Mark Knopfler completa 63 anos: “Sonhar os sonhos dos outros”

mark knopfler os sonhos dos outros (1)Uma vez que aqui se fala especialmente sobre cinema, abordo agora as bandas sonoras que Mark Knopfler compôs, uma espécie de ciência à parte, na qual o músico também conquistou um sucesso merecido.

Um antigo amigo de Mark, Dave Pask, considera que “o que temos de ter em mente, em relação a Mark, é que ele é um músico, mas também foi professor de inglês, e gosta de pensar em si mesmo como um artista. Portanto, as bandas sonoras são atrativas, desse ponto de vista. Há uma certa ideia de que a música rock pode, com a tecnologia adequada, ser capaz de surtir o mesmo efeito que um filme. Um filme gasta 20 milhões de libras e pode brincar com a realidade em duas horas. Na música, temos quatro minutos, uma guitarra, um baixo, bateria e teclado. Por isso, é muito tentador trabalhar em cinema, porque nos dá a sensação de ser a derradeira forma de arte. E, se conseguirmos vingar nessa área, somos artistas”.

Em julho de 1981, no final da digressão de Making Movies, Ed Bicknell, o manager de Mark Knopfler, enviou cassetes desse álbum a produtores britânicos, incluindo uma carta, explicando que Knopfler estava interessado em compor uma banda sonora. O conceituado David Puttnam (produtor de Bugsy Malone, O Expresso da Meia-Noite, A Missão, Terra Sangrenta, Momentos de Glória ou O Duelo, que marcou a estreia de Ridley Scott na realização), foi um dos três que responderam. Mark recusou as outras duas propostas. Uma era um filme sobre Maria Callas, o outro era um thriller de mistério, que, após um visionamento, foi recusado, já que ninguém percebeu o que tinha de thriller ou de misterioso.

Bicknell recebeu uma cópia do argumento de Local Hero, de Bill Forsyth. O manager gostou e enviou-o a Mark, em Nova Iorque. Knopfler ficou entusiasmado e aceitou a proposta. Surgia assim a primeira banda sonora do guitarrista, e o tema «Going Home», que hoje é porventura mais conhecido do que o filme.

Ed Bicknell comentou: “Envolvemo-nos nisto antes dos atores e da equipa serem escolhidos. Dou todo o crédito a David Puttnam por ter apostado em Mark, que nunca compusera nenhuma banda sonora. Soubemos depois que o filho de David era grande fã dos Dire Straits e obcecado pelo trabalho de Mark em «Tunnel of Love». Ele achou que, se Mark conseguisse captar tão bem o efeito emocional desse tema, seria a pessoa certa para o filme.”

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Um atraso na produção permitiu a Knopfler convocar a banda para gravar Love Over Gold, que foi idealizado como um álbum duplo. O disco contém algumas sonoridades “cinemáticas, à falta de melhor termo”, disse Mark. É o caso de «Telegraph Road», de 14 minutos. Quanto a este tema, o guitarrista comenta: “Referíamo-nos ao instrumental, a meio, como ‘a parte do filme’, pois tínhamos a sensação de que a câmara se afastava, dando-nos uma perspetiva de como as coisas eram e como são agora. É como um filme, com as suas pessoas e pequenos comboios e camiões, um lago, campos e edifícios. Não aprecio particularmente a canção, mas fizemo-la e ficou assim.”

mark knopfler os sonhos dos outros (24)Em Local Hero, uma comédia protagonizada por Burt Lancaster, um jovem executivo de uma petrolífera americana chega a uma vila piscatória escocesa para comprar terrenos, com o objetivo de construir uma refinaria. Bill Forsyth, além de escrever, também realizou e conquistou um BAFTA, considerado o segundo maior prémio do cinema. Há 14 faixas no álbum, e os Dire Straits tocam numa delas. Gerry Rafferty canta «The Way it Always Starts», tema originalmente gravado nas sessões de Love Over Gold. O reputado saxofonista Michael Brecker participou em «Going Home».

Para se inspirar, Mark visitou o set do filme, na Escócia, mas devido à sua inexperiência, enfrentou certas contrariedades: “Mandaram-me uns vídeos curtos, e eu, por tolice, compus música para eles, ignorando completamente o facto de, mais tarde, a possibilidade de o filme vir a ser editado. Bill Forsyth veio ter comigo e disse-me que o ia retalhar na montagem. Tive de refazer grande parte do trabalho. Mas é interessante, pois podemos usar pequenas melodias, coisas que captámos aqui e ali.”

