Dire Straits – Love Over Gold: Ouro sobre azul

dire straits love over gold knopfler (16)No quarto álbum dos Dire Straits, Mark Knopfler decidiu correr mais riscos. Produziu ele próprio, ignorou regras e o aspeto comercial: Apenas cinco canções, e nenhuma delas é o que se esperaria de um single. Prosseguindo a história do grupo e do seu mastermind, exploro as inspirações dos temas, a saída de Pick Withers, o modo como Knopfler ajudou a relançar a carreira de Tina Turner, além do mau ambiente durante as sessões de Infidels através do testemunho exclusivo de Mick Taylor. E o grande triunfo que foi Alchemy. No centro de Love Over Gold parece estar um personagem dividido entre o mundo material e o sentimental. Knopfler também estava, e as suas preocupações existenciais são indissociáveis do álbum, a começar pelo título. Talvez não seja coincidência que o primeiro álbum a solo de Mark, em 1996, se tenha chamado Golden Heart. Mas este, em 1982, foi definitivamente o seu primeiro “disco a solo”, não assumido.

Em janeiro de 1982, Mark reuniu o grupo, uma vez que o trabalho na banda sonora de Local Hero sofreu os atrasos inerentes ao negócio do cinema. Nos estúdios Wood Wharf, em Greenwich, onde Kate Bush e muitos outros músicos trabalharam, teve início a preparação de Love Over Gold. «Telegraph Road» já fora tocado ao vivo, e Mark, numa fase prolífica, tinha 20 novas canções e planeava gravar um álbum duplo, ideia que não agradou ao manager Ed Bicknell: “Por vezes, temos de encarar as coisas de modo comercial e não só musical. Um álbum duplo seria difícil. Causaria problemas enormes com as editoras e o seu preço complicaria as vendas.”

Love Over Gold é importante por vários motivos: Knopfler optou por não seguir regras a nível de composição, gravação ou promoção. Já que ninguém o podia contradizer no plano artístico, seguiu o instinto.

“Sou extremamente sortudo”, disse. “A situação em que me encontro é aquela que sempre quis. Faço parte da percentagem de um por cento dos verdadeiramente afortunados, e sinto-me muito grato.”

As secções instrumentais são longas, por vezes, deambulam, os arranjos são forçados, quase mecânicos. Por outro lado, é o trabalho mais experimental dos Dire Straits, explorando novas sonoridades e instrumentos. Knopfler continuava a evoluir, e até a rejeitar com veemência a armadilha fácil de se imitar a si próprio, o que é louvável, embora o disco soe, por vezes, pouco espontâneo. Um exemplo é a falta de groove no final de «It Never Rains», três minutos de guitarra com wha wha; quase uma jam-session em que os músicos parecem ausentes e desinspirados.

LIVROS, FILMES E MÚSICA

O modo orquestral como Mark Knopfler compôs e idealizou as canções de Love Over Gold tornam quase impossível destrinçar a experiência pessoal da observação. Duas músicas são, aparentemente, sobre o famigerado romance com Holly Beth Vincent, «It Never Rains» e o tema-título. Se, em «Romeo and Juliet», havia um romântico incurável, aqui há um observador lacónico, trocista e hostil: “Nunca quiseste saber de quem engataste e deixaste a sangrar no chão. Lixaste as pessoas ao subir, porque pensavas que nunca irias descer.” Mark afirmou que «It Never Rains» começou por ser um “gatafunho” e não se relaciona com nada de específico, mas é difícil que isso cole…

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«Telegraph Road», um épico sobre a edificação dos Estados Unidos, contraposta ao ímpeto dos sonhos de um indivíduo, dura 14 minutos e fora composta ao piano por Mark, essencialmente em soundchecks durante a tournée anterior. Foi inspirada por uma rua de Detroit que o grupo visitou durante a segunda (e infeliz) tournée americana de 1979. No lado a do LP, só havia outro tema, «Private Investigations», de sete minutos. Os DJ’s da rádio tiveram de se adaptar ao formato.

A origem de «Telegraph Road» é descrita por Mark Knopfler como uma “conjunção de circunstâncias”. “Eu estava ali, sentado no autocarro, e aquela estrada parecia interminável. A indústria automóvel atravessava um mau momento. Andava a ler Growth of the Soil, e a canção combina o livro com o local onde me encontrava.”

