Henry Fonda faria hoje 110 anos: O homem que era a consciência da América

Henry Fonda era o oposto do que se esperava em Hollywood: A maioria das estrelas evitavam personagens atormentadas, preferindo o glamour e passadeiras vermelhas. Fonda não era assim; as suas convicções pessoais eram firmes. Era alguém que adorava a América, mas odiava frequentemente o que ela fazia às pessoas e o que as pessoas faziam em nome dela.

Jane Fonda com o selo dos correios americanos em honra de Henry Fonda (2005).
Jane Fonda com o selo dos correios americanos em honra do pai (2005).

Em latim, Fonda significa “fundação” ou “base”, além de ser o nome de um vale dos Apeninos, perto de Génova, onde a família teve origem. No século XIV, um antepassado, o marquês de Fonda, um arruaceiro, fugiu de Itália, não se sabe porquê. Em contraste, a Ciência Cristã adotada pelos pais de Henry assentava em recusar a fraqueza e dar sentido ao misticismo. Henry não seguiu a doutrina paternal, mas foi influenciado por ela. Achava que qualquer doença ou ferimento dos filhos se devia a “qualquer pecado do espírito”, isto segundo Peter Fonda.

A filha, Jane Fonda, recordaria outro aspeto familiar, uma “tendência biológica para a depressão”, suspeitando que o avô William sofresse daquilo a que Churchill chamava “o cão negro” ou, noutros tempos, “melancolia crónica”. De qualquer forma, Henry Fonda vinha de uma família tradicionalista e os seus primeiros passos foram convencionais. Estudou jornalismo na Universidade do Minnesota. Na altura, era uma profissão criativa e estável financeiramente, mas o jovem Henry não tinha boas notas e tal profissão não o atraía. Desistiu em 1925 e mudou-se para Omaha.

Aconteceu no Oeste (1968).
Aconteceu no Oeste (1968).

Teve então vários empregos, como mecânico, decorador de montras ou fabricante de gelo. Nos tempos livres, começou a frequentar o Omaha Community Playhouse, a representar e a decorar os cenários, entre outras tarefas de manutenção teatral. A primeira experiência num palco foi um “pesadelo”, como descreveria: “Não me atrevi a erguer o olhar. Era do tipo que pensava que todos olhavam para ele.” Além disso, ser ator não era uma profissão respeitável, portanto Henry foi trabalhar para uma companhia de crédito a retalhistas, na qual era eficiente.

henry fonda 7O apelo do teatro não o abandonou, e foi em 1926 que protagonizou a comédia Merton of the Movies no referido teatro de Omaha. Recebe aplausos de pé e até consegue convencer a família. O pai, que se opunha a esta carreira, disse à irmã de Henry, quando esta criticou a atuação do irmão: “Cala-te, ele foi perfeito.” Henry diria, décadas depois, que foi a maior crítica da sua carreira.

Como era proveniente da austeridade comum do Nebraska, Fonda possuía instinto natural para a cólera e a tristeza, transmitindo uma sensação de distanciamento, que foi desde logo um dos seus traços como ator e se manteria ao longo dos anos. O público reagia à sua carismática presença em palco, à medida que Fonda ia aprendendo a ser ele próprio e a distanciar-se do personagem, mas acreditando no que o personagem dizia e fazia, a ponto de aparentar espontaneidade. Fê-lo por instinto, mas na verdade, isto é uma técnica que, no famoso Método, é ensinada como “memória emocional”.

henry fonda 4Continuava a construir cenários, munido de martelo e pregos, pelo que se pode dizer que foi talhado no teatro. Em 1929, conhece Margaret Sullavan, outra atriz com quem até partilhava o dia do aniversário. Casaram no dia de Natal, mas divorciaram-se após dois anos e terríveis discussões. Outra característica que Fonda manteve foi a de reprimir emoções, originando relacionamentos tempestuosos. Sullavan terá exercido forte impacto em Fonda, deixou-o e, anos mais tarde, suicidou-se, o que terá deixado o ator devastado. Até o filho de Henry Fonda, Peter, deu o nome de uma das filhas de Sullavan à sua própria filha: Bridget.

ESTREIA NO CINEMA

O seu primeiro filme, The Farmer Takes a Wife (1935).
O seu primeiro filme, The Farmer Takes a Wife (1935).