“Um dia, estava a conversar com Pat Metheny e Lyle Mays, e eles disseram-me: ‘Como é que escreveste aquelas coisas de Local Hero, meu? Soam como se tivessem mil anos!’”

As críticas ao filme foram positivas, e a música funcionou tão bem em Local Hero, que David Puttnam contratou imediatamente Mark para um novo projeto, também de Bill Forsyth, intitulado Comfort and Joy, que não seria tão bem sucedido artisticamente. Foi nesta época que se começou a notar uma influência de jazz na sua técnica, embora o guitarrista não goste particularmente do género, como viria a admitir mais tarde.

Em 1985, Knopfler relatou ao Sunday Times: “Gostei da experiência, pois não conhecia os truques desse mundo. Entramos nele como uns iletrados, o que é intimidador, mas também entusiasmante. É bom para a mente… afina-a, porque compreendemos que a nuance musical mais ínfima pode mudar o significado da imagem que vemos no ecrã.”

mark knopfler os sonhos dos outros (30)Seguidamente, Mark Knopfler trabalha em Cal, filme sobre uma jovem viúva (Helen Mirren) e o seu relacionamento com um rapaz, tendo como pano de fundo o clima brutal que se viveu na Irlanda do Norte. Recorrendo às suas raízes celtas (o que viria a fazer repetidamente na carreira a solo), o compositor criou uma banda sonora fantástica, a sua melhor até então.

Infelizmente, recordo-me de ler, na imprensa portuguesa, uma frase que me ficou na memória. Por volta de 1991, aquando do regresso do Dire Straits, havia um clima de hostilidade em relação ao músico, ao passo que eu ia acompanhando, em publicações internacionais como a Guitar Player ou a Guitar World, a carreira e o trabalho de Knopfler, avaliados a outra luz. Depois de massacrarem On Every Street, o comentário era algo como “pelo caminho, ficaram as bandas sonoras do músico, para filmes de qualidade duvidosa”. Ora, Cal não é de “qualidade duvidosa”. Helen Mirren ganhou o prémio de Melhor Atriz em Cannes. E, nos últimos 20 anos, as escolhas de Knopfler, relativamente a estes projetos, provam o contrário.

Em 1988, Knopfler falou sobre Cal, desta vez à Time Out. Quando lhe perguntaram se achava que alguém iria ver um filme só por a banda sonora ser sua, respondeu: “Espero bem que não. Julgo que não. Acho que não ajudou Cal, que era um filme realmente bom, mas não teve grande sucesso.”

Perguntaram-lhe se rejeitava muitos projetos destes: “Lê argumentos de filmes? Alguns são mesmo estúpidos. A maioria é uma tralha. E percebemos isso logo. O que mais me espanta é que arranjam pessoas moderadamente respeitáveis para trabalhar nessa tralha.”

“Recentemente, li um guião sobre o Agente Especial Johnny Utah, do FBI, que tenta apanhar ladrões de bancos surfistas, que fizeram os assaltos envergando máscaras de presidentes mortos. Entram pelo banco adentro e gritam, ‘todos deitados no linóleo, antes que alvejemos o céu azul!’ E acaba tudo numa pista de aviação com uma data de explosões. Fiquei surpreendido, visto que o realizador era bastante conhecido. Por isso, perguntei-lhes se o faziam por piada. Mas não, levavam aquilo a sério.”

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“Para mim, é espantoso ver a quantidade de pessoas que pensam na música como secundária, descartável. Fazem o seu filme e depois querem a música em três semanas.”

PRINCESAS, PROSTITUTAS, DESPORTO…

Em 1987, compor bandas sonoras foi também um modo de Mark Knopfler pôr os Dire Straits na prateleira, uma vez que a sua esposa estava grávida, e o guitarrista preferia estar em casa do que em digressão. Brothers in Arms vendera três milhões de cópias no Reino Unido, número sem paralelo, na época. Por isso, aceitou a proposta de compor a música para A Princesa Prometida, um filme de aventura/fantasia, realizado por Rob Reiner, o ‘Meathead’, da série Tudo em Família. Acima de tudo, era um projeto diferente dos anteriores, misturando sonoridades medievais com romantismo, longe da agressividade de Cal.

