Sam Shepard: Buried Child (A Criança Enterrada – Tradução integral)

SAM SHEPARD

A Criança Enterrada

Tradução de David Furtado

Samuel Shepard Rogers nasceu em 1943, em Fort Sheridan, no Illinois. Actor e dramaturgo, enraizado na contracultura dos anos 60, Shepard combina a sátira, a mitologia e uma linguagem evocativa dos westerns para criar uma visão subversiva da América. Os seus cenários são uma espécie de terra de ninguém da planície americana, as suas personagens são solitários e vagabundos, e as suas obras exploram muitas vezes famílias problemáticas. Escreveu mais de quarenta peças, entre as quais Curse of the Starving Class (1977), True West (1980), A Lie of the Mind (1985), States of Shock (1991), Simpatico (1994), e The Late Henry Moss (2000). Shepard também participou em vários filmes, entre os quais The Right Stuff (1983), que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de melhor actor secundário. Em 1979, foi-lhe atribuído o Prémio Pulitzer para o teatro, pela peça Buried Child. O seu argumento do filme Paris, Texas (1984) ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Escreveu e realizou Far North (1989) e Silent Tongue (1994). É também autor dos contos, reminiscências e poemas incluídos em Motel Chronicles (1982), Cruising Paradise (1996), e Great Dream of Heaven (2002).

Sam Shepard

A Criança Enterrada (1978) pode ser interpretada como um olhar macabro sobre uma família com um segredo terrível, ou como uma história cómica e perspicaz sobre a desagregação do Sonho Americano. Com as suas personagens de classe baixa e por vezes humorísticas, a peça lembra o realismo e o grotesco dos dramas de Arthur Miller ou Tenessee Williams. No entanto, a abordagem de temas como o incesto, o assassínio e o renascimento aproxima-a da tragédia grega. O New York Times chamou-lhe «uma análise sem precedentes das contradições da América». A Criança Enterrada foi um momento decisivo na carreira de Shepard, e o êxito fez com que as suas peças fossem muito procuradas em Nova Iorque e por todo o país.

A Criança Enterrada

Prémio Pulitzer 1979

Enquanto a chuva cai da ponta dos teus dedos,

Enquanto a chuva cai dos teus ossos,

E o teu riso e medula se esvaem,

Voas até mim.

Pablo Neruda

PERSONAGENS

DODGE: Cerca de setenta anos de idade

HALIE: A sua mulher, sessenta e tal anos

TILDEN: Filho mais velho de ambos

BRADLEY: Filho de ambos, mais novo do que Tilden, um amputado

VINCE: Filho de Tilden

SHELLY: Namorada de Vince

PADRE DEWIS: Um padre protestante

A Criança Enterrada foi representada pela primeira vez no Magic Theatre, em São Francisco, a 27 de Junho de 1978. Foi dirigida por Robert Woodruff e o elenco foi o seguinte:

DODGE Joseph Gistirak

HALIE Catherine Willis

TILDEN Dennis Ludlow

BRADLEY William M. Carr

SHELLY Betsy Scott

VINCE Barry Lane

PADRE DEWIS Rj Frank

A estreia em Nova Iorque foi dirigida por Robert Woodruff e o elenco foi o seguinte:

DODGE Richard Hamilton

HALIE Jacqueline Brookes

TILDEN Tom Noonan

BRADLEY Jay O. Sanders

SHELLY Mary McDonnell

VINCE Christopher McCann

PADRE DEWIS Bill Wiley

PRIMEIRO ACTO

CENÁRIO: Dia. Uma velha escadaria de madeira na esquerda baixa, com uma carpete desbotada e gasta sobre os degraus. As escadas sem patamar conduzem ao exterior, nos bastidores, na esquerda alta. Na direita alta, está um velho sofá verde-escuro com o estofo a sair, aqui e ali. À direita do sofá está um candeeiro de pé alto com um quebra-luz amarelo e desbotado e uma pequena mesa-de-cabeceira com diversos frascos pequenos, de comprimidos. Na direita baixa, ao lado do sofá, com o ecrã virado para o sofá, está uma T.V. castanha, grande e antiquada. O ecrã projecta uma luz azul trémula, mas não há imagem nem som. Na escuridão, a luz do candeeiro e da T.V. vão iluminando lentamente o espaço negro. O espaço atrás do sofá, ao fundo do palco, é um amplo alpendre, com protecção de rede e chão de tábuas. Uma porta sólida e interior, à direita do sofá, conduz à sala em palco; e outra porta no alpendre, na esquerda alta, conduz do alpendre ao exterior. Para lá disto, vêem-se as formas de olmos escuros.

