Death Wish 3: E, no fim, só Bronson restou…

death wish 3 charles bronson (3)Os magnatas israelitas Menahem Golan e Yoram Globus tiveram a sua primeira experiência com uma grande estrela de cinema no caso de Charles Bronson em Death Wish II (O Vingador da Noite). No festival de Cannes de 1984, gastaram meio milhão de dólares a promover lançamentos futuros, lista que incluía Death Wish 3 (O Justiceiro de Nova Iorque). A rodagem foi difícil para Bronson – a sua esposa já estava doente. O mediático caso de Bernard Goetz, que imitou os atos de ‘Paul Kersey’, deu uma infeliz notoriedade à série.

Os produtores usaram a exposição para contratar nomes como Dustin Hoffman, John Travolta, Nick Nolte, Roger Moore, Bo Derek ou Nastassja Kinski. Ambicionavam também entrar na corrida aos Óscares, focando as atenções em realizadores aclamados como Robert Altman, Jean-Luc Godard, John Frankenheimer ou John Cassavetes.

O modo extravagante como a Cannon fazia negócio atraiu as atenções da imprensa, e as pretensões de produzir filmes de prestígio foram por água abaixo. Apenas os filmes de ação com Bronson, Chuck Norris, Lou Ferrigno e (a criação da Cannon) Michael Dudikoff, conquistaram notoriedade. (Sem esquecer Love Streams de John Cassavetes.)

Quanto a Bronson, associou-se à Cannon e faria mais sete filmes com a produtora em seis anos, começando com 10 to Midnight, que iniciou uma das fases mais atarefadas da carreira do ator.

O argumento de Death Wish 3 foi atribuído a um expert em filmes de ficção científica, Dan Jakoby. O guião não agradou a Bronson, já que tornava o personagem num “Rambo urbano” e o formato era muito parecido com os restantes filmes da Cannon, como Revenge of the Ninja (1983). Como a Cannon queria proteger a sua lucrativa franchise, tentou agradar à estrela e contratou o argumentista Gail Morgan Hickman, que escrevera, por exemplo, a história que se tornou na base de The Enforcer (Harry – O Implacável, 1976) da saga Dirty Harry com Clint Eastwood.

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Hickman explica que vendeu um guião à Cannon, chamado Number One with a Bullet (que só seria realizado em 1987). “Eles andavam ativos em muitas frentes. O chefe do departamento de argumentos telefonou-me certo dia e disse-me: ‘Temos um contrato com Charles Bronson para muitos filmes, e um deles é Death Wish 3. O Charlie não gosta do guião já escrito.’”

Numa só semana, Gail Morgan Hickman escreveu três histórias para o filme, cada uma com sete ou oito páginas e todas diferentes entre si. “Mandei-as para a Cannon e não soube de nada, o que nunca é bom sinal.” Duas semanas depois, Hickman foi informado de que as histórias eram boas, mas que Bronson decidira avançar com o anterior guião. Não foi uma completa perda de tempo para Hickman, apesar de tudo, pois em breve trabalharia com a Cannon e Charles Bronson.

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Michael Winner, mais uma vez, estava com a carreira estagnada e precisava de um êxito. Foi requisitado para Death Wish 3 como realizador e coprodutor. Ao seu estilo deselegante, Winner disse que queria fazer um filme mais “jovial” e menos negro que os dois anteriores: “A carreira de Bronson estava a desagregar-se, e ele ficou muito satisfeito por ter o trabalho e o dinheiro. Preferia fazer comédias românticas, mas ninguém lhas oferecia.”

O elenco inclui nomes de relevo, como o vencedor de um Óscar, Martin Balsam (On the Waterfront, Psycho, Breakfast at Tiffany’s). Ed Lauter e Deborah Raffin completaram o trio de atores cujo talento foi desperdiçado, em grande medida, em Death Wish 3. Quanto aos vilões, Gavan O’Herlihy e Kirk Taylor, que se juntaria a Kevyn Major Howard (de Death Wish II) para integrar o elenco de Full Metal Jacket de Kubrick.

Deborah Raffin e Bronson.
Deborah Raffin e Bronson.

Desta vez, a ação decorre em Nova Iorque, onde se começou a filmar a 19 de abril de 1985. E a equipa foi logo para uma zona de Brooklyn infestada de crime, colchões sujos e seringas pelo chão… Winner queria filmar num prédio decrépito, mas, quando lá chegaram, o edifício… desabou.

A fotografia foi atribuída a um jovem britânico, John Stanier, vencedor de vários prémios de prestígio e que viria a filmar Rambo III. A rodagem durou 51 dias, e o orçamento foi maior do que as restantes produções da Cannon, embora não nos possamos fiar no que diziam Golan e Globus sobre estas matérias. Os produtores disseram a Michael Winner para ter o filme pronto rapidamente, e Winner obedeceu de bom grado, com a sua habitual integridade artística…

Por esta altura, Charles Bronson tinha 64 anos e a idade começava a pesar. “Ele tornou-se menos propenso a cenas mais exigentes fisicamente”, contou Winner. Por exemplo, quando o realizador lhe disse para correr atrás de um dos assaltantes, o ator respondeu que o médico o aconselhara a não correr sem fazer aquecimento primeiro. Queixou-se também do ruído ensurdecedor da metralhadora.

