Mad Max e a Estrada da Fúria: O guerreiro vive só nas lembranças

A minha vida extingue-se… a visão esfuma-se. Tudo o que resta são recordações. Lembro-me de um tempo de caos, de sonhos perdidos, de terra devastada. Mas acima de tudo, lembro-me do guerreiro da estrada… o homem a quem chamávamos Max. Para compreender quem ele era, temos de voltar a outro tempo, quando o mundo era acionado pelo combustível negro… e nos desertos apareciam grandes cidades de canos e aço… hoje desaparecidas, eliminadas.

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Mad Max 2: The Road Warrior (1981).

Muito na trilogia Mad Max era premonitório, parte do que sucedia já acontece, e o restante acontecerá, pois a Humanidade para lá caminha. Este caráter profético foi a única coisa que Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road) conservou. Também vem prever o futuro do cinema: Se continua por este beco sem saída, o cinema está morto e acabado. Outro insulto é ter sido realizado por George Miller. Felizmente, Mel Gibson pouco se envolveu com aquilo que, no mínimo, é um pedaço de esterco, que, tanto em filosofia como em produção, é um contra-senso perante a herança dos filmes anteriores, nem sequer é um filho bastardo. Este artigo examina os anteriores. Prossigamos a narração de Mad Max 2:  

Por razões há muito esquecidas, duas tribos entraram em guerra… e atearam uma fogueira que os queimou a todos. Sem combustível não eram nada. Construíram uma casa de palha. As máquinas trovejantes engasgaram-se e pararam. Os seus chefes falaram, falaram, falaram, mas nada podia deter a avalanche.

Os chefes falaram… os espectadores comeram as suas pipocas, as Coca-Colas foram engolidas, mas “nada pode deter a avalanche” do dinheiro, da falta de espírito crítico e da incurável estupidez.

E nesta vertigem de decadência… os homens normais eram esmagados. Homens como o Max, o guerreiro Max. Com o trovejar de um motor, perdeu tudo… e tornou-se o fantasma de um homem… um homem queimado e desolado… um homem perseguido pelos demónios do passado. Um homem que vagueava pelo deserto. E foi aqui, neste sítio perdido… que ele reaprendeu a viver.

O fantasma de um filme – se “filme” é o termo para esta decadência-, Estrada da Fúria é um produto que nada tem a ver com o que foi idealizado no momento em que Mel Gibson  foi ao escritório da agente Mitch Matthews, em setembro de 1977. Pouco antes de se formar no  National Institute of Dramatic Arts (NIDA), o jovem ator, com apenas um trabalho, Summer City, no curriculum, soubera que um médico chamado George Miller o queria para desempenhar um papel no seu filme futurista de baixo orçamento. Gibson tivera uma experiência tão má com Summer City que ia cauteloso. A agente Mitch era uma figura respeitada no meio cinematográfico australiano e obtivera o nome do ator através de Betty Williams, professora de voz no NIDA:

“Perguntei a Betty se conhecia jovens com garra para o filme. Ela sugeriu imediatamente Mel e outros rapazes crus”, disse Mitch. A professora recomendou o colega de turma de Gibson, Steve Bisley e Judy Davis, que também seriam reconhecidos internacionalmente.

Mel Gibson e o amigo Steve Bisley.
Mel Gibson e o amigo Steve Bisley.

A CONTRATAÇÃO DE MEL GIBSON

mad max mel gibson george miller (7)A audição decorreu no pequeno escritório de Mitch Matthews, a norte de Sydney, e originou uma lenda, ou um boato. Em entrevistas subsequentes, Mel Gibson declarou que estava feito num oito depois de uma zaragata com três homens num pub: 

“Acabei com uma data de cortes, ossos partidos, olhos negros e o nariz achatado. A diretora de casting deitou um olhar à minha fronha, acenou com a cabeça e murmurou, ‘sim, sim, pareces ótimo’. E acabei por obter o papel principal em Mad Max.” 

Matthews afirmou que estas declarações são puro disparate: “Não havia hipótese de Mel ter andado numa luta. Ouvi essas histórias e sei que não são verdadeiras.” A filha de Mitch, Celia, trabalhou com a mãe durante 20 anos. Também estava presente no momento histórico e presenciou: “Ele nunca entrou com todas essas feridas de luta. Não tiveram nada a ver com o motivo por que foi contratado. E de certeza que não tinha um olho negro quando fez a audição.” George Miller também nunca se referiu a tal coisa. A verdade é bem diferente do boato difundido ao longo dos anos.