Gradualmente, vai-se delineando a silhueta de DODGE, sentado no sofá, em frente à T.V., com a luz azul tremulando-lhe no rosto. Veste uma t-shirt bastante coçada, suspensórios, calças de trabalho de caqui e chinelos castanhos. Cobriu-se com um velho cobertor castanho. É muito magro e tem um ar doente, aos setenta e muitos anos. Limita-se a olhar para a T.V. Mais luzes enchem suavemente o palco. Som de uma chuva fraca. DODGE inclina lentamente a cabeça para trás e olha para o tecto durante algum tempo, ouvindo a chuva. Volta a baixar a cabeça e a olhar para a T.V. Vira lentamente a cabeça para a esquerda e olha para a almofada do sofá ao lado daquele em que está sentado. Tira o braço esquerdo de baixo do cobertor, desliza a mão por baixo da almofada e tira uma garrafa de whiskey. Olha para a esquerda baixa, na direcção da escadaria, põe-se à escuta, tira a rolha da garrafa, bebe um grande trago e volta a arrolhá-la. Põe de novo a garrafa debaixo da almofada e olha para a T.V. Começa a tossir, lenta e suavemente. A tosse vai aumentando, a pouco e pouco. Leva uma mão à boca e tenta abafá-la. A tosse torna-se mais ruidosa e pára, de súbito, quando ele ouve a voz da mulher vinda do cimo da escadaria.

VOZ DE HALIE: Dodge?

(DODGE limita-se a olhar para a T.V. Pausa longa. Abafa duas vezes uma tosse curta.)

VOZ DE HALIE: Dodge! Queres um comprimido, Dodge?

(Ele não responde. Volta a tirar a garrafa e bebe novamente um longo trago. Volta a esconder a garrafa, olha para a T.V. e puxa o cobertor, colocando-o à volta do pescoço.)

VOZ DE HALIE: Sabes o que é, não sabes? É a chuva! O tempo. É isso. É sempre assim. Sempre que ficas assim, a culpa é da chuva. Mal a chuva começa, tu começas também. (pausa) Dodge?

(Ele não responde. Tira um maço de cigarros da camisola e acende um. Olha para a T.V., pausa.)

VOZ DE HALIE: Devias vê-la a cair, aqui de cima. Cai em torrentes. Torrentes azuis. A ponte está quase inundada. Como é que é, daí de baixo? Dodge?

(DODGE olha para trás, sobre o ombro esquerdo, na direcção do alpendre. Volta-se novamente para a T.V.)

DODGE: (consigo mesmo): Catastrófico.

VOZ DE HALIE: O quê? O que disseste, Dodge?

DODGE: (mais alto) Parece-me chuva! Chuva pura e simples!

VOZ DE HALIE: Chuva? Claro que é chuva! Estás a ter algum ataque ou coisa assim?! Dodge? (pausa) Vou aí abaixo, não tarda nada, se não me responderes!

DODGE: Não venhas cá abaixo.

VOZ DE HALIE: O quê?!

DODGE: (mais alto) Não venhas cá abaixo!

(Tem outro ataque de tosse. Pára.)

VOZ DE HALIE: Devias tomar um comprimido para isso! Não percebo por que não tomas um comprimido. Acaba com isso de uma vez por todas. Põe termo a isso.

(Ele volta a tirar a garrafa. Novo trago. Volta a escondê-la.)

VOZ DE HALIE: Não é de um cristão, mas funciona. Não é necessariamente de um cristão, quer dizer. Não sabemos. Há coisas a que os padres não conseguem sequer responder. Pessoalmente, eu não vejo nada de mal nisso. Dor é dor. Pura e simples. Com o sofrimento é diferente. É totalmente diferente. Um comprimido parece uma solução tão boa como outra qualquer. Dodge? (pausa) Dodge, estás a ver baseball?