O sucesso não surgiu facilmente. A maré só mudou quando o agente de Fonda na altura, Leland Hayward, o convenceu a encontrar-se com Walter Wanger, produtor de Alfred Hitchcock, John Ford, Fritz Lang, entre outros, e um impulsionador de talentos como Don Siegel ou Sam Peckinpah. Casado com Joan Bennett, Wanger era uma figura influente, capaz de investir muitos dólares em desconhecidos. Propôs a Fonda um auspicioso contrato e convenceu a 20th Century Fox a contratá-lo para a adaptação cinematográfica da comédia romântica The Farmer Takes a Wife (A Noiva do Camponês, 1935) que Fonda desempenhara no palco. Wanger contrariou os executivos, que preferiam Gary Cooper, e viria a produzir os primeiros seis filmes de Fonda, mas o ator culpou-o mais tarde da pobreza destes papéis.

Com Bette Davis em That Certain Woman (1937).
Com Bette Davis em That Certain Woman (1937).

Habituado ao teatro e à inerente projeção da voz, Fonda foi alertado pelo realizador Victor Fleming que tinha de se conter e movimentar-se com mais subtileza. O ator aprendeu a lição: A câmara simbolizava o olhar do espectador mais próximo. Nunca precisaria de grandes indicações por parte de realizadores, aprendia depressa e era um talento original. De ar circunspecto, sem espalhafato, aparentava ser mais inteligente que Gary Cooper, mais virtuoso que Clark Gable ou mais esquivo que Spencer Tracy. Fonda era simples, mas não era simplista nem simplório. Era um ator e um homem complexo. Esta estranha combinação fez sucesso em Hollywood, apesar da fraca qualidade dos primeiros filmes.

henry fonda 5Na rodagem de Wings of the Morning (Nobreza Cigana, 1937) conhece uma amiga da esposa do produtor, Frances Seymour, com quem casa apenas dois meses depois. A união é, mais uma vez, turbulenta, e Fonda descarrega as frustrações no trabalho – datam desta fase alguns dos seus melhores trabalhos, que já examinei em artigos anteriores, como por exemplo Young Mr. Lincoln (A Grande Esperança, 1939) e The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira, 1940).

O REVOLTADO

Surge a rutura; a sua escolha de papéis e a sua ascensão possuíam um cariz de jovem revoltado e anti-herói, o que não se deveu à Grande Depressão de 1929, que passou ao lado do ator: “Mal dei por ela. Enquanto atores, andávamos em depressão o tempo todo.” Esta persona foi entendida e apreciada pelo público. Eram tempos difíceis, e o ator tornou-se uma espécie de emblema. Como descreveu John Steinbeck acerca da Depressão e o êxodo de um milhão de pessoas: “Como vinham de lugares tristes, preocupações e derrota, e porque todas iam para um novo e misterioso lugar, aglomeravam-se, falavam umas com as outras, partilhavam as vidas, a comida e as coisas que esperavam alcançar no novo território.”

As Vinhas da Ira (1940).
As Vinhas da Ira (1940).

As Vinhas da Ira, publicado em 1939, foi apelidado de propaganda soviética, até em Portugal foi censurado. Mentes mais esclarecidas perceberam que era “o” romance americano, talvez o mais marcante para a nação até à data. Causou um impacto tremendo em todas as classes sociais; o presidente Roosevelt exaltou-o numa conferência na Casa Branca, em janeiro de 1940: “500 mil americanos vivem entre as capas deste livro.” A obra tornou-se num best-seller, ganhou o Pulitzer e, apenas dias após ser publicada, foi vendida à 20th Century Fox por 100 mil dólares, uma soma avultada.

O combate contra forças internas e externas centrou-se na personagem de Tom Joad, ou seja, Henry Fonda. O ator percebeu e transmitiu a solidão acalmada pelo sentido de comunidade, e os interesses próprios transformados num objetivo comum. Cínico, perigoso, mas humano, Tom Joad e Henry Fonda uniram-se no imaginário popular neste grande filme de John Ford, que bem podia ser considerado o melhor de sempre, a par de obras nem piores nem melhores, como Vertigo ou Citizen Kane. Porquê? Porque parece que o tempo pára neste filme.

henry fonda the grapes of wrath 1940Fonda não discursa, não representa nem se sobrepõe ao restante elenco, no entanto, é ele que brilha, é ele a parte do todo, o homem comum, como define o Pregador Casy: “Talvez todos os homens tenham uma grande e única alma e todos sejam parte dela.” E a despedida de Tom Joad é imortal, não a conseguimos imaginar com a voz ou a face de outro ator. Para um mero intérprete, isto seria uma armadilha, para o inteligente Fonda, que interiorizou o significado do livro e das palavras, é um triunfo de que poucos se podem gabar na História do cinema:

“Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte. Para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde houver um polícia a espancar uma pessoa, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas que enlouquecem. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comerem aquilo que cultivaram e viverem nas casas que constroem, também lá estarei.”

