O dia de Salgueiro Maia, sem ele não haveria 25 de Abril: A Revolução não pára no sinal vermelho

É dado adquirido, para os correspondentes de guerra, que a verdadeira história dos conflitos não se obtém junto dos generais, mas sim, ouvindo os soldados no terreno. Conversámos com Natércia Salgueiro Maia, reunindo algumas impressões sobre as horas de tensão que o Capitão de Abril viveu. Relatamos assim a Revolução dos Cravos, 42 anos depois, percorrendo os mesmos caminhos de um dos homens que devolveu a liberdade a Portugal.

salgueiro maia 25 de abril

Às 22h55, nos Emissores Associados de Lisboa, a voz do locutor João Paulo Diniz anuncia Paulo de Carvalho e a canção «E Depois do Adeus». Prepara-se o assalto ao Rádio Clube Português (RCP), na Rua Sampaio Pina, para o transformar no emissor do posto de comando do Movimento das Forças Armadas (MFA). Depois de ouvir o segundo sinal, à meia-noite, «Grândola Vila Morena», o Movimento das Forças Armadas já está em marcha.

Ocupada a Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas e a Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, em Lisboa, capitães e subalternos preparam-se, com as forças sob o seu comando, para se dirigirem à Alameda das Linhas de Torres e ocuparem os estúdios da RTP.

Do Batalhão de Caçadores 5, em Campolide, sai uma coluna para reforçar o comando de assalto ao RCP. Do Campo de Tiro da Serra da Carregueira, pouco depois das 2h00, sai uma coluna motorizada para ocupar a Emissora Nacional, na Rua do Quelhas, em Lisboa.

Entre as 3h15 e as 3h25 da madrugada de 25, ao posto de comando, instalado no Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, chegam sucessivamente as mensagens de que «Mónaco», «México» e «Tóquio» foram tomados. São os nomes de código para RTP, RCP e Emissora Nacional. O objetivo é dominar as comunicações e a informação.

Às 3h30, da porta de armas da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, saem 10 blindados, 12 de transporte, duas ambulâncias, um jipe e uma viatura civil de exploração à frente da coluna comandada pelo capitão Salgueiro Maia. Objetivo: «Toledo» (Terreiro do Paço e ministérios).

Contactámos um militar, que preferiu o anonimato, e que se encontrava, no final de 1974, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém. A fonte adianta:

“Os soldados que partiram na noite de 24 de abril, de Santarém, não sabiam ao que iam. Era mais uma instrução noturna. Geralmente dizia-se, «atestem os tanques», e partíamos. Apenas a capitão Maia e alguns oficiais e sargentos sabiam o que se passava. Os soldados e restante pessoal só souberam que se tratava de um golpe de Estado à entrada de Lisboa”. Outra informação curiosa “é o facto de o canhão de um carro de combate estar preso com arames e não ter capacidade de disparo”, sustenta o militar.

Simultaneamente, em Aveiro e na Figueira da Foz, sucedem-se outras manobras com outros alvos – quartéis da Legião Portuguesa, unidades da GNR e PSP, fronteiras e antenas de rádio. Às 4h20, o posto de comando recebe uma comunicação: “«Nova Iorque» conquistada e controlada”, ou seja, o Aeroporto de Lisboa foi tomado. Às 4h26, o RCP emite o famoso primeiro comunicado em que Joaquim Furtado lê: “Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas…” Pelas 5h00, Marcello Caetano é informado dos acontecimentos, recolhendo ao Quartel do Carmo.

PESSOA CERTA NO SÍTIO CERTO

As viaturas do capitão Maia chegam à portagem da autoestrada do Norte, às 5h30, saindo da 2ª Circular para o Campo Grande. Em duas horas, a coluna percorrera 90 quilómetros, grande velocidade para as auto-metralhadoras. Salgueiro Maia viria a recordar:

“Dou comigo parado no sinal vermelho do cruzamento da Cidade Universitária. Olho para o lado e vejo um autocarro da Carris, também parado. Achei que era de mais parar a Revolução ao sinal vermelho.”

A viúva do capitão, Natércia Salgueiro Maia, recorda que o marido “sempre sonhou” com algo assim. “Em Moçambique, durante a guerra, ela já dizia que devia ser giro descer a Avenida da Liberdade numa coluna militar. Penso que foi a pessoa certa no sítio certo, já que não era ele, à partida, que ia comandar a coluna no 25 de Abril. Era uma pessoa ativa e dinâmica e agarrou-se com unhas e dentes àquela oportunidade.”

Às 6h00, a coluna chega a «Toledo», com os carros de combate a cercarem os ministérios. No centro da praça, uma Chaimite, uma auto-metralhadora e o jipe do comandante, constituem o posto de comando da força de intervenção de Salgueiro Maia. A primeira parte da sua missão fora cumprida com êxito, tendo chegado ao objetivo antes de ser dado o alarme geral. «Charlie Oito», ou seja, Salgueiro Maia, comunica a «Tigre» (Otelo Saraiva de Carvalho): “Ocupámos «Toledo» e controlamos «Bruxelas» e «Viena»” (Banco de Portugal e Rádio Marconi).

“PODIA SER UMA GUERRA CIVIL”

Natércia Salgueiro Maia recapitula que o capitão “acabou por estar no centro dos acontecimentos com a sua calma e bom-senso. Ele disse-me ter tido a noção de que, se começasse a disparar, podia ter começado uma guerra civil. As coisas podiam ter corrido mal. Ele levava uma granada no bolso, julgo que todos os militares levavam”.

A partir da chegada da coluna de Salgueiro Maia, o capitão confunde-se com a história do próprio 25 de Abril. Otelo é o estratega e o capitão é o seu operacional mais importante. Segundo Otelo Saraiva de Carvalho, “Salgueiro Maia iria ser a comandante das forças do MFA mais sujeito a situações de perigo e de tensão ao longo do dia 25”, escreveu no seu livro, Alvorada em Abril.

As dificuldades não acabaram. Cerca das 9h00, em frente ao Terreiro do Paço, a fragata Almirante Gago Coutinho, recebe ordens para abrir fogo sobre as forças revoltosas. O comandante Vítor Crespo consegue anular a ordem.

POR UM TRIZ

Afastada esta ameaça, surge outra, praticamente a seguir: Cinco carros de combate M/47 de Cavalaria 7, seguidos de atiradores do Regimento de Infantaria 1, da Amadora, e soldados da Polícia Militar de Lanceiros 2, comandados por um brigadeiro. Natércia Salgueiro Maia refere ao nosso jornal que, “no Terreiro do Paço, as coisas estiveram por um triz”. Salgueiro Maia, de braços erguidos, agita um lenço branco e tenta o diálogo, mas o brigadeiro não aceita encontrar-se com ele a meio caminho. O brigadeiro dá ordem a um alferes para abrir fogo, mas este não obedece. “Foi nesse momento que sentiu – segundo me relatou – que a guerra estava ganha, graças ao cabo e ao alferes”, relembra Natércia Salgueiro Maia.

O brigadeiro, furioso, repete a ordem diretamente aos atiradores de infantaria, enquanto Salgueiro Maia está sob a mira das torres dos blindados e das espingardas. Ninguém obedece. O brigadeiro dá voz de prisão a todos, dispara para o ar, salta do carro e desaparece, ficando toda a coluna sob as ordens do capitão Maia.

MOMENTOS DOLOROSOS NO CARMO

Antes do meio-dia, Salgueiro Maia é informado de que Marcello Caetano está no Carmo. Deixa as suas forças a guardar os ministérios e dirige-se ao quartel. No Rossio, surge uma coluna militar com uma companhia de atiradores que o Governo enviara. O capitão salta do jipe e pergunta ao comandante da coluna o que faz ali. É-lhe respondido que tem ordens para o prender, mas que está com a Revolução. Durante o percurso, os populares aclamam os soldados, e os cravos vermelhos começam a ser enfiados nos canos das G-3…

Nas palavras de Salgueiro Maia, o ambiente que se viveu no Carmo não tem descrição, pois “foi de tal maneira belo, que, depois dele, nada de mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa”. Natércia Salgueiro Maia reflete que, apesar disto, terão sido “momentos dolorosos. Alguém passou de helicóptero, e ele disse aos militares que o acompanhavam, «é um dos nossos!». Na verdade, não era”, revela a viúva do militar.

“Apresentou-se com respeito diante de Marcello Caetano”, recorda Natércia Salgueiro Maia. “Embora esta história já tenha sido repetida, disse, «apresenta-se o comandante das forças revoltosas…». “Marcello estava pálido, barba por fazer, gravata desapertada, mas digno”, relembrou o militar na sua biografia Capitão de Abril.