Mitch fez a Gibson um teste com uma câmara de vídeo e logo ali se apercebeu do potencial do ator: “Senti arrepios na espinha quando vi Mel através da câmara. Ele era simplesmente mágico. Possuía grande profundidade e sensibilidade.” O realizador concordou: 

“Ainda me recordo de olhar para o monitor de TV quando Mel lia o seu monólogo. De repente, pensei, ‘meu Deus, há algo de especial aqui. Voltei a visionar o teste e senti o mesmo. Esqueci-me de que era um realizador a tentar selecionar atores para o seu primeiro filme. Sentei-me, olhei e senti-me transportado pelo momento.” 

Só havia um ator com alguma fama em Mad Max, o australiano Roger Ward, que George Miller obrigou a rapar a cabeça, tornando-o quase irreconhecível. Ward não ficou impressionado com Gibson: “Era pequeno e magro. Mas o miúdo falava com autoridade e não parecia intimidado ou assustado por explorar vários métodos e interpretações de certas cenas.”

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Steve Bisley, que tinha sido companheiro de apartamento de Gibson, obteve o papel de Jim Goose, mas Judy Davis foi descartada por ser demasiado “intensa”. Surgiram problemas porque os professores de Mel Gibson impediram a contratação do ator até que ele terminasse os estudos, em outubro seguinte. George Miller foi paciente e reteve a produção. E, no dia em que Mel deixou a escola, com 21 anos, embarcou num avião para Melbourne. Horas depois, batia à porta de uma casa nos subúrbios da cidade e foi recebido por alguém que lhe parecia um paciente de um hospital. Disse: “Desculpe… procuro a casa de George Miller, as pessoas do cinema…” “É aqui mesmo, entra.” “Sou o Mel…” Quem lhe abrira a porta fora o coordenador de duplos Grant Page, que lhe estendeu uma mão atada com uma ligadura.

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Tudo aquilo tinha aspeto de baixo orçamento, o que deixou Gibson desconfiado, uma relutância que se dissipou quando conheceu George Miller. Naquela casa de ar Vitoriano em Melbourne, estavam hospedados todos os atores e equipa técnica do filme. Em cada quarto dormiam seis ou sete pessoas, em sacos-cama ou colchões.

A IDEIA

O mundo deles desfez-se, as cidades explodiram. Um vendaval de pilhagens… um rastilho de medo. Os homens começaram a alimentar-se de homens. As estradas eram um pesadelo. Só os que tinham habilidade para salteadores… e brutalidade para a pilhagem conseguiam sobreviver. Os bandos dominavam as estradas… prontos para a guerra.

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A ideia básica por detrás de Mad Max era criar um western futurista, segundo George Miller, empregando o mesmo tipo de enredo e personagens: “É um western com nova roupagem. Cada país tem o seu próprio enquadramento para isso. No Japão, equiparam-no a filmes de samurais, na Escandinávia, chamam-lhe filme de Vikings. Todos são basicamente westerns”, explicou o realizador. Originalmente, o herói tinha apenas 14 linhas de diálogo.

Miller sabia que os filmes dos cinco anos prévios, retratando a Austrália como um local sombrio, tinham sido recebidos com entusiasmo, mas possuíam um cariz limitado além-fronteiras; e o médico ambicionava conquistar o mercado internacional. O conceito era de puro escapismo, mas fora elaborado com esmero por Miller e o produtor Byron Kennedy, juntamente com o jornalista James McCausland durante três anos.

E foram anos de combate, apenas para angariar os 250 mil dólares para produzir a obra – um orçamento minúsculo para um filme de ação com várias cenas de alto risco. Kennedy e Miller conheceram-se, e o entusiasmo convenceu ambos de que o conseguiriam. Para serem convincentes, teriam de usar desconhecidos. A primeira escolha nem foi Gibson, mas sim, o ator irlandês James Healey que vivia em Melbourne, desesperado por um papel enquanto trabalhava num matadouro. Ao ler o argumento, recusou: O herói praticamente não falava. Miller não conseguiu convencê-lo a aceitar. Healey apareceria, anos depois, na série Dinastia, no papel de amante de Joan Collins. Em 1993, foi detido em Los Angeles por alegadamente ter assassinado um parente.