DODGE: Não.

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: (mais alto) Não!

VOZ DE HALIE: O que estás a ver? Não deves ver nada que te entusiasme! Não vejas corridas de cavalos!

DODGE: Não há corridas ao domingo.

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: (mais alto) Não há corridas ao domingo!

VOZ DE HALIE: Bom, não devia haver corridas ao domingo.

DODGE: E não há!

VOZ DE HALIE: Óptimo. Até me espanta que ainda haja uma lei dessas. É espantoso.

DODGE: Sim, é espantoso.

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: (mais alto) É espantoso, é!

VOZ DE HALIE: Pois é. É mesmo. Nos dias que correm, não era de espantar que até fizessem corridas no Natal. Com uma árvore de Natal, grande e brilhante, mesmo na linha da meta.

DODGE: (abana a cabeça) Não.

VOZ DE HALIE: Costumava haver corridas no Dia de Ano Novo! Lembro-me disso.

DODGE: Nunca houve corridas no Dia de Ano Novo!

VOZ DE HALIE: Às vezes, havia.

DODGE: Nunca houve!

VOZ DE HALIE: Antes de casarmos, havia!

(DODGE acena com a mão, num gesto de repugnância, na direcção da escadaria. Recosta-se no sofá. Olha para a T.V.)

VOZ DE HALIE: Eu fui, uma vez. Com um homem.

DODGE: (imitando-a) Oh, um «homem».

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: Nada!

VOZ DE HALIE: Um homem maravilhoso. Um criador.

DODGE: Um quê?

VOZ DE HALIE: Um criador! Um criador de cavalos! De raça pura.

DODGE: Oh, de raça pura. Que maravilha.

VOZ DE HALIE: É verdade. Ele sabia tudo e mais alguma coisa.

DODGE: Aposto que te ensinou uma coisa ou outra, hã? Levou-te a fazer uma visita guiada lá pelo estábulo!

VOZ DE HALIE: Sabia tudo sobre cavalos. Ganhámos uma pipa de massa nesse dia1.

DODGE: O quê?

VOZ DE HALIE: Dinheiro! Ganhámos todas as corridas, acho eu.

DODGE: Uma pipa?

VOZ DE HALIE: Todas as corridas.

DODGE: Uma pipa de massa?

VOZ DE HALIE: Foi um daqueles dias.

DODGE: Dia de Ano Novo!

VOZ DE HALIE: Sim! Pode ter sido na Florida. Ou na Califórnia. Numa dessas duas.

DODGE: Posso escolher?

VOZ DE HALIE: Foi na Florida!

DODGE: A-ha!

VOZ DE HALIE: Foi maravilhoso! Foi mesmo maravilhoso! O sol não parava de brilhar. Havia flamingos. Buganvílias. Palmeiras.

DODGE: (consigo mesmo, imitando-a) Buganvílias. Palmeiras.

VOZ DE HALIE: Estava tudo cheio de vida! Havia todos os tipos de pessoas, vindas de toda a parte. Estava tudo vestido com requinte. Não era como hoje. Não se vestiam como hoje.

DODGE: Quando é que foi isso, afinal?

VOZ DE HALIE: Foi muito antes de te conhecer.

DODGE: Deve ter sido.

VOZ DE HALIE: Muito antes. Fui acompanhada.

DODGE: Para a Florida?

VOZ DE HALIE: Sim. Ou talvez tenha sido para a Califórnia. Não tenho a certeza.

DODGE: Foste acompanhada esse caminho todo?

VOZ DE HALIE: Sim.

DODGE: E ele nunca te tocou com um dedo, não foi? (longo silêncio) Halie?

(Não há resposta. Pausa longa.)

VOZ DE HALIE: Vais sair hoje?

DODGE: (gesticulando na direcção da chuva) Assim?

VOZ DE HALIE: Estou só a fazer uma simples pergunta.

DODGE: Raramente saio quando o sol brilha, por que havia de sair quando está assim?

