Lou Reed – Legendary Hearts: O marginal integra-se… quase

Em 1983, este álbum foi mal recebido. Ao longo de 30 anos foi reapreciado. Reed permanecia contundente; o problema para muitos foi que o ambiente doméstico o tinha tornado “simplório” ou pouco ambicioso. É um trabalho sincero e mostra em que fase andava o músico: O casamento não era um “ideal”… apenas uma forma de recordar a “incapacidade de se ser como se quer”, as aspirações irrealistas por situações reminiscentes de Romeu e Julieta.

Lou Reed, mid-1970s RCA Records portrait.

“Gosto da ideia de «Legendary Hearts». É como olharmos para uma versão idealizada de West Side Story, e depois contrapormos uma versão do East Side de Nova Iorque.” Reed cita ironicamente Shakespeare na canção: “Romeu, onde estás tu, Romeu? Está num carro, num bar ou a agitar o sangue com uma droga impura. Está no passado e aparentemente perdido para sempre.”

O conceito é interessante, como estes “amores lendários nos destroçam e nos fazem sangrar as emoções”. O problema é a falta de polimento de alguns temas e ideias; uma pressa que deixa algo a desejar. Lou afirma que “temos de lutar para manter o nosso amor lendário”. Era uma maneira adulta de encarar emoções.

Há outros temas fortes, como «The Last Shot». Enquanto alcoólico em recuperação, Reed estava desesperado por uma bebida. É um tema que provavelmente só ele podia ter composto, possuía a desafetação de linguagem que o caracterizava e que, ao mesmo tempo, quase transbordava: “Quando paramos, paramos, mas desejamos sempre saber que foi o nosso último copo.”

lou reed legendary hearts (6)Tanto «The Last Shot» como «Bottoming Out» referem-se ao seu retiro na propriedade suburbana de Blairstown, a constante luta por se manter sóbrio e a instabilidade emocional que daí advinha. Reed frequentava assiduamente as reuniões dos Alcoólicos Anónimos. Por agora, era esta a sua plateia:

Num dos encontros, falou da sua experiência sem floreados. Disse que, recentemente, quando guiava a sua moto, tinha visto um saco de pó branco na berma da estrada e parou, ansiando que fosse speed. Mas descobriu que era pó de talco. Contudo, informou a audiência que, se fosse droga, dificilmente a deixaria lá. Os outros participantes riram-se e aplaudiram Reed por… estar a ser sincero, identificando a tentação. Passara a carreira toda a escrever sobre estilos de vida marginais e/ou marginalizados e agora confrontava essas mesmas pessoas… integrando-se. Se é que alguma vez fora diferente.

Um dos membros dos AA comentou: “Basicamente, ele disse que estar sóbrio era uma coisa para além dos seus sonhos. E ouvir Lou Reed dizer aquilo, um tipo que conquistou tanta coisa, que era cool aos olhos de toda a gente… ele estava muito grato, falou de modo normal. Falou sobre como o álcool e a droga lhe tinham afetado a vida e como isso ainda mexia com ele.”

lou reed legendary hearts

“ESCREVO POR ESCREVER”

Na verdade, mexia tanto que Reed cortou o contacto com toda a gente do passado, exceto as pessoas que encontrava nestas reuniões (e também nas dos Narcóticos Anónimos). Em parte, era (e é) uma regra de tais associações e tratamento: Tem de se cortar, por questões de estilo de vida e para não “retroceder”. Agora Reed levantava pesos e tinha um estilo de vida muito mais saudável. Até fazia coisas “maçadoras”, segundo revelou. Estava determinado:

“Faço exercício, jogo basquetebol, mantenho a cabeça no lugar e esse tipo de coisa. Acho as pessoas destrutivas muito, muito aborrecidas. E gostaria de pensar que não sou uma delas.” A mulher de Lou, Sylvia, bebia e, por vezes, descontrolava-se. No entanto, de acordo com amigos, ficava muito lisonjeada com as canções que Lou escrevia sobre ela e apoiava-o.

lou reed legendary hearts (2)

Parecia recíproco. Até Moe Tucker, a baterista dos Velvet Underground, reparou. Quando escreveu a Lou, dizendo que tinha sido mãe, nem esperava resposta. “Enfim, o que lhe importa?… Mas recebi uma carta dele, muito doce.”

