Impulso para Matar de Sondra Locke: As muitas vidas que podíamos viver

Impulse surgiu num mau momento da vida de Sondra Locke. Nunca se sentira tão feliz profissionalmente desde o início da carreira com o seu papel em O Coração é um Caçador Solitário (1968) em que foi nomeada para o Óscar. Impulso para Matar é a história de uma polícia à paisana que se sente tentada a possuir tanto poder como o papel que desempenha. Vê-se envolvida num mistério, e ao estilo do film noir, torna-se um peão num jogo de desconfiança onde quase ninguém parece quem é. Podemos confiar nos nossos impulsos quando as nossas profissões se começam a infiltrar nas nossas vidas privadas? Quantos rostos temos? Sondra Locke, a realizadora, partilhou algumas das suas impressões sobre Impulse, um filme que sempre achei subestimado e que, de mais que uma forma, começou e terminou a sua carreira na realização.

Impulse Sondra Locke português

É inevitável mencionar o “papel” de Clint Eastwood em Impulso para Matar. Foi importante, no sentido em que quase recambiou o filme para uma espécie de esquecimento injusto. Durante este período, a relação de Locke com Eastwood estava no fim. Um amigo comum (na época) era o produtor Al Ruddy, que abordou Locke com um guião, “e uma fuga”, como ela recordaria mais tarde. Tudo veio num momento em que Locke achava que não podia “aguentar mais”.

Sondra Locke explicou ao Wand’rin’ Star como se interessou pelo projeto:

“Al Ruddy trouxe-me o argumento de Impulse numa época em que eu precisava desesperadamente de voltar ao trabalho. A minha relação pessoal com Clint andava tensa e eu precisava de algo positivo com que me ocupar. Gostei do script principalmente por causa da protagonista, ‘Lottie’. É uma mulher que tem de sobreviver num mundo perigoso e dominado por homens. É complexa e anseia mais do que tem na vida. Além disso, gosto do género film noir em que Impulse se enquadra.”

Na sua autobiografia, Locke descreve: “Era uma história de suspense psicológico, com um pouco de ação e uma protagonista feminina. Ele [Al Ruddy] achou que seria ótimo para uma realizadora.” Mais tarde, Ruddy testemunhou em tribunal, em defesa de Eastwood e contra Locke. Em Hollywood era bem conhecida a sua reputação de “bajulador com charme” e, durante o julgamento, foi muito cauteloso “para proteger a própria pele”. De facto, segundo Locke, até mentiu no tribunal, sob juramento, negando ter sido ele o intermediário no negócio fraudulento que Clint Eastwood arranjou a Sondra Locke na Warner. Como Ruddy produziu O Padrinho, pode-se dizer que foi um produtor adequado. Depois do seu testemunho, teve a ousadia de passar ao lado da mesa de Locke e cumprimentá-la com um “Sondra, como vai isso querida?” como qualquer mafioso arrepiante.

Mas, aparentemente, os seus instintos estavam certos acerca de Impulse.

“Ruddy também contratou uma argumentista, Leigh Chapman, e nós os três reuníamo-nos regularmente no escritório de Al em Beverly Hills. Por sugestão de Al, levámos a versão que tínhamos à Warner Bros., onde Terry Semel e Lucy Fisher conseguiram interessar o estúdio, e seguimos em frente com a reescrita e escolha dos atores. Originalmente chamava-se Sudden Impulse, mas sugeri que o alterássemos para Impulse, pois soava muito como Sudden Impact, que eu protagonizara com Clint.”

DIAS DE INDEPENDÊNCIA

Acontece que Eastwood não gostou disto desde o começo e tentou boicotar os esforços de Locke. De acordo com a atriz/realizadora, insistiu para que ela viajasse com ele quando sabia que ela tinha reuniões importantes sobre a produção. Quando Ruddy lhe telefonava, ele sentava-se ao piano, “martelando músicas de Scott Joplin o mais alto que podia. Estaria com inveja?”

O filme era “urgente” para Sondra Locke por várias razões, tal como escreve na sua autobiografia: “Era necessário ao meu bem-estar emocional, mas não sabia que impacto teria na nossa relação já de si afectada.” Locke não compreendia os “sinais confusos” vindos de Eastwood neste ponto: “Os seus atos pareciam outra confirmação de que ele não estava a tentar pôr fim ao nosso relacionamento; caso contrário, ficaria satisfeito por saber que eu tinha um filme para realizar, algo que lhe permitiria ver-se livre de mim e devolver-me a minha independência.”

