Leonard Nimoy: Ser ou não ser Spock – Como nasceu o personagem de Star Trek

Em 1966, estreava Star Trek. Durante os três anos em que foi transmitida, debateu-se com vários problemas. Tal não impediu que se tornasse um fenómeno que marcou gerações. Para muito deste impacto, contribuiu Spock, eternamente dividido entre a lógica e a razão, personagem que se tornou um ícone da contracultura e um dos mais conhecidos de sempre da TV. Foi interpretado por Leonard Nimoy, ator recentemente falecido e a quem este texto é dedicado. Tal justifica-se devido à influência enorme que teve no êxito de uma série que terminou meses antes de o Homem pisar a Lua.

star trek spock 1Leonard Nimoy aceitou o papel e embarcou no “Caminho das Estrelas” por ser um ator ambicioso, jovem mas também sério. Para ele, um papel regular numa série de horário nobre era uma excelente perspetiva na altura. Durante toda a sua vida, Nimoy, contudo, sentiria, à semelhança do seu personagem, emoções bastante contraditórias sobre Spock.

Apesar de o mesmo ter sucedido aos outros atores do elenco, Leonard Nimoy foi o ator que mais veria a sua vida profissional alterada após o fenómeno Star Trek. Cumprira o serviço militar na Marinha Americana, começando depois a interpretar vários papéis em séries televisivas como Os Intocáveis, The Outer Limits ou Perry Mason. A aclamação e o reconhecimento que Spock lhe deu, trouxeram-lhe também angústia pessoal.

Leonard Nimoy e Gene Roddenberry nos primórdios de Star Trek.
Leonard Nimoy e Gene Roddenberry nos primórdios de Star Trek.

“Espaço: A última fronteira…” Para percebermos a importância do personagem, há que contextualizar a série. Gene Roddenberry pretendeu desde logo apelar a temas universais com que a Humanidade se debate. “Wagon Train to the stars” foi o conceito que Roddeberry inventou quando era argumentista de televisão nos anos 60. Em 66, a Paramount aceitou a ideia, e a série foi transmitida entre 66 e 69 na NBC.

O enredo assentava em três personagens, o Capitão James T. Kirk (William Shatner), líder sensato, teimoso, mas que nem sempre tem razão, e cuja principal preocupação é a sua nave. Spock, o alien que não demonstra emoções, cujo raciocínio é puramente lógico e que encara a Humanidade de modo intrigado: “É vida, Jim, mas não como a conhecemos”, foi uma das frases que melhor o caracterizou. E o Dr. McCoy (DeForest Kelley), o médico humanista, devido à sua formação e temperamento. O Capitão tem assim de contrabalançar a razão e a emoção em viagens pelo Espaço, a última fronteira, onde nenhum homem foi antes…

É hoje difícil acreditar que a última temporada de Star Trek, em 1969, não foi grande sucesso e levou ao cancelamento da série, apesar da popularidade que entretanto conquistara entre telespectadores fiéis. O grande público não aceitou o conceito, talvez porque a série fosse avançada para o seu tempo. Na verdade, muitas das invenções utópicas de Star Trek são cientificamente concretizáveis, algumas já o foram, e a comunidade científica afirma que outras serão possíveis no futuro. Mas o futuro retratado pela série era, em finais dos anos 60, difícil de aceitar pois demonstrava grandes progressos nas comunicações e na medicina a par de um grande avanço no armamento. Ou seja, o mundo… seis décadas depois, como o conhecemos hoje.   

Nimoy, DeForest Kelley e William Shatner, o trio de personagens centrais.
Nimoy, DeForest Kelley e William Shatner, o trio de personagens centrais durante as filmagens.

Dos 79 episódios da série original, 12 deles falam de computadores ou inteligências artificiais que procuram dominar a vida orgânica. Na primeira temporada, temos “The Return of the Archons” em que os descendentes de oficiais da Starfleet são libertados do controlo de um super computador. “A Taste of Armageddon” mostra duas culturas em guerra, obedecendo à declaração de um computador acerca de “baixas virtuais”, começando tranquilamente a matar o seu próprio povo. O Capitão Kirk destrói o computador e tenta ensinar os povos agora libertados a pensar por si mesmos. Isto refletia tanto a realidade dos anos 60, do pensamento que sustenta a individualidade, tal como os dias de hoje. “A Taste of Armageddon” foi também uma alegoria sobre a natureza fútil da guerra, em especial, a controversa Guerra do Vietname que na altura decorria. Alguns dos outros temas explorados metaforicamente foram o nazismo, a Guerra-Fria, a diplomacia entre nações e a igualdade dos sexos.