Sobre «The Last Shot», Reed comentou, anos depois, a Nick Johnstone: “Uma canção monstruosa. Meu Deus. Não é coisa que eu queira ouvir. Mas era fantástica… é a canção rock perfeita. Ou seja, faz tudo, fica connosco.” Ficou certamente no seu alinhamento. Em 2000, ainda a tocava ao vivo perante os aplausos dos fãs que a reconheciam aos primeiros acordes.

“Escrevi-a porque acreditava nela”, disse Lou Reed. “Tantas vezes pensei… sabem, desejar que fosse o nosso último copo, este aqui à nossa frente. É claro que nada de remotamente parecido sucede. Era uma fantasia. Um absurdo. Estamos a falar de questões de vida ou morte. Não a escrevi para ajudar ninguém. Nem a mim próprio. Escrevo por escrever. Não o entendo completamente.”

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PODEMOS ESCREVER, SE NÃO ACREDITAMOS?

Há uma franqueza em Legendary Hearts que a crítica não conseguiu assimilar. E Reed não tinha nada a esconder quanto aos seus excessos e erros: “Não estou a mentir. Toda a gente sabe essas coisas sobre mim. Para o bem e para o mal, aí está, sem rodeios. Caminho pela cidade, portanto se alguém quiser discutir isso comigo, estou aqui, e disponível.”

Frontal ou não, a imprensa musical arrasou o álbum: “Tão inútil… rude… infantil. A edição mais insultuosamente horrorosa de um artista importante desde há anos”, pontificou a Melody Maker. “A Walk on the Mild Side”, disseram outros. Já não era o “lado selvagem”; Reed cometera o pecado de endireitar a vida.

“Há mesmo um mito, se casamos, ficamos subitamente velhos e senis e mudamo-nos para os subúrbios e nunca mais fazemos um trabalho significativo. Encaro o casamento como a coisa romântica que é. Como podemos escrever sobre o amor se não acreditamos nele?”

O que nunca percebi acerca destas críticas negativas foi o seguinte: Os temas continuavam a focar os assuntos típicos de Reed, variando um pouco. «Don’t Talk to Me About Work» podia ser um homem a queixar-se do trabalho incessante. «Make Up My Mind» sempre me soou interessante, pelo tipo de metáforas empregues, neste caso ao descrever a indecisão: “Não consigo decidir-me, não sei dizer que cores ficarão melhor neste quarto/Não consigo dizer nada sobre ti e decidir-me.” Poderá não ser poesia, mas também adiciona alguma acessibilidade ao discutir temas mais mundanos, os problemas de quem vive na porta ao lado.

Sylvia e Lou com Debbie Harry e Chris Stein dos Blondie em Nova Iorque, 1982.
Sylvia e Lou com Debbie Harry e Chris Stein dos Blondie em Nova Iorque, 1982.

«Martial Law» é um esboço ou conto urbano sobre um agente da autoridade com excesso de zelo que vem pôr um bairro em ordem durante a noite com o seu amigo chamado Ace… “This here is my friend Ace, he’s from the 8th precinct/nothing goes on that he don’t know/And we’ve been sent ’cause your arguments/have been going on too long.”

Há canções mais leves, como «Pow Wow», expressão dos nativos americanos, uma conversação que pode até derivar da ascendência hispânica da sua esposa, Sylvia, que concebeu a capa (bastante “insultada”, diga-se de passagem). O capacete e, claro, a contracapa mostrando Reed, aludem aos passeios de moto que agora dava para “fugir”. Em «Bottoming Out» foge mesmo para não matar a parceira, durante uma discussão, depreende-se.