VOZ DE HALIE: Só pergunto porque hoje não vou às compras. E, caso precises de alguma coisa, deves pedir ao Tilden.

DODGE: O Tilden não está cá!

VOZ DE HALIE: Está na cozinha.

(DODGE olha para o lado esquerdo do palco, e volta a fitar a T.V.)

DODGE: Está bem.

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: (mais alto) Está bem!

VOZ DE HALIE: Não grites. Só faz com que comeces a tossir.

DODGE: Está bem.

VOZ DE HALIE: Diz ao Tilden o que queres e ele vai buscar. (pausa) O Bradley deve aparecer aí mais tarde.

DODGE: O Bradley?

VOZ DE HALIE: Sim. Para te cortar o cabelo.

DODGE: O cabelo? Não preciso de cortar o cabelo!

VOZ DE HALIE: Não te vai doer nada!

DODGE: Não preciso!

VOZ DE HALIE: Já passaram mais de duas semanas, Dodge.

DODGE: Não preciso!

VOZ DE HALIE: Tenho de me encontrar com o Padre Dewis para almoçar.

DODGE: Diz ao Bradley que, se ele aparecer aqui com aquela máquina, eu mato-o!

VOZ DE HALIE: Eu não venho muito tarde. No máximo, às quatro.

DODGE: Diz-lhe! Da última vez, deixou-me quase careca! E eu nem sequer estava acordado! Estava a dormir! Quando acordei, ele já tinha ido embora!

VOZ DE HALIE: A culpa não é minha!

DODGE: Tu é que o obrigaste!

VOZ DE HALIE: Não obriguei nada!

DODGE: Obrigaste, sim senhor! Tinhas planeado qualquer encontro requintado e estúpido! Era altura de vestir o cadáver e torná-lo apresentável! Arranjá-lo um bocado! Pôr-lhe uma fachada razoável! Até me admira como é que não me colaste um cachimbo à boca com fita adesiva, nessa altura! Ficava bem! Hã? Um cachimbo? Talvez um chapéu de coco! Talvez um exemplar do Wall Street Journal pousado casualmente no meu colo!

VOZ DE HALIE: Pensas sempre o pior das pessoas!

DODGE: Isto não é o pior! Do mal, o menos, é o que é!

VOZ DE HALIE: Não tenho que ouvir isso! Passo o dia a ouvir coisas dessas e não tenho que ouvir mais.

DODGE: É melhor dizeres-lhe!

VOZ DE HALIE: Diz-lhe tu! Ele é o teu próprio filho. Deves ser capaz de falar com o teu próprio filho.

DODGE: Enquanto estou a dormir, não! Ele cortou-me o cabelo enquanto eu dormia!

VOZ DE HALIE: Bom, ele não faz isso outra vez.

DODGE: Nada o garante.

VOZ DE HALIE: Prometo-te que ele não volta a fazê-lo sem o teu consentimento.

DODGE: (após uma pausa) Não há sequer motivo para ele vir cá.

VOZ DE HALIE: Ele sente-se responsável.

DODGE: Pelo meu cabelo?

VOZ DE HALIE: Pelo teu aspecto.

DODGE: O meu aspecto não é da competência dele! Nem sequer é da minha! Na verdade, desapareceu! Sou um homem invisível!

VOZ DE HALIE: Não sejas ridículo.

DODGE: É melhor que ele não tente. Só digo isto.

VOZ DE HALIE: O Tilden trata de ti.

DODGE: O Tilden não me protege do Bradley!

VOZ DE HALIE: O Tilden é o mais velho. Ele protege-te.

DODGE: O Tilden nem sequer sabe proteger-se a ele próprio!

VOZ DE HALIE: Não fales tão alto! Ele ouve-te. Ele está na cozinha.

DODGE: (gritando para a esquerda) Tilden!

VOZ DE HALIE: Dodge, qual é a tua ideia?

DODGE: (gritando para a esquerda) Tilden, anda cá!

VOZ DE HALIE: Por que é que gostas de arranjar sarilhos?

DODGE: Eu não gosto de nada!

VOZ DE HALIE: É terrível dizer uma coisa dessas.