18 HORAS DE TRABALHO POR DIA

As filmagens decorreram numa área deserta e inóspita nos arredores de Melbourne, com uma vastidão de deserto que ia até Perth, a Oeste. Havia um parque industrial abandonado e alguns cavalos. A Leste, uma cordilheira montanhosa. O ritmo de trabalho era árduo, 18 horas por dia e, como era hábito em produções cinematográficas, havia drogas à disposição. Gibson não terá optado por as tomar, mas muitos recorreram a anfetaminas e cocaína para aguentar semelhante passada.

Jon Dowding, encarregue da direção artística e que ajudou no design de muitos veículos futuristas, afirma: “Todo o filme foi gerado por muitas substâncias alteradoras da mente, muitas decisões em cima do joelho. Éramos como uma unidade de guerrilha. Houve dias assustadores com os duplos a escaparem por um triz. Éramos todos ingénuos e correram-se alguns riscos estúpidos.” Dowding acrescenta que “Mad Max representa o renascimento da indústria cinematográfica australiana. Era um cativante argumento. Na verdade, era brilhante.”

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O início foi caótico, com Gibson e Steve Bisley quase a serem presos enquanto guiavam para o local de filmagem, vestidos com o uniforme de cabedal, no seu carro Interceptor, já com as adaptações necessárias e com as falsas armas. Um polícia deteve-os numa rua de Melbourne e assustou-se ao ver as armas. Por sorte, os atores tinham documentos que provavam a sua participação no filme ou teriam sido presos.

Mel Gibson e Joanne Samuel.
Mel Gibson e Joanne Samuel.

Quatro dias depois do começo do trabalho, Rosie Bailey, que desempenharia a esposa de Max, sofreu um acidente de viação grave, partiu uma perna e foi substituída por uma estrela de telenovelas australianas,  Joanne Samuel.

Apesar dos revezes, o filme foi terminado e tornou-se um êxito imediato de crítica e público, com elogios enormes ao trabalho dos duplos. Enquanto agora temos efeitos computorizados, cores artificiais e gente a voar à mercê de milagres da tecnologia, como um jogo de computador, neste temos muita chapa amolgada e carros destruídos. Refira-se que, apesar da aceitação popular de Mad Max, havia muita crítica snob na Austrália que acusou Miller e Kennedy de terem feito um filme popularucho, somente focado no lucro. Phillip Adams, que mais tarde liderou a Australian Film Commission acusou o filme de ter a “exaltação moral” de Mein Kampf.

A família de Mel Gibson adorou, ainda que surpreendida. A sua tia Kathleen espantou-se com “todo aquele barulho, desastres de carro e pessoas a serem assassinadas”. “Achei o Mel fantástico, mas o filme era algo que eu não esperava. Mesmo com toda a poeira, sangue e maquilhagem e o passar dos anos, era o pequeno Mel que estava ali, o miúdo que queria sempre brincar e divertir-se. Agora estava a ser pago por isso e tudo parecia um sonho. Senti as pernas a tremer quando o filme terminou e tive de acalmar antes de sair do cinema.”

Mel Gibson entrou à socapa num cinema em Sydney e surpreendeu-se com a reação. O local estava repleto de motoqueiros ao estilo do filme: “Admito que não apreciei lá muito o que o filme lhes parecia provocar. Muitos pareciam levá-lo demasiado a sério. Mas acho que haverá sempre esse tipo de gente. Fico grato por alguns daqueles motoqueiros não se terem virado e visto quem estava sentado atrás deles…”

A dupla Kennedy/Miller enfureceu-se quando Mad Max estreou nos EUA dobrado – a maioria dos distribuidores reclamava que o público americano não entenderia o sotaque australiano. E foi um fracasso na América, país que só se convenceu após o êxito que o filme obteve no resto do mundo. Só então Hollywood o levou a sério.  

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Mel Gibson: “É um cartoon, não esqueçam.”

Ao longo dos anos, Mel Gibson foi inconsistente quanto aos méritos do Mad Max original. Entre todas as declarações, uma ideia manteve, porém: “Provavelmente, foi o lixo série B com mais classe alguma vez feito. Na verdade, é um filme bastante razoável, de um modo sórdido e arrasado, por assim dizer. É um cartoon, não esqueçam.”

