Chaplin: A Criação de Charlot e Luzes na Cidade

Chaplin 2Nascido a 16 de Abril de 1889, Charles Chaplin revolucionou o cinema, criou obras-primas e uma personagem imortal; foi expulso dos EUA e, mais tarde, regressou para receber um Óscar honorário. Para celebrar o seu nascimento, recordo o modo como criou o “Vagabundo” e algumas curiosidades acerca de uma das suas obras-primas, City Lights (Luzes na Cidade), que também é um dos meus filmes favoritos. 

Charlie não nasceu malévolo. Como toda a gente, era a soma da sua herança genética e das experiências de uma vida. Ele sabia o que era tocante, engraçado e triste, patético e heroico; sabia mexer com as emoções do público e possuía um conhecimento intuitivo da personalidade humana. Mas nunca aprendeu o suficiente para conhecer o seu próprio carácter. Ainda o vejo como, talvez, o maior génio que o cinema jamais produziu. Acho que ninguém tinha o seu talento, tornava os outros liliputianos. Mas, como ser humano, era uma mistura, como todos nós.

Marlon Brando

Ao contrário do que geralmente se pensa, Chaplin, embora fosse um humorista genial, não era um homem divertido. A infância, vivida numa pobreza extrema em Londres, marcou-o para sempre.

Chaplin revela que criou o seu alter-ego, “Charlot”, também conhecido como “O Vagabundo” (The Tramp), quase por acaso, quando estava num local de filmagens sem nada para fazer. O realizador Mack Sennett disse-lhe que precisavam de “uns gags” e pediu-lhe que fosse maquilhar-se. “Qualquer coisa serve”, disse. “Não fazia ideia de que maquilhagem aplicar”, admite o ator.

Chaplin A Dogs Life
A Dog’s Life (1918).

“No entanto, a caminho do camarim, decidi vestir calças largas, sapatos grandes, uma bengala e um chapéu de coco. Queria que tudo fosse contraditório: As calças muito largas, o casaco apertado, um chapéu pequeno e uns grandes sapatos. Não sabia se havia de parecer velho ou novo, mas recordei-me que Sennett me pedira para ser um homem muito mais velho, pelo que adicionei um pequeno bigode, achando que me envelheceria sem me ocultar a expressão.”

Seguiu-se um momento marcante na história do cinema – a figura mais identificável de um século inteiro acabara de nascer – foi algo em que todos repararam de imediato, incluindo o próprio Chaplin.

“Não fazia ideia de quem era o personagem. Mas, no momento em que estava vestido, a roupa e a maquilhagem tornaram-me na pessoa que ele era. Comecei a conhecê-lo e, quando cheguei ao local das filmagens, ele nascera totalmente. Quando confrontei Sennett, na pele do personagem, e me comecei a pavonear, a agitar a bengala e a desfilar diante dele, enredos e ideias cómicas começaram a ocorrer-me desenfreadamente.”

chaplin city lights flower

O realizador ficou entusiasmado e Chaplin também. Mal conhecia a “pessoa” que criara, mas o seu discurso fluiu em catadupa. Começou a explicar a personagem a Sennett.

“Sabes, este tipo tem muitas facetas, é um vagabundo, um cavalheiro, um poeta, um sonhador, um solitário, sempre com esperança em encontrar romance e aventura. Far-te-ia acreditar que é cientista, um músico, um duque, um jogador de pólo. No entanto, nada o impede de apanhar beatas ou de roubar um doce a uma criança. E, é claro, se a ocasião o propiciar, pode dar um pontapé no traseiro de uma senhora, mas só se estiver muito irritado!”

Chaplin achava que a personagem era diferente do habitual e que não seria familiar para os americanos, até para ele próprio era um mistério. “Mas, com aquelas roupas, sentia que ele era a realidade, uma pessoa viva. Originou todo o tipo de ideias doidas, com as quais nem sonhara até estar vestido e maquilhado como ‘o Vagabundo’.”

“O Vagabundo” tornou-o extremamente popular, e é curioso que a altura em que era idolatrado e conhecido em todo o mundo tenha coincidido com uma das épocas mais solitárias da sua vida.

City Lights posterLUZES NA CIDADE

O final de Luzes na Cidade (1931) é considerado o mais comovente de sempre do cinema. O Vagabundo, apaixonado por uma florista cega, faz tudo para conseguir o dinheiro da operação que a fará ver. Acabam por se separar, mas consegue fazer aquilo a que se propôs. No fim do filme, reencontra-a – ela já vê e oferece-lhe uma flor. Ele aceita, e a rapariga, ao tocar nas suas mãos, reconhece-o, tal como reconhecia na altura em que não via. “Foi você?”, pergunta-lhe. “Sim. Já consegue ver?”, pergunta o Vagabundo. “Sim.” Não há mais nada a dizer. A mensagem é semelhante à de Saint-Exupéry, só se vê bem com o coração, mas raramente foi expressa com tanta sensibilidade na sétima arte. Chaplin teimou em realizar a obra como um filme mudo, já depois do aparecimento dos filmes sonoros, sublinhando a ideia de que o silêncio consegue ser mais forte do que as palavras.