Eastwood arruinou então a época favorita do ano para Locke e que ela sempre adorara, o Natal. Não vou descrever tais factos aprofundadamente, já que este artigo é sobre Impulse, mas Locke achou que ele “cometeu o ato mais mesquinho, cruel e maldoso de que era capaz”. A época teve muito de infeliz.

Locke precisava de concentrar esforços em Impulse; estava prestes a começar a rodá-lo em Los Angeles e uma equipa de filmagens aguardava-a. “De algum modo, tive de arranjar presença de espírito para conseguir realizar aquele filme e seguir em frente”. Foi “autorizada” a fazer o filme que pretendia, sem qualquer interferência de Eastwood. Ao contrário do que sucedeu em Ratboy, ele não foi produtor nem esteve de modo nenhum envolvido oficialmente em Impulse.

Sob vários aspetos, foi um grito de independência. Como Locke afirma no seu livro: “Compreendi totalmente o que Dickens quis dizer quando expressou, ‘foram os melhores tempos; e foram também os piores’, porque certamente se aplicava à minha vida naquela época. Não importava quantas horas trabalhasse, ou quão intensa a minha concentração tinha de ser, não me sentia tão feliz com o meu trabalho desde O Coração é um Caçador Solitário.”

Durante este período criativo, Locke tinha, como sempre, Gordon Anderson ao seu lado. Este alertou-a de que o seu relacionamento com Clint Eastwood já era um beco sem saída.

PROJETANDO OU “CONTRATANDO” SOMBRAS

Eastwood contrata então George Dzundza e Jeff Fahey (quando estavam a meio da filmagem de Impulse com Locke) para protagonizarem o filme seguinte DELE, Caçador Branco, Coração Negro. Sondra ficou estupefacta: “Eu contratara-os, ele até os denegrira quando lhe mostrei as fotos.” Para ela, o gesto foi “arrepiante e incestuoso”. Sondra Locke deduz que foi a maneira de Eastwood projetar uma sombra sobre Impulse, já que, “se ele fizesse a sua habitual estreia apressada, o seu filme com os seus atores sairia primeiro e pareceria que eu o tinha copiado. Era perverso”.

À distância de 23 anos, a situação clarificou-se – Caçador Branco, Coração Negro é um filme fraco, enfadonho e pretensioso. Impulso para Matar não é.

Então, no dia em que a realizadora filmava uma cena complexa – quando ‘Lottie’ (Theresa Russell) aguarda o misterioso assassino, quase na conclusão do filme –, Locke soube que, sem mais nem menos, Eastwood a despejara da casa em que coabitavam, em Stradella Road 846 e mudara as fechaduras. Eastwood informou-a através de uma carta do seu advogado, enviada para casa de Gordon Anderson. Este chamou a Eastwood um “marquinhas” pelo modo cobarde como lidou com a situação e disse a Locke que ele “pagaria um dia”, o que veio a acontecer.

Locke processa então Eastwood. Estava, na verdade, a realizar outra cena de Impulse quando disse ao advogado dela para ir em frente: “Eu sabia que o teto do meu universo desabava completamente.” A imprensa depressa agarrou a história, Locke sentia-se “totalmente arrasada”, mas sabia que tinha de terminar Impulse.

Isto revelou-se, por si só, uma tarefa difícil, no mínimo. Alguns “amigos” mútuos apressaram-se a ficar do lado de Eastwood. Hospedada na casa de alguns destes “amigos”, Locke regressava diariamente após as filmagens e adormecia exausta no quarto de hóspedes.

Nessa época, Sondra Locke também encontrou o vidro do carro partido. O seu caderno de anotações para a realização de Impulse, bem como vários documentos legais relativos ao processo contra Eastwood tinham desaparecido. Por vezes, desejamos que Columbo tivesse visitado Eastwood e lhe dissesse, antes de sair do seu escritório, “só mais uma coisa…” Infelizmente, os filmes não são a vida real, embora certas personagens ficcionais sejam mais autênticas do que algumas pessoas reais com reputação mitológica.

Quando Locke finalmente encontrou uma casa, uma das suas poucas posses era a foto que Bob Willoughby tirara dela – uma fotografia promocional de O Coração é um Caçador Solitário. Locke ficou a olhar para a foto e pensou: “Algures por detrás da imagem de Bob Willoughby, daquela rapariga desengonçada no Staten Island Ferry, estava eu. De muitas formas, ela não mudara nada; de muitas formas, ela já não existia.”