Nimoy e Shatner em "The Naked Time".
Nimoy e Shatner em “The Naked Time”.

A aparição de computadores malévolos ou da inteligência artificial em Star Trek coloca muitas vezes em ênfase a personagem de Spock. Ao passo que a sua lógica frequentemente o obriga a concordar com o processamento do computador, está sempre ao lado do Capitão Kirk, dando prioridade à vida e inteligência orgânicas em detrimento das artificiais. Em “The Ultimate Computer”, Spock afirma, “os computadores dão servos excelentes e eficazes, mas não desejo servir sob as suas ordens”.

charlie x spockOutro tópico de vários episódios da série original são criaturas com superpoderes ou equiparáveis a Deus. Gene Roddenberry dizia-se humanista e professava desdém pela religião organizada. O seu fascínio pelo conceito de Deus surge assiduamente nas histórias de Star Trek:

spock enterprise“O verdadeiro vilão é a religião, pelo menos, a religião como é geralmente praticada por pessoas que, de algum modo, adquirem a certeza que elas e só elas sabem a ‘verdadeira’ resposta. Há tão poucos humanos que parecem entender que matar, já para não falar em odiar, os seus semelhantes em nome do seu ‘deus’ é o derradeiro tipo de perversão.”

Roddenberry comenta: “Vi uma oportunidade de utilizar realmente a série para dizer as coisas em que acreditava, como ser diferente não significar necessariamente ser feio. Quis fazer uns comentários. Em televisão, nesses dias, não se podia falar de sexo, sindicatos, política, nada que tivesse algum significado, e achei que, se o fizesse acontecer ‘lá fora’, talvez pudesse passar pelos censores. E consegui. Qualquer criança de 14 anos sabia do que eu estava a falar, mas os censores não entenderam.”

ENTRE A LÓGICA E A EMOÇÃO

O triunvirato de Star Trek, Kirk, Spock e McCoy refletiam, para Roddenberry, nos memorandos iniciais, a tripulação básica do serviço militar americano, especialmente a marinha – o capitão, o oficial que chefia a ciência e o que comanda o departamento médico. É esta a base em que assenta a exploração das naves espaciais e suas tripulações nos enredos.

O primeiro deles foi entregue à NBC em junho de 1964, atribuindo nomes diferentes aos personagens. O Capitão Pike comandava a USS Enterprise, também tripulada pelo Tenente Spock e o Dr. Phillip Boyce. Durante uma missão, a nave ficava sob o comando de Number One, mulher sem emoções, “oficial executiva” e a segunda na hierarquia da Enterprise. Em novembro desse ano, foi tomada uma decisão no elenco que provaria ser talvez a mais importante na História da série: A escolha de Leonard Nimoy para representar Spock.

A primeira vez que Spock surgiu, em "The Cage".
A primeira vez que Spock surgiu, em “The Cage”.

Inicialmente, Roddenberry queria focar-se na aparência alienígena deste Primeiro-tenente. Surgiu um dilema: O seu temperamento frio e sem emoções já fora dado a Number One. Mr. Spock é descrito como “o braço direito do capitão, o líder de todas as funções da Enterprise. À primeira vista, pode ser quase assustador, com um rosto satânico, quase poderíamos esperar que tivesse uma cauda bifurcada. Provavelmente, é meio Marciano, tem uma compleição avermelhada e orelhas semi-pontiagudas. Mas, num contraste estranho, o temperamento sereno de Mr. Spock colide de modo dramático com o seu aspeto satânico. A sua principal fraqueza é a curiosidade de gato por tudo que seja remotamente alienígena”.

Nimoy e DeForest Kelley, que inicialmente iria desempenhar Spock.
Nimoy e DeForest Kelley, que inicialmente iria desempenhar Spock.

DeForest Kelley, Rex Holman e o ator anão Michael Dunn foram considerados para o papel. A mulher do criador de Star Trek, Majel Barrett, que já integrava o elenco como a Enfermeira Christine Chapel, lembrou-se, contudo, de Nimoy por este ter surgido como ator convidado em The Lieutenant, uma anterior produção de Roddenberry. O facto de ser magro e de rosto anguloso tornavam-no perfeito para o que o produtor tinha em mente.