A obra mencionada por Knopfler é da autoria do escritor norueguês Knut Hamsun, e valeu-lhe o Nobel da Literatura em 1920. Possui traços em comum com a letra de «Telegraph Road». W.W. Worster, descreveu o teor do livro: “É a história da vida de um homem nas terras bravias, da génese e desenvolvimento gradual de uma propriedade, da união da humanidade nos terrenos despovoados que ainda existem nas terras altas da Noruega. É um épico da Terra, a história de um microcosmos. A nota dominante é de força paciente e simplicidade. O livro contrasta o trabalho árduo do Homem e a aliança entre Homem e Natureza, confiando nela e na subsistência que lhe concede, se for digno disso.”

Mas o que mais terá interessado a Knopfler, e tal encontra-se bem explícito em «Telegraph Road», é o seguinte conceito, ainda citando Worster: “O homem moderno apenas enfrenta a Natureza por procuração, através de outros ou para outros, e perde-se a intimidade. Nas terras selvagens, o contacto é direto e imediato.”

Mark entrelaçou duas paixões, o cinema e a literatura. As bandas sonoras eram uma motivação, nesta fase, pelo que «Telegraph Road» se desenrola como um filme. Knopfler regressaria inúmeras vezes aos livros para se inspirar; «Sailing to Philadephia», por exemplo, foi despoletado por Mason & Dixon, de Thomas Pynchon. Outro caso foi o de «Heavy Fuel», em que Mark se baseou parcialmente em Money: A Suicide Note, romance escrito em 1984 por Martin Amis. «Song for Sonny Liston» foi outro caso, que, desta vez, teve como referência uma biografia do pugilista, escrita por Nick Tosches.

Curiosamente, quase 20 anos depois, (já após On Every Street), Knopfler chamaria a «Telegraph Road» “velhos disparates sem qualquer vida”:

“Julgo que estava a experimentar com a forma e a duração nessas canções. Ainda as tocamos ao vivo, mas de certeza que não faria nada de semelhante agora. Já não componho coisas dessas. A minha música preferida é simples, básica e sem rodeios, pequenas canções, se quiser. Na verdade, não sei como dei por mim a fazer aquelas coisas!”

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“Estou creditado como produtor em Love Over Gold, mas isso é um termo muito vago”, acrescentou o guitarrista. “Por vezes, um grupo produz-se a si mesmo, ainda que lá esteja escrito o nome doutra pessoa. O termo é muito flexível e depende de quem está a gravar. Há alturas em que o produtor apenas supervisiona a entrada e saída de pessoas, outras vezes, é uma função administrativa em que se assina os impressos dos músicos contratados. Normalmente, acho que é uma cooperação entre o artista e o produtor, em que o produtor tem um ponto de vista externo sobre o disco.”

mark-knopfler-schecter-love-over-gold«Private Investigations» é outro exemplo das influências literárias de Mark. Recorda a atmosfera dos film noir dos anos 40 e 50, musicalmente desenvolvida a partir das versões ao vivo de «News», canção de Communiqué, em que o ritmo pulsante da bateria era mais acentuado no final.

“Julgo que é, em parte, sobre escrever canções. Foi despoletada por algo que li sobre Philip Marlowe [o detetive ficcional de Raymond Chandler]. Em essência ele está do lado do bem, mas, em termos genéricos, em conflito com isso e a tentar fazer algo de positivo num ambiente extremamente amargo. O mundo de Chandler era Los Angeles, que sempre foi mais ou menos sombrio.”

Knopfler prossegue a sua reflexão sobre «Private Investigations»: “A canção é um pouco irónica, sob uma capa de seriedade. É divertida. Há diversas interpretações, mas, para mim, é um filme deliberado. Uma banda sonora em ponto pequeno, na verdade. Não a acho nada de especial. Foi o que eu tinha à mão, não pretende mistificar as pessoas. Eu tinha uma melodia de um filme num estilo italiano. [Knopfler alude a «A Fistful of Ice Cream» de Comfort and Joy.] Tocava guitarras acústicas porque não estava a trabalhar com o grupo, na altura. E preparava-me para um trabalho para o cinema, portanto, andava a fazer esse tipo de coisas, de qualquer maneira. Tinha outra peça instrumental e eram ambas no mesmo tom [Mi menor]. Simplesmente se conjugaram bem.”

