena em que a folha de uma máquina de escrever repete a mesma palavra, sequência decalcada em Shining de Kubrick, numa fase em que o cinema americano e britânico copiava descaradamente o frenético imaginário italiano. Bruno Nicolai compôs uma fantástica banda sonora, totalmente diversa das anteriores, uma obra que pode, tal como a música de Piero Umiliani em 5 bambole, ser apreciada à parte. E não podia faltar a inevitável garrafa de J&B.

A garrafa de J&B podia ser uma personagem dos filmes italianos dos anos 70 devido à sua insistente aparição.
A garrafa de J&B podia ser uma personagem dos filmes italianos dos anos 70 devido à sua insistente aparição.

Luciano Martino afirma que o relativo fracasso comercial dos filmes que se seguiram a Mrs. Wardh, fez com que se focasse noutros géneros, “com teor mais sentimental e dramático” como o policial Anna, quel particolare piacere (1973) que produziu e no qual foi coautor do argumento com Ernesto Gastaldi. Era mais um veículo para Fenech, e a realização ficou a cargo de Giuliano Carnimeo, mas também este filme não foi um enorme sucesso, embora seja um policial com bastante qualidade. Só em 1975, com L’insegnante, Martino e Fenech conseguiriam novo êxito.

Strip Nude for Your Killer

(Nude per l’assassino aka O Assassino de Modelos, 1975.) Personagem: Magda. Realizador: Andrea Bianchi.

O Assassino de Modelos, como foi, com notável imaginação apelidado em Portugal (país cheio de artistas mas onde a arte é escassa), surgiu após um interregno de três anos, em que Edwige Fenech se dedicou a outros géneros, especialmente à comédia.

A fotógrafa Magda em Nude per l'assassino (1975).
A fotógrafa Magda em Nude per l’assassino (1975).

Desta feita, um homicida vestido de motoqueiro assassina várias pessoas que trabalham para um estúdio fotográfico de Milão. (Não só modelos.) Edwige Fenech interpreta a fotógrafa Magda, que, em conjunto com outro fotógrafo (Nino Castelnuovo) procura resolver o mistério. Fenech surge acompanhada por outras atrizes célebres da época, como Femi Benussi, que aparece quase sempre nua.

edwige strip nude for your killer
Tentando resolver o mistério.

Geralmente considerado inferior e mais sleazy do que os anteriores gialli, Nude per l’assassino inclui mais nudez (como o título insinua) e sangue. O filme ficou celebrizado por conter o primeiro nu integral de Fenech, ainda que fugaz. A obra contém bastante suspense, e a realização de Bianchi (também autor da história) é competente, ainda que não seja notável. A banda sonora de Berto Pisano, exceção feita ao tema-título, não é memorável.

Só 13 anos depois, Edwige Fenech viria a participar noutro giallo, Un delitto poco comune (Phantom of Death) de 1988, que já não se insere neste período áureo. No papel de Hélène Martell, a atriz surge na obra de Ruggero Deodato, também protagonizada por Michael York e Donald Pleasence.

UM ROSTO SIMPÁTICO

Edwige Fenech 1Em meados dos anos 70, Edwige Fenech viria a notabilizar-se mais como atriz cómica, rodando dezenas de filmes, o que, segundo Luciano Martino, não é surpresa: “É uma grande atriz cómica, a meu ver, e perfeita para a comédia. Apesar de ter um corpo escultural, possui um rosto simpático: não era uma mulher distante. De repente, as pessoas reviam-se nela. Um rosto simpático nunca intimida, e sendo também uma pessoa simpática, característica que ainda mantém, tinha também do seu lado o público feminino.”

Martino prossegue, com conhecimento de causa: “As mulheres, quando muito bonitas, não são bem vistas pelas outras mulheres. Mas ela impôs-se pela simpatia. Além disso, julgo mesmo e mantenho que, embora outros pensem de modo totalmente diferente, foi a melhor atriz italiana daquele período, a seguir a Monica Vitti.”

edwige fenech promo (1)O facto de enveredar pela comédia não garantiu a Edwige Fenech o estatuto de outras atrizes. “Dificilmente um filme cómico recebe um prémio. Não se entende. Só as grandes tragédias, em que se chora e fica tudo massacrado… só isso é valorizado em festivais de cinema. E é muito mais fácil fazer chorar do que fazer rir. Fazer rir é a coisa mais complicada”, defende o produtor.

Martino sublinha que as comédias à italiana com tom erótico libertaram tabus: “Libertámos o corpo. Hoje, ninguém quer saber, mas, naquela época, se alguém se despia, era uma espécie de tragédia nacional. Com aquela cultura católica opressiva… conseguimos deitar abaixo certos preconceitos e, além disso, também eram filmes divertidos.”

edwige fenech gialloAs comédias picantes italianas foram praticamente destruídas com a popularidade da TV, a sobrecarga do “filão”; interesses monetários interferiram, bem como o sucesso fácil. Assim se explica, em parte, a subsequente carreira televisiva de Edwige Fenech e o desgaste da sua imagem, abordadas por Martino desta forma:

“É mais fácil ter sucesso na TV. Experimente adaptar uma coisa que fez sucesso na TV ao cinema. Não ganha uma lira. Além disso, são técnicas totalmente diferentes, como escrever um livro ou um artigo de jornal. E Fenech começou a aparecer mais na TV. Começavam a vê-la em casa e portanto não iam ao cinema…”

edwige vizio catÀs vezes, o sucesso não é só uma questão de aparências, pelo menos o duradouro. É necessário talento. É uma porta fechada e, no caso de Edwige Fenech, só ela tem a chave. Outros espreitam pelo buraco da fechadura…

David Furtado

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