DeForest Kelley passaria para o papel do médico e confessor do capitão, “Bones”. Era um personagem com um humor quase cínico, antagonizando-se frequentemente com a lógica fria de Spock. Kelley interpretara vários médicos de mau feitio em westerns e mostrar-se-ia perfeito para o papel, mas, depois de ser rejeitado para Spock, não foi contratado de imediato.

spock the naked time“The Cage”, o episódio piloto, não foi rodado com facilidade. A personagem de Spock preocupava os executivos de marketing da NBC devido à sua natureza “satânica”; achavam que o público mais conservador e religioso pudesse não o aceitar. Roddenberry expressaria mais tarde o fracasso e a rejeição de “The Cage” e Spock, numa convenção Star Trek em 1986:

“Nós tínhamos também o que eles chamavam de ‘conceito infantil’ – um alien de orelhas em bico de outro planeta. Nesses tempos, as pessoas não discutiam formas de vida noutros planetas. Era geralmente assumido que a Terra era o local onde a vida decorria e provavelmente em mais lado nenhum. Não haveria problema se este alien com orelhas pontiagudas, esta ‘criatura patética’ tivesse a maior arma de raios existente ou a força de 100 homens, isso podia ser empolgante. A sua única diferença em relação a nós era o facto de ter uma perspetiva alienígena.”

Homem de vários talentos. Num intervalo das filmagens.
Homem de vários talentos. Num intervalo das filmagens.

Roddenberry concordou em atenuar as características mais intensas de Spock, mas ironicamente, seria o único personagem a sobreviver do malfadado “The Cage” e a prosseguir em Star Trek. Tornar-se-ia mais do que isso. Numa das personagens mais icónicas da televisão mundial e das mais adoradas pelos fãs da série.

A NBC pretendia, porém, eliminá-lo do elenco no segundo episódio piloto, o que Roddenberry recusou, argumentando que era necessário ter uma personagem a bordo que “recordasse ao público que a ação se desenrolava no espaço ou num mundo futurista”. “Eles concordaram, mas disseram para o manter em segundo plano.”

A Enterprise adquire um novo capitão, William Shatner.
A Enterprise adquire um novo capitão, William Shatner.

O ator Jeffrey Hunter foi recusado como Capitão Pike. William Shatner, ator mais versátil, é contratado para uma segunda tentativa, “Where No Man Has Gone Before”. A personagem de Number One foi eliminada e as suas características de frieza e lógica passaram para Spock. A química entre Shatner e Nimoy funcionou, e o episódio “Where No Man Has Gone Before”, depois de muito trabalho de aperfeiçoamento do guião, começou a ser produzido a 15 julho de 1965. Os primeiros takes foram filmados a 19 de julho no Plateau 15 do Desilu Studio em Culver City, Califórnia.

Desta vez, a NBC aceitou, e Star Trek foi inserido na programação de outono da cadeia televisiva.

SPACE… THE FINAL FRONTIER…

“Espaço: A última fronteira. Estas são as viagens da nave espacial Enterprise. A sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, para corajosamente ir onde nenhum homem foi antes.” Este “Juramento do Capitão”, como é conhecido no Universo Star Trek, ainda não surgiu neste episódio, só nos posteriores.

Aplicando as "orelhas" na maquilhagem.
Aplicando as “orelhas” na maquilhagem.

Se a série pretendia explorar novos mundos, Roddenberry também pretendia incluir um comentário social ou político em cada episódio, tal como Rod Serling fizera. Para tal, pediu a colaboração de D. C. Fontana, que fora por pouco tempo sua secretária e que se tornaria a segunda pessoa a comandar os destinos criativos de Star Trek. Foi ela que “conferiu” a Spock os seus progenitores – um pai Vulcano e mãe humana.

Leonard Nimoy atribuiu-lhe outros traços como o modo de deixar alguém inconsciente tocando num nervo. A ideia estava contida num dos primeiros argumentos, “The Enemy Within” de Richard Matheson e consistia no facto de Spock conseguir desarmar inimigos sem violência e de modo não fatal.

Mas a contribuição de Nimoy mais memorável foi a da pacífica saudação Vulcana, a famosa palma da mão erguida e os dedos separados, formando um “V”. Ao que se sabe, Nimoy baseou-se numa bênção judia e na letra hebraica Shin (que significa Deus). Recorde-se que o ator era filho de imigrantes judeus ucranianos.

