Privateering: Com Mark Knopfler no navio dos piratas

Knopfler está de regresso com o primeiro álbum duplo da sua carreira a solo. Vamos descobrir algumas das ideias que inspiraram Mark e o que nos oferece o novo trabalho, muito aguardado e finalmente disponível em todo o mundo. As explicações do músico são coerentes e sinceras. Este ciclo de canções demonstra o que pretendeu fazer: Agradar a si próprio.

mark knopfler privateering

Quanto mais velho fico, descubro que mais trabalho consigo concretizar; não sei bem se é pânico ou a noção de que o tempo se esgota. Por isso, ando quase aos tropeções, nesta espécie de corrida de barreiras da produtividade.

Privateering contém 20 temas (um dos quais, «Miss You Blues», se baseia na melodia de «Deep Blue Sea», canção tradicional com arranjo do compositor.) Ao ouvirmos Privateering, ficamos, por vezes, com a nítida sensação de que seria um bom álbum único, e não duplo. Canções excelentes surgem intercaladas por temas algo inferiores. O disco contém, na minha opinião, uma quantidade excessiva de canções de blues e boogie-woogie.

mark knopfler privateering (15)Segundo Mark, “Privateering é um convite para nos juntarmos à tripulação de um navio, de certo modo”. “Acho que se relaciona comigo. Certamente, no que toca às digressões. Entusiasma-me realmente ter um pequeno grupo de pessoas que vai tocar estas coisas. Gosto de estar no comando, gosto da banda, aprecio imenso esta metáfora para ‘tripulação’.”

O guitarrista explica que o tema-título, «Privateering», “é um retrato histórico do corsário [privateer], da sua vida e do tipo de pessoa que é. Mas não se relaciona diretamente com o álbum; é provavelmente uma brincadeira irónica, mais do que outra coisa”.

Aqui, o protagonista alicia outros a que se juntem ao seu navio de piratas, para irem “pilhar e beber vinho da Madeira, sem ser propriamente ao serviço da Coroa”. É uma mistura de folk com música celta, acompanhada por uma excelente letra. Knopfler vintage aconselhado a todos os fãs de boa música.

O facto de trabalhar com os mesmos colaboradores de sempre acaba por se tornar um entrave: Nalguns momentos, Mark precisava de alguém que o motivasse, e não de um grupo que já lhe conhece os gostos e toca o que ele pretende. O processo torna-se mecânico e isso é notório.

Produzido por Mark Knopfler, coproduzido por Guy Fletcher e Chuck Ainlay, Privateering teve como engenheiros de som Ainlay e Fletcher. A masterização foi executada, como é hábito, pelo especialista Bob Ludwig. O núcleo da banda é composto pelos músicos que gravam e tocam com Mark desde Golden Heart, em 1996, surgindo aqui um outro colaborador, Paul Franklin, no pedal steel, e a soprano australiana Ruth Moody, que apoia pontualmente Mark nos vocais; mas as participações da cantora estão, incompreensivelmente, demasiado submersas na mistura.

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MAIS COMPOSITOR DO QUE MÚSICO

Outro tema relacionado com o mar, além de «Dream of the Drowned Submariner», é «Haul Away», com uma boa melodia e letra, cuja inspiração Knopfler revela:

“A canção baseia-se no facto de ter lido mais sobre as superstições relacionadas com o mar e os marinheiros. Há até uma cena numa das histórias de Patrick O’Brian [romancista e tradutor inglês] em que um personagem acha que dá má sorte, e a tripulação pensa de igual modo. Por isso, ele pega numa bala de canhão e atira-se borda fora. Eles estão num marasmo, o navio não avança, e mal este terrível episódio ocorre, o tempo muda, e partem novamente… Não sou nada supersticioso, mas, às vezes, quando andamos em digressão, quando embarcamos numa longa viagem, apercebemo-nos das imensas fugas à justa por que passámos, e começamos a perguntar, ‘como nos safámos daquilo?’, ou ‘como evitámos algum tipo de catástrofe, aqui e ali?’ Dá-nos que pensar, já que é algo de bastante frágil, dependemos de qualquer ponto fraco numa extensa corrente.”

mark knopfler privateering (2)Estes pormenores conferem ao álbum uma dimensão adicional; já não é a primeira vez que o compositor se baseia na literatura para escrever canções. Sucedeu com o romance de Thomas Pynchon, Mason & Dixon, que originou «Sailing to Philadelphia», ou The Devil and Sonny Liston – obra de Nick Tosches sobre a vida sombria do pugilista – que motivou Knopfler a escrever «Song for Sonny Liston». Mark sempre foi um ávido leitor.