Cartoon ou não, a obra arrecadou seis prémios do Australian Film Institute; incluindo o Prémio do Júri e o de Melhor Ator. Em França, foi aclamado no Festival de Avoriaz, o mais prestigiado do mundo no que toca à fantasia e ficção científica. Mad Max atirou literalmente Mel Gibson para a notoriedade, este começou a receber propostas de trabalho na Austrália e no estrangeiro, com um poderoso agente em Hollywood, Ed Limato, a oferecer-se para o representar. O ator achou tudo aquilo acidental: “Não havia nenhum plano. Não foi uma manobra pré-calculada até eu estar mesmo envolvido no projeto. O destino tem um modo engraçado de nos dar dicas sobre as coisas.”

MAD MAX 2: O GUERREIRO DA ESTRADA

Gibson estava lançado, mas o seu início de carreira não foi fácil, o que será matéria para um dos próximos artigos. Em parte, foi o que o levou a reinterpretar o seu personagem mais famoso, três anos depois. Agora, já havia 4 milhões de dólares de orçamento. O argumento continha (à partida) menos violência e era assinado por George Miller, Terry Hayes e Brian Hannant. Gibson, que ainda tinha menos falas do que no filme original, aceitou um salário modesto: 100 mil dólares.

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Max e o seu fiel dingo em Mad Max 2.

Depois da morte da esposa, Max é agora um solitário, o “fantasma de um homem” como diz a narração do Feral Kid que começa e termina a narrativa. Max tem agora um cão e surge ao volante do seu V8 Interceptor. Já não é um polícia; o mundo é uma terra devastada onde a gasolina é ouro e cada um vale por si. Os membros dos gangs são homossexuais, o que divertiu o ator.

A ação é non-stop e o terror gótico do primeiro capítulo dá lugar a um terror mais direto. Sem as vestimentas e os óbvios exageros, o mundo caminha a passos largos para esta realidade cada vez menos fantasiosa. Mel Gibson ficou aturdido com a reação do público à barbárie: “Achei o filme engraçado. Era quase uma comédia, uma comédia negra. Mesmo a violência não era do tipo verdadeiramente brutal, era apenas empolgamento.”

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Emil Minty (The Feral Kid), com apenas oito anos, recebeu os aplausos da crítica.

O ator elogiava George Miller nestes termos: “Ele é um verdadeiro cineasta com um estilo totalmente único de usar o filme e as suas técnicas para relatar uma história. É preciso alguém realmente talentoso para captar aquela simplicidade em celuloide.”

Com apenas oito anos, Emil Minty era o Feral Kid, pequeno ator que se tornou amigo de Gibson, que costuma lidar bem com crianças durante a rodagem de filmes. O ator ensinou Minty a atirar um bumerangue e a dar cabeçadas nas pessoas sem as magoar, um dos seus divertimentos favoritos na infância. Na altura, Mel já era casado com Robyn e tinha três filhos, que acompanharam Gibson na rodagem. Juntamente com Minty foram todos assistir a Mad Max 2 no cinema.

“A minha mãe fez-me prometer que eu nunca iria ver o filme, mas Mel não pareceu muito preocupado com o facto de os seus próprios filhos o verem”, recapitula Minty, agora adulto e ainda residente em Sydney.” Gibson viria a esclarecer que Mad Max 2 era o único filme a que deixava os filhos assistir.

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A sequela bateu todos os recordes de bilheteira na Austrália, cinco dias após a estreia, arrecadando uma receita de 802 mil dólares australianos em apenas 58 cinemas. Em Inglaterra, o êxito foi quase idêntico: 24 milhões de dólares. Ao todo, ultrapassaria os 100 milhões do primeiro Mad Max. A crítica Meaghan Morris rendeu-se: Não há muito a dizer sobre Mad Max 2, a não ser que é um dos melhores espetáculos de ação alguma vez filmados.” Também a atuação de Minty foi aplaudida. Fran Hernon escreveu no Sydney Sun: “Mel Gibson sai disto deixando os corações femininos a palpitar, Emil Minty sai com a honra da sua representação.”

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Os filmes de ação costumam ser mais apreciados pelos homens que levam as namoradas, mas, curiosamente, aqui foram as namoradas e esposas que arrastaram os parceiros e maridos para o cinema! O motivo era Mel Gibson, agora seriamente considerado uma potencial estrela de Hollywood. Foi criado um clube de fãs nos EUA, e uma admiradora gabava-se de ter visto o filme 2.123 vezes. Editado em VHS, Mad Max 2: The Road Warrior foi um sucesso extraordinário, vendendo 50 mil cassetes, equivalente a platina. Durante anos, era típico vê-lo na TV e nos cinemas ao sábado à noite.