ENTRE O MUNDO PESSOAL E O MATERIAL

«Industrial Disease», embora foque a maquinaria social onde os homens são minúsculas peças numa engrenagem que os tritura e os torna amargurados, poder-se-ia aplicar aos dias de hoje, em que a crise condiciona (quase) tudo e todos. Mark, que, na infância e juventude era conhecido por fazer imitações divertidas, emprega aqui algum desse humor na parte em que surge o ficcional Dr. Parkinson, em cujo consultório os pacientes entram e saem com grande rapidez, estonteados e de receita na mão, depois de lhes dizerem que estão deprimidos. E o “doutor” proclama, “mandem entrar outra vítima da doença industrial!” O som fanhoso da guitarra Erlewine Automatic, alcunhada “The Pig” por Knopfler, torna a faixa mais descontraída.

Love Over Gold foi criticado por David Fricke, da Rolling Stone, publicação que o incluiu entre os 40 melhores álbuns de 1982. O jornalista escreveu: “Love Over Gold é um disco ambicioso, por vezes, difícil, entusiasmante nos seus sucessos e fascinante nas suas indulgências. Duas atmosferas drasticamente diferentes predominam: o acutilante e o feroz, e o doce e sedutor. Tal como sucedeu nos álbuns anteriores da banda, a guitarra inconfundível de Mark Knopfler sobressai.” Fricke ressalvou que o disco era “um desafio quase suicida ao bom senso comercial”.

Terry Williams, Alan Clark, Mark, Hal Lindes e John Illsley.
Terry Williams, Alan Clark, Mark, Hal Lindes e John Illsley.

Objetivamente falando, alguém que conjugou o sucesso comercial com o artístico não pode ser consensual. Chega a ser o alvo mais fácil. Na faceta musical, Mark era e é irrepreensível, a nível privado, muitas vezes não foi uma pessoa “adorada”. Certa vez, afirmou, “tenho ideias muito concretas sobre o que quero fazer na minha vida. Mas, se conseguimos planear as coisas com um dia de antecedência, já é uma sorte”.

Numa canção, referindo-se ao criador da McDonald’s, referiu que “por vezes, tem de se ser um filho da mãe para tornar um sonho em realidade”. Sem comparar a agressividade negocial sem freios de Ray Kroc à postura de Knopfler, pode-se dizer que uma grande dose de persistência e decisões difíceis integram o jogo. O que seria dos Dire Straits se Mark tivesse permitido o input de David Knopfler? O que seria da carreira de Mark? Já teria perdido o rumo há décadas.

Como referiu um observador, Mark sofria bastante, pois a maioria das pessoas com quem se cruzava não possuíam o seu génio e visão, e era muitas vezes considerado o mau da fita e, sem fugir ao nefasto termo, o “ditador”.

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Quando se encontrava a trabalhar em Love Over Gold com o engenheiro de som Neil Dorfsman nos Power Station Studios de Nova Iorque, Mark recebeu a visita de Bob Dylan, que convidou o líder dos Straits para produzir o seu disco seguinte. A 22 de fevereiro de 1998, entrevistei Mick Taylor, que, em tempos integrou os Rolling Stones. Taylor foi escolhido por Bob Dylan para tocar em Infidels, álbum que Knopfler produziu em 1983. O guitarrista não foi a primeira escolha de Mark, que preferia Billy Gibbons dos ZZ Top. “Temos de respeitar a opinião dos outros”, disse Mark Knopfler acidamente. Portanto, perguntei a Taylor como tinha sido trabalhar com dois grandes egos, Knopfler e Dylan:

“Ele foi dispensado quando o disco estava quase pronto. Não gostei da maneira de trabalhar dele. Não me entendi com ele, é um autêntico ditador, arrogante. Tentava dizer a toda a gente o que tocar. Penso que subestimou o Bob, dizia-nos, nas costas dele, que Dylan não sabia o que estava a fazer. Tomei isso como um insulto, não em relação a mim, pessoalmente, mas a alguém como Bob Dylan. Mas Knopfler é um excelente produtor.”

A colaboração entre Mick Taylor e Mark Knopfler foi pontual, mas não foi esse o caso de Pick Withers, que bateu com a porta, literalmente farto de Mark, musical e socialmente.

Entre março e setembro de 1982, Mark Knopfler esteve no estúdio, gravando a sua primeira banda sonora para Local Hero em simultâneo com Love Over Gold. Terminadas as gravações, a 23 de junho, Pick Withers abandona os Straits, cinco anos depois de ter colaborado na célebre demo em Pathway.