Mark Knopfler continua a diversificar os temas, classificando as canções por grupos. Relativamente a «Hot or What», um blues, descreve: “Há um certo tipo de canções, às quais chamo retratos, onde existe um personagem. Há um jogador no álbum, coisa que não sou, mas este está a atravessar um período de grande sorte. Ele diz, ‘I’m I hot or what?’ Isso é simplesmente divertido.”

«Today Is Okay» obedece à mesma fórmula. É mais um blues, com algumas variações. Este género de temas são sempre pontuados por Kim Wilson na harmónica, mais até do que pela guitarra, e só raramente existe um diálogo entre ambos os instrumentos. O problema é que Wilson se torna, aqui e ali, irritante e pouco espontâneo. Nas palavras de Knopfler, “o personagem é um pugilista, que está bem-disposto neste dia. Ele sente que talvez tenha nascido num dia de mau agoiro. Tal como diz a velha canção de blues, «Born Under a Bad Sign», uma das minhas favoritas [É citada na letra]. Mas ‘today is okay’, hoje é um dia bom, não me posso sair mal”.

mark knopfler privateering (19)Knopfler apelida outras canções de “situacionais”. “Nessas, eu entro na imagem. Pode ser uma coisa que me dizem, que encontra eco em mim, de algum modo… e vai para o ferro-velho que é a minha mente.” Apesar disso, não há fórmulas para o compositor: “O que surge primeiro, a música ou a letra?… É sempre uma questão difícil. Mas penso que, agora, é mais a letra. E, enquanto trabalho, a melodia surge. Comparo isto ao barbear, estamos sempre a filtrar, de certo modo. No fundo, durante o dia, o nosso subconsciente filtra outras coisas. Acho que é isso que sucede. Não há uma fórmula, se houvesse, revelava-a, sinceramente, mas, para mim, tal não existe.”

Nos dias de hoje, Mark vê-se mais como compositor do que músico e sublinha que “são coisas muito diferentes”. “Não me considero grande músico. Encaro a guitarra como algo em que costumava escrever canções. O modo como eu toquei e abordei tudo não foi nada ortodoxo. Na realidade, cometo muitos erros na guitarra, quebro muitas regras, julgo eu.”

TRABALHANDO NA QUINTA

Já por várias vezes, em entrevistas, o músico repetiu esta frase, voltando agora a insistir: “A minha ideia do Céu é algures onde o Delta [do Mississippi] se une ao Tyne.” Trata-se de uma metáfora acerca das suas influências, uma fusão entre rock, country, blues, western e as sonoridades celtas que absorveu durante a infância e adolescência, passadas em Newcastle, no nordeste de Inglaterra, onde se situa, justamente, a foz do Rio Tyne. (Ainda que Knopfler tenha nascido em Glasgow.) Aliás, a influência da América era tão forte que Mark passou lá férias, sozinho, em 1976, ainda antes do sucesso, uma viagem que o terá marcado bastante. Em Privateering, talvez mais do que nos seus álbuns anteriores, nota-se esta união Delta/Tyne, o que Knopfler admite: “Acho que agora destilei ainda mais esse conceito.”

Aos 63 anos, Mark Knopfler recorda o seu primeiro casamento (com Kathleen White, aos 22 anos): “Quando era novo, trabalhei muito numa quinta. Tive um casamento breve com a filha de um agricultor em Northumberland, pelo que trabalhava lá com frequência. E apercebemo-nos que, ao fazermos muito disto, não lhe adicionamos nada de novo. Acho que uma frase numa das canções é ‘all you bring to this is muscle and grit’. Persistência, só isso. [O tema é «Yon Two Crows».] Percebi que a guitarra assumia segundo lugar.”

