Aniversário de Al Pacino: Serpico 40 anos depois

Hoje, dia em que o ator celebra 73 anos, recordo um dos seus filmes mais emblemáticos, Serpico, de Sidney Lumet, a história verídica de um polícia cujo grande problema foi ser honesto. O relato permanece atual e é um modo de dar os parabéns a Al Pacino, artista que se manteve fiel à sua arte e se tornou uma referência incontornável para colegas e fascina espectadores. Serpico também permite revelar facetas menos conhecidas de um homem afável e simples, de quem era “fácil gostar”, como disse uma colega. Mas que possui uma personalidade extremamente complexa. “Preferia trabalhar com ele do que viver com ele!”, disse a mesma colega. Lumet fez-lhe um elogio certeiro mas agridoce: “Ele simplesmente mete-se num personagem e não sai.” Parabéns, Al. Sejas como fores, o cinema não seria o mesmo sem ti.

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A ideia de Serpico teve origem em Martin Bregman, que já tinha sido, ou era, empresário de Barbra Streisand, Raquel Welch, Faye Dunaway, Liza Minnelli, Woody Allen e Michael Douglas, entre outros. Um dos seus clientes era Al Pacino, que obtivera grande sucesso em The Godfather (O Padrinho). Bregman, além de homem de negócios, compreendia o talento de Pacino e procurava “veículos” para ele.

O empresário tinha em mente uma adaptação do livro de Peter Maas, Serpico, a história de um polícia de Nova Iorque, Frank Serpico, que lutara contra a corrupção e o suborno e desencadeara a Comissão Knapp, formada para investigar tais atos. O autor do livro, reconhecendo o potencial cinematográfico do relato, assustara os estúdios, exigindo 450 mil dólares pela adaptação. Outra dificuldade enfrentada por Martin Bregman foi o facto de Serpico surgir no seguimento de vários filmes sobre polícias, produzidos no início dos anos 70. O arrojado produtor italiano Dino De Laurentiis foi um último recurso.

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De Laurentiis produzira a adaptação de The Valachi Papers, o livro anterior de Peter Maas, filme protagonizado por Charles Bronson. Encontrava-se, porém, em dificuldades financeiras e até era persona non grata para o Governo italiano. Pediu assim a Bregman que mexesse cordelinhos em Hollywood, junto da Paramount. O orçamento fixou-se em apenas 3 milhões de dólares, mas o produtor italiano e restantes investidores fizeram um bom negócio.

Entretanto, Bregman contara a história de Frank Serpico a Al Pacino, que se mostrou interessado. Tudo culminou num encontro entre o ator, o autor do livro e Serpico. Peter Maas revela: “Passados 20 minutos, Al estava a absorver Serpico através dos poros. Parecia que estava a inalar o tipo!” Al Pacino e Frank passaram vários dias conversando numa casa que o ator alugara em Montauk, Long Island, durante o Verão.

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Frank Serpico.

“POR QUE O FIZESTE, FRANK?”

Al Pacino ficou fascinado com Frank Serpico. Mas, nem o livro nem os incentivos de Bregman o conseguiam fazer entender uma coisa: Por que motivo um homem descarta a sua carreira e segurança, denunciando os colegas. Uma noite, ambos estavam à beira do lago, e Al Pacino, perguntou-lhe, “por que o fizeste? Porquê?”

“Bom, Al, não sei”, respondeu Frank. “Acho que teria de o fazer porque… se não o fizesse, o que aconteceria quando ouvisse uma música?” Esta resposta espontânea despoletou em Al Pacino uma dedicação absoluta. Agora, tinha de fazer mesmo o filme.