Reed defendeu-se, ressentido e com o habitual sarcasmo:

“Se fazemos rock and roll e casamos, estas pessoas… parecem achar que isso é como se nos pusessem num pasto algures nos subúrbios e nos estripassem, retirando os órgãos vitais. Outro ponto de vista podia ser o facto de o casamento ter a capacidade de nos revitalizar. Pode-nos ajudar, tornar-nos mais fortes, mais percetivos, dar-nos ainda mais habilidade para fazermos o que queremos, na escrita e tudo isso. E também tornar-nos pessoas melhores. Tenho uma casa em [New] Jersey agora, por isso leio estas coisas: ‘Ele vive nos subúrbios.’ Como se tivesse doado o meu cérebro à ciência e agora fizesse rock and roll totalmente oco.”

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USANDO A SUA VOZ

Nesta época, Reed, sempre curioso com as novas tecnologias, já usava um computador para escrever, mudança que só lhe trouxe vantagens: “Reescrever é o essencial. Consigo editar bem na minha cabeça, mas é por causa da minha caligrafia e de não conseguir reter um pensamento muito tempo se sou interrompido… É isso.”

Num tom mais equilibrado e sensato do que no passado, nem a sua própria imagem se escusava a reavaliar:

“Algumas pessoas gostam de pensar que sou este tipo vestido de cabedal negro e óculos escuros, e certamente é uma das minhas facetas; não gostaria de renunciar à minha herança. Mas não digo que sou primitivo. Trabalho mesmo no duro para que as minhas canções soem como se as pessoas realmente falassem. O que me atrai é de certa forma semelhante ao que Sam Shepard e Martin Scorsese estão a fazer, falar sobre coisas que as pessoas que crescem na cidade vivem. Procuro uma espécie de elegância urbana ao som de um ritmo.”

The Blue Mask tinha sido lançado em fevereiro de 1982 e o trabalho em Legendary Hearts começou no verão. Neste período, a relação entre o guitarrista Robert Quine e Lou começou a deteriorar-se. Quine ficava, porém, espantado com certas situações:

“Ele estava a gravar os vocais de «Pow Wow» no estúdio. Não sabia como havia de o abordar, pelo que começou a rever o seu catálogo de vozes. Disse, ‘acho que vou usar a minha voz de Transformer nesta’. Foi espantoso. Cantou-a assim e depois disse, ‘nah, acho que vou usar… a minha voz’, e cantou de três ou quatro maneiras. Ele certamente consegue ter mão nas coisas, mas há conflito.”

Começaram nesta época as desavenças com o guitarrista Robert Quine.
Começaram nesta época as desavenças com o guitarrista Robert Quine.

Segundo Quine, Lou tinha “uma personalidade forte e intimidadora”, algo com que o guitarrista lidava bem. Os problemas surgiram quando Quine, que não se deixava intimidar, dizia o que pensava e considerava Legendary Hearts um trabalho mais “inibido” que o anterior, começou a receber melhores críticas pelo seu trabalho de guitarra.

Esta rivalidade desencadeou um truque “sujo” já muitas vezes feito no mundo musical: Antes do álbum estar todo gravado, Lou foi secretamente ao estúdio sem informar ninguém e remisturou todo o disco, fazendo com que a sua voz e guitarra sobressaíssem. Assim, o melhor trabalho de Robert Quine ficou quase inaudível ou foi retirado. Quando recebeu a cassete do produto final, tão irritado ficou que a partiu com um martelo.

“Fiquei furioso. Ainda trabalhei mais dois anos com ele, mas as coisas nunca mais foram as mesmas. Não lhe respondi aos telefonemas durante semanas.” Foi lamentável pois várias pessoas acharam que o álbum era mais organizado e sintético que o seu antecessor.

Uma das coisas em que Lou Reed trabalhou já nos últimos tempos de vida foi na remistura dos seus álbuns de estúdio que irão ser lançados este ano. Legendary Hearts é um caso complicado. Outro é o álbum de estreia a solo. Veremos que surpresas isto reserva. Talvez Quine tenha o seu trabalho reposto. Quanto ao álbum, são questões com que hoje ainda todos nos debatemos. Depende… até que ponto achamos a nossa vida banal ou unicamente lendária. Inclino-me para a segunda hipótese quando ouço Legendary Hearts.

David Furtado

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