JANE FONDA E PETER FONDA

Henry e Frances tiveram dois filhos, Lady Jayne Seymour Fonda, nascida em 1937, e Peter Henry Fonda, nascido em 1940, ambos em Nova Iorque. Quando Jane nasceu, o pai tinha já estabelecido no contrato de Jezebel que podia abandonar a produção quando o parto estivesse iminente. O realizador William Wyler teve de o deixar abandonar  o trabalho durante duas semanas.

O relacionamento entre Henry e Jane nunca foi pacífico. “O pai era emocionalmente distante e tinha uma frieza com que a mãe não sabia lidar”, recordou Jane Fonda. Dedicado ao trabalho, Fonda ausentava-se bastante e mesmo os amigos de Jane tinham medo dele: “Achávamos sempre que ele era uma bomba-relógio prestes a explodir”, comentou um.

Com Jane e Peter.
Com Jane e Peter.

Jane era uma maria-rapaz e tentava agradar ao pai. Era mais independente do que Peter, criança doente e melancólica, que passou parte da infância e adolescência em colégios particulares, desenvolvendo um caráter neurótico e tendência para jogos violentos, algo que deixava Henry confundido.

Na carreira, Fonda vai-se deparando com várias barreiras, uma das quais, o produtor Darryl F. Zanuck. Eram pólos opostos. Zanuck era gabarola e, embora brilhante, acreditava na sua própria auto-promoção. Foi uma das grandes lições no meio implacável de Hollywood: Fonda vendeu a alma ao diabo pela hipótese de desempenhar Tom Joad. Zanuck obrigou-o a assinar um contrato de mais sete filmes, quer o ator gostasse ou não. Eram negócios, mas Fonda desprezaria Zanuck até ao fim dos seus dias.

The Ox-Bow Incident.
The Ox-Bow Incident.

Entre todos os filmes desta época, conta-se um extraordinário, porém: The Ox-Bow Incident (Consciências Mortas, 1943). Fonda empenhou-se para que este western com ambiente de film noir fosse produzido. No dia depois de terminar a filmagem, alista-se como voluntário na II Guerra Mundial, mais precisamente a 24 de agosto de 1942. Não informou ninguém nos estúdios da Fox, apenas a família. Conduziu ele mesmo até ao quartel-general da Marinha e disse: “Quero estar com os tipos que lidam com armas.”

O SOLDADO

Parecia inexplicável que um ator de sucesso interrompesse a carreira e fosse combater, mas assim foi. Jane comentou: “Ele era genuinamente patriótico e odiava o fascismo, mas acho que também o fez para se afastar.”

henry fonda 3As vedetas de Hollywood faziam digressões para animar as tropas, Fonda não. Deram-lhe a patente mais baixa: recruta da Marinha. Aos 37 anos, parte para dois meses de treino de combate, mas é detido e recambiado para Hollywood. Zanuck exige que o ator desempenhe um papel em Immortal Sergeant (Sargento Imortal, 1943). Fonda faria troça do filme, anos depois: “Ganhei a II Guerra Mundial sozinho.”

Determinado, o ator troca os cenários pela realidade e é destacado para o contratorpedeiro USS Satterlee. Passa também pelos serviços secretos da Força Aérea e cumpre serviço num porta-aviões, entre outras missões. Esteve várias vezes perto de morrer: Numa operação anti-submarinos, quando o seu navio foi atingido por uma bomba de meia tonelada que o destruiu parcialmente, e em Hiroshima, onde integrou a equipa que deu as instruções meteorológicas à tripulação do Enola Gay, que lançou a bomba atómica.   

Fonda receberia a Estrela de Bronze. Deu-a ao filho Peter, que a perdeu. “Não significava nada para mim”, comentou. Durante a guerra, os problemas conjugais com Frances começaram, na forma de casos extraconjugais. Isto perante a jovem Jane, que sabia e veio a dizer: “Nesses anos, a sua maior emoção era a raiva.”