PICK WITHERS: EXIT

dire straits love over gold knopfler (19)A partir da saída de David Knopfler, os Dire Straits já não eram um grupo. Ao baterista Pick Withers também não era permitido input criativo na música. Farto de que lhe dissessem o que tocar, fez o trabalho e virou costas. O produtor da banda inglesa Sniff ‘n’ the Tears, Luigi Salvoni comenta que o desentendimento entre Knopfler e Withers se deu devido aos arranjos. “Falei com Pick sobre isso. Mark sabia realmente o que queria. Eu não lhe estava a dizer, ‘foste um tolo’, pois também me desentendi com muitos grupos. Mas penso que eles não negligenciaram Pick. Não lhe deram muito dinheiro, mas recebeu royalties.”

A 14 de outubro de 1986, o jornal Today publicou uma reportagem sobre “o lado negro do rock”, dividindo o tema em duas partes: uma dizia respeito aos Status Quo, a outra era uma entrevista com Withers, em que este explicou publicamente, pela primeira vez, os motivos que tinham provocado a sua saída dos Dire Straits.

Pick e John Illsley estavam saturados de meses de conflitos de ego entre Mark Knopfler e David, uma batalha entre irmãos que os excluía. “Começa tudo muito amigavelmente quando estamos todos sentados em estúdios por não termos nada a perder”, disse o baixista John Illsley. “Quando começamos a obter sucesso, as pessoas desatam aos berros. O importante é que, do quarteto original, apenas dois tinham o instinto musical para sobreviver – Mark e eu. Descobrimos que, de um momento para o outro, havia mais em jogo e estávamos sob grande pressão para nos tornarmos ainda mais bem-sucedidos.”

A discrepância de personalidades entre os quatro começou a vir à superfície na época em que deixaram de tocar em pubs e enfrentaram plateias de 3.000 pessoas ou mais. David tinha as suas próprias composições, que queria tocar, mas Pick achava que não eram compatíveis com o material de Mark. Uma coisa era o monopólio musical do guitarrista, outra era a sua personalidade “intolerante”.

“Uma pessoa que nunca admite estar errada não é o tipo de pessoa com quem quero passar o meu tempo”, frisou Pick Withers.

O baterista recordou conferências de imprensa em que os jornalistas perguntavam a Mark como tinha sido tocar no disco de Bob Dylan, Slow Train Coming, deixando de fora o resto do grupo. A imprensa não sabia, nem queria saber, aparentemente, que Pick Withers também tocara nesse álbum. Outro aspeto que cansava o baterista era a obrigação de socializar com executivos de editoras no estrangeiro:

“Não só tínhamos de tocar, como também tínhamos de apertar a mão a um rol interminável de gente que nunca víramos e nunca mais iríamos ver. O problema é esse. Quanto mais sucesso conquistamos, mais se espera que adotemos uma pose. De repente, os nossos espetáculos deixaram de ser eventos espontâneos, tornaram-se coreografados – um show de posturas e gestos ocos.”

John Illsley e Pick Withers numa conferência de imprensa, pouco antes deste abandonar os Straits.
John Illsley e Pick Withers numa conferência de imprensa, pouco antes deste abandonar os Straits.

Depois da primeira digressão na Austrália, a insatisfação de Pick aprofundou-se. Pouco depois, o músico, que sempre fora uma espécie de outsider no grupo, abandonou o barco. A sua vida privada estava a sofrer os efeitos de passar tanto tempo longe de casa. Tinha uma esposa e um filho. Withers também não apreciava digressões.

“Se ficasse nos Dire Straits, seria várias vezes milionário, por agora, mas não sei que tipo de pessoa seria.”

O manager Ed Bicknell, como faz parte do seu papel, procurou envernizar a situação, por meio de declarações onde se deteta alguma sonsice e manipulação/deformação profissional: “Não soubemos realmente por que Pick saiu. (!) Acho que foi uma conjunção de fatores. Já se sabia que não gostava de digressões. Enquanto se gravava Love Over Gold, meteu na cabeça certas coisas nas quais não encontro grande fundamento. Por exemplo, dizia que a bateria já não desempenhava um papel importante nos Dire Straits. Outra coisa que me disse foi, ‘se não puder ir tocar bateria com os Weather Report, deixo o grupo’.” OK, Bicknell. Para quem viria a tocar uma bateria indistinta com os The Notting Hillbillies, damos um desconto.