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Michael Winner sabia lidar com Bronson contudo: “‘Charlie, não podes correr nem disparar uma arma! Falta-te matar 38 bandidos. Vamos dar-te uma loja de cachorros-quentes e podes envenená-los a todos!’ Isto provocou nele aquele sorriso maravilhoso, e fez o requisitado.”

A produção também filmou em Londres, que faz as vezes de Nova Iorque, por razões financeiras. Construíram todos os cenários e “enganaram” muita gente, rodando em Brixton, zona pouco recomendável, e também no St. Thomas Hospital em Lambeth.

Também este capítulo da saga inclui nudez e violência. Em foco, esteve a atriz Sandy Grizzle, com quem Michael Winner também se envolveu, como era seu apanágio. Grizzle provocou um escândalo nos tabloides britânicos, alegando que Winner a usara como “escrava sexual” entre outras coisas… o realizador processou o News of the World e venceu.

death wish 3 charles bronson (14)As filmagens de Death Wish 3 foram difíceis para Charles Bronson. A sua mulher, Jill Ireland, acompanhada pelas filhas do casal, Zuleika e Katrina, vieram fazer companhia ao ator em Londres. Ireland já se debatia nessa altura com cancro da mama. Na sua autobiografia, Jill Ireland recordou os tempos em que Bronson regressava ao hotel, após um dia a filmar: “Estava com péssimo aspeto e sentia-se mal. Ficou terrivelmente constipado… não comera nada o dia inteiro. Parecia febril.”

Nesta época, um golpe de publicidade infeliz e inesperado deu mais notoriedade à franchise Death Wish. Bernard Goetz, um nova-iorquino de 39 anos, anterior vítima de assalto, alvejou quatro afro-americanos no Metro de Nova Iorque, na noite de 22 de dezembro de 1984. Um dos jovens ficou paralisado. Os jornais chamaram-lhe o “vigilante do Metro” e foi aclamado como herói por uns, e chamado de racista por outros. Foi absolvido.

Houve, é claro, a alegação de que os filmes Death Wish tinham inspirado o ato de Goetz. O realizador Michael Winner rejeitou tal conceito e reprovou a atitude de Goetz. “É muito fácil culpar o teatro e o cinema pelos males da sociedade. A lei pode parecer destrambelhada, por vezes, mas tem de ser respeitada. A alternativa é a anarquia, o que é perigoso.”

Em 1985, entrevistaram Charles Bronson e perguntaram-lhe se Death Wish 3 pretendia lucrar à custa do ato de Bernard Goetz. O ator negou e acrescentou que assinara o contrato ano e meio antes desse caso. Em Roma, sucedeu-lhe o mesmo que a ‘Paul Kersey’. Um assaltante pediu-lhe dinheiro. Bronson respondeu, “dá-me tu o dinheiro”, o que dissuadiu o criminoso.

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Death Wish 3 foi um filme mais espetacular, a nível de entretenimento, do que o seu antecessor. O supervisor de efeitos especiais John Evans (que se encarregara dos efeitos em vários filmes de James Bond) não teve mãos a medir: Três lojas, um apartamento e cinco automóveis são arrasados por explosões, três edifícios queimados totalmente, e disparados mais de três mil tiros de metralhadora e de armas de menor calibre. 12 duplos e 53 cenas de alto risco completaram o ramalhete. Sem esquecer…

A Wildey .475 Magnum empunhada por ‘Kersey’ na matança. O próprio Wildey J. Moore, que desenhara a arma, ensinou a Bronson como a manejar, sendo creditado como consultor técnico do filme. Wildey explicou o poder da pistola: “Bronson transporta consigo o equivalente a uma grande carabina de caça grossa. O impacto que produz é o mesmo que provoca uma bala de 0,6 kg lançada sobre nós do topo de um arranha-céus.”

Empunhando a Wildey .475 Magnum.
Empunhando a Wildey .475 Magnum.

Como era hábito, Winner fez a montagem do filme em Londres sob o pseudónimo “Arnold Crust”. Jimmy Page foi creditado como autor da banda sonora, porque Winner usou trechos do seu trabalho provenientes do capítulo anterior. A música foi substituída mais tarde por uma sonoridade eletrónica anos 80 verdadeiramente atroz. A banda sonora original não foi editada, o único filme da série em que tal não sucedeu.