O argumentista Schimon Wincelberg acrescentou a capacidade telepática de Spock, o dom de ler os pensamentos de outros seres através do contacto físico, no episódio “Dagger of the Mind”. O background da raça Vulcana de Spock foi sendo desenvolvido por Theodore Sturgeon em “Amok Time”, episódio no qual surge pela primeira vez o gesto e a saudação pacífica Vulcana, “vive muito tempo e prospera”, palavras que seriam as últimas dirigidas ao público por Leonard Nimoy, tantos anos depois.

Roddenberry pretendia um elenco multiracial na Enterprise, contratando George Takei (Mr. Sulu), James Doohan (Scotty), Grace Lee Whitney (Yeoman Janice Rand) e Nichelle Nichols como a Oficial de Comunicações Uhura. Whitney saiu ao fim de sete episódios, sem explicação, Nichols permaneceu, mas a personagem que rapidamente se tornou mais popular foi a de Spock.

Um momento descontraído entre Nimoy e Shatner. Mas a popularidade de Spock causou ressentimento: Nimoy sentia-se subestimado e mal pago.
Um momento descontraído entre Nimoy e Shatner. Mas a popularidade de Spock causou ressentimento: Nimoy sentia-se subestimado e mal pago.

A NBC chegou a ponto de pretender que as suas orelhas fossem reduzidas de tamanho (!) nos dois primeiros episódios piloto. Roddenberry não cedeu ao executivos. Afinal, o Lone Ranger precisava do seu Tonto, o Green Hornet do seu Kato, e o Capitão Kirk precisava do leal Spock.

Por outro lado, Gene Roddenberry sabia que a mera presença (e que presença) da personagem abria novas portas em todas as histórias, algo difícil de conseguir se Spock lá não estivesse. A sua ascendência meio humana, meio Vulcana significava que era um personagem em conflito consigo mesmo, ambicionando viver sob os ideais Vulcanos da ausência de emoções, mas atraído pela sua genética humana.

Estes aspetos foram explorados logo nos primeiros episódios. Por exemplo, a Enfermeira Christine Chapel sente um fraco por ele e Spock não sabe lidar com os sentimentos humanos com que se depara, uma relação que é desenvolvida ao longo da primeira temporada. Spock também não é indiferente a Uhura, mas não entende o interesse da Oficial de Comunicações.

shatner nimoy foto publicitária star trekOutro fator que tornou Spock tão marcante, além da união entre ator e personagem, foi a sua visão externa da Humanidade. O seu lado humano despoletava nele afinidade com o Capitão Kirk, o Doutor McCoy e a tripulação da Enterprise, e a sua herança Vulcana fazia-o encarar a Humanidade de modo frio e distanciado. Spock possui um raciocínio rápido, lógico e frequentemente destrutivo para os problemas, calcula os prós e contras friamente, sugerindo várias vezes a morte de um elemento da tripulação que se tornou um risco para a Enterprise.

Estes traços atenuaram-se com a progressão da série original, mas a sua natureza de outsider e observador nunca. Estavam reunidas as condições para que Spock se tornasse um ícone cultural no final da década de 60.

the galileo sevenh spock star trekNão era só a NBC que se mostrava preocupada com o aspeto do personagem, também Nimoy não estava seguro quanto às orelhas e ao ar de alien. Roddenberry prometeu ao ator que, se tal se tornasse um problema, arranjariam um pretexto para a remoção dessa característica mais tarde. Isso não aconteceu, e a popularidade cada vez maior de Spock ainda deixou Nimoy mais ambivalente.

Outro problema foi o… salarial. Nimoy fora contratado para o que era, no fim de contas, um papel secundário, e o seu pagamento era de 1.250 dólares por episódio. William Shatner, o protagonista, ganhava 5.000. O agente de Leonard Nimoy apercebeu-se, ainda antes de a série começar a ser emitida, que Spock era mais do que um mero personagem de suporte no enredo, requisitando várias reuniões em que um aumento de salário foi recusado. Apenas lhe garantiram que, se Star Trek tivesse uma segunda temporada, a situação seria revista. Ora, Nimoy não apreciou isto, guardando ressentimento durante a filmagem da série para com os executivos e com Shatner, sentindo-se subestimado e mal pago.

shatner nimoy breakEm novembro de 1966, Gene Roddenberry enfrentava os seus próprios problemas. Apesar da popularidade de Spock, Star Trek tinha níveis de audiência razoáveis mas não era um êxito na TV.