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A única relação a sobreviver a estas crises foi a que unia Knopfler e Illsley. A partir de então, Mark passou a ter a liberdade para contratar e despedir músicos de acordo com as suas motivações, pagando-lhes para aparecerem em palco e tocarem exatamente o que ele pretendia. Mas Illsley, o eterno acólito, tinha de vir declarar desnecessariamente: “Gosto de ser bem-sucedido, não falo só sobre dinheiro, mas da ideia do sucesso. E, se não consegues viver com isso, tens de sair. Foi o que aconteceu a David e a Pick.” 20 anos depois, Illsley diria que tocou com alguns dos melhores bateristas do mundo, mas, sobre Pick Withers, comentou com alguma frieza: “Nos primeiros tempos, ele era muito bom.” Muito melhor tecnicamente do que Illsley no baixo, mas adiante.

dire straits love over gold knopflerTINA TURNER 

No meio destas tensões, houve vários pontos positivos e inesperados. Em 1966, quando andava na escola, Mark Knopfler ficara surpreendido com uma cantora americana, a vocalista de «River Deep, Mountain High», música que o eletrizara. Tina Turner, devido a problemas que não vêm ao caso, teria uma carreira atribulada. Em 1979, nem sequer possuía um contrato discográfico. Foi quando conheceu o jovem promotor australiano Roger Davies, que se tornou seu manager.

Em 1983, a cantora regressou com «Let’s Stay Together», de Al Green, o seu primeiro êxito em 10 anos. Em 1984, Davies precisava de canções para o novo álbum de Tina e conseguiu que um guitarrista britânico compusesse «What’s Love Got To Do With It». Como ainda precisava de mais material, telefonou ao seu colega Ed Bicknell, que lhe ofereceu «Steel Claw», tema escrito por Paul Brady. Então, o manager dos Straits lembrou-se que tinha ficado uma música de fora, durante as sessões de Love Over Gold. O tema nem sequer tinha vocal, pois Mark achara que a letra exigia uma vocalista. 

Roger Davies contactou Mark Knopfler:

“Ele desencantou uma letra escrita num papel amarfanhado e, no dia antes de partir para Nova Iorque, esteve nos Air Studios e gravou o vocal para esse tema, para nos dar a melodia. Eu queria usar essa versão, adicionando a voz de Tina, mas obter permissão da editora dos Dire Straits seria demasiado complicado. Portanto, Mark ofereceu-se para me deixar usar o grupo para regravarmos a canção, o que também se aplicou a «Steel Claw», já que alguns deles a tinham tocado com Paul Brady antes. Fantástico: Mais duas canções e uma banda, ainda por cima.”

«Private Dancer» tornou-se no tema-título do álbum de Tina Turner, disco que vendeu 20 milhões de cópias. Nos primeiros dois meses, nos EUA, as cópias saiam das lojas em catadupa, ao ritmo de 250 mil por semana: O maior sucesso da carreira de Turner. A cantora comentou assim a composição de Knopfler:

“Alguém me perguntou, ‘por que escolheu a denominação private dancer? É uma canção sobre uma prostituta. É por ter sido prostituta?’ Fiquei chocada. Isto porque, no início da minha carreira, cantei em festas privadas para gente rica em Dallas, festas de aniversário, e chamava a isso uma performance privada, e dançar em privado era parecido com esse tipo de coisa, portanto, não encarei a personagem da canção como prostituta. Mas depois, disse, ‘ah, bom…’ Consigo ser ingénua em relação a algumas destas coisas. Mas, na verdade, a resposta é ‘não’.”

“Aceitei-a por a achar uma canção invulgar. Nunca tinha cantado uma assim. Oxalá pudessem ouvir a versão de Mark. Ele tem uma pronúncia muito britânica, e ficou realmente belo, soava muito artístico. Mas Mark opôs-se a isso, eu adicionei o velho toque soul e assim ficou.”

Outro tema excluído de Love Over Gold foi «Badges, Posters, Stickers and T-Shirts», um comentário irónico ao merchandising, mais tarde lançado como lado b do single «Private Investigations». «The Way It Always Starts» foi gravado nas sessões, mas integrou a banda sonora de Local Hero, cantada por Gerry Rafferty.

“ELE NÃO REPRESENTA A SUA PROFISSÃO”

A digressão mundial de Love Over Gold começou em finais de 1982 e durou oito meses. No final desta maratona, a 22 e 23 de julho de 1983, dois concertos foram gravados no Hammersmith Odeon, a histórica sala londrina por onde passaram inúmeras lendas da música, desde Eric Clapton aos Beatles. A gravação originaria o álbum duplo ao vivo, Alchemy, termo que levou mais longe o conceito de mente e matéria, ou de valores pessoais em confronto com os materiais. Sugestivamente, a capa foi adaptada de um quadro (um painel, mais concretamente) de Brett Whiteley intitulado Alchemy 1974, pintado entre 1972 e 1973, uma coincidência temporal curiosa: 10 anos antes.