Quando o contrato com Zanuck e a Fox expira, em 1947, Fonda não o renova. Armado da sua popularidade e sucesso, diz que trabalhará com o estúdio numa base de filme a filme, ao ritmo de um por ano, e consegue ainda que lhe aumentem o salário semanal para 6 mil dólares.

O REGRESSO

Com James Stewart, que disse, aquando da sua morte,
Com James Stewart, que disse, aquando da sua morte, “perdi o meu melhor amigo”.

Outro trabalho que lhe definiu a carreira foi Mister Roberts, peça levada à cena em 1948. Fonda não pisava um palco há 10 anos, mas foi saudado com aplausos intermináveis de pé. O sucesso foi tremendo, ultrapassando a peça rival, Um Eléctrico Chamado Desejo. Recebeu o Tony por Melhor Ator. Com subtileza e sem projetar a voz desmesuradamente, recorrendo a vários truques, o ator prendeu o público sempre, durante mais de dois anos, numa digressão pelos EUA. Ao contrário das “explosões” de Marlon Brando, Fonda primava pelo enigmático.

O caráter taciturno do ator não facilitava o convívio doméstico: A esposa estava sempre doente, Peter contraiu pneumonia e Jane sofria de bulimia. A filha tentava desesperadamente agradar ao pai austero e este não era negligente, preocupando-se com os filhos. O casamento estava por um fio, que se rompeu em definitivo quando Henry conheceu Susan Blanchard, de 21 anos, enteada de Oscar Hammerstein II e habituada ao meio do espetáculo. Fonda acaba por pedir o divórcio à mulher, que acaba internada em vários sanatórios e se suicida aos 42 anos.

henry fonda 13Horas depois de saber o que acontecera, Fonda sobe ao palco para a sua 883ª atuação em Mister Roberts. Um parente de Blanchard achou que “ele não sabia que mais fazer”. Em 1950, Fonda casa com Blanchard e tem de lidar com os problemas dos filhos: Peter fere-se a si mesmo com uma pistola calibre .22 e por pouco não morre.

O ator estava agora na meia-idade e já passara por bastante. Num hotel, durante a digressão de Mister Roberts, salva uma operadora de elevadores de 17 anos, fazendo-lhe respiração boca-a-boca, a pedido dos bombeiros. E desaparece em seguida, sem que a rapariga lhe possa agradecer.

O AUTORITÁRIO

Na carreira e nas escolhas profissionais, sobressai a determinação e a intransigência perante a autoridade. Trabalhando como um maníaco, começa a sofrer dos nervos e das cordas vocais. No ensaio de uma peça, confronta o ator e encenador Charles Laughton, que subestima o elenco. Fonda explode, defendendo os colegas e insultando o homossexual (no armário) Laughton: “Que sabes tu de homens, seu maricas feio e gordo?”  

henry fonda 9Outro ator, Charles Nolte (também ele gay, por coincidência), observava Fonda: “Estudava a técnica dele porque era uma testemunha privilegiada. E achei-a altamente profissional quando não era assustadoramente demoníaca.” Esta peça, The Caine Mutiny Court-Martial, foi, apesar dos problemas nos bastidores, bem recebida.

Prosseguiam os conflitos. Numa discussão com outro encenador, Henry Fonda deu um murro numa porta, atravessando-a com o braço. Estas explosões derivavam, disse quem o conheceu, da sua dedicação frenética, já que, noite após noite, forçava os limites emocionais e sabia que o sucesso dependia, em grande parte, dele. Após algumas representações, deixava o palco e chorava sozinho no camarim.

Um dos seus papéis mais marcantes, Mister Roberts (1955).
Um dos seus papéis mais marcantes, Mister Roberts (1955).

Mister Roberts é adaptado ao cinema em 1955, numa obra que não fez jus à peça, mas que marcou o regresso de Fonda após sete anos de ausência do grande ecrã. Era um papel que lhe dizia muito e levou a um confronto com o realizador John Ford, que agrediu o ator, atirando-o por cima de uma mesa. Fonda desprezava o filme e disse-o, mas foi um grande sucesso.

O casamento com Susan Blanchard não sobreviveu, em parte porque Fonda, além de autoritário, nunca se sentiu à-vontade com a discrepância de idades, segundo Blanchard. É contratado para Guerra e Paz (1956), um desastre relativo. O ator, que evitava ver muitos dos seus filmes, nem assistiu a este: “Se o tivesse visto, de certeza que teria de vos dizer que é péssimo”, comentou um ano depois. Em Roma, nas filmagens, conhece Afdera Franchetti, uma baronesa de 24 anos que se torna a sua quarta esposa.