Outro dos ajudantes da quinta dos White era Norman Falkeld, que ficou com boas recordações do jovem Mark, em 1970 e 1971. “Ele vinha sempre nos fins-de-semana, em tempo de férias. Usava o cabelo muito comprido. Às vezes, ia para a sala da frente da casa, com uma guitarra clássica. Lembro-me de passar e de o ouvir tocar. Já nesses tempos, ele era brilhante. Era muito calado, simpático e bom rapaz. Guiava um velho Skoda branco.” O primo de Falkeld, Roland Gibson, acrescenta que “Mark era amável, mas nunca parecia realmente feliz. Estava sempre a pensar em música. Sentava-se no palheiro, a tocar e a compor”.

mark knopfler privateering (18)O ex-cunhado, George White, irmão de Kathy, também recorda o guitarrista com afeto: “Costumava usar luvas de borracha ao guiar os tratores, para não magoar os dedos. Tinha também um fraco por bolo de chocolate, isto apesar do enorme pequeno-almoço que a mãe nos dava.”

Estes tempos, recordados hoje por Mark: “Trabalhava o dia inteiro, e as minhas mãos ficavam tão doridas que… construíamos um celeiro ou algo assim. Eu não tocava, apenas trabalhava. Levantava-me muito cedo, comíamos muito e íamos trabalhar no duro. Ao fim do dia, não me sentia com grande vontade de tocar.”

“Acho que sempre tive empatia com a vida do trabalho, não importa qual seja. Começamos a admirar uma certa dureza, no caso de um agricultor ou outro trabalho qualquer. Admiro a força e a resistência nas pessoas.”

E assim surgem – e não é a primeira vez – canções sobre trabalhar em quintas, sobre agricultores desiludidos, que aconselham outras paragens a quem os visita, como o pássaro em «Bluebird». O protagonista de «Redbud Tree», que inicia o álbum, buscou refúgio e agradece à árvore de rebentos cor-de-rosa a proteção que lhe deu. Em sentido metafórico, visto que é uma árvore dos Estados Unidos, não é um mau começo para Privateering, e, em qualquer parte do mundo, qualquer pessoa com um conhecimento ocasional de música identificará quem toca a guitarra. Encaro estes temas “campestres” como alegorias. Mark admitiu que, em Privateering, há uma observação da realidade, mostrando-se ciente das dificuldades cada vez maiores que as pessoas enfrentam, derivadas da crise económica global.

Numa entrevista antiga de 1991, quando lhe sugeriram que várias canções de On Every Street possuíam um tom cínico, respondeu: “Admito que sim, mas acho importante não nos tornarmos cínicos.” Com idêntica franqueza, o músico afirma agora, acerca de Privateering:

“Sinto-me instigado a fazer isto. Simplesmente não podia parar. Aprecio o processo, portanto não demoro muito a chegar ao estúdio, de manhã. Chegamos a um ponto em que percebemos que o mais importante é agradar a nós mesmos. Senão… o que estamos a fazer? É só isso que tento fazer, agradar a mim mesmo.”

Não poderia estar mais de acordo. Um artista que dá ao público o que ele quer, inferioriza-se artisticamente e reduz o público ao mesmo nível.

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OS BLUES NO ÁLBUM

Knopfler cresceu com a influência de Robert Johnson, Howlin’ Wolf, B.B. King, entre outros. Por vezes, pareceu-me estar a ouvir um disco de Muddy Waters. Não se pode dissociar o contexto histórico-cultural dos blues do Delta ou as suas imaginativas letras, reinterpretando-os com guitarra slide e todos a tocarem o que Mark quer. Isto dá origem a que um destes temas, justamente o que termina o álbum, «After the Beanstalk», possua a pior letra de toda a obra de Knopfler. “Uma galinha pode pôr um ovo de ouro/Mas, cantar, não consegue. Tudo OK com a galinha/A harmónica é que importa.” (!) Knopfler já escrevera temas inconsequentes como «How Long», mas preservando algum encanto e explorando contrastes. Este tema não soa nada bem, nem como lado B. Em «Don’t Forget Your Hat», outro blues dispensável, o protagonista quer que a amante se vá embora e que não se esqueça do chapéu.