O primeiro episódio a ser emitido, “The Man Trap”, obteve 40.6 de share, mas o segundo, “Charlie X” desceu a pique, obtendo 29.4 e colocando a NBC em segundo lugar, atrás da CBS. Os episódios não foram transmitidos pela ordem de filmagem, o que provoca alguma confusão na narrativa. Assim, seguiu-se o segundo episódio piloto a ser filmado, “Where No Man Has Gone Before” e “The Naked Time”. Star Trek ocupava então o 33º lugar nos 100 programas de televisão mais vistos dos EUA. Outros dois episódios, “The Enemy Within” e “Mudd’s Women” lançaram a série ainda mais para baixo: Ocupava agora o 51º posto. Seis semanas depois, caía para 52º numa lista de 100, o que não garantiria segunda temporada.

USS Entreprise Star TrekOs fãs de ficção científica queriam que a sua adorada série continuasse, mas Star Trek esteve em risco de ser cancelada. “The City on the Edge of Forever” foi um dos episódios mais complicados de filmar e é também um dos preferidos pelos fãs hoje. A crítica social e política, os efeitos especiais, os enredos e personagens hoje tão adorados pelos “Trekkies” não bastaram para salvar Star Trek. Meses depois de a série ser cancelada, a ficção tornou-se realidade. Em julho de 1969, Neil Armstrong caminha na Lua…

A INFLUÊNCIA DE NIMOY NOS FILMES STAR TREK

Leonard Nimoy continuou a ter um papel fundamental na franchise que se tornaria Star Trek. Por exemplo, foi ele que reconheceu e defendeu a natureza icónica dos personagens, insistindo para que fossem os atores originais a desempenhar os papéis na série de animação em 1973. Isto teria outras consequências nos filmes para cinema que surgiram depois.

Leonard Nimoy 1Nimoy tornou-se o ator mais bem sucedido nos anos que se seguiram ao cancelamento de Star Trek e recusou participar em Phase II. O sucesso dos filmes deveu-se essencialmente à contribuição de Harve Bennett, Leonard Nimoy e Nicholas Meyer. Foram os três que originaram as longas-metragens mais criativas, impulsionadas por Gene Roddenberry.

star trek filmeNimoy foi o primeiro ator com quem o realizador Robert Wise se encarregou de falar quando lhe atribuíram a tarefa de realizar Star Trek: The Motion Picture (1979). O ator aceitou com agrado aquilo que, para ele, era uma “libertação”:

Na sua autobiografia, I Am Spock, escreveu: “Já não teria de lidar com questões como ‘por que não faz Star Trek novamente? Está farto de Spock?’ A moda e as expectativas atraíram um público vasto durante um breve espaço de tempo, e depois tudo acabou. Senti que tinha tirado as orelhas de Spock pela última vez. Pensei, ‘pronto, está acabado’.”

William Shatner escreveu também um livro, Star Trek Movie Memories, em que declara que o filme o desiludiu: “Pensei para comigo, ‘é isto, demos o melhor que tínhamos, não saiu bem e nunca mais acontecerá’.”

O filme não se saiu tão mal como o esperado, a Paramount não queria obviamente perder dinheiro e atribuiu os destinos da franchise ao produtor Harve Bennett. Spock tornara-se o tema central. Quando surgiu a ideia de Star Trek II, o ator só foi persuadido quando Bennett lhe disse: “Gostaria de fazer uma grande cena em que morre?” Foi apenas esta perspetiva da morte de Spock que fez Nimoy assinar contrato para um novo filme. As atenções dadas ao seu “ajudante” alien não agradaram a William Shatner, que detestou o argumento.

Tinham passado 15 anos desde que Nimoy se habituara a “viver” com Spock e, no dia em que ia filmar a morte do personagem, estava bastante nervoso. Na época, já se falava num terceiro filme, e Nimoy ponderava se havia de continuar a interpretar o Vulcano devido a fatores comerciais. Seria estúpido recusar. Mas, mais importante do que isso, quando filmaram a cena, a equipa ficou de lágrimas nos olhos, o que aconteceria também aos espectadores quando Star Trek II: The Wrath of Khan estreou, a 4 de junho de 1982.