UM IMPULSO PESSOAL

Mencionei, num artigo anterior sobre Sondra Locke e o seu livro, que o seu estado de espírito durante todo este período era sombrio. Numa ocasião, ela e outras pessoas não encontraram lugar num restaurante. Lá, ela olhou para as pessoas “com as suas pequenas e seguras reservas. Há tantas vidas diferentes que poderíamos viver em tantos lugares diferentes. Como, perguntava-me, temos as que temos? Será que realmente as escolhemos?”

Curiosamente, este tópico poderia ser explorado no contexto de Impulse, sugerindo que a abordagem de Locke é mais pessoal do que parece à primeira vista. A realizadora disse ao Wand’rin’ Star:

“Não acho que me tenha identificado pessoalmente com ‘Lottie’, mas atraiu-me a maneira como ela procura mais, procura um novo caminho. Apesar de fazer muitas escolhas erradas, não perde a capacidade de despertar empatia. Gostei disso. Os melhores heróis têm falhas.”

Assim que as filmagens começaram, Sondra Locke encontrou uma bem-vinda “distração” dos problemas pessoais. Nem tudo era deprimente – a realizadora “deu-se maravilhosamente” com a sua estrela, Theresa Russell, que já trabalhara numa longa lista de filmes arriscados com Nicolas Roeg e Ken Russell. Nessa altura (e não deixou de ser verdade hoje) reunia a aclamação da crítica e do público.

Bela e talentosa, Russell era perfeita para o difícil papel de ‘Lottie’, uma personagem que é tentada pelo poder de não ser ela própria – liberdade que traz um custo elevado para alguns. No caso dela, é por ser uma polícia rude e dedicada.

Longe de ser estúpida – é inteligente, profissional e sarcástica –, ‘Lottie Mason’ pensa que “todos os homens têm um pervertido dentro deles, à espera de se mostrar”. Claro que o assistente do promotor, ‘Stan’, nota que esta dura carapaça esconde suavidade e pergunta-lhe se foi isso o que um casamento fracassado lhe fez.

Assemelham-se a dois peixes presos num aquário, a certa altura, como sugere a visão de realizadora de Locke. ‘Stan’ leva uma vida dupla, embora não a esconda: Persegue, como um cão de caça, um mafioso, um peixe graúdo. Em privado, como ‘Lottie’ descobre, é descontraído e coleciona cartões de basebol; um perfeito desleixado, verdade seja dita. Isto torna-se intrigante para ‘Lottie’.

O verdadeiro vilão da história é o ‘Tenente Morgan’ (George Dzundza) polícia competente mas corrupto (seu superior), que quer seduzir ‘Lottie’. Não fica agradado quando esta oferece resistência. E apercebe-se então que ‘Lottie’ e ‘Stan’ estão a ter um caso.

Para a sua qualidade, o filme tem baixa classificação na IMDb, o que não é grande novidade. Roger Ebert considerava estas classificações bastante curiosas no que toca ao reconhecimento público do cinema enquanto arte. No caso de Impulse, há obviamente o estranho preconceito, a regra simplória de que cada fã ou admirador de Clint Eastwood deve automaticamente excluir qualquer noção de Sondra Locke como artista de mérito próprio. Isto tem tanto de anedótico como de trágico, e evidentemente reflete a confusão que se faz entre arte e celebridade.

Depois de ser negligenciado durante 22 anos pela Warner, Impulse teve finalmente um muito aguardado lançamento em DVD em novembro de 2012, encontrando-se disponível.

MISTÉRIOS NATURAIS

Impulse é um jogo de desconfianças. Será a confiança um impulso de que nos podemos arrepender? Há representação dentro de representação no filme, o que nos conduz a Sondra Locke no seu “papel” de realizadora. Na entrevista que Locke deu ao Wand’rin’ Star, expressou que se sentiu mais confortável a realizar do que a representar. Portanto, tive curiosidade em saber como aborda um papel e como isso funcionou no contexto de Impulse, já que se encontrava atrás da câmara:

“A minha abordagem pessoal da representação reside no facto de sentir que muito da personagem vive nas entrelinhas do guião. O que a personagem pode realmente estar a pensar ou a sentir é aquilo que vai mais além, ou que chega a ser uma antítese do que está a verbalizar. Isso é que é tão interessante acerca de representação em cinema em contraste com a representação teatral. Podemos usar os planos aproximados para construir o personagem. Gosto de criar algum tipo de história ou perfil emocional da pessoa para lá [ou antes] do que ocorre na história contida no guião. É algo que tenho sempre presente, uma camada oculta em tudo o que ela faz/diz no ecrã, durante o filme. Para mim, dá significado onde nenhum poderá obviamente existir nas palavras do script. Partilhei esta abordagem com Theresa. Funcionou muito bem com ela. Ela tem um mistério natural no rosto que nos faz querer saber o que realmente lhe vai na cabeça. Acho sempre que menos [“representação”] equivale a mais. Em vez disso, prefiro encontrar um nível de ‘ser’.”

O filme realmente funciona devido aos atores. Como Sondra Locke disse ao Wand’rin’ Star:

“Theresa foi a minha primeira escolha. Tinha todas as qualidades certas, um mistério natural no rosto e no comportamento. Além disso, é fisicamente alta e robusta, o que torna credível que se pudesse defender no mundo perigoso de uma agente à paisana.”

A realizadora vira um pequeno filme que Jeff Fahey fizera, chamado Split Decisions (Os Homens Não Choram); “gostei muito de Jeff, pelo que o contratei”.

“Achei que ele mostrava uma faceta sensível, sugerindo que se podia sentir atraído pelo carácter problemático de ‘Lottie’, mas, ao mesmo tempo, mostrava um lado inteligente mas rude quanto baste, no modo de encarar o seu trabalho.”

Durante as filmagens, Sondra Locke descobriu que Fahey precisava de ser abordado de forma mais diplomática que Theresa Russell:

“Dirigir Jeff requeria uma abordagem delicada. Ele era muito sensível a qualquer coisa que se assemelhasse a uma crítica, pelo que tinha sempre de ser positiva com ele, elogiando-o por tudo o que ele fazia bem”, disse Locke ao Wand’rin’ Star.

“Mas, em última análise, ele sempre foi aberto a ideias e reagia bem”, conclui Locke no seu livro.

Para Locke, George Dzundza foi a sua “rocha entre os atores. Não só é extremamente talentoso, o seu discernimento é acutilante e o seu coração grande e expansivo”.

“A George, quase o conseguia dirigir intuitivamente. Ele entendia o meu ponto de vista antes de eu completar a minha ideia. Não tinha nenhuma interferência do ego.”

“Theresa Russell e eu demos-nos às mil maravilhas. Era uma profissional consumada, sempre pronta e disposta a colaborar. Respeitámo-nos mutuamente e ela nunca contrariou nenhuma direção que lhe dei. Achei-a a atriz ideal para ‘Lottie’ – a detetive que trabalha na Brigada de Costumes e, consequentemente, começa a vaguear rumo ao lado mais sombrio da sua própria personalidade.”

“FIQUEM ATENTOS A SONDRA LOCKE”

Impulso para Matar, que o biógrafo Patrick McGilligan considerou um “filme de crime tenso e bem feito”, foi lançado na primavera de 1990 e “foi praticamente descartado pela Warner Bros”, de acordo com Sondra Locke.

No entanto, esta ficou radiante com as ótimas críticas que o filme recebeu e que se focavam na sua realização. “Siskel e Ebert deram-lhe um entusiasta ‘Two Thumbs-Up’ e chamaram-lhe ‘o filme mais bem realizado que tinham visto em muito tempo… fiquem atentos a Sondra Locke'”. Contudo, a sensação que temos, 23 depois, é que a maioria da imprensa associou o filme à muito publicitada separação de Eastwood e não prestou atenção suficiente.

A Warner mal lançou o filme, de acordo com Sondra Locke, e não usou a “crítica dos dois polegares para cima de Siskel & Ebert”, item muito procurado pelos estúdios para promoverem os seus filmes. Isso aconteceu na campanha de publicidade (jornais), no lançamento em VHS e, 22 anos depois, na edição em DVD. Parece que a Warner dava um tiro no pé, mas, aparentemente, tudo o que agrada a Clint é uma espécie de voz de Deus.