A estreia em Perth, na Austrália, teve lugar no Paris Theatre, com 500 mulheres gritando o nome do seu ídolo. Nascera a “Mel-mania”. Gibson só conseguiu acalmar as hostes quando lhe ocorreu que devia assinar uns quantos autógrafos. Depois de 400, conseguiu escapar ileso àquilo que apelidou de “uma das experiências mais apavorantes” da sua vida. “Dei por mim assustadoramente encurralado. Pensei que me iam cortar às postas.”

O frenesim propagou-se, contagiando a Europa, os EUA e até o Japão, onde chamavam a Mel Gibson, o “samurai de rodas”, comparando-o a Paul Newman e Steve McQueen. O ator foi obrigado a fazer uma esgotante digressão promocional pela Austrália que durou 10 dias, dando entrevistas a 13 jornais, duas revistas de cinema, quatro semanários, cinco publicações mensais, sete televisões e nove estações de rádio.

Em Melbourne, Gibson admitiu que esperava estar acabado dentro de um ano, declaração pouco comum para quem atravessava uma fase tão popular. A verdade era que Gibson estava a odiar a promoção: “É bom sermos requisitados, mas as ofertas podem acabar amanhã. Há altos e baixos, temos de ter algum tipo de garantia pessoal, digamos.”

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Perguntaram-lhe se conseguiria manter os pés na realidade, face a tanta adulação: “Isso depende do modo como crescemos e se nos mantemos fiéis ao que nos ensinaram. É bom que nos relembrem certas coisas pelo caminho, que nos devolvam o contacto com o que aprendemos. Não há nada como um longo período sem trabalhar para nos provocar esse efeito, ou alguém que conheçamos bem a criticar-nos com brutal honestidade.”

Depois deste furacão, George Miller anunciou que não haveria mais nenhum Mad Max, ideia que Mel Gibson aprovou totalmente. Dois anos passaram e, logicamente, o dinheiro falou mais alto. Em 1983, a Variety anunciava o regresso do herói.

MAD MAX 3: ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO

O orçamento subiu para 8 milhões de dólares, o dobro do segundo e 10 vezes o custo do primeiro, com o agente Ed Limato a assegurar um milhão para Mel Gibson (a primeira vez que um ator australiano, ou baseado na Austrália, recebia tal soma). Miller e Kennedy aceitaram vender-se e começou o descalabro. O terceiro capítulo da saga foi um desnorteio criativo e uma fantochada que desvirtuou o conceito de Max, que, de herói pós-apocalíptico, se tornou num produto para crianças.

Mad Max Beyond Thunderdome (1985)
Mad Max Beyond Thunderdome (1985)

Miller contratou George Ogilvie, que trabalhara no teatro com Gibson, para supervisionar as representações, enquanto ele próprio orientava as cenas de duplos. Miller dizia que fazia um terceiro filme porque Max se tornara “uma obsessão pessoal”. O projeto descarrilou devido a uma tragédia: A morte de Byron Kennedy, aos 33 anos, num acidente de helicóptero. O filme já tinha sido anunciado com o título de Mad Max 3, mas, tanto Miller como Gibson, deprimidos com o sucedido, ponderaram se deviam prosseguir. Só o fizeram por acharem que Kennedy assim desejaria. Em setembro de 1983, Gibson anuncia um novo prémio, o Byron Kennedy Award na cerimónia do Australian Film Institute.

A morte de um dos criadores parece ter influenciado o espírito da saga, que se perdeu. Quase um ano depois, Mad Max Beyond Thunderdome começa a ser filmado. Sem Interceptors, sem teor gótico, sem acidentes mortíferos. Uma espécie de Feiticeiro de Oz, como troçaram alguns críticos. 60 crianças, 400 porcos e Tina Turner a cantar “We Don’t Need Another Hero”…  Se isto soa a uma verdadeira palhaçada, o resultado é ainda pior.

O coargumentista e também criador, juntamente com George Miller, Terry Hayes, afirmou que se tentou enfatizar a humanidade de Max: “O que queremos aqui é ter muito divertimento, especialmente com os miúdos, e mostrar que há algo de insaciável no espírito humano.” Ficou-se pelas boas intenções. 