Leonard Nimoy 2A obra foi um sucesso considerável: Produzida com cerca de 11 milhões, obteve 97 milhões de dólares de lucro no mundo inteiro. No fim-de-semana de estreia, bateu um recorde, rendendo 14.3 milhões, alcançando os 78.9 nos EUA e tornando-se no sexto filme mais rentável do ano.

LeonardNimoy2O produtor Bennett ficou então encarregado da árdua tarefa de convencer Nimoy a regressar para uma ressurreição de Spock. O ator achava que, depois de concluído cada filme, acabara com o personagem. Publicou mesmo duas autobiografias em épocas diferentes, uma chamada Não Sou Spock, e outra intitulada Sou Spock.

Desta vez, voltou a aceitar, com uma condição: Iria realizar ele mesmo. Recorde-se que, já nos anos 60, competira com Shatner na tentativa de realizar alguns episódios da série original, sempre recusadas. Agora, a Paramount recebia bem a ideia. O patrão dos estúdios, Michael Eisner – e isto de acordo com a autobiografia de Nimoy – ficou mesmo exultante: “Leonard Nimoy a realizar o regresso de Spock? Adoro!” Queria mesmo que Nimoy escrevesse o argumento, mas este contentou-se em realizar e não se importou que a tarefa ficasse entregue a Harve Bennett.

Em The Search for Spock (1984), William Shatner achou constrangedor ser dirigido pelo seu coprotagonista numa obra que não seria tão bem recebida como a anterior, tendo de competir com outros blockbusters da altura, como o segundo capítulo da saga Indiana Jones. Seguiu-se outro filme realizado por Leonard Nimoy, The Voyage Home (1986). A influência de Nimoy já era vasta no universo Star Trek. Ao ler um livro sobre a extinção de espécies, surgiu a ideia de incluir a extinção de baleias e apelar não só aos fãs da série mas a um público mais vasto.

Star Trek IV: The Voyage Home estreou no fim-de-semana de Ação de Graças, em 1986, e obteve um sucesso crítico gigantesco a par de um êxito nas bilheteiras como nenhum dos anteriores filmes. Rendeu 133 milhões de dólares no mundo inteiro. A longevidade da série foi elogiada pela imprensa americana. Spock, ou Nimoy, estava agora aos comandos da Enterprise, dir-se-ia.

MERITOCRACIA

LeonardNimoyA situação mudou com Star Trek V: The Final Frontier, pois decidiu-se que era altura de devolver o protagonismo a William Shatner. Lançado em 1989 e realizado por Shatner, o filme foi novo sucesso comercial mas ficou muito aquém das expectativas. Nimoy revitalizou a série: A ideia de Star Trek VI partiu novamente dele. Argumentou que tal, como em The Voyage Home, o filme deveria abordar assuntos políticos ou sociais contemporâneos, fazendo-o regressar a um dos conceitos da série original. Assim, Nimoy propôs, “o que aconteceria se o Muro de Berlim caísse no Espaço?” Foram adicionados outros aspetos como o desastre nuclear de Chernobyl de 1986. Deste modo, surgiu Star Trek VI: The Undiscovered Country (1991), muito mais bem aceite que o seu antecessor.

Por esta altura, Nimoy recusou envolver-se mais em spin-offs e numa série televisiva, até porque a sua carreira de realizador estava a obter sucesso. Não se recusou a fazer aparições especiais em episódios seguintes, mas por aí ficou. Em 2000, Nimoy reformou-se da profissão de ator para se dedicar à fotografia. Ironicamente… the show must go on e Star Trek continuou com novas gerações e novos atores. O dilema era sempre o mesmo: Quem iria interpretar personagens tão icónicas e associadas àqueles atores? Era um problema, mas foi ultrapassado, pois os filmes e spin-offs mais recentes de Star Trek conquistaram novos públicos.

leonard nimoy cameraO lema de Spock, “live long and prosper”, parece ter-se adaptado aos novos tempos. Mas ninguém conseguirá esquecer o Spock original, sem o qual Star Trek não teria tido o sucesso que teve. Por isso, concluo com as palavras do ator: “Por que motivo Star Trek continua a sobreviver, a tocar pessoas, a intrigar? Uma das principais razões é que Trek é uma meritocracia. Não importa quem ou o que és, de que cor ou raça. Nada disso importa.”

David Furtado

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