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Knopfler comentou este trabalho à revista Q: “Embora, no fundo, seja uma espécie de músico de folk-blues, cheguei a um ponto em que me posso expandir noutras direções, como é o caso de A Princesa Prometida. Gostaria realmente de elaborar isto com uma grande orquestra para ver como soaria. São estas as coisas que nos alargam os horizontes. A função de produtor não me interessa muito. É um trabalho árduo, chegamos a casa tardíssimo e com a sensação de que estivemos a sonhar os sonhos dos outros. E indagamo-nos por que motivo, já que não passamos assim tanto tempo na Terra.”

Com Rob Reiner em 1987.
Com Rob Reiner em 1987.

A música acabou por não ter grande impacto aqui, apesar do filme ainda ser um favorito de muitos apreciadores deste tipo de obras. Knopfler dá então uma volta de 180 graus, assinando a banda sonora de A Última Saída para Brooklyn, em 1989, baseado no romance de Hubert Selby Jr. Nos anos 60, o livro gerara controvérsia e foi a tribunal, no Reino Unido, devido às componentes de violência, homossexualidade e prostituição num retrato rude do submundo nova-iorquino.

Desde música para cenas de motins, passando pela melodia associada à prostituta ‘Tralala’ (Jennifer Jason Leigh) ao tema-título, onde se nota a influência de Ennio Morricone, Knopfler comprova a sua eficácia e talento. Ouvido à parte, possui alguns temas entediantes, mas que, acompanhados pelas imagens, funcionam perfeitamente. Muitos fãs de Mark Knopfler não gostam desta vertente, mas o objetivo é esse.

O compositor descreveu o processo: “Compor bandas sonoras é diferente de compor canções, porque as canções são canções, têm letras. No caso de um filme, a letra da canção, na verdade, é o filme. Por isso, estamos a apoiar outra pessoa e somos apenas parte do quadro geral. Mas é uma boa prática; puxa realmente por nós. Por vezes, é uma tarefa muito difícil.”

mark knopfler os sonhos dos outros (32)Knopfler apreciou outros aspetos deste trabalho: “É bom trabalharmos para outros, quando somos cantores/compositores. Se estamos apenas a agradar a nós mesmos, o tempo todo, com a nossa expressividade, a nossa banda ou seja o que for, podemos tornar-nos um pouco orientados somente por nós próprios, julgo eu. Ao passo que, ao trabalharmos para terceiros, temos de desempenhar um papel diferente. E temos de dar o nosso melhor nisso.”

Mark Knopfler já assumira a influência do cinema nas suas composições. «Once Upon a Time in the West», por exemplo, foi composto quando o músico via Aconteceu no Oeste na TV. Confessou que foi, provavelmente, o tema que compôs num estado mais “alterado” e mencionou que Sergio Leone, Por um Punhado de Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão o motivaram enquanto compositor.

Porém, Mark voltaria a insistir que embora apreciasse o trabalho de compor para o cinema, “gasta-se muito tempo a sonhar os sonhos dos outros. Tira-nos um bocado daquilo que fazemos melhor. Eu sou melhor, não… mais eficaz, digamos, quando lido com as minhas próprias canções e a minha própria banda. Sinto-me mais confortável no centro disso, a rever umas canções e a aperfeiçoá-las. Por isso, tenho de passar menos tempo a lidar com esses atrativos”. Aqui, presume-se que se refira ao facto dos lucros associados a compor para cinema. É assim que interpreto.

Em 1993, durante um período de inatividade, foi lançada a compilação Screenplaying, reunindo os melhores temas deste percurso paralelo de Mark. Em 1998, já depois da estreia a solo com Golden Heart, Knopfler lançou um álbum (de curta duração) com a música de Manobras na Casa Branca, protagonizado por Robert De Niro, Dustin Hoffman, Anne Heche, e realizado por Barry Levinson. A meu ver, é um dos melhores exemplos do seu trabalho cinematográfico; todas as faixas são interessantes, algumas até intrigantes, como «Just Instinct», que parece ter uma influência quase ibérica. O tema-título é cantado por Mark, e os instrumentais demonstram o seu virtuosismo, além de se enquadrarem como uma luva nas cenas do filme, que, no seu todo, é (diga-se) algo maçudo.

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Em 1999, é editado Metroland, que inclui faixas de outros artistas como Françoise Hardy, Django Reinhardt e Elvis Costello. A parte que Knopfler compôs só peca por ser uma parte do álbum. Demonstra novamente rasgos de brilhantismo. O tema original surge em duas versões, uma delas cantada por Mark, e reflete, a par das outras faixas e de modo extraordinário, a atmosfera do filme. Além disso, a obra de Philip Saville, protagonizada por Christian Bale e Emily Watson, baseada no romance de Julian Barnes, vale a pena ver, independentemente da banda sonora. O passar dos anos, o amor e o casamento são abordados com inteligência, amargura, mas também algum humor e compaixão.

Seguir-se-ia um drama no mundo desportivo, protagonizado por Robert Duvall e Michael Keaton, A Shot at Glory, editado em 2002, onde as influências da sua Escócia natal são reavivadas. O álbum é eclético e possui mais temas cantados por Mark, apelando assim a uma audiência mais vasta.

Apesar de ser um modo de “sonhar os sonhos dos outros”, esta sequência de trabalhos demonstra uma progressão por parte de Knopfler, uma insistência na diversificação do colorido musical que aplica. Tal como escreveu em «Metroland», “dreams, yesterday’s laughter/ghosts and lovers come back to play/but dreams have a morning after/and run for cover/in the light of day”. Ficamos com a sensação que também incluiu alguns dos seus próprios sonhos nestas bandas sonoras.

David Furtado

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11 Comments Add yours

  1. ele e simplesmente um genio uma pessoa magnifica que marcou a minha vida!!!

    1. Claro, Bianca, um génio que marcou muitas pessoas com as suas composições e estilo inconfundível. Quando ouvimos a sua guitarra, sabemos logo que é ele. 😉

  2. diego rodrigues diz:

    mark uma lenda viva é o meu preferido guitarrista e compositor, dire straits super banda para sempre, o groove perfeito!!!

    1. Mais um trabalho sobre os Dire Straits em breve, Diego, vá acompanhando. 🙂

  3. Roberto Hubner diz:

    Com relaçao as trilhas sonoras, fui aprresentado a elas em um poster do Dire Straits onde continha uma discografia.Mark disse que talvez ninguem veria o filme por causa da trilha sonora, mas eu sim, assisti aos filmes por causa das musicas!Podem acreditar!

    1. Por acaso, eu também vi alguns filmes por causa da banda sonora ser dele. E descobri alguns excelentes, embora não tenha visto todos. Talvez o meu favorito seja Cal. Obrigado pelo comentário. Abraço.

  4. Roberto Hubner diz:

    Eu gosto de todas.Por acaso,quando me casei, entrei na igreja com uma musica do filme “The princess Bride”. Magnifica!

    Tambem aprendi admirar o Mark depois que ele me deu um autografo em seu ultimo show no Bradil, em 2001: ele fez questao de parar o carro e deu atençao para os poucos fans que estavam ali, percebi quando ele fez um sinal com a mao pedindo para o motorista parar: “Stop the car one moment please”.Foi muito atencioso e educado,nao saiu enquanto nao terminou de atender todos.Fiquei surpreso e claro, super feliz!

    1. Bem, isso é mesmo ser fã… obrigado por partilhar a história do autógrafo de Mark. É a ideia que tinha. Ele próprio disse que gosta dos fãs da sua música e não tem qualquer problema em que o abordem para pedir um autógrafo. Também eu ficaria surpreendido com essa atitude, se tivesse a sua oportunidade! Não é todos os dias que tal acontece.

  5. Roberto Hubner diz:

    E verdade David. Foi uma oportunidade unica!Aquela historia, agente vai ficando velho e essas coisas passam…mas a opotunidade estava ali entao nao a perdi.Ele me deu seu autografo em uma revista divulgaçao da turne “Sailing to Philadelphia”,que comprei no dia do evento. Ele escreveu o nome dele em Judeu,ta gurdado em casa como uma fortuna.Qualquer dia desse posto pra voçes.
    Abraço
    Roberto Hubner

    1. OK, Roberto, guarde bem essa recordação, mas, quando quiser, partilhe. Abraço.

  6. Roberto Hubner diz:

    E ai DAvid!Como vai voçe?Todo dia vejo seus comentarios . Quando voçe vai postar algo de novo sobre nossa banda favorita?Estou ansioso por mais historias!
    Abraço!
    Roberto Hubner

Comentários:

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