Al estava em começo de carreira, mas já demonstrava uma inadaptação face às regras, fazendo declarações que teriam posto os cabelos em pé aos agentes do mundo de hoje, que vive mais de cosmética do que de conteúdo. “Tenho muito dinheiro e vem mais a caminho… Isso faz-me sentir bem. Preocupo-me com coisas mais pessoais. Não sei que diabo se segue…” Seguir-se-ia um filme dos diabos e um padrão recorrente em Al Pacino, durante os anos 70: Mergulhar na arte, a ponto de prejudicar a sua vida.

al pacino d serpico 2Astutamente, Bregman rejeitou argumentos politizados. Num impasse, Pacino recusou representar Lenny Bruce no grande ecrã, dando a oportunidade ao seu rival, Dustin Hoffman, que fez um esplêndido trabalho. Seguiram-se várias peripécias com a escolha do realizador, e Pacino manteve-se, com precaução, ao lado de Bregman. No horizonte, pairava uma ameaça; o início das filmagens de O Padrinho II. John G. Avildsen foi afastado do projeto e Bregman escolheu Sidney Lumet, realizador enérgico, talentoso, prático e eficiente, que contava já com uma carreira sólida. Era conhecido pela sua capacidade de dirigir atores, um profissional consumado.

“Eu sabia que filmar Serpico seria fisicamente brutal e duro a nível emocional”, disse Lumet, “mas estava determinado em pôr tudo isso no ecrã”.

O realizador podia estar motivado, mas Pacino superou as expectativas. Tão absorvido estava pelo papel que, a meio da rodagem, tentou prender um camionista em Nova Iorque! O incidente ocorreu numa tarde quente. O camião deitava fumo pelo escape e Pacino, num engarrafamento, gritou ao motorista, “por que mandas essa merda para a rua?” “Quem raio és tu?”, gritou o motorista. “Eu? Sou polícia, e tu estás preso! Encosta!” Ainda puxou do distintivo falso, mas acabou por se dominar…

Mas não foi isto que mais impressionou Sidney Lumet:

“Al tinha o mesmo sentido de obrigação que eu para com o material, e isso explica, em parte, a sua sensacional atuação. A outra parte já o integra enquanto ator. Só há meia dúzia de atores incapazes de fazerem algo falso, e Al é um deles. Ele nunca diz, ‘não posso fazer o que pedes porque não me soaria a autêntico’. Ele simplesmente mete-se num personagem e não sai.”

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Pacino entrega um Óscar honorário a Sidney Lumet em 2005.

Lumet tinha Al Pacino em grande estima e compreendia-o como poucos:

“Ele é um homem complicado e usa isso com brilhantismo. Portanto, há complexidade em tudo o que faz. É um animal instintivo, mas lento nas decisões. Talvez por ser uma pessoa das ruas goste de manter as suas opções em aberto. É totalmente insaciável, totalmente dedicado e temos de corresponder à sua dedicação. Ele está-se borrifando para tudo, só quer fazer um bom trabalho.”

E, como não há duas sem três, volto a citar Lumet, em declarações da época:

“Sei muito pouco sobre a sua vida. Nunca faço perguntas pessoais. Uma das minhas regras basilares é nunca invadir a privacidade de um ator. Se ele tem problemas sexuais, chatices, seja o que for, não quero saber disso e certamente não o quero usar. Se tem problemas de identidade pessoal, idem aspas. Quero basear-me em habilidades e, se não podemos fazer isso, que se foda. O pequeno Al voluntariou-se, esteve sozinho em casa durante anos, foi educado pela avó, só sei isso. E só sei que podia trabalhar com ele para sempre.”

AL E AS MULHERES

A personalidade de Al Pacino era vista de modo diferente pelo sexo feminino, embora isso não destoe da opinião de Lumet. Barbara Eda Young, que trabalhou com o ator antes da fama e sucesso afirma com perspicácia: “É muito fácil gostarmos do Al. É caloroso e amigável, nada do que parece no ecrã. Mas ele não é simples; é uma pessoa muito complicada. É muito ligado ao seu íntimo e guia-se por isso. É assim que um ator deve ser, mas também é o motivo pelo qual eu preferia trabalhar com ele do que viver com ele!”

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Pacino e Cornelia Sharpe em Serpico.