Os seus colegas (atores, realizadores, produtores) disseram-lhe: “Você tem muita coragem.” “No passado, o meu trabalho geralmente provocara interesse entre os produtores”, revela Chaplin, “mas agora eles estavam demasiado preocupados com o sucesso dos filmes sonoros e, à medida que o tempo foi passando, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos; acho que fora ‘mimado’, até então”.

Mas a opinião geral era a de que, se havia alguém capaz de realizar um filme mudo naquela época, era Charlie. “Eu estava determinado e nada me poderia deter. Era o filme mudo ideal. Mas enfrentei diversos problemas. Desde o aparecimento dos sonoros, que já se tinham estabelecido três anos antes, os atores tinham-se esquecido da pantomima. Todo o seu timing era empregue nas falas e não na ação. Outra dificuldade era encontrar uma rapariga que pudesse fazer de cega, sem que isso lhe afetasse a beleza. Muitas candidatas olhavam para cima, para que só se visse o branco dos olhos, o que era perturbador.”

City Lights virginia cherrill chaplin
Em City Lights com Virginia Cherrill.

Por sorte, um dia, viu uma companhia a filmar na praia da Santa Mónica. “Havia lá muitas raparigas bonitas em fatos de banho. Uma acenou-me. Era Virginia Cherrill, que eu já conhecia.” “Quando é que vou trabalhar consigo?”, perguntou. Chaplin achou que a sua figura elegante naquele fato de banho azul não condizia com um papel mais “espiritual”, como o da florista cega. Contudo, depois de testar mais duas atrizes, e já em desespero, telefonou-lhe.

“Para minha surpresa, ela tinha a capacidade de parecer cega. Disse-lhe para olhar para mim, mas para ‘olhar para dentro’ e não me ver, e ela conseguiu fazê-lo.”

“Era bonita e fotogénica, mas tinha pouca experiência como atriz. Isto, às vezes, é uma vantagem, já que as atrizes experientes adquiriram muitos hábitos e, na pantomima, a técnica do movimento é tão mecânica que as incomoda.”

Chaplin era, por esta altura, um perfecionista, pelo que a cena em que Charlot se apercebe que a florista é cega (que dura apenas 17 segundos) demorou cinco dias a filmar. Admitindo que quase ficou “neurótico” com esta ânsia pela perfeição, o ator e realizador revela que o filme demorou mais de um ano a completar.

UMA ESTREIA ATRIBULADA

Pelo meio, a queda da bolsa de valores não afetou o projeto. “Pelo menos, City Lights estava terminado. Só faltava a música, e um aspeto feliz acerca disso é que eu a podia controlar, por isso, fui eu próprio a compô-la. Tentava que fosse elegante e romântica, para dar aos meus filmes uma dimensão emocional. Os arranjadores raramente entendiam isto. Queriam que a música fosse engraçada.”

O realizador deparou-se com alguns músicos pomposos que “começavam a falar dos intervalos restritos da escala cromática e diatónica”. Por isso, decidiu supervisionar as pautas com ar de conhecedor. “Se eu via muitas notas na secção de sopros, dizia, ‘há muitas coisas pretas aí.’”

City Lights foi finalmente exibido perante uma sala meia vazia, que esperava um drama e não uma comédia. A meio, algumas sombras subiam pela coxia. “Disse ao meu assistente de realização, ‘estão a deixar o filme a meio’”. “Se calhar, vão à casa de banho”, respondeu ele. “Não vejo ninguém a voltar”, insistiu Chaplin. “Alguns têm de apanhar comboios”, respondeu o assistente.

Charlie Chaplin e Albert Einstein estreia de City Lights
Charlie Chaplin e Albert Einstein na estreia de City Lights.

“Saí do cinema a achar que dois anos de trabalho e dois milhões de dólares tinham ido pelo cano abaixo.” Chaplin compareceu, nervoso, na estreia, em Los Angeles, num teatro recém-construído. O público começou a rir, “e, de repente, já se tornara num rugido. Conquistara-os! Mas, a meio, quando todos se riam, o filme parou e ouviu-se um anúncio: ‘Antes de prosseguir esta maravilhosa comédia, gostaríamos que apreciassem os méritos deste novo teatro…’ Não acreditei nos meus ouvidos. Enlouqueci, saltei do lugar e corri pela coxia acima: ‘Onde está o filho da mãe do gerente? Eu mato-o!’”

Mas o público estava com ele e a projeção continuou. No final, um espectador especial chorava. “Reparei que Einstein limpava os olhos, mais uma prova de que os cientistas são sentimentalistas incuráveis”, comenta Charlie.

Algum tempo depois, estreou em Nova Iorque, onde já havia salas disponíveis. Chaplin não queria ler as críticas nem comparecer. Mas dominou-se. City Lights foi um sucesso unânime de crítica e público. “Para descontrair, caminhei por Nova Iorque durante quatro horas”, confessou. “De vez em quando, passava pelo teatro e via a fila para a bilheteira, que já contornava o quarteirão.”

Seguiu-se Londres, em cuja estreia compareceu Winston Churchill. O estadista também foi à festa que se seguiu e dedicou um brinde ao autor de City Lights: “Ao homem que começou como um rapaz do outro lado do rio e conquistou a estima do mundo: Charlie Chaplin!”

David Furtado

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