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Robert Johnson referiu-se ao “leite com malte”, metáfora para cerveja, no famoso tema «Malted Milk», na esperança de que os blues se afastassem, só que Knopfler não é Johnson. Muddy Waters poderia cantar estas letras com sentimento, mas não me ocorrem imagens tão banais como as de «Don’t Forget Your Hat» nos clássicos de blues. Até Johnny Cash, a ver o comboio a passar, atrás das grades da prisão de Folsom, provoca emoção autêntica. Não há nenhum deste sentimento nos blues de Privateering. «Gator Blood» é outro destes temas, onde também surge uma monocórdica e exagerada parte de guitarra.

Estas homenagens soam, portanto, frias e maquinais. A nível de guitarra, não nos trazem nada de extraordinário, como as escassas notas do solo de «Folsom Prison Blues» de Cash, ou o minimalismo de «Boom, Boom» de John Lee Hooker. Os blues de Knopfler são uma espécie de tributo asséptico, incolor, rigidamente executado. Não é aqui que residem o seu extraordinário talento, o seu génio e versatilidade; não é neste ambiente que tais qualidades sobressaem.

Eric Clapton, em From the Cradle, fez um tributo estonteante aos blues, no qual reinterpretou standards ao seu modo. Knopfler não possui a qualidade de reinterpretar temas a ponto de os tornar seus. Recorde-se «Knocking on Heaven’s Door» ou «I Shot the Sheriff», cujas versões de Clapton deixaram a milhas os originais de Dylan e Bob Marley.

Tecnicamente, a nível de engenharia de som, de meticulosidade, não podemos apontar nada a Privateering, mas isso já integra o modus operandi de Knopfler praticamente desde o início. Por outro lado, tendo em conta que Mark já tem 63 anos, não o consigo culpar por fazer aquilo que mais gosta, consciente de que o tempo não pára. Há temas excelentes no álbum. Além dos que já referi, sobressai o belíssimo «Radio City Serenade». Temos o Knopfler das “letras tiquetaque”, que assentam na melodia com métrica ímpar e elegância.

Um dos casos é «Corned Beef City», o único tema mais rock. Aqui e ali, nota-se um refúgio seguro em melodias e sonoridades que se assemelham a uma continuação pachorrenta de Get Lucky. Quanto à diversidade, nitidez de retratos e beleza de Shangri-La… desapareceram quase por completo.

Mark Knopfler – que já nada tem a provar – necessita de um produtor ou engenheiro de som (e não dos suspeitos do costume) que o mande de volta para o estirador e lhe diga: “Fazes muito melhor do que isso.” “Back to the drawing board”, como o próprio Knopfler disse em 1985, descrevendo as suas colaborações com realizadores, pouco satisfeitos com os progressos do trabalho. Afirmou que isso era saudável e um incentivo. Agora, decerto não acataria tais ordens, mas eu, enquanto fã (há mais de 20 anos), também não fico totalmente convencido com este trabalho.

É um álbum concebido por Mark, para seu agrado, e ditado por ele. Como Hemingway disse, “a escrita é arquitetura, não é decoração de interiores”. A expressão aplica-se, em certa medida, a Privateering.

David Furtado

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3 Comments Add yours

  1. Roberto Hubner diz:

    Gostei de Privateering:Meu coraçao ficou nas “seatle”,”Go love” e Redbull tree”.Mas ultimamente tenho sentido saudades dos Dire Straits.Fiz 41 anos essa semana e me lembrei de que:Quando foi lançado aqui no Brasil “on every Street”,foi num mes de novembro.Nao sei por que mas coloquei “Calling Elvis” no meu carro outra vez.Ouvi o disco todo.Meu coraçao ta começando a pedir mais um trabalho do Dire Straits!Os caras podiam dar um jeito de reunirem novamente e gravarem um novo album.Cruzemos os dedos!

    1. Compreendo isso, Roberto. A nostalgia toma conta. É como um filme – vemos o princípio e, quando damos conta, já o vimos todo outra vez. Pelo que li ao longo dos anos, não acho que haja uma reunião dos Dire Straits. Em parte, eu gostaria. Em parte, não. Talvez seja melhor saber quando parar. É melhor do que se arrastarem com discos e digressões sem sentido, como os Rolling Stones ou os Blondie.

  2. esses tempos vi um artigo de mark ele dizia antes fazia musica por razao hoje faço por emoçao….

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