Em 1973, Al Pacino falou com inesperada franqueza – e não é nada característico dele – sobre mulheres. “Fui criado por mulheres e, quando era mais novo, tinha fantasias sobre ser assediado pelas mulheres mais glamourosas do mundo. Sim, claro que há as que fodem as estrelas. Por experiência pessoal, percebi que podemos seguir esse caminho – pode ser muito tentador. Mas levo um relacionamento a sério. Sou um romântico. E, no meio disso, o engano entra em cena. Não é o ato de foder, e o facto de nos darmos a nós próprios que é enganador. Nunca me senti muito atraído por isso. Já me sucederam coisas como, uma mulher vir ter comigo e dizer, ‘quero ir para a cama contigo’. E eu dizia coisas como, ‘fico muito lisonjeado, também não és nada de deitar fora…’”

Com humor, acrescentou: “Não sei, talvez seja paranoico, mas tenho de o afirmar, há qualquer coisa de realmente hostil quando uma mulher faz uma coisa dessas. Em muitos aspetos, assusta-me. Não são livres. São o contrário. São escravas de algo que não conseguem controlar.”

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Era quase imperativo que Al Pacino conhecesse mulheres da sua profissão, mas isso também não o deixava à vontade. “Não vou a muitas festas e, quando trabalho, quem é que conheço? Atrizes. E, sempre que começo com uma atriz, digo, ‘talvez não devêssemos entrar nisto’. E ouço aquela coisa clássica do ‘eu desisto de representar’. E respondo, ‘que raio queres dizer? Não desistas de nada por mim’. Gostava mesmo era de conhecer uma escultora. Vivo com mulheres desde os 16 anos e pareciam-me todas atrizes.”

Quando era novo e caminhava pela rua, Al Pacino via uma rapariga atraente e não resistia ao impulso de a seguir e tentar chamar-lhe a atenção, por vezes, com resultados favoráveis. Pôs fim a esta prática quando, num sinal vermelho, parou o carro e olhou para o lado. Sorriu e disse olá.

“Olá, Michael”, disse ela. “Foi então que percebi que estava tudo arrumado”, diz Pacino. “Fugi e tentei-me esconder atrás de um prédio, mas ela continuava a seguir-me.” “Anda lá, Michael, sai daí”, dizia a rapariga, ao que Al retorquia, “não, está tudo acabado”. “O que queres dizer com ‘está tudo acabado?’ Está só a começar…” “Não”, disse-lhe o ator, “estás a cometer um grande erro. Eu não sou o Michael Corleone!”

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Martin Bregman entrou em conflito com Dino De Laurentiis devido ao aspeto político de Serpico. O produtor queria que todas as situações relacionadas com a Comissão Knapp fossem cortadas. Bregman pediu ajuda a um executivo da Paramount, que adorou o filme, e agiram nas costas de Dino: Lançaram o filme o mais rápido possível, sem dar tempo para cortes.

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Pacino e Lumet nas filmagens.

Três meses após o fim da rodagem, a 5 de dezembro de 1973, Serpico surgiu nas salas, e a receção foi entusiástica. “Um triunfo de inteligência, compaixão e estilo, um filme invulgar sobre um homem invulgar”, escreveu Jerry Oster no New York Daily News. Pacino gostou desta crítica, pois assinalava o seu talento para a comédia: “Ele é um excelente cómico e, quando é engraçado, assemelha-se a Charlie Chaplin; as suas roupas parecem demasiado grandes de repente, e os seus pés não estão onde ele os quer.”

E os sapatos da crítica Pauline Kael foram parar onde ela não os queria, com bom motivo para isso…

Passados 40 anos, Serpico é, para mim, mais do que um filme, é uma afirmação. A afirmação de que os Óscares serão sempre um presente envenenado. E raramente o retrato de um homem honesto nos foi mostrado com tanta… força. Quando lhe dão a medalha por bravura em ação, Serpico responde: “Dão-me isto por ser um polícia honesto? Ou por ter sido tão estúpido que levei um tiro na cara?” É uma cena monumental, mas a realidade foi ainda mais fria. A condecoração foi entregue a Frank Serpico, nas palavras do ex-polícia, como “um maço de tabaco deslizando de um lado do balcão para outro”. Sem o dramatismo de Hollywood (compreensível) na situação transposta para o filme.

Quando Frank Serpico foi alvejado e se encontrava em estado crítico, precisando urgentemente de uma transfusão de sangue, não houve um único polícia em Nova Iorque que se voluntariasse.

“SOU EU, MAS NÃO SOU EU”

É certo que a honestidade provoca incómodo, mas há uma coisa, porém, que não consigo entender. A reação sempre hostil de Pauline Kael, a célebre crítica de cinema que parece nunca ter gostado de nada a não ser de Marlon Brando em O Padrinho. Era muito influente, mas John Cassavetes meteu-a no devido lugar, num episódio que passo a relatar.

Kael não gostava de Cassavetes, aliás, só aplaudiu a cena em que John “explode” em The Fury de Brian De Palma… John Cassavetes nunca lhe deu graxa nem ficou incomodado com as suas críticas arrasadoras. Numa viagem de limusine em Nova Iorque, Kael, Cassavetes e Seymour Cassel dirigiam-se a uma estreia.

Quando a crítica começou com as suas teorias mirabolantes, Cassavetes não teve meias medidas. Disse-lhe: “Sabes, Pauline, acho que alguma coisa cheira mal aqui. Acho que são os teus pés.” Arrancou-lhe os sapatos e atirou-os pela janela, atitude que deixou a crítica petrificada. Kael foi à estreia descalça, embora Seymour e John se tenham oferecido, como cavalheiros, para a levar ao colo devido à falta de calçado.

E foi esta mulher que disse, acerca de Serpico e Al Pacino: “Ele parece não ter a convicção moral que nos faça levar a sua personagem a sério. A sua cara de póquer e as suas saídas despropositadas e bruscas mantêm o personagem remoto. Muitas vezes, não o distinguimos de Dustin Hoffman.”

A resposta de Al Pacino viria alguns anos depois: “Ela disse isso antes ou depois de lhe retirarem o copo de shot das goelas? Ela estava chateada comigo? Porquê?”

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A réplica foi suave perante as palavras ácidas de Kael. John Cassavetes encolhia os ombros e sorria, mas Kael, que fez carreira a dizimar indiscriminadamente quase tudo – Clint Eastwood, por exemplo –, foi insultuosa: “Provavelmente, Al Pacino saiu-se melhor em O Padrinho pois todo o mérito é de Francis Ford Coppola, ele exerce maior controlo sobre os atores do que Lumet, com o qual muitos atores adoram trabalhar já que ele os deixa fazer o que querem. Sem grande orientação em Serpico, um tempo restrito para as filmagens e um personagem que foi escrito para ser representado superficialmente, Pacino deve ter-se refugiado numa idolatria de Dustin Hoffman.” Isto é um dos maiores disparates alguma vez escrito sobre cinema, só por isso o cito. E também porque a situação dos sapatos é das minhas favoritas.  

Merecidamente, Serpico foi um sucesso e tornou-se, mais do que O Padrinho, na rampa de lançamento, passe o cliché, de Al Pacino. O ator sempre creditou Bregman pela ideia. O mesmo agente também veria em Scarface, 10 anos depois, um excelente modo de expor o talento de Al Pacino ao público.

Em 1973, o rosto de Al estava em Times Square, Nova Iorque, uma imagem reminiscente de Cristo, com barba e cabelo comprido. A publicidade era imensa e Pacino reagiu assim: “Não faço qualquer ligação. Sou eu, mas não sou eu. Eu sou eu. Aqui. É uma fotografia ampliada de mim, para que todas as pessoas possam ir ver o filme.” Nada mais lhe pedimos e por isso lhe agradecemos.

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. camila diz:

    Muito bom o texto parabéns.

Comentários:

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