“Fiz-lhe a continência da praxe e disse-lhe que queria a rendição formal e imediata. Declarou-me já se ter rendido ao Sr. General Spínola, pelo telefone, e que só aguardava a chegada deste para lhe transferir o Poder, para que o mesmo não caísse na rua. Declarou esperar que o tratassem com a dignidade com que sempre tinha vivido e perguntou o que ia ser feito dele. Declarei que certamente seria tratado com dignidade, mas não sabia para onde iria, pois isso não me competia a mim decidir. Perguntou a quem competia. Declarei que a «Óscar». Perguntou quem era «Óscar». Declarei ser a Comissão Coordenadora. Perguntou-me quem eram os chefes. Declarei serem vários oficiais, incluindo alguns generais, isto para que ele não ficasse mal impressionado por a Revolução ser feita essencialmente por capitães.”

CINCO VÍTIMAS

Pouco antes das 18h00, chega Spínola, que, embora tenha dito a Marcello Caetano nada ter a ver com o MFA, rapidamente assume ares de “dono da guerra”, nas palavras de Salgueiro Maia. Às 19h30, Marcello Caetano, Moreira Baptista e Rui Patrício entram numa viatura blindada, nas traseiras da porta de armas do quartel. Durante a confusão que se estabelece, a multidão grita, “assassinos!”, enquanto os militares protegem os homens do Regime da ira popular.

Após a rendição de Marcello Caetano e a sua saída do quartel, a Revolução estava ganha. Mas, nas redondezas, na Rua António Maria Cardoso, os agentes da PIDE, encurralados dentro da sua sede, dispararam das janelas, matando cinco pessoas, o que contraria a ideia de que foi uma revolução sem mortes.

Quando Natércia Salgueiro Maia viu pela primeira vez o marido, em Lisboa, após o sucesso do golpe de Estado, o que mais recorda são “as expressões de felicidade, tanto dele como minhas e de todas as pessoas que passavam”. Questionada quanto ao estado do país, 34 anos depois [este trabalho foi originalmente publicado em 2008], a viúva diz:

“É bom que se recorde o 25 de Abril e que as pessoas sejam mais abertas à mudança e à esperança de um Portugal melhor. Aqueles rapazes que integraram a coluna do meu marido estavam na tropa há pouco tempo e foram um exemplo de coragem e abnegação. Em conversas de família com o meu marido, antes do golpe, ele já dizia que a situação tinha de mudar. As pessoas já tinham tentado e não tinham conseguido mudar as coisas.”

No Portugal de hoje, “há muitos problemas, mas muita coisa mudou”, diz-nos Natércia Salgueiro Maia. “As pessoas não estão muito abertas à mudança, o que também está relacionado com o que se passa a nível mundial. Naquele tempo, estávamos «orgulhosamente sós», como disse Salazar. Agora, há uma crise mundial.”

“Penso que continua a haver gente mais séria e menos séria. Mas as pessoas que, no dia 26, não aderiram à Revolução nem compreenderam o seu significado, já eram mal formadas no dia 24”, conclui.

UM CAPITÃO QUE MORREU EM ABRIL

“Recuso ser olhado como alguém que fez qualquer coisa de extraordinário.”

Salgueiro Maia

O ex-militar contactado pelo nosso jornal, que esteve na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, no final de 1974, recorda:

“Era costume, na instrução noturna, sermos convocados para um cross ou outras atividades, como vermos filmes sobre a guerra em Angola, que mostravam «como se fazia», ou seja, o exército português a dizimar as forças adversárias, com algumas cenas bastante perturbadoras, para aprender como se faziam emboscadas. Nessa noite, chamaram-nos ao auditório, onde estavam reunidos os oficiais graduados. Salgueiro Maia convocara o encontro. Era uma figura bastante receada e admirada por todos. Queria comunicar-nos algo e fê-lo com a impassibilidade a que já nos acostumara: «Sei que tem havido perguntas e comentários sobre o que se passou no 25 de Abril. Queria apenas dizer-vos que, se tiverem quaisquer dúvidas ou questões que queiram colocar, estou disposto a esclarecer-vos.» Ninguém fez qualquer pergunta”, recorda o soldado. “Penso que, nessa fase, temia uma contra-revolução”, acrescenta.

Salgueiro Maia, a soldado português que, à frente de 240 homens e com 10 carros de combate se dirigiu a Lisboa e ocupou o Terreiro do Paço, enfrentando um regime ditatorial de quase 50 anos, que cercou o Quartel do Carmo e obrigou Marcello Caetano a render-se, atingiu o posto de tenente-coronel e recusou cargos de poder. Alguns políticos de gabinete podem menosprezar os seus atos, outros podem exaltá-los, mas estes comentários são possíveis devido à liberdade de expressão que o capitão ajudou a instaurar. Continua a ser o símbolo da coragem dos Capitães de Abril e morreu a 4 de abril de 1992.

David Furtado

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