DODGE: Tilden!

VOZ DE HALIE: É esse tipo de afirmação que leva as pessoas até às últimas.

DODGE: Tilden!

VOZ DE HALIE: Não admira que as pessoas se virem para Cristo!

DODGE: TILDEN!!

VOZ DE HALIE: Não admira que os mensageiros da palavra de Deus gritem aos quatro ventos em locais públicos!

DODGE: TILDEN!!!!

(DODGE sofre um ataque de tosse violento e espasmódico, quando TILDEN entra pela esquerda, de braços carregados com espigas de milho acabadas de apanhar. TILDEN é o filho mais velho de DODGE, tem quarenta e muitos anos, enverga pesadas botas de trabalho, cobertas de lama, calças de trabalho verdes-escuras, uma camisa aos quadrados e um casacão castanho e coçado. Tem o cabelo cortado com um estilo másculo e molhado da chuva. Algo nele está profundamente consumido e fora do lugar. Pára no centro do palco com as espigas de milho nos braços e limita-se a olhar para DODGE até o seu ataque de tosse parar, a pouco e pouco. DODGE ergue o olhar para ele, lentamente. Olha para o milho. Pausa longa enquanto olham um para o outro.)

VOZ DE HALIE: Dodge, se não tomares esse comprimido, ninguém te pode obrigar.

(Os dois homens ignoram a voz.)

DODGE: (para Tilden) Onde arranjaste isso?

TILDEN: Apanhei-o.

DODGE: Apanhaste isso tudo?

(TILDEN assente com a cabeça.)

DODGE: Estás à espera de companhia?

TILDEN: Não.

DODGE: Onde o apanhaste?

TILDEN: Mesmo aqui atrás.

DODGE: Aqui atrás, onde?

TILDEN: Mesmo aqui atrás.

DODGE: Não há lá nada!

TILDEN: Há milho.

DODGE: Não há lá milho desde mil novecentos e trinta e cinco ou coisa que o valha! Foi a última vez que plantei lá milho!

TILDEN: Agora, há.

DODGE: (gritando para as escadas) Halie!

VOZ DE HALIE: Sim, querido!

DODGE: O Tilden trouxe um grande monte de milho! Não há milho lá atrás, pois não?

TILDEN: (consigo mesmo) Há milho aos montes.

VOZ DE HALIE: Que eu saiba, não!

DODGE: Bem me parecia.

VOZ DE HALIE: Desde mil novecentos e trinta e cinco ou coisa assim!

DODGE: (para TILDEN) É verdade. Mil novecentos e trinta e cinco.

TILDEN: Agora, há.

DODGE: Vai pôr esse milho onde o apanhaste, seja lá onde for!

TILDEN: (depois de uma pausa, olhando para DODGE) Já o apanhei. Apanhei-o todo à chuva. Depois de o apanharmos, não o podemos devolver.

DODGE: Não tive problemas com os vizinhos daqui, durante cinquenta e sete anos. Nem sequer sei quem são os vizinhos! E não quero saber! Vai lá pôr esse milho no sítio donde veio!

(TILDEN olha fixamente para DODGE, caminha lentamente até ele, larga o milho todo no colo de DODGE e recua. DODGE olha para o milho e para TILDEN. Pausa longa.)

DODGE: Meteste-te um sarilho, Tilden! Estás metido nalgum sarilho?

TILDEN: Não me meti em sarilho nenhum.

DODGE: Podes dizer-me. Ainda sou teu pai.

TILDEN: Eu sei que ainda é meu pai.

DODGE: Sei que tiveste uns sarilhos lá no Novo México. Foi por isso que vieste para cá.

TILDEN: Nunca tive sarilhos nenhuns.

DODGE: Tilden, a tua mãe contou-me tudo.

TILDEN: O que é que ela lhe contou?

(TILDEN tira algum tabaco de mascar do casaco e trinca um pedaço.)

DODGE: Não tenho de repetir o que ela me contou! Ela contou-me tudo!

TILDEN: Posso ir buscar a minha cadeira à cozinha?

DODGE: O quê?

TILDEN: Posso ir buscar a minha cadeira à cozinha?