No mesmo ano, segue-se um grande papel em The Wrong Man (O Falso Culpado) de Hitchcock, a história de um homem inocente confundido com um criminoso. Novamente mestre do understatement (a diametralmente oposta Meryl Streep é o máximo expoente do overstatement), Fonda “torna-se” no homem injustiçado, não o “representa” nem o “simboliza”. O recurso aos grandes planos do seu rosto e ao uso das sombras por Hitchcock também é louvável.

O POLÍTICO

jane fonda henry fonda peter fonda 4Em privado, o ator preferia passar muitas horas a ler, tanto livros como argumentos, fazia yoga e pintava obras que atraíam a atenção de colecionadores pela qualidade. Continua a trabalhar a um ritmo imparável e o quarto casamento não sobrevive: Afdera, tal como Susan, pede o divórcio, e Fonda suplica. Novamente em vão.

No teatro, sucediam-se interpretações inigualáveis como em A Gift of Time (1962), com Paul Newman a elogiar nos bastidores: “Caramba, o desempenho melhor que alguma vez vi.” Nestes personagens, havia várias implicações autobiográficas; Fonda frequentemente aceitava os que tivessem algo relacionado com o seu caráter ou contivessem algo que defendesse. Ciente do seu talento, empenhava-se em personagens que lhe proporcionassem uma catarse e exorcismo das emoções.

Fonda sempre foi um liberal, ao contrário de John Wayne que liderava a chamada “preservação dos ideais americanos” em Hollywood. Este movimento de direita contava também com Reagan (ainda ator) e encontrava oposição em Bogart, Bacall ou John Huston. Fonda não se envolveu e, quando a caça às bruxas acabou, continuaria a trabalhar com realizadores e argumentistas de esquerda. Edward Dmytryk, realizador de Warlock (1959) foi preso e mais tarde divulgou o nome de membros do Partido Comunista. Fail-Safe (1964) em que Fonda interpreta o presidente dos EUA, tinha argumento de Walter Bernstein, que não denunciou ninguém e acabou exilado.

A passividade em não tomar partidos despoletou críticas da filha Jane, apesar de muitos estarem na mesma situação – a paranoia americana podia destruir carreiras. O ator continuou a dar-se bem com pessoas de ambos os lados da barricada, como John Wayne. Preferia sobreviver, mantendo-se no centro e sem perder a integridade artística. O seu trabalho falava por si; era um ícone do liberalismo e seria apoiante de Kennedy que o nomeou para o comité do seu Centro Nacional de Cultura.

CONFLITO NO CLÃ FONDA E O VIETNAME: A HANÓI JANE

Desempenhando o presidente americano no profético Fail-Safe.
Desempenhando o presidente americano no profético Fail-Safe.

Nos anos 60, destaca-se Fail-Safe (Missão Suicida) de Sidney Lumet, filme profético e de teor político, influenciado pela Guerra Fria, em que o erro de um computador provoca uma guerra entre os EUA e a Rússia. O western americano estava em declínio, com Pauline Kael a decretar que John Wayne, James Stewart, Fonda, Mitchum, Kirk Douglas e outros arrastavam “as suas famosas e dispendiosas carcaças” num género moribundo.

Em 1966, Fonda trabalha no seu 60º filme, A Big Hand for The Little Lady, e celebra 30 anos de carreira. Peter Bogdanovich escreveu: “Mesmo que ele não desempenhasse mais nenhum papel, o seu Lincoln, o seu Mister Roberts, o seu Earp, o seu Tom Joad já o tinham imortalizado numa faceta especial e extremamente individualista do Americano.” Era verdade. Enquanto o pai era elogiado nestes termos, Peter era preso por posse de marijuana, (com o pai a testemunhar a seu favor) e Jane aparecia nua na Playboy, processando, ela mesma, a revista.

A conturbada relação entre pai e filha.
A conturbada relação entre pai e filha.

Jane Fonda lutava, nesta época, por se afirmar, dedicando-se ao estudo do Método com Lee Strasberg, o que o pai não aprovava: “Não sei o que é o Método, nem me interessa. Toda a gente tem um método.” Na primeira metade dos anos 60, Jane participa em seis filmes, muitos xaroposos, mas começa a sobressair, fugindo à pesada herança e ao apelido. Atribui a sua entrada no cinema, não à vontade de seguir os passos paternais, mas aos seus próprios impulsos neuróticos.

“Os atores são mais neuróticos, egoístas e inseguros que as pessoas normais, e propensos a não serem pais especialmente bons”, disse Jane. Indiretas deste género deixavam o pai angustiado. “Quando ela faz comentários sobre ele enquanto pai, ele morre, ele morre”, comentou a esposa de Henry, Susan.

Na década de 60, Fonda aceita todos os papéis que lhe aparecem, bons ou maus, originando filmes de qualidade desigual. Jane, entretanto, sob a influência de Roger Vadim, deixa a psicanálise e envereda por uma vida sexual atribulada, que inclui sexo a três, condutas divulgadas na imprensa. “Eu queria ter um casamento melhor do que os do meu pai”, expressou mais tarde. Transformada em ícone sexual com a mistela de Barbarella (passe a rima), Jane recusa papéis em Bonnie and Clyde e Rosemary’s Baby, preferindo They Shoot Horses, Don’t They? (Os Cavalos Também Se Abatem, 1969.)

Peter Fonda e o pai em meados dos anos 60.
Peter Fonda e o pai em meados dos anos 60.

A relação com o progenitor continuava por linhas enviesadas. Agora dizia: “O meu pai é um homem fantástico. À medida que crescemos, entendemos como é difícil ser pai. Apesar de tudo o que foi escrito, nunca odiei o meu pai. Eu lutava pela minha própria identidade.” Peter tinha outra atitude: “O meu pai nunca estava por perto, nunca falou comigo, nunca me disse merda nenhuma”, declarou enraivecido, “mas sei agora que me salvou, apesar de tudo”. Também Peter teve o seu grande êxito com Easy Rider (1969), emblema da contracultura.

Fonda mudaria de opinião mais tarde, mas começou por apoiar a Guerra do Vietname, justificando: “Ainda sou um liberal, mas não podemos ir lá e voltar e não sentir, pelo menos, que obviamente devemos estar lá e que o serviço está a ser feito e bem feito.” Em contraste total, Jane Fonda lançou-se de cabeça no ativismo, participou em manifestações, greves, foi detida, e usou a sua celebridade para defender estas causas. Começou a ser considerada “a última dor de cabeça” da América.

Uma das várias detenções de Jane Fonda devido ao ativismo.
Uma das várias detenções de Jane Fonda devido ao ativismo.

Pelo caminho, venceu um Óscar pelo desempenho extraordinário de uma prostituta nova-iorquina em Klute (1971), rompendo de vez as amarras com o pai e as inevitáveis comparações. Chamaram-lhe mesmo uma inovação na arte de representar, uma obra-prima; com improvisações e fugindo aos lugares-comuns, Jane deixava de ser apenas “a filha de Henry Fonda”. Mas o discurso de aceitação do Óscar foi sucinto e ao estilo do pai: “Há muito a dizer, mas não o digo esta noite. Obrigada.” Chamaram a este Óscar um “milagre na miopia da Academia”.

O melhor papel de Jane Fonda, Klute, e um
O melhor papel de Jane Fonda, Klute, e um “milagre na miopia da Academia” que lhe deu um Óscar por ele.

No ano seguinte, Jane viaja até ao Vietname, querendo expor as mentiras de Nixon sobre o conflito. Mas, ao deixar-se fotografar aos comandos de um bombardeiro, sorridente e apoiando os norte-vietnamitas, estava a desrespeitar os milhares de soldados americanos que morriam. A sua foto de Barbarella, sex symbol das tropas, foi substituída por uma de tiro ao alvo. E nunca lhe perdoaram, apesar de Jane ter imensas vezes pedido desculpa em público pela atitude irrefletida. Há apenas cinco anos, em 2010, as mulheres americanas que recrutavam extremistas muçulmanos pela Internet usavam o pseudónimo “Jihad Jane”. E ainda hoje a sua foto decora as latrinas das casernas de certos quartéis americanos.

Em Aconteceu no Oeste, a obra-prima de Sergio Leone.
Em Aconteceu no Oeste, a obra-prima de Sergio Leone.