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O público e a crítica renderam-se. Ainda hoje, Alchemy é justificadamente considerado um dos pontos altos da carreira dos Dire Straits. Um ponto baixo é a bateria espalhafatosa de Terry Williams, que parece estar em todo o lado, a toda a hora: A contenção e elegância não são o seu forte. O teclista Tommy Mandel foi relegado para terceiro plano.

O Globe and Mail de Toronto descreveu desta forma a genialidade de Knopfler:

“Ele é o atual campeão no título de guitarrista mais elegante, e aqui expande os seus horizontes como nunca. O verdito é indisputável; ele simplesmente não sabe acertar com os dedos em más notas e a arquitetura dos seus solos torna os trabalho dos chamados guitar heroes embaraçoso quando o comparamos ao deles.”

Knopfler sabia que os fãs dos Straits pretendiam um concerto filmado sem pretensiosismos e floreados desnecessários.

As notas em staccato de «Sultans of Swing», por exemplo, ainda hoje desafiam uma notação musical precisa. A Stratocaster (embora Mark use Schecters) é, já de si, uma guitarra de precisão, e é realmente inigualável a destreza deste alquimista, transformando o aço das cordas em ouro.

No final, com o tema de Local Hero, há um golpe teatral: os roadies entram em palco e começam apressadamente a desmontar o equipamento. Knopfler explicou a encenação:

“Um concerto pode ser uma experiência muito poderosa. No passado, reparei que as pessoas podem alcançar tamanho entusiasmo que saem do espetáculo com a energia ainda a fervilhar e sem sítio onde a focalizarem. Decidimos, propositadamente, despoletar esse poder e deixar que as pessoas fossem embora de modo mais gentil.”

Richard Williams entrevistou Knopfler para o The Times quando o vídeo foi lançado, em 1984: “Com um comportamento reservado e pensativo, de aspeto sóbrio, ele não representa a sua profissão e parece não ter mudado após vários anos de aplausos, adulação e reuniões com contabilistas. A explicação que dá para o sucesso do grupo é transmitida com ponderação e uma agradável ausência de falsas modéstias.”

Knopfler expressou:

“De algum modo, as pessoas entendem que o que fazemos é honesto e engenhoso. Percebem que ninguém anda por aí a tentar ganhar um balúrdio num piscar de olhos.”

A consensualidade das críticas e o apreço dos fãs coincidiram com a estabilidade pessoal do guitarrista. A 10 de novembro de 1984, casou com a sua namorada americana, com quem já vivia há quatro anos. Mark Freuder Knopfler e Lourdes Bernadette Salomone formalizaram a união na Conservatória do Registo Civil de Kensington e Chelsea. Ambos já tinham sido casados. A noiva tinha 31 anos, e o noivo, 34.

Na receção que se seguiu, uma das convidadas, Susan Ellery, amiga de um amigo, recorda que “Hal, o tipo alto e loiro da banda estava lá”, assim como o pai de Knopfler. O ambiente, apesar da presença de algumas celebridades, foi informal. Quando deu por isso, a anónima Ellery estava a trocar impressões sobre a salada com Joan Armatrading, sem a reconhecer.

Mark Knopfler diversificava as suas atividades. O intercâmbio com outros músicos intensificou-se. Os convites não paravam, e Knopfler trabalhou com Lee Fardon e os Aztec Camera, no cargo de produtor. Se fossem heróis pessoais seus, tanto melhor: Van Morrison, Phil Everly, Kate e Anna McGarrigle, Stevie Nicks. Com gravações de bandas sonoras na agenda e a vida pessoal estabilizada, o hiperativo guitarrista não perdia de vista o rumo dos Dire Straits.

Esta fase pode ter sido ouro sobre azul, mas o álbum seguinte seria um êxito mundial estrondoso.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Sergio diz:

    Sou fã ardoroso dos Dire Straits e de Mark Knopfler. Seu texto é um dos melhores que já pude ler a respeito da banda. Mostra realmente muito conhecimento além de detalhes que me eram inéditos mesmo acompanhando a banda por já quase 30 anos. Parabens.

    1. Obrigado, Sérgio. Ainda bem que gostou. Um abraço.

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