Na época, uma revista de cinema, a Film Comment, publicou um artigo sobre Theresa Russell e disse que Impulse foi “realizado por Clint Eastwood e a sua discípula, Sondra Locke” ainda que Eastwood não tivesse nenhum envolvimento ou crédito no filme. Um crítico de cinema do LA Times, Michael Wilmington, escreveu uma boa crítica, mas fez um comentário horrível. Tenho de citar, visto que é de uma estupidez incrível:

“O dossier de imprensa deste filme não faz, e tal não é de estranhar, qualquer referência a Clint Eastwood, ex-amante de Locke e seu antigo realizador/coprotagonista. Ao assistirmos a Impulse, quase nos perguntamos por que é que este par aparentemente conflituoso não pôde esquecer os tabloides e advogados e fazer as pazes. Juntos, talvez ainda tivessem mais alguns bons filmes pela frente.” Como Locke comenta em The Good, the Bad and the Very Ugly, tal comentário não pertence a uma crítica, especialmente tendo em conta que Eastwood não estivera, de todo, envolvido na produção. Por que motivo seria mencionado no dossier de imprensa?

Contrariamente às “regras” do mundo do cinema, Impulse, aclamado pela crítica e muito bem concebido, não agradou à WB porque Locke e Eastwood estavam com problemas e Eastwood era o maior trunfo do estúdio. O que fizeram foi desistir “lamentavelmente” dos outros três projetos que Locke desenvolvia na época. Isto, é claro, quase suprimiu o filme, praticamente acabou com a carreira de Locke como realizadora e atriz, e hoje podem ver a classificação que o filme recebe na IMDb (bastante diferente da que tem na Amazon). Porque, e embora isto não seja física quântica, se alguém for um admirador fervoroso de Clint, ele ou ela deve automaticamente desconsiderar o talento de Locke: insisto, é uma demonstração de idiotice e mesquinhez.

ATRÁS DAS MÁSCARAS

Roger Ebert foi um dos críticos que fez uma boa análise do filme. A 20 de abril de 1990, escreveu: “Impulse é o segundo filme realizado por Sondra Locke, cuja primeira obra, Ratboy, rapidamente saiu de cena em 1986. Ela parece ter aprendido muito sobre realização desde essa altura. O filme atrai a nível visual e é dolorosamente intenso, por vezes – não tanto quando o enredo se vai intrincando, mas quando somos convidados a identificar-nos com Russell quando ela anda à procura de problemas. Conhecem a sensação? É algo que não devemos fazer, e podemos ter problemas se formos apanhados, mas queremos fazê-lo e estamos cansados, ninguém nos ama e há aquele remoer sedutor dentro de nós, e a tentação pôs-nos um braço por cima dos ombros e está a fazer sinal ao empregado do bar com a outra mão? É esse impulso que torna o filme interessante e um que vale a pena ver.”

Acho a segunda parte da crítica um pouco mais subjetiva. Quem pode dizer “é isto que acontece na vida”? Todos o dizemos. Mas temos o nosso próprio conjunto de valores, uma câmara, por assim dizer, e o ponto de vista varia.

Em Impulse, as sequências de ação e suspense também são bem concebidas. E temos a sensação de que a câmara observa os personagens como um olhar omnipresente. Não interfere, orienta o espectador (como Sondra Locke sugeriu na entrevista) muito ao estilo de Kieslowski, o seu realizador favorito. É esse um dos pontos fortes do filme: Os outros comportam-se da maneira que queremos acreditar ou estaremos a fazer exatamente isso mesmo, caindo, por conseguinte, nessa mesma armadilha que só nos fere enquanto seres humanos?

Julgo que Roger Ebert pode ter uma certa razão, na parte menos favorável da sua crítica:

“As outras coisas – a relação com Jeff Fahey enquanto assistente do promotor, os detalhes da situação criminal – são retiradas da prateleira, polidas rapidamente e enfiadas onde encaixam. (…) Alguém na plateia ficaria seriamente desapontado se Impulse tivesse simplesmente seguido a personagem de Russell? E se Locke não tivesse necessidade de resolver a trama e atar as pontas soltas? E se ninguém descobrisse o que Russell fez, e ela tivesse de ficar a pensar nas consequências dos seus atos? Não é isso que acontece na vida? E não é mais divertido e perigoso desse modo?”

“E se” é uma questão de que os impulsos normalmente tomam conta e resolvem e, regra geral, pagamos o preço, independentemente da diversão, do perigo ou quaisquer que sejam os resultados.

David Furtado

Um agradecimento especial a Sondra Locke

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