NÃO PRECISO DE MAIS UM HERÓI… 

Mad Max Beyond Thunderdome (1985) tina turnerOutra grande mudança foi a inclusão de Aunty Entity (Tina Turner) uma exótica amazona negra de cabelo loiro. Turner, que atravessava uma excelente fase de relançamento da sua carreira, foi convocada por George Miller para ir à Austrália, embora declarasse: “Oxalá vos pudesse dizer em que consiste este papel.” O público também não percebeu muito mais que Turner.

A imprensa andava à caça de um hipotético romance entre os protagonistas, mas Tina Turner desmentiu com segurança e humor:

“Mel é um homem bonito, mas é como um rapaz e eu prefiro um homem. Gosto da força num homem; e um homem também tem de gostar de mim. E tem de ter essa masculinidade e mais algumas coisas além de… Lamento, mas não posso dizer às meninas que ele é um grande amante.”

No set, Mel Gibson, que começava o dia com um pequeno-almoço de cinco cervejas, disse a um repórter: “Nem sequer quero estar a fazer este filme… não escreva isso.” Claro que o jornalista o citou à letra. O ator disse também: “Está tudo a acontecer demasiado depressa, tenho de meter travões ou choco contra alguma coisa. É difícil manter a cabeça fora de água quando a inundação dos exageros de Hollywood nos atinge. O meu cérebro mantém-me são, e a minha mulher e a minha família, que não têm ilusões sobre mim.”

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NO FIO DA NAVALHA

Mel Gibson descreveu mesmo que ser uma estrela era “estarmos de calças para baixo a prender-nos os tornozelos e mãos atadas atrás das costas, pelo que é uma boa oportunidade para qualquer parasita surgir e nos atirar dardos ao peito”.

As declarações escondiam algo de muito grave: O filme lançou Mel Gibson numa espiral de alcoolismo que o ia matando. Filmava em Coober Pedy, uma remota povoação mineira, 800 km a noroeste de Adelaide, com temperaturas superiores a 40 graus. Sete membros da equipa foram hospitalizados devido ao calor. O ator estava isolado e exausto. Filmara três filmes seguidos. Havia disputas acerca do trabalho dos duplos.

mad max mel gibson (11)

Gibson não tinha a família por perto, nem Robyn. Viria a refletir sobre este período:

“Às vezes, eu lutava tanto e bebia tanto que até me surpreendia a mim mesmo. Mas havia tanta gente à minha volta, assegurando-me de que podia fazer tudo o que quisesse, que eu acreditava nessas pessoas. Acordava de manhã sem fazer ideia donde estivera a noite passada. Depois vestia-me e cambaleava porta fora sem saber onde ia acabar.”

Perdido no set de Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão.
Perdido no set de Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão.

Apesar do consumo assustador de álcool, Gibson conseguia fazer o que George Miller pretendia. O problema era que, durante as frequentes e longas pausas, o ator sentava-se a jogar às cartas, bebendo ainda mais, fumando sem parar, isto só nas primeiras semanas de uma rodagem de quatro meses. A esposa Robyn, que estava em casa, em Sydney, foi alertada e veio em socorro do marido, que, como viria a admitir, estava em risco de ficar sem carreira, casamento, de sofrer um colapso e se auto-destruir.

Até os técnicos de som notaram que a sua voz soava mais agreste, com tanta cerveja e tabaco, mas o profissionalismo mantinha-se, milagrosamente, e Mel não falhava um diálogo. Quando terminou o calvário, Gibson, à beira de um esgotamento nervoso, nem quis saber do filme. Optou por um inevitável afastamento do mundo do cinema.

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Mad Max Beyond Thunderdome revelou-se um êxito comercial. Quando estreou, em julho de 1985, obteve boas críticas nos EUA, com Michael Wilmington do LA Times a dizer que o filme “pulsava furiosamente com vida” e era “entretenimento de primeira”. Estas balelas de primeira divertiram Mel Gibson. Aliás, divertiram-no tanto que, em janeiro de 1987, recusou 22 milhões de dólares, uma verdadeira fortuna, para desempenhar Max pela quarta vez. Para ele, o personagem estava morto e enterrado. E agora, profeticamente, temos Fury Road que consegue a proeza de ser infinitamente mais patético que o terceiro.

Quando vi Mad Max Beyond Thunderdome no cinema, gostei, mas era uma criança e mais tarde… terminando com a narração…

… tornei-me homem… E o guerreiro da estrada? Foi aquela a última vez que o vimos. Agora vive… somente nas minhas recordações.

David Furtado

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