Ainda assim, o filme não incluiu caçadeiras de canos serrados previstas em certos extermínios, mas não seria necessário… ao todo há 63 mortes em Death Wish 3. E repetiu-se o caso: Foi considerado demasiado violento pela MPAA, que o classificou de X. Winner lutou contra isto, alegando que Rambo II continha 80 mortes e só fora classificado de R (Restricted)! E interpôs um recurso junto das instâncias que gerem a censura nos EUA. Desta vez, venceu e nada foi cortado. Também no Reino Unido, a BBFC apenas cortou 13 segundos.

Michael Winner achou o filme “uma espécie de livro de banda desenhada de terror movimentado. Muito divertido”. O público também achou. Os marginais caem como tordos numa atmosfera surrealista, em que se nota o uso de bonecos a caírem de prédios, e o arquiteto ‘Paul Kersey’ inventa equipamento de extermínio caseiro com tábuas e pregos. Vários diálogos são inadvertidamente cómicos, mas, no geral, Death Wish 3 acaba por ser a melhor das sequelas, de tão exagerada.

O filme não agradou a Brian Garfield, que escrevera o livro original Death Wish, nem a Charles Bronson. O protagonista criticou-o por ser “demasiado violento, desnecessariamente violento”. “Achei-o péssimo e ridículo.” Bronson não gostou de se ver no ecrã, em parte devido ao guarda-roupa e à maneira como o filmam, que não é das melhores. Michael Winner alegou que Bronson “era inseguro e não se achava bom ator. Mas era”.

Menahem Golan ficou deliciado com o produto final e fez umas bizarras declarações que passo a citar: “Contém uma cena de violação nunca vista! É muito forte. É a III Guerra Mundial! É o filme mais violento que já vi, mas não me interpretem mal, é um filme anti-violência! Pode obter boas críticas, não sei. A minha esposa ficou agoniada, mas conseguiu vê-lo até ao fim. Que filme fantástico!”

Lançado pela Cannon com uma publicidade sem precedentes no contexto da companhia, Death Wish 3 recebeu a denominação “3” em vez de “III” devido a uma sondagem de marketing, segundo a qual, o espectador de cinema mediano não sabia ler numerais romanos.

O filme foi abatido pela crítica com mais força que a Magnum de Bronson. Desta feita, ridicularizaram o mundo absurdo criado por Michael Winner, onde “é difícil ir à mercearia sem se ser violado”, como disse Walter Goodman no The New York Times. “É difícil ser amigo do Sr. ‘Paul Kersey’. Seremos liquidados de certeza, e será um fim muito desagradável. Não há um instante de credibilidade em todo o filme, que termina num caos total.” Nisto, Goodman tem razão – a cena final é o salve-se quem puder. Metralhadora, bazuca, pistolas. Bronson arrasa até ficar sem munições.

Bronson elevando o número de cadáveres.
Bronson elevando o número de cadáveres.

Com algum humor, a Variety disse que Death Wish 3 “dá um acréscimo significativo à contagem de cadáveres até agora contabilizada nesta série”. Roger Ebert deu-lhe uma estrela, desta vez, em vez do zero com que presenteara o anterior capítulo. “Marginalmente melhor do que o segundo.”

Ebert criticou também a “hipocrisia desta série, que ignora a tensão racial nas grandes cidades. No seu horrível novo mundo, todos os gangs são integrados, para que os filmes não possam ser apelidados de racistas. Penso que deve ser comovente ver brancos, negros e latinos trabalhando lado a lado na violação, pilhagem e assassínio. Bronson parece cansado. Deve pronunciar menos de 100 palavras no filme inteiro e palpita-me que talvez quisesse reduzi-las a zero.”

A Cannon gastou cinco milhões de dólares em promoção, durante esta fase, e Death Wish 3 foi lançado entre Invasion U.S.A. e Missing in Action 2, ambos veículos para Chuck Norris. A produtora embolsou 16 milhões de dólares aquando da exibição nas salas, mas, no mercado estrangeiro, em vídeo e na TV, o terceiro capítulo provou que a franchise Death Wish continuava lucrativa. Refira-se que a Cannon apostava tanto nos clubes de vídeo que, em Inglaterra, foram entregues t-shirts aos empregados dos clubes, com a frase “Bronson is Back” na frente e, nas costas, o título do filme e a imagem do ator. Foi também lançado um jogo de computador, em 1986, pela Gremlin Graphics.

O filme marcou o fim da colaboração entre Bronson e Michael Winner, que englobara seis filmes em 13 anos. Em 1985, a Cannon não dava tréguas, anunciando 52 próximas atrações. No Festival de Cannes, chamaram tanto a atenção que a imprensa apelidou o certame de “Festival de Cinema da Cannon”. A companhia ainda não tinha dito a última palavra relativamente ao personagem de ‘Paul Kersey’. Em 1986, já havia posters de Death Wish 4 e a promessa de que a sequela seria lançada na primavera de 1987.

Por falar em sequelas, continua no próximo artigo: Death Wish 4: The Crackdown.

David Furtado

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