Henry Fonda, cansado de westerns cada vez mais banais e repletos de fórmulas bafientas, aceita participar em Aconteceu no Oeste, comentando: “Este tipo, Leone, parece que entra dentro da nossa cabeça, faz-nos pensar de modo diferente, reagir a situações como nunca o fizemos e atuar como nunca atuámos. Fiz coisas para ele que outrora recusaria.” Sergio Leone conseguiu finalmente encontrar aquilo que lhe falhara na trilogia dos dólares com Clint Eastwood, um ator. Segundo Leone, “ele [Fonda] vem das profundezas da imagem, tal como vem das profundidades mais remotas da memória”. É outro dos melhores papéis de Fonda.

CONSAGRAÇÃO TARDIA

henry fonda 14Na última década de vida, Fonda continua a trabalhar, suscitando aos realizadores o comentário habitual: “Ele não precisa de direção.” No teatro, protagoniza Clarence Darrow, aplaudido com críticas fenomenais, de “interpretação épica” a “equivalente a um feito olímpico”. Os críticos disseram que parecia a acumulação de tudo o que aprendera durante tantos anos na profissão.

A sua saúde já sofrera com a sobrecarga de trabalho e, em 1974, vai parar ao hospital após uma representação da peça, que é cancelada por tempo indeterminado. Já eram 50 anos de palcos e filmes. Regressa em forma e mostra-se mesmo indignado com o preço de nove dólares cobrado pelos bilhetes. Sempre o mesmo.

Em 1976, é operado pela segunda vez em dois anos, devido a um tumor junto ao pulmão. Agravam-se os problemas cardíacos, mas Henry não pára, mesmo com um pacemaker, uma inflamação na anca e complicações na próstata. Afirma apenas: “Não tenho muito tempo para pensar na idade.” Os médicos avisaram a família de que, se o ator continuasse àquele ritmo, podia literalmente morrer no palco. Em março de 1981, já no limite das forças, abandona para sempre o teatro.

Diga-se e sublinhe-se que até esta altura, em finais dos anos 70, depois de 115 filmes, nunca ganhara um Óscar. A Academia rende-se às evidências e atribui-lhe um Óscar honorário, com o presidente Reagan a elogiar o ator, numa transmissão filmada, durante a cerimónia. Isto embora Fonda achasse que a eleição de Reagan era “a pior tragédia desde Nixon”. Reagan teve de ignorar, como os medíocres geralmente ignoram os grandes, ainda que o contrário também seja verdade.

Katharine Hepburn, Henry e Jane Fonda em A Casa do Lago (1981).
Katharine Hepburn, Henry e Jane Fonda em A Casa do Lago (1981).

On Golden Pond (A Casa do Lago) era provavelmente o seu último grande filme, em que contracenaria com a filha Jane e Katharine Hepburn. Foi aliás Jane que adquiriu os direitos desta peça e produziu o filme, para que pudesse finalmente contracenar com o pai, no que parecia a reconciliação definitiva e o fecho de um ciclo. Henry Fonda já está demasiado doente para comparecer na estreia, a 18 de novembro de 1981, e é a filha que fala por ele na promoção: “Ele está aqui em espírito. Este é talvez o seu último filme e pode ser o seu melhor.”

Jane Fonda entrega o Óscar ao pai, pouco depois de o receber em seu nome.
Jane Fonda entrega o Óscar ao pai, pouco depois de o receber em seu nome.

No filme, os atores acabam por ser ultrapassados pela perceção pública que se tem deles, Jane, a filha frustrada, Hepburn, a indomável, e Fonda, o pai austero que enfrenta a morte. Foi o segundo maior êxito de 1981, depois de Os Salteadores da Arca Perdida e talvez o maior sucesso de bilheteira da carreira de Fonda, que não pôde comparecer nos Óscares e assistiu em casa, começando a chorar quando ouviu o seu nome.

Foi Jane que aceitou o Óscar de Melhor Ator e, mal saiu do palco, entrou num carro e foi logo entregá-lo ao pai. Henry Fonda faleceu a 12 de agosto do ano seguinte. Até uma porta-voz do hospital ficou espantada com tantas mensagens de condolências e com o seu teor, quando disse à imprensa: “As pessoas adoravam-no mesmo.” James Stewart apenas comentou: “Perdi o meu melhor amigo.” Novamente, o individual e o universal convergiam em Henry Fonda.

As notícias da morte do ator correram mundo, da União Soviética a Itália, onde lhe chamaram, apropriadamente, “uma figura democrata na selva do mundo do cinema”.

David Furtado

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