DODGE: Claro. Vai buscar a tua cadeira.

(TILDEN sai pela esquerda. DODGE empurra todo o milho do seu colo para o chão. Puxa o cobertor iradamente e atira-o para um extremo do sofá, tira a garrafa e bebe novo trago. TILDEN volta a entrar pela esquerda, com um banco de ordenha e um balde. DODGE esconde rapidamente a garrafa debaixo da almofada antes que TILDEN a veja. TILDEN pousa o banco junto ao sofá, senta-se nele, põe o balde à sua frente no chão. TILDEN começa a apanhar as espigas de milho, uma a uma, e a descascá-las. Atira as folhas para o centro do palco e deixa cair as espigas no balde sempre que limpa uma. Repete este processo enquanto conversam.)

DODGE: (após uma pausa) O milho tem bom aspecto, lá isso tem.

TILDEN: É do melhor.

DODGE: É híbrido?

TILDEN: O quê?

DODGE: É qualquer espécie estranha de híbrido?

TILDEN: Foi o pai que o plantou. Não sei o que é.

DODGE: (pausa) Tilden, ouve, não podes ficar aqui para sempre. Sabes isso, não sabes?

TILDEN: (cospe para um escarrador) E não vou ficar.

DODGE: Eu sei que não. Isso não me preocupa. Não foi por essa razão que falei nisto.

TILDEN: Qual foi a razão?

DODGE: Não sei o que vais fazer, é essa a razão.

TILDEN: Não está preocupado comigo, pois não?

DODGE: Não estou preocupado contigo.

TILDEN: Não estava preocupado comigo quando eu não estava cá. Quando eu estava no Novo México.

DODGE: Não, nessa altura também não estava preocupado contigo.

TILDEN: Nessa altura, devia ter-se preocupado comigo.

DODGE: Porquê? Não fizeste nada de mal por lá, pois não?

TILDEN: Não fiz nada.

DODGE: Então, por que motivo me devia preocupar contigo?

TILDEN: Porque me sentia sozinho.

DODGE: Porque te sentias sozinho?

TILDEN: Sim. Sentia-me mais sozinho do que nunca.

DODGE: Porquê?

TILDEN: (pausa) Posso beber um gole desse whiskey que aí tem?

DODGE: Que whiskey? Não tenho whiskey nenhum.

TILDEN: Tem sim, debaixo do sofá.

DODGE: Não tenho nada debaixo do sofá! Mete-te na tua vida! Jesus santíssimo, chegas a casa vindo sabe-se lá donde, não ouvi nada de ti durante vinte anos e, de repente, pões-te a fazer acusações.

TILDEN: Não estou a fazer acusações.

DODGE: Estás a acusar-me de esconder whiskey debaixo do sofá!

TILDEN: Não o estou a acusar.

DODGE: Acabaste de me dizer que eu tinha whiskey debaixo do sofá!

VOZ DE HALIE: Dodge?

DODGE: (para TILDEN) Agora ela sabe!

TILDEN: Ela não sabe.

VOZ DE HALIE: Dodge, estás a falar sozinho, aí em baixo?

DODGE: Estou a falar com o Tilden!

VOZ DE HALIE: O Tilden está aí?

DODGE: Sim, está aqui!

VOZ DE HALIE: O quê?

DODGE: (mais alto) Sim, está aqui!

VOZ DE HALIE: O que é que ele está a fazer?

DODGE: (para TILDEN) Não lhe respondas.

TILDEN: (para DODGE) Não estou a fazer nada de mal.

DODGE: Bem sei que não.

VOZ DE HALIE: O que é que ele está a fazer aí em baixo?!

DODGE: (para TILDEN) Não respondas.

TILDEN: Está bem.

VOZ DE HALIE: Dodge!

(Os homens ficam em silêncio. DODGE acende um cigarro. TILDEN continua a desfolhar milho e cospe o tabaco, de vez em quando, no escarrador.)

VOZ DE HALIE: Dodge! Ele não está a beber nada, pois não? Vê se ele não bebe nada! Tens de ficar atento ao que ele faz. A responsabilidade é tua. Ele já não sabe tomar conta dele próprio, por isso, temos de ser nós a fazê-lo. Mais ninguém o faz. Não o podemos mandar para qualquer lado. Se tivéssemos muito dinheiro, podíamos mandá-lo para qualquer sítio. Mas não temos. Nunca teremos. É por isso que temos de nos manter saudáveis. Tu e eu. Ninguém vai tomar conta de nós. O Bradley não pode tomar conta de nós. O Bradley mal consegue tomar conta de si mesmo. Tive sempre a esperança de que o Tilden olhasse pelo Bradley quando envelhecessem. Depois do Bradley ter perdido a perna. O Tilden é o mais velho. Sempre achei que seria ele a assumir as responsabilidades. Não fazia ideia que o Tilden ia arranjar tantos sarilhos. Quem podia imaginar. O Tilden foi um dos melhores da América, não te esqueças. Não te esqueças disso. Um defesa. Ou um avançado. Não me lembro ao certo.

TILDEN: (consigo mesmo) Defesa. (ainda a desfolhar)

VOZ DE HALIE: E depois, quando o Tilden mostrou que dava tantos sarilhos, depositei todas as minhas esperanças no Ansel. É claro que o Ansel não era tão bonito, mas era esperto. Provavelmente, era o mais esperto. Acho que era. Mais esperto que o Bradley, isso é certo. Não deixou que uma serra lhe cortasse a perna. Foi suficientemente esperto para não deixar que isso lhe acontecesse. Acho que também era mais esperto que o Tilden. Especialmente depois do Tilden se meter naqueles sarilhos todos. Não é preciso ser-se esperto para ir parar à cadeia. Qualquer pessoa sabe isso. É claro que, quando o Ansel morreu, deixou-nos sozinhos. Foi como se ficássemos sozinhos. A mesma coisa. Foi como se tivessem morrido todos. Ele era o mais esperto. Podia ter ganho muito dinheiro. Muito, mesmo muito dinheiro.

(HALIE entra lentamente ao cimo da escadaria enquanto fala. A princípio, apenas se vêem os seus pés enquanto desce as escadas, um degrau de cada vez. Aparece completamente vestida de preto, como se estivesse de luto. Bolsa de mão preta, chapéu com véu, e tentando calçar luvas pretas pelo cotovelo. Tem cerca de sessenta e cinco anos e cabelo completamente branco. Continua concentrada naquilo que está a dizer enquanto desce as escadas e não repara muito bem nos dois homens que continuam ali sentados, tal como estavam antes dela descer, fumando e desfolhando.)

HALIE: E ele também teria tomado conta de nós. Tinha-se certificado de que nós éramos compensados. Ele era assim. Era um herói. Não se esqueçam disso. Um herói genuíno. Corajoso. Forte. E muito inteligente. O Ansel poderia ter sido um grande homem. Um dos maiores. Só tenho pena que não tenha morrido em acção. Morrer num quarto de motel não se adequa a um homem daqueles. Um soldado. Podia ter ganho uma medalha. Podia ter sido condecorado por bravura. Falei com o Padre Dewis sobre mandar fazer uma placa em honra do Ansel. Ele acha boa ideia. Está de acordo. Conheceu o Ansel quando ele jogava basquetebol. Ia a todos os jogos. O Ansel era o jogador preferido dele. Até recomendou ao Conselho Municipal que erguessem uma estátua em honra do Ansel. Uma estátua grande e alta, com uma bola de basquetebol numa das mãos e uma espingarda na outra. É esta a consideração que tem pelo Ansel.

(HALIE chega ao palco e começa a vaguear, ainda preocupada em puxar as luvas, sacudindo fibras de linho do vestido e falando continuamente consigo mesma enquanto os homens estão sentados.)

HALIE: É claro que ele ainda estaria vivo se não tivesse casado com uma católica. Que máfia. Não percebo como é que ele nunca abriu os olhos e viu isso. Não percebo mesmo. Todos, à volta dele, conseguiam ver a verdade. Até o Tilden. O Tilden fartou-se de lhe dizer. As mulheres católicas são a encarnação do demónio. Ele não ouvia. Estava cego pelo amor. