Entrevista exclusiva com Sondra Locke: Magia nos filmes e na vida real

Nesta entrevista de fundo, Sondra Locke fala sobre sua vida e carreira de forma direta. Por que razão algumas coisas não funcionaram; Hollywood, realizar, representar, os seus gostos pessoais no cinema, na literatura, as suas escolhas de carreira e os problemas que enfrentou quando optou por não virar costas a um duelo da vida real. Conta-nos também como escreveu a sua autobiografia, The Good, the Bad, and the Very Ugly: A Hollywood Journey.

Sondra Locke interview

Embora não o diga diretamente, muitas vezes parece encontrar magia no mundo real e não nos filmes, ao longo do livro. Qual é a sua opinião?

Vivi certamente uma vida pouco convencional. À falta de melhor palavra, a magia foi uma grande parte dela. Quando eu era criança, os filmes pareciam proporcionar essa sensação de magia. Com o tempo, comecei a ver a magia na vida quotidiana. Através da minha relação com Gordon [meu amigo de infância e mais tarde marido], testemunhei muitos acontecimentos inexplicáveis e paranormais, mas os próprios eventos da minha vida, muitas vezes, também pareciam desafiar a normal. Sonhava em ser uma atriz de cinema, até que um dia a WB realizou uma busca de talentos em todo o país, em busca de uma atriz desconhecida para protagonizar O CORAÇÃO É UM CAÇADOR SOLITÁRIO, e fui tirada subitamente de uma pequena cidade no Tennessee para Hollywood e uma nomeação para o Óscar. Até o meu relacionamento com Clint pareceu, durante muitos anos, produto de magia. Foi tão inesperado. Clint era mesmo a última pessoa a quem me imaginaria ligada romanticamente. Parece que todos os grandes acontecimentos da minha vida não foram calculados, planeados e perseguidos por mim, mas, em vez disso, foram colocados “à minha porta”. Cabia-me a mim reagir… estar pronta ou não.

Sou grande crente na “sincronicidade”. Creio que sinais e mensagens sobre escolhas de vida muitas vezes nos aparecem no quotidiano diário. Cabe a nós “vê-los” e reconhecer o seu significado. Muitas vezes estamos demasiado preocupados para prestar atenção. Tive mais que a minha cota de sincronicidades, pelas quais estou muito grata.

Trabalhou com muitas pessoas talentosas ao longo de sua carreira. Há alguém que conheceu e com quem gostaria de trabalhar, mas, por um motivo ou outro, nunca se proporcionou?

A maioria dos atores ou realizadores que mais admirava já não estavam a trabalhar durante os anos da minha carreira ativa, pelo que não posso dizer que houve oportunidades perdidas de que me arrependa.

Quais os atores e atrizes com quem gostaria de ter trabalhado?

Adorava Ingrid Bergman, Vivien Leigh, Joan Fontaine, Henry Fonda, Jimmy Stewart. Teria sido incrível ter trabalhado com um deles.

E quais os atores e realizadores contemporâneos cujo trabalho admira?

Hoje admiro imenso Ryan Gosling. Acho-o incrivelmente versátil. Dustin Hoffman continua a ser um dos meus favoritos – de A PRIMEIRA NOITE a O HOMEM DA MARATONA e O COWBOY DA MEIA-NOITE, continua a ser brilhante.

Começou a carreira quando o studio system se desmoronava e os anos setenta chegavam. O final dos anos 60 parece quase um marco. Os anos 70 foram muito mais abertos em termos de temas, criatividade… notou esta transição? O que pensa sobre isto?

Toda a minha carreira esteve realmente ligada ao studio system. Ironicamente, ter-me-ia sentido mais à-vontade no mundo independente, que não existia naquela época – pelo menos, não como o conhecemos hoje. Acho que tem razão ao dizer que os anos 70 foram anos em que os realizadores e produtores tinham mais poder e controlo sobre os filmes, mas os estúdios ainda eram os locais fulcrais do negócio. Eu não tive experiências de relevo em Hollywood antes das décadas de 70 e 80, portanto não notei diferenças na produção cinematográfica. Após meu primeiro filme, CORAÇÃO, foi muito difícil encontrar papéis comparáveis. Não havia um verdadeiro “mercado” de filmes dirigidos ao público juvenil como há hoje. Os papéis femininos principais em argumentos eram escritos para atrizes mais velhas do que eu. Eu tinha 20 e poucos, mas parecia muito mais jovem e acabara de representar uma adolescente de 14. De modo geral, fiquei dececionada com as oportunidades nessa época.

Provavelmente o que a maioria das pessoas quer saber é o que tem feito a nível profissional nestes últimos anos. No final da autobiografia, menciona que estava prestes a realizar um filme com Rosanna Arquette, DO ME A FAVOR, e parecia confiante. Realizou-o, e foi lançado em 1997. E não realizou mais nenhuma vez. Foi por opção própria? Quis um pouco de paz e manter a distância do “jogo” de Hollywood ou houve outro motivo?

DO ME A FAVOR [reintitulado TRADING FAVORS] foi o último filme que realizei. Esperava continuar a minha carreira de realizadora, que mal tinha começado. Sentia-me muito confortável a realizar, como se fosse, mais do que representar, a coisa que fazia melhor. Infelizmente uma combinação de situações evitou que isso acontecesse. Primeiro, fiquei emocionalmente devastada devido aos anos que passei a travar as minhas batalhas legais, e ficara algo cansada de todo o jogo político Hollywood: As reuniões intermináveis e infrutíferas, os almoços, a merda generalizada que raramente reflete a verdade do que se passa. Além disso, percebi que todos os scripts que me interessavam não eram os filmes que os estúdios queriam fazer. Os meus gostos estavam mais orientados para o filme mais pequeno e independente, mas eu nada sabia sobre essa arena, no que toca a conseguir concretizar um filme. Como disse, “crescera” no mundo dos estúdios. Todos os meus contactos estavam no mundo dos estúdios. Arranjar dinheiro para fazer filmes mais pequenos é um sério desafio e uma coisa de que eu nada sabia. Tudo isto piorou as minhas dificuldades ao tentar seguir em frente com a minha carreira de realizadora.

No entanto, mais prejudicial para o meu futuro foram as consequências do meu rompimento com Eastwood. Teve duas vertentes. Primeiro, eu tinha trabalhado com ele exclusivamente durante tantos anos que não desenvolvera uma rede fora dele e da WB, o seu estúdio “caseiro”. Segundo – e mais importante – a sua óbvia inimizade para comigo teve um infalível efeito de “ostracização”. Ele nem precisou de expressar que não queria ninguém a trabalhar comigo. Eles compreenderam a situação. Ele era uma figura muito poderosa na cidade e ninguém queria ficar de mal com ele. Porquê incomodarem-se? Porquê envolverem-se? Acreditarei sempre que tinha muitos fãs em posições de poder, mas eles não estavam dispostos a arriscar. Isso é muito de esperar em Hollywood.

Houve alguns argumentos que me passaram pelas mãos, mas não obtiveram financiamento. Por ironia, como aludi anteriormente, os meus gostos estavam mais virados para filmes mais peculiares e pequenos. Essa foi uma das coisas estranhas na minha carreira com Clint. Os seus filmes eram o oposto dos filmes que mais admirava ou me imaginava a fazer. Ficou evidente no meu primeiro trabalho como realizadora, RATBOY – PERDIDO NA MULTIDÃO.

RATBOY nunca deveria ter sido um filme de estúdio. Deveria ter sido feito para o mercado indie. Quando veio a fase de lançamento e marketing, a WB não sabia o que fazer com ele. Acharam que eu tinha feito um bom trabalho como realizadora e puseram imediatamente outros três scripts em desenvolvimento para mim, mas RATBOY não teve hipótese no mercado, nas mãos de um grande estúdio. Na verdade, RATBOY pré-datou o apogeu do mercado independente, que ainda não tinha ainda florescido.

Ainda me enviam guiões, mas nada de suficientemente extraordinário que me motive a tentar superar todos os obstáculos inerentes a fazer filmes. E apesar disso, diria que hoje me sinto inacabada profissionalmente, como atriz e realizadora. Durante muitos anos, fantasiei que um realizador corajoso apareceria e oferecer-me-ia um papel que eu não poderia recusar, um papel tão maravilhoso como o que começou a minha carreira. E, ainda mais do que isso, fantasiava sobre o perfeito, pequeno e pitoresco guião com verbas já estabelecidas, que eu quereria realizar. Claro que nenhuma das coisas aconteceu. No início, senti-me muito deslocada, como se tivesse perdido a identidade. Trabalhei a fazer filmes ao longo de toda a minha vida adulta. Era um trabalho que eu amava. Era o meu trabalho, bem como o meu prazer. Nunca fui pessoa de ter outros passatempos. Eventualmente, encontrei paz e a beleza na minha vida diária – na minha casa, nos meus jardins, nos meus animais de estimação – e fui capaz de virar costas.

Parece haver um sentimento de insatisfação com Hollywood atualmente, entre algumas pessoas, no que diz respeito à qualidade geral dos filmes. São demasiado orientados para o grande público; há demasiado remakes, adaptações de super-heróis, 3D, scripts estúpidos e alguns filmes bastante ridículos a estrear nos cinemas. Parece que reciclam, vezes sem conta, há já alguns anos. Concorda? Perderam a inspiração? Porquê?

Concordo com quem se sente insatisfeito com os filmes produzidos agora por Hollywood. É triste e dececionante, porque adoro assistir a filmes quase tanto como adoro fazê-los. Acho que o mais importante agora são os “negócios” e não o material. Não há cineastas a gerir os estúdios – e poucos amantes de cinema. Importa o dinheiro – como se não pudessem importar ambos. Parece que muitos dos executivos dos estúdio ficam perdidos quando se trata de analisar um script. A maioria deles só quer saber quais as estrelas que podem ser “anexadas”. E então, claro, continuam a regredir, indo buscar o que fez dinheiro no ano passado e no ano anterior e tentam replicar. Não importa que não funcione, nem nas bilheteiras.

Argumentistas meus amigos contam-me histórias terríveis sobre muitos dos executivos com que lidam. Um amigo meu é grande apreciador dos velhos filmes de Hollywood. Falava de alguns títulos numa reunião com um executivo de um estúdio. O executivo não ouvira falar de nenhum deles, mas saiu-se com esta, “também adoro filmes antigos. Viu A JURADA com a Demi Moore!” Era um filme antigo para ele, aparentemente. E a questão aqui não é a juventude. Há muitos muito jovens cineastas e cinéfilos que conhecem e amam a História do cinema. Já é difícil encontrar arte no processo. Para mim, a maioria dos melhores trabalhos encontram-se na TV por cabo hoje em dia. Há algumas séries incríveis: Mad Men, Ruptura Total, Boardwalk Empire.

Se olharmos para a sua carreira, especialmente durante os anos 70, e mesmo na década de 80, houve alguns papéis em filmes orientados para o terror (na TV também). Referiu que não gosta de westerns. E de filmes de terror?

Nunca encarei nenhum deles como “filmes de terror,” embora compreenda por que possam ser considerados assim – especialmente Feast of Blood. Aprecio filmes de terror de natureza mais psicológica. Raramente são feitos hoje. Achei o primeiro A Noite dos Mortos-Vivos muito assustador – com o grupo fechado na cave. As sequelas perderam essa tensão, porque se focou em MAIS zombies e mais sangue. O filme de terror que mais me impressionou foi O Exorcista original; em particular, a cena em que o diabo se transforma na mãe do padre. Para mim, isso foi mesmo assustador. Tive pesadelos durante muito tempo depois de ver esse filme, e sou uma cineasta que não devia ter sido tão suscetível! Participei em filmes de “terror”, menos devido à escolha do género em si; foi mais a oportunidade que o papel oferecia.

Depositei grandes esperanças num pequeno filme de “terror” que fiz, mais tarde lançado com o título DEATH GAME. Começou por se intitular MR. MANNNING’S WEEKEND. Foi escrito pela argumentista de DESTINOS NAS TREVAS e presumia-se que fosse mais uma grande história de terror psicológico. [O facto de Jo Heims também ter escrito o guião de Clint foi coincidência; isto passou-se antes de eu ter sequer conhecido Clint.]

O meu filme de terror favorito é PSICO de Hitchcock. Mas o meu género favorito no cinema é o suspense. Também já raramente são feitos. A JANELA INDISCRETA é provavelmente o meu favorito. Outro que gostaria de referir é um pequeno filme, RETURN FROM THE ASHES, feito por um diretor que admiro, J. Lee Thompson. As suas reviravoltas são incríveis.

Tenho de mencionar OS INOCENTES de Jack Clayton, a adaptação de TURN OF THE SCREW de Henry James. Este é talvez o meu filme de “terror/suspense” por excelência. Estou particularmente apegada a ele, porque, na verdade, desempenhei a menina, ‘Flora’, no palco do Nashville Community Theater – antes de ser descoberta pela WB – e Gordon desempenhou o rapaz, ‘Miles’. É estranho, perturbador, aterrorizante e cheio de suspense. Possui todos os grandes elementos. Diverti-me tanto a desempenhar a personagem. Foi num pequeno teatro circular [com o palco no centro] pelo que o público estava muito perto. Praticamente podia estender a mão e tocar nas pessoas.

O segmento A Feast of Blood em Night Gallery é um dos seus favoritos. É muito curto. Por que gostou tanto dele?

Acho que esse filme continua importante para mim devido ao elenco, Norman Lloyd e Hermione Baddeley. Norman é um ator maravilhoso, que, para mim, representava muito dos primórdios de Hollywood. Trabalhara com Hitchcock muitas vezes e era amigo dele. Eu adorava ouvir as histórias dele enquanto trabalhávamos. Reagi a todos os cenários do filme: o velho bar-restaurante, a estrada escura e erma por onde tive de caminhar. Talvez fosse um dos primeiros sinais da minha visão de realizadora, o facto de estes aspetos me atraírem.

Também gostei da oportunidade de empregar sotaque inglês. Lembro-me do primeiro dia no set quando a Sra. Baddeley me disse, “há quanto tempo está neste país, querida?” Fiquei mesmo emocionada. Ela julgou que eu era britânica! E a personagem também era uma terrível “cabra” e raramente tive a oportunidade de desempenhar esse tipo de mulher antes dos filmes com Clint. Eu era, de modo geral, vista como do tipo frágil e sensível. Night Gallery era também uma das minhas séries favoritas. Nunca alcançou a fama da Quinta Dimensão, mas ainda é amada.

Sobre as “entrevistas intermináveis” a falar de si própria. Não gostava delas desde o início. Porquê? Que tipo de perguntas a desinteressaram tanto? Ou foi o tom geral?

Nesses tempos, achava que não experimentara o suficiente para merecer discussão. Sempre fui tímida por natureza e não gosto de falar sobre mim, de modo geral. Nunca me importei quando a entrevista era para a promoção de um filme específico. Nesse caso, podia falar apenas do filme e da minha experiência com a personagem, etc. Além disso, parecia que me faziam sempre as mesmas perguntas que não me interessavam, ou perante as quais me sentia idiota a responder. Fico um pouco embaraçada ao ver atores que desbobinam sem parar sobre si próprios, fazendo com que o seu trabalho e eles próprios pareçam tão “importantes”, quando geralmente não são. É tão hiperbólico.

De acordo consigo, o livro foi “bem abafado por Clint Eastwood e a Warner Brothers”. De que forma específica (ou formas) fizeram isso?

Várias. Primeiro, fui excluída da maioria dos locais para promover o livro, em particular das redes televisivas. Lembre-se que Bob Daly [presidente da WB na época], a certa altura, geriu a CBS. A influência estava lá.

O meu editor disse-me que Oprah Winfrey queria que eu fosse ao seu programa. Quando isto estava a ser combinado, fui “cancelada” subitamente e decidiram que Clint ia ao programa em vez de mim. Naquela época, e até raramente hoje em dia, Clint quase nunca tinha aparecido num talk-show desse tipo [ou, que eu saiba, NUNCA].

A revista gay The Advocate ia publicar um grande artigo sobre o meu livro, o que era natural já que Gordon é homossexual. De repente, Clint estava a dar-lhes uma entrevista [nunca demonstrara tanta abertura perante uma revista deste género] e a aparecer na capa e eu fiquei TOTALMENTE de fora. Por que não podiam publicar ambas as peças, se foi, de facto, uma coincidência inocente?

Liz Smith, uma colunista nova-iorquina altamente conceituada, escreveu uma crítica muito favorável ao meu livro – e a mim – demonstrando grande apoio, na sua coluna. Quando a coluna surgiu no LA Times [o que acontecia sempre], a crítica e todas as referências ao meu livro foram cortadas. O resto do texto estava intacto. A WB tinha qualquer associação [ou certamente influência] no LA Times. Na altura, disseram-me qual a ligação, mas não me recordo.

A E Magazine, uma revista de entretenimento muito lida, também publicou uma óptima crítica ao meu livro. Foi retirada e uma crítica má apareceu em vez dela. Estou quase certa de que a WB tinha qualquer envolvimento financeiro com a E Magazine – talvez até fossem seus proprietários, não me recordo. Na verdade, li um comentário sobre isso, escrito por alguém que trabalhava na E nessa época. Ele ou ela escreveu uma crítica ao meu livro na Amazon e disse ter conhecimento dessa situação. A propósito, Gordon acabou de me dizer que alguém colocou uma crítica na Amazon, em resposta a essa crítica negativa da E Magazine, de há anos. Sincronicidade.

E também havia sempre a regra não oficial de que a maioria de Hollywood alinha com o poder. Não desestabilizes a carroça das maçãs. Fica fora do caminho de Clint ou da WB. Claro, sempre soube que isso era algo que tinha de enfrentar.

Pode ter havido outras situações de que não me lembre agora, mas, de modo geral, fui impedida de divulgar o livro, pelo que ele obteve pouca notoriedade junto dos potenciais compradores.

Pensar-se-ia que o negócio editorial mantém algum tipo de distância do negócio do cinema. Por isso, como puderam eles transpor essa barreira e suprimir um livro? (Embora a WB tenha um departamento editorial próprio.)

Não sei dizer ao certo como funciona, exceto como mencionei acima. Nada no mundo do entretenimento é completamente separado.

E quanto a traduções e mercados estrangeiros? A Europa, por exemplo. Acho que encontraria leitores aqui. Há uma perspetiva diferente em relação aos cineastas. Houve algum esforço da sua parte ou o do editor para o traduzir?

Por algum motivo, não houve interessados nessa época, no mercado externo. Não sei exatamente porquê, mas nessa altura eu estava, de certa forma, “acabada”. Escrevi-o principalmente para mim mesma, e essa foi uma das razões por que não ponderei realmente reprimir nada do que sentia. E também já aceitara o facto de que não conseguiria o número de leitores que eu esperava, e minha falta de conhecimento do mundo editorial impediu-me de saber como o tentar sozinha, fosse de que modo fosse. E ainda andava preocupada com o processo contra a WB, que decorria.

Mencionou, no artigo anterior, que não aprecia biografias (apenas algumas) e que as acha aborrecidas. Porquê? É porque conhece ou conheceu as pessoas que estes livros mencionam e sabe em primeira mão que não é autêntico? Ou é um tédio geral relativamente a estes livros?

Talvez tenha sido um comentário injusto. Geralmente são as autobiografias que evito, porque suspeito que foram escritas por terceiros e, regra geral, pretendem glorificar o tema. As biografias são muitas vezes bastante diferentes. Claro, depende do autor.

Por exemplo, Richard Schickel ganhou a vida a escrever artigos e documentários graxistas sobre Clint. Como conheço bem esses tempos e esse assunto, sei que os livros de Schickel estão cheios de distorções e invenções totais, não só sobre mim (com afirmações ultrajantes), mas sobre outros. Ele glorifica, praticamente endeusa, Clint.

Deve ter uma boa memória, como Joseph Strick disse quando memorizou o script de CAÇADOR em 1968. O livro é muito detalhado, os diálogos, tudo. Manteve um diário ao longo dos anos? Não é um livro de memórias típico. Aprofunda realmente tudo.

Nunca mantive um diário. Tenho boa memória, mas especialmente para momentos emocionais ou visuais. Talvez seja mais uma vez a realizadora que há em mim. Recordo-me de cenas como se fossem um filme e ainda consigo visualizar a encenação na minha mente. Claro, o diálogo é também fundamental na minha memória, pelas mesmas razões. Esqueci muitos outros detalhes que não acompanharam momentos emocionais poderosos.

A julgar pelo seu livro, até os atores confundem personagens em filmes consigo mesmos, não é só o público que cai nesta armadilha ou egocentrismo. Concorda?

Muitos atores e até realizadores, julgam-se maiores que a vida, julgam que não podem fazer nada errado. Acho que muitas vezes são ossos do ofício. Às vezes perguntava-me se os egos é que os tinham levado ao topo, ou estar no topo é que os transformara em megalómanos!

Lembro-me de almoçar com Robert Altman e outros realizadores. Perguntei a Robert se adorava sempre os seus filmes, ou até a primeira versão dos seus filmes. Ele disse, “sim, sempre”. Eu disse-lhe que só conseguia ver os defeitos e falhas no meu trabalho, e a sua resposta foi, ‘ bem, talvez não devesse realizar nem representar!’ Eu não disse nada, apenas recordei uma altura em que visitei George Miller nas instalações da WB. Eu estava a fazer a montagem de RATBOY nessa altura, e era-me difícil gostar do meu trabalho (claro que houve muitas razões para tal, incluindo o facto de ter sido “proibida” de fazer o filme que pretendia). Fiz-lhe a mesma mesma pergunta que mais tarde fiz a Altman. Miller respondeu que sentia o mesmo que eu; odiava sempre os seus filmes, especialmente a versão primária. Portanto, às vezes, o ego está em xeque!

Mencionou, durante uma conversa anterior, que havia outro “capítulo da maluqueira” que não incluiu no livro. Cronologicamente, é no final e envolve mais daquelas manobras de Eastwood, depois terem chegado a acordo fora do tribunal. Pode explicar o que sucedeu?

É um pouco difícil de recordar, mas aqui vai… Primeiro, eles ameaçaram não me dar o cheque do acordo. Eu chegara a acordo com apenas UMA condição, que não revelaria a quantia envolvida. Eles tentaram alegar que eu tinha quebrado o meu compromisso, que, penso eu, foi apenas verbal. Em qualquer caso, NÃO quebrei o acordo e nunca o fiz até hoje. Aparentemente, um jornalista adivinhou (e publicou) uma quantia próxima do montante envolvido, e eles tentaram-me ligar a isso. Acredito que não passou de uma tentativa de me assediarem e perturbarem, na melhor das hipóteses. Por outro lado, conhecendo Clint, pode ter sido uma tentativa de encontrar uma compensação do que teve de pagar. Acredito que ele fará qualquer coisa por dinheiro.

Depois de eles finalmente concordarem, insistiram que a minha advogada se encontrasse com o advogado de Clint nalgum lugar estranho, para assinar e receber o cheque. Não me recordo do local… mas pareceu uma cena de um filme de espionagem.

Julgo que também me referia ao desejo de ter esperado para escrever o meu livro até o processo da WB estar terminado e arrumado, e isso foi uma viagem incrível por si só. Penso que mencionei no posfácio que eu ganhei o recurso contra a WB numa decisão unânime do Tribunal de Apelação. E o coletivo de três juízes decidiu PUBLICAR a sua decisão, o que não fazem sempre. Porque ter sido uma decisão publicada, originou uma nova lei na Califórnia.

O meu momento favorito neste litígio de recurso ocorreu quando o tribunal ouviu os argumentos orais de ambos os advogados. O cenário era solene. O tribunal era ENORME e apainelado a madeira. O coletivo de três juízes sentava-se num estrado erguido diante de nós. Perguntaram que se alguém tinha alguma coisa a acrescentar – os advogados não eram obrigados a fazer declarações orais, visto que os papéis já tinham sido entregues com os argumentos do recurso escritos e estudados pelos juízes. A minha advogada não fez uma declaração oral, mas o advogado da WB fez. A minha citação favorita do argumento do advogado da WB foi, “Vocês (os juízes) NÃO PODEM fazer isto à Warner Bros!” A WB acima da lei? Os juízes não reagiram bem à admoestação dele.

No final do livro, menciona que já o estava a escrever. E o advogado de Eastwood soube disso e avisou-a de que seria “difamatório”. O que não faz sentido, como afirma, já que ele não sabia o que estava a escrever. Então começou-o quando ainda estava envolvida nesse processo esgotante. Foi por sua iniciativa, alguém o sugeriu ou foi iniciativa do editor?

Ele queria apenas “pescar” para ver se eu admitiria algo – como sempre fez durante o litígio. Ele nada sabia. Pelo que me lembro, não tinha começado a escrever o livro nessa altura. Em todo o caso, recusei-me a assinar formalmente que NÃO escreveria um. Começara a escrever excertos sem saber o que iria fazer com eles. Acabei por usar estes excertos como “proposta” mais tarde apresentada a editores.

Levei primeiro a “proposta” a uma agente literária de topo da William Morris Agency (a minha agência na época, mas também a agência de Clint). Ela disse que não poderia representar o livro devido à ligação da agência a Eastwood. E ainda me aconselhou a NÃO escrever o livro, dizendo, “Sondra, vão-te destruir”. Respondi, “isso eles já fizeram”.

Mais tarde, um amigo leu parte da proposta e disse, “Sondra, escreves muito bem. Um amigo meu é agente literário. Posso mostrar-lhe”. Concordei. Contratei o agente, e foi combinada uma reunião com Henry Ferris, um dos editores de topo da William Morrow, e que mais tarde foi editor do livro de Barack Obama.

Ele gostou da minha proposta. Conhecemo-nos e gostámos um do outro. A William Morrow comprou o livro. Queriam-no lançá-lo no Natal. Tive seis meses para o ter pronto para impressão – com todas as correções, fotos etc. Foi uma experiência e tanto. Escrevê-lo foi praticamente tudo o que fiz naqueles meses. Levantava-me de manhã e ia direta para o meu computador, escrever. Como disse antes, a parte mais difícil foi entrelaçar estas duas partes completamente diferentes da minha vida com dois homens completamente diferentes. Construção, construção, construção… emoção, emoção, emoção. Foi por isso que me guiei. Foi uma época MUITO empolgante criativamente e gostei quase tanto como fazer um filme.

Você e Gordon Anderson gostavam tanto de Tolkien que até se tratavam um ao outro por “Hobbit”. Tolkien foi uma grande influência. Quais os outros livros que leu e que a influenciaram? Ao longo de vida, quero dizer?

Adorei os livros de Tolkien quando os li pela primeira vez. As imagens que dominaram a minha mente foram tão poderosas de nunca podiam ser capatadas num filme, e por isso fiquei dececionada com os filmes, embora ache Peter Jackson um realizador muito bom. AMIZADE SEM LIMITES é um dos meus filmes favoritos.

Não posso dizer que os meus livros favoritos tenham realmente influenciado a minha vida, mas fui “perseguida” por eles. Ao crescer, adorava todos os tipos de livros de contos de fadas. Enquanto adulta, Iris Murdoch é uma das minhas autoras favoritas. The Sea, The Sea foi o primeiro que li e fiquei viciada. Ela tinha uma rara capacidade de misturar reviravoltas com os mais incríveis perfis psicológicos de personagens ricos em textura. Mal conseguia terminar um antes de começar outro. The Black Prince é o meu segundo favorito. Talvez porque sou uma atriz e realizadora tão preocupada com detalhes e caráter. Adoro a profundidade psicológica dos personagens, todas soam verdadeiras e nunca dependem do enredo. Mesmo que as tramas sejam, de si, quase inacreditáveis, ela torna-as credíveis quase magicamente.

Ann Tyler também tem sido uma das minhas escritoras favoritas. As suas protagonistas femininas são coloridas, comoventes e muito realistas.

Adoro Gabriel García Márquez. O realismo mágico é algo que encaro como realismo… e acredito que experimentei na minha própria vida. Acredito nele e adoro explorar outras histórias baseadas nessa crença. Até Toni Morrison, para mim, muitas vezes cai no realismo mágico, e adoro os escritos dela.

Outro lado de mim adora a comédia negra – não importa quão má seja a situação, geralmente há algo de cómico nela, pelo menos acho que sim. Por isso, gosto muito das escrita de J.P. Donleavy. Gostei particularmente de THE ONION EATERS e de THE LADY WHO LIKED CLEAN RESTROOMS. Houve muito em “Lady” com que me pude identificar.

Alguma vez sentiu que revelava a sua alma ou se expôs de mais? Kris Kristofferson disse a Joni Mitchell quando ouviu o álbum Blue, “Meu Deus, Joni, guarda alguma coisa para ti…” Lembrou-me isso, às vezes.

Não pensei nisso quando estava a escrever, mas depois refleti – apenas brevemente. Se não tivesse contado a minha verdade toda, de que serviria? Um conhecido disse-me, “aprendi mais do que queria saber.” Mas tudo bem. Considerei isso um elogio. Outros, que conheceram Clint, disseram que eu tinha sido “demasiado gentil” para com ele. Isso também está bem, já que pretendi pintar retratos de como as coisas estavam a cada ponto do nosso relacionamento – ignorando o que eu SABIA que se seguiria, pondo de parte os sentimentos que desenvolvi a partir das coisas que eventualmente se concretizaram. Quis retratar a felicidade, a tristeza, as expectativas desses momentos, nas alturas em que ocorreram.

No seu livro, diz que, a certa altura, sentiu a necessidade de um realizador mais concentrado do que Eastwood. Queria saber porquê, especificamente. Era a sua técnica “corta, revela”, este modo frequentemente apressado de filmar?

Clint nunca dava realmente direções aos atores, a mim, certamente não dava. Eu estava quase sempre por conta própria. Sempre pensei como as minhas interpretações poderiam ter melhorado se tivesse um realizador que realmente “trabalhasse” comigo. Certamente, o método do Clint de revelar o primeiro ou o segundo take não me dava tempo para “encontrar” toda a textura do momento. Sim, muito apressado.

Em Impacto Súbito, recordo-me de ter comentando com Clint algo acerca da decoração da casa da minha personagem. Achei inadequado para ela, que refletia um tipo diferente de pessoa. A resposta que me deu foi, “se eles (o público) estão a olhar para isso, não estão a seguir o filme.” Para ele, não tinha qualquer importância. Discordo completamente. Para mim – e talvez fosse outro sinal precoce do meu instinto de realizadora, – a qualidade de um filme depende de TODOS os detalhes que se põem no ecrã. Como uma pintura, todos os detalhes contribuem para criar a impressão global. Às vezes, uma coisa funciona subliminarmente, mas acho que tudo é uma sólida e importante parte da experiência.

Na minha opinião, Clint não “realiza” um filme, ele “filma um argumento”. Ele raramente desenvolve ou inicia um guião [talvez nunca]. Compra um script e depois filma-o literalmente. Eu diria que não é tanto realizar, é mais “abranger” o argumento. Com isto, quero dizer que ele “abrange” uma cena com todos os planos necessários para saber o que se passa, mas não expressa uma opinião nem orienta as emoções ou o olhar do público.

Pelo que sei, propuseram a Susan Sarandon o papel principal de Um Agente na Corda Bamba, mas ela questionou o sexo e a violência no script, bem como os maus-tratos infligidos às mulheres. A resposta de Eastwood foi: “Não acho que seja o meu trabalho preocupar-me com isso. Sou um ator.” Ela recusou o papel. Você sugeriu Geneviève Bujold para esse mesmo papel. Alguns atores ainda objetam à atitude dele para com as mulheres nos seus filmes, embora a maioria queira trabalhar com a “lenda”. Quer comentar?

É verdade que propuseram a Susan protagonizar Um Agente na Corda Bamba. Lembro-me que ela recusou pelas razões que refere (o sexo e a violência contra as mulheres). Mas Clint dificilmente era considerado uma lenda nessa altura. Foi ainda durante os anos em que ele era considerado uma estrela de cinema bem-parecida e um produtor comercialmente bem-sucedido, nada mais. Quanto à situação de Susan, acho que lhe teria dito não mesmo que ele FOSSE uma “lenda”. Acho que ela fez boas escolhas na sua carreira e acredito que é uma pessoa íntegra.

De facto, fui eu que sugeri Bujold, por sempre ter adorado o seu trabalho.

De que forma acha que um realizador deve envolver-se na fase de montagem? Marlon Brando disse que um desempenho pode ser transformado em “comida para galinhas” na sala de montagem.

Em certa medida, o processo de montagem é o meu favorito. Posso descontrair e estudar cada nuance sem a pressão da produção. Gosto de sentir os personagens respirar. Não consigo imaginar um realizador que não se envolva em cada momento do processo de edição.

Realizou um telefilme, Death in Small Doses em 1995. Como surgiu este projeto? Ainda estava em tribunal na altura. Tentava seguir em frente? A fase de meados da década de 90 foi um período difícil.

Na verdade, ainda não estava em tribunal. Realizei DEATH no terceiro e último ano do meu contrato com a WB (1993). É claro que DEATH não foi de todo uma produção da WB. Estava tão deprimida por não ter trabalhado nos dois anos anteriores que contratei um novo agente. Ele sugeriu que eu aceitasse um trabalho em televisão, o que me era permitido de acordo com o meu contrato, visto que não exigia exclusividade com a WB. O meu agente descobriu DEATH. Eu estava tão desesperada por voltar ao trabalho que concordei. Dei início ao meu processo judicial no ano seguinte, em 1994, depois de ter ido à WB e implorar que me dessem UM filme. Eles recusaram.

George Dzundza trabalhou consigo em Impulso para Matar (1990), com Eastwood no mesmo ano, e voltou a trabalhar consigo novamente em 1997. Deve ter sido difícil para ele, dadas as circunstâncias. É obviamente um grande ator.

Não sei dizer se foi difícil para George ou não. Foi certamente estranho que Clint o contratasse a ele e a Jeff Fahey debaixo do meu nariz. Como diz, ambos trabalhavam para mim quando ele os contratou para o seu filme seguinte Caçador Branco, Coração Negro. Ele nunca os contratara antes, nem sequer tinha ouvido falar deles, tanto quanto sei.

Foi especialmente estranho já que Clint dissera mal deles ao conversar comigo, quando os originalmente os escolhi para Impulso para Matar. Sobre George disse, “não sei por que o queres num papel de polícia. Ele é gordo!” Sobre Jeff disse, “Por que queres contratar esse ‘menino bonito’?”

O seu último crédito como atriz foi em The Prophet’s Game (2000). Tem boas recordações do filme? Por que aceitou o papel?

Por esta altura, estava muito deprimida, já que a minha carreira parecia totalmente acabada. Sentia-me banida. O realizador David Worth é meu amigo e perguntou-me se podia considerar aceitar o papel como um favor pessoal. Por ambas as razões, concordei. Não foi grande papel realmente, mas teve uma boa cena. Não posso dizer que tenha boas lembranças. Foram tempos muito difíceis e aceitei o papel por razões tristes.

OUR VERY OWN

Na verdade, existe um filme sobre Sondra Locke, escrito e realizado por Cameron Watson e lançado em 2005. É a história de cinco adolescentes de Shelbyville, Tennessee que tentam encontrá-la quando ela regressa à cidade para a estreia local do seu grande filme de Hollywood. Embora não tenha perguntado nada a Sondra Locke sobre isto, a questão surgiu espontaneamente durante a nossa conversa. Achei interessante. São estas as suas impressões:

Fui contactada pelo argumentista e realizador que me pediu para ler o script e dar a minha bênção, o que eu fiz. Senti-me muito orgulhosa por ter sido tamanha inspiração para ele. Ele também cresceu em Shelbyville, Tennessee. Era vários anos mais jovem que eu e ficou muito impressionado com a minha “descoberta” pela WB, já que ele próprio tinha sonhos. Tornei-me na sua inspiração. O filme é sobre ele e seu grupo de amigos que aspiram sair da pequena cidade de Shelbyville para o mundo. A história gira em torno do rumor de que “Sondra Locke” vai regressar a Shelbyville para o Desfile Equestre local. Ele e seus amigos passam o filme inteiro a tentar encontrar-me e ver-me, mas falham sempre. Entretanto, vamos aprendendo tudo sobre as suas vidas e sonhos. É muito doce e encantador.

Estou ciente das tremendas dificuldades do cinema independente. Alguma vez pensou em trabalhar no circuito independente? O que acha dos filmes independentes?

Oh, sem dúvida. DO ME A FAVOR A [ou TRADING FAVORS] do qual falei no meu livro, foi um filme independente feito com menos de um milhão. Houve um outro guião que quis mesmo realizar. Foi-me trazido por amigos, Bill Teitler (produtor) e Nancy Doyne (argumentista). Adorei mesmo a ideia e o argumento, mas não conseguimos arranjar fundos para o fazer.

É uma comédia negra sobre um casal do Sul da Califórnia que vai a uma conselheira matrimonial – quando na verdade não precisam de um, é apenas a “coisa” a fazer. A conselheira acaba por se revelar uma doida e tenta separá-los, acabando por raptar o marido! Muito disparatada e engraçada, mas sombria ao mesmo tempo, e um comentário social a os costumes do Sul da Califórnia.

Gosta de filmes estrangeiros?

Muito. Geralmente prefiro-os aos filmes americanos. Os meus filmes favoritos são estrangeiros ou antigos clássicos de Hollywood. Raramente gosto muito de um filme atual. Os meus dois realizadores favoritos são estrangeiros.

Só para mencionar alguns dos meus filmes favoritos: Adoro ASSIM NASCE UMA ESTRELA de George Cukor. A sequência de abertura no teatro é tão brilhante como qualquer outra cena que já vi. Magnificamente encenada. Outro filme brilhantemente encenado é O QUARTO MANDAMENTO de Orson Welles. A “dança” que a câmara faz com os atores na cena depois da grande festa é de tirar a respiração.

Outros favoritos são o recente DEIXA-ME ENTRAR (indelével), MOULIN ROUGE de John Huston, FANNY E ALEXANDRE de Ingmar Bergman, bem como AMARCORD e AS NOITES DE CABÍRIA. A JANELA INDISCRETA de Hitchcock é absolutamente um dos meus favoritos. Talvez seja o meu favorito de Hitchcock – o cenário, os sons, a realização – o modo como é sempre filmado do ponto de vista de Jimmy Stewart, mantendo alguma distância do assassínio e terror. Muito especial.

AMO LOLITA de Kubrick e A PRIMEIRA NOITE de Mike Nichols. São intemporais.

E a Tua Mãe Também foi um filme que não esqueci.

Tenho de referir um filme de realismo mágico que adoro, La mitad del cielo. E não posso deixar de fora BIUTIFUL realizado pelo brilhante Iñárritu e protagonizado pelo talentoso Bardem.

A BELA E O MONSTRO de Cocteau é outro dos meus filmes favoritos nesta categoria. Gostei mais do Monstro que do Príncipe em que se tornou! O Monstro parece ter muito mais alma!

Não posso completar uma lista sem o filme que foi a banda sonora da minha vida O MAIOR ESPECTÁCULO DO MUNDO de Cecil B. DeMille. Começou na infância, quando eu vi esta pura magia do circo no ecrã e seguiu-me através de símbolos e sincronicidades em toda a minha vida.

Há alguém que a tenha influenciado como realizadora? Quais são os seus favoritos?

Provavelmente o meu realizador favorito mais constante é Krzysztof Kieslowski. AMEI tudo o que vi dele. A sua capacidade de contar uma história classicamente, de empregar os pormenores para entrar nas personagens é brilhante. Ele nunca se inibe ou é pretensioso, é sempre emocionalmente envolvente. Parece saber o lugar exato onde colocar a câmara, e a montagem é impecável. Os meus favoritos são TRÊS CORES: VERMELHO (sobre as sincronicidades que podem orientar a vida, claro) e o seu DECÁLOGO. Naturalmente, também adoro A DUPLA VIDA DE VERONIQUE.

Talvez meu segundo favorito seja Alejandro Iñárritu. Os seus filmes BIUTIFUL, BABEL e 21 GRAMAS são deslumbrantes e inesquecíveis. (Dava “os olhos da cara”, como se diz, para trabalhar com ele. A minha outra escolha de realizador com quem gostaria de trabalhar seria Kieslowski, mas tristemente faleceu.)

Outro favorito é Max Ophüls. Os meus filmes favoritos dele são LOLA MONTES, MADAME DE…, A CILADA DA AMBIÇÃO e CARTA DE UMA DESCONHECIDA.

Os meus realizadores americanos favoritos em atividade são os Irmãos Coen. FARGO é pura e simplesmente brilhante – meu preferido entre os seus filmes.

Sou grande fã de John Schlesinger. O COWBOY DA MEIA-NOITE, DARLING e O HOMEM DA MARATONA são os meus favoritos.

Ao ler o seu livro, às vezes, é realmente como a expressão Lock(e) and load. Há alguns nomes poderosos no livro que saem dele na lama. Deve ter sido um grande risco… não é gratuito, fazem parte da “história”. Eles reagiram?

Ninguém me disse nada na cara, mas, quando o livro saiu, eu já tinha praticamente cortado essas relações, ou certamente entendia as suas limitações e já não me importava com o que eles pensavam. Como muito em Hollywood, nunca foram “reais” no começo.

Como reagiram os leitores e críticos na época em que foi publicado?

Descrevi parte do que aconteceu com a crítica. De modo geral, recebi algumas boas críticas, incluindo algumas que foram ‘retiradas’. Os leitores deram-me um apoio surpreendente. Recebi muitas cartas a agradecer-me e a elogiar a qualidade da escrita, muitos deles postaram ótimos comentários no website da Amazon.

Outra parte muito importante do livro reside nos “presságios”, o seu interesse pela sincronicidade, a filosofia de Jung e as capacidades de médium de Gordon Anderson. Estes episódios ainda acontecem? Pode referir alguns mais recentes?

Sim, prosseguem. Gostaria de partilhar algo. Só que é muito difícil extrair um “fio da história”. O significado é difuso sem o contexto da tapeçaria completa da qual é retirado o ‘fio da história’. Condensar estas experiências foi extremamente difícil no meu livro, THE GOOD, THE BAD & THE VERY UGLY, mas sabia que precisava de tentar. Era, antes de tudo, difícil de explicar e difícil de enredar nas minhas experiências muito diferentes com Clint. E, em segundo lugar, eu não queria soar ‘New Age’ porque está longe disso. Ao contrário da ‘New Age’ baseia-se em factos – existe documentação verídica desses acontecimentos. São reais e podem ser provados.

Como vê este mundo orientado para a imagem e superficial em que vivemos hoje? Parece piorar a cada hora que passa…

Esforço-me por não ficar deprimida com isso. Parece que, quanto mais rápido nos movemos e mais instantânea é a comunicação, menos “sentimos”. Já há pouco espaço para pensamentos profundos. Tudo se foca num curto adágio. Saltamos de uma coisa para outra sem compreender. Em geral, o nível de inteligência parece estar a decair.

Já me indaguei se estes meus pensamentos são produto da minha idade, mas não acredito que sejam de todo. Será resultado da comunicação de hoje, que nos alimenta informação em demasia para que nos possamos manter a par? Acredito é que estamos a transformar a nossa sociedade numa semelhante à do filme MATRIX, uma sociedade que nos suga a humanidade.

Gordon Anderson ainda está ativo criativamente? Ele parece muito interessado no mundo que o rodeia, tem tanto talento. O que tem feito ele?

Está sempre a criar alguma coisa, mas há anos que está sobrecarregado com os fenómenos místicos que permeiam a sua vida. É um fardo pesado. Devia ser escrito um livro. Infelizmente é algo de tão detalhado, tão pessoal, tão bizantino e matizado, que apenas ele o poderia escrever apropriadamente. Tive um problema semelhante com o meu próprio livro. Sabia que, se tivesse de ser escrito, tinha de ser eu a escrevê-lo. Os aspetos que importavam, a jornada emocional nunca poderia ser capturada por uma terceira pessoa. A ironia é que, já que as experiências de Gordon são tão viscerais e esgotantes, ele é incapaz de experimentar tudo e, ao mesmo tempo, escrever sobre isso.

O seu interesse no “mundo em redor” não mudou. Embora ele viva muito como um monge, no sentido em que não sai para o mundo (a sua casa é a sua gruta de monge), está constantemente imerso nele. Os seus dias são preenchidos com pesquisas de computador sobre imensos tópicos.

Noto que muitas pessoas gostavam de saber o que tem feito, desejam que ainda estivesse ativa. Houve um documentário, Eastwood on Eastwood de Richard Schickel, onde ele tirou clips dos seis filmes que fizeram juntos, e você “desapareceu” – a montagem faz maravilhas – embora, obviamente, esteja nas cenas. John Hartl do Seattle Times disse: “Clips dos filmes de Locke/Eastwood foram editados com tanto cuidado que ela não parece ter aparecido em nenhum deles. É como fazer um documentário sobre Humphrey Bogart e esquecermo-nos de mencionar Lauren Bacall.” Isto é totalmente ridículo. Não acha que algumas pessoas só se tornam anedóticas ao tentar impor uma imagem distorcida ao público… Provocariam mais empatia se apenas pusessem isto para trás das costas.

Sim, soube disso. Não me surpreendeu. É um exemplo de mesquinhez que é Clint. Nunca há uma situação em que todos ganham, para ele. Só ele vence e todos perdem – isso é, se o desafiarem como eu fiz. Ao longo de nossa separação, ele podia ter resolvido as coisas facilmente. No início, só lhe pedi a minha casa em Bel Air, que passei três anos a renovar, na estrutura e mobiliário, e que ele me dissera que era minha… e para me ajudar a voltar ao trabalho, ou, pelo menos, que me deixasse trabalhar sem interferências. Ele recusou e, portanto, obrigou-me a subir a guerra de tom. Finalmente cansada, exausta e deprimida, propus desistir da minha casa em troca do acordo da WB para realizar – só para poder trabalhar e continuar a minha vida, já que, nessa altura, diagnosticaram-me cancro. Mas ele arranjou um negócio fraudulento em vez de um acordo REAL e fácil. Parecia que me queria esmagar sem motivo, exceto por eu não ter desaparecido quando ele queria. Em vez disso, tive a audácia de esperar um tratamento justo e promessas mantidas. O negócio fraudulento obrigou-me a processá-lo novamente – aumentando ainda mais o teor da batalha. A mesquinhez dele é extraordinária. Lembra-me o velho ditado: Cortar o próprio nariz para humilhar a cara dos outros.

O que “tenho feito” é simplesmente tentado viver uma vida normal e apreciá-la. Muitas vezes preocupo-me demasiado sobre a “fazer” alguma coisa, “conquistar” alguma coisa. Estou a aprender a viver sem essa censuras interiores. Acho que simplesmente viver e aproveitar a vida é a maior realização. Uma vez, quis fazer um documentário sobre “felicidade”. O que faz alguém feliz. Quando olhava em meu redor, na vida, reparava que as pessoas menos prováveis eram felizes. Nunca eram as pessoas com muito dinheiro ou muitas “realizações” e prémios. Mais vezes, eram as pessoas que apreciavam os “pequenos prazeres”.

No que toca ao trabalho, acho que já falei disso nesta entrevista. Sinto-me inacabada, mas também não ando atrás de nada. Estou reconciliada com o facto de que provavelmente não trabalharei mais, mas, se o fizer, será algo que terá de “acontecer naturalmente”.

Realmente não consigo entender por que alguém se dá a tanto trabalho quando já se é um “mito” e todas essas coisas; ir a este ponto incrível para calar alguém. É como a velha frase de Nathaniel Hawthorne: “nenhum homem, por um período considerável, pode mostrar um rosto para si mesmo e outro para a multidão, sem finalmente ficar confuso quanto a qual é verdadeiro.”

Novamente, é a mente mesquinha e a crença de que ele tem de ganhar cada confronto, sem se importar com o que é certo ou justo. Acredito que Clint sabe quem é; só que não gosta de quem é. Acredito que Clint me amou tanto quanto quanto é capaz de amar e, nos primeiros 8 anos ou perto disso, quis realmente SER o homem que ele sabia que eu vi nele. Acho que ele se esforçou muito, mas eventualmente a natureza de uma pessoa não pode mudar.

Clint Eastwood surge de uma forma completamente diferente da sua imagem pública no livro. Uma pergunta que quem não leu pode fazer: Podem pensar, “Sondra Locke não tem quaisquer falhas pessoais”, “o nosso simpático herói”, esse tipo de coisa, por parte de pessoas que querem apenas a imagem. Quais consideraria os seus defeitos pessoais? (Às vezes, parece que estava tão ocupada com problemas que não tinha muito “tempo” para ter “defeitos”. Estava ocupada a viver.)

Tenho muitos defeitos, e um dos grandes é pensar de mais nos sentimentos da outra pessoa e não o suficiente nos meus. Devido a isso, tento agradar em demasia. Odeio conflitos, pelo que os evito até ser quase tarde de mais, e então travo a batalha de uma vida. Preocupo-me imenso com as coisas. Até certo ponto, superei este defeito, pois aprendi que as coisas com que nos preocupamos, raramente são as que realmente acontecem. São sempre coisas que nunca pensámos que iriam ou podiam acontecer – como o que Clint fez. Também não havia historial de cancro da mama na minha família, portanto não me preocupava com isso e, é claro, aconteceu-me.

Muitas vezes é difícil para mim ver o “copo meio cheio” ao invés de meio vazio. Descobri que as experiências místicas e as sincronicidades me exaltam o estado de espírito, dando-me paz e otimismo. Na sua ausência, por vezes, posso ficar em baixo facilmente. Sou melancólica por natureza. Mas tenho um forte rasgo de otimismo também. Talvez eu seja uma contradição.

Tenho tendência a ser demasiado reservada. Não é por não confiar, ou por ter ficado cansada ou excessivamente crítica devido a tudo o que aconteceu. É apenas a minha maneira de ser, querer poucas pessoas na minha vida, mas muitas vezes isso leva a uma vida menos rica em experiência.

Mas, no todo, estou feliz comigo mesma. Acho que enfrentei os desafios que me foram infligidos com uma atitude tão positiva como outra pessoa qualquer. Lembro-me do meu álbum do liceu – o livro publicado anualmente sobre os estudantes do ensino liceal. Pede-se aos estudantes seniores que revelem as suas “ambições”. A minha foi “aceitar as desilusões com um sorriso.” É um pouco devastador que aquela rapariga de 17 anos estivesse a pensar em “desilusões.” Talvez seja esse o meu maior defeito – tenho tendência a esperar demasiado de mim.

David Furtado

Um agradecimento especial a Sondra Locke

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