Cruising: O Caçador torna-se Caçado

Cruising, conhecido em português pelo título A Caça, é um thriller realizado em 1980 por William Friedkin, autor de O Exorcista. Protagonizado por Al Pacino, Paul Sorvino e Karen Allen, o filme foi exilado dos cinemas e do circuito vídeo durante décadas. Só 27 anos após a estreia, foi editado em DVD. Baseia-se na história verídica de um polícia que se infiltra na comunidade homossexual, servindo de presa, para descobrir um assassino. Continua polémico? Provavelmente.

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Al Pacino em Cruising.

A Caça surgiu na televisão portuguesa numa sessão da meia-noite, já muito depois da meia-noite. Reexibido em 2007 nos festivais de cinema de Cannes, Sitges e Atenas, foi editado nesse ano pela Warner Home Video nos EUA, França e Espanha (com legendas em português), incluindo vários documentários, mas ainda não teve edição portuguesa. Aquando das filmagens, a comunidade homossexual, achando que estava a ser equiparada a um bando de degenerados, sentiu-se ultrajada e tentou impedir a produção. Várias figuras poderosas, ligadas a essa comunidade, tentaram boicotar Cruising e, durante as filmagens, milhares de pessoas manifestavam-se. Mas por que motivo se tornou num filme proibido? Originalmente massacrado pela crítica, adquiriu estatuto de culto, e hoje é até reverenciado.

Os personagens foram retirados dos ficheiros e relatórios de departamentos da polícia e de médicos-legistas. O agente Randy Jurgensen já tinha colaborado com Friedkin em Os Incorruptíveis Contra a Droga e serviu, uma vez mais, de conselheiro ao realizador. Entre 1973 e 1979, diversos crimes ficaram por resolver. Os cadáveres eram encontrados desmembrados e mutilados, envoltos em sacos de plástico, no rio Hudson. A investigação conduziu a polícia aos clubes junto ao rio, frequentados pela comunidade homossexual.

Pacino e Paul Sorvino.
Pacino e Paul Sorvino.

Apurou-se que seriam dois homens, um branco e um negro – que receberam a alcunha de “Salt and Pepper” – a cometer os crimes, envergando uniformes de polícia. O departamento policial nova-iorquino destacou então um agente, Randy Jurgensen, que se infiltrou nos bares gay, levando uma vida dupla, tentando apanhar os criminosos. Jurgensen sofreu uma crise de identidade devido à sua missão, começou a sentir-se alienado do departamento que o chefiava, e também a perceber a perseguição e a discriminação de que eram alvo os homossexuais. (Jurgensen participa no filme, interpretando o detetive Lefransky.)

Em Cruising, ‘Steve Burns’ (Al Pacino) é o agente que começa progressivamente a ser afetado pelo seu trabalho e a tornar-se quase num voyeur perante um mundo que desconhece – os bares gay de sadomasoquismo. A sua experiência leva-o a questionar a sua própria identidade sexual. William Friedkin era o realizador indicado, até por ser uma pessoa que lidava bem com pressões, e A Caça sofreu muitas. Al Pacino interessou-se pelo papel e contactou os produtores, mas estava longe de adivinhar a celeuma em que se ia envolver.

AMBIGUIDADE

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Karen Allen em Cruising.

O termo “cruising” remete para “andar no engate”, no contexto gay, e também para navegar. E o filme começa justamente com um ferryboat a sulcar o East River, até que um dos tripulantes avista um braço a boiar nas águas. Conclui-se que pertence a uma das vítimas de um serial-killer que tem liquidado homossexuais, todos com o mesmo tipo físico. O ‘Capitão Edelson’ (Paul Sorvino) propõe a um agente de fisionomia semelhante que se infiltre no meio.

O heterossexual ‘Burns’ despede-se então da namorada (Karen Allen) e mergulha numa subcultura que desconhece, acabando por identificar um suspeito que é detido. Depois disto, é encontrada uma nova vítima, e o filme termina tal como começou, com uma silhueta vestida de cabedal a entrar num bar. O plano é intercalado com o do polícia que desvendou o caso, a fazer a barba. Na sala, a namorada, intrigada, observa as roupas que Burns usou na missão que lhe é desconhecida, e começa a vesti-las. Pacino olha então para o espelho e lentamente dirige o olhar para o espectador. Um ferryboat cruza as águas do rio. Neste momento, apercebemo-nos de que ‘Burns’ pode ter-se tornado no próprio assassino.

Repleto de silhuetas na noite, reflexos de facadas em óculos escuros e personagens com vida dupla, toda esta caça converge num momento. Nos extras do DVD, Friedkin explica que “é um filme sobre transformação e, quando Al Pacino olha para o espelho, é como se perguntasse ao público, ‘conheces-te a ti mesmo?’”

“Achámos também importante que a personagem de Karen Allen sofresse a sua própria metamorfose, ao vestir as roupas dele”. Esta “caça” torna-se portanto interior e ambígua e é nisso que reside a sua força.

TEMPOS DIFERENTES

Friedkin alega que se trata de um filme de mistério, mas as ideias que sugere são provocantes. Num clima de tensão, acentuado pela banda sonora de Jack Nitzsche, composta por estalidos de cabedal, barulho de correntes e sintetizador, o cineasta retrata os bares gay, tendo filmado in loco. Desta forma, deparamo-nos com uma espécie de festim de Calígula, em que muitos dos intervenientes praticam atos sexuais explícitos, que o realizador – aprendiz de Hitchcock – apenas insinua, o que os torna ainda mais perturbadores.

Friedkin não pretendia suavizar realidades ou promover aceitações – não é esse o papel de um artista. No entanto, ao filmar o gesto em que as vítimas são apunhaladas, equiparando-o a outro tipo de penetração, o realizador pisava um terreno suscetível de gerar polémica. Convém lembrar que, na época, a comunidade gay nova-iorquina lutava pelos seus direitos – e pelo direito à diferença – na Era anterior ao aparecimento da SIDA. Milhares de pessoas tentaram boicotar as filmagens, atirando pedras e gritando. Chegaram a recorrer a refletores em cima de telhados, para anular a iluminação das cenas de exteriores. 300 polícias protegeram a produção, e Pacino foi escoltado em diversos locais. O barulho era tanto que grande parte do filme foi dobrado.

Pacino, apesar de perturbado com a agitação, fez o seu trabalho. Era um grande desafio para um ator, e o resultado não o envergonha, embora não seja um dos seus papéis de eleição. O realizador foi obrigado a cortar cerca de 40 minutos de filmagens, para que Cruising não recebesse a classificação X. Quando foi lançado, o produto final desagradou a Pacino, e o ator comentou que não assinara contrato para interpretar aquele guião.

“Tudo o que sucede em Cruising, aconteceu”, revela o realizador. “Era uma comunidade que existia, e os bares eram assim.” Argumentando que não pretendeu retratar um estilo de vida generalizado, Friedkin não recolhe apoios dos atores principais: Pacino, Allen e Sorvino escusaram-se a participar nos extras do DVD, parecendo ter deserdado a obra.

“Aprendi que as pessoas não se incomodam quando se quebra as fronteiras da violência no cinema”, declara Friedkin, “mas, quando enveredamos pela sexualidade, irritamos muita gente. Apesar da comunidade gay possuir um grande poder económico, hoje em dia, a elite de Hollywood tem medo de produzir um filme que examine o lado negro da sexualidade, gay ou hetero”.

Ironicamente, A Caça foi novamente exibido no Festival de Cannes de 2007, recebendo aplausos de pé. “São tempos diferentes…”, comenta Friedkin. A crítica continua bastante confundida, com alguns jornalistas, como Rex Reed, a dizerem que se trata de “lixo homofóbico e brutal” e outros a defenderem os seus méritos.

ZONAS CINZENTAS

Pacino comentou: “Será que sou o assassino, no fim do filme, ou tornei-me gay? Até hoje, ainda não sei, já que Friedkin nunca me explicou.” O realizador contrapõe: “Quis que Al descobrisse por si próprio se o seu personagem passou essa linha. Penso que é a previsibilidade do cinema de hoje que faz com que, 27 anos depois, o final ambíguo de Cruising ainda seja controverso.”

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Karen Allen e Al Pacino.

Para confundir ainda mais, os assassinos são atores diferentes, mas todos têm a mesma voz, dobrada pelo mesmo ator. “Não me peçam para explicar isso”, diz William Friedkin, no comentário do DVD. Outro aspeto interessante é o facto de Karen Allen (ainda antes de se celebrizar com Os Salteadores da Arca Perdida) não ter tido acesso ao argumento integral, já que a sua personagem desconhecia a missão do namorado. “Não faria isso de novo”, relatou a atriz ao Winnipeg Free Press. “Talvez se Fellini ou Bergman me oferecessem um papel. Ou Woody Allen. Caso contrário, não. Aprendi a lição.”

A Caça foi vítima do politicamente correto e sofreu as consequências de uma determinada ditadura de minorias. Passados 32 anos, permanece único e convém não esquecer que, durante décadas, foi o único filme mainstream a retratar uma comunidade minoritária específica. O diretor de fotografia sugeriu que fosse filmado a preto e branco. Foi filmado a cores, mas é na zona cinzenta que A Caça se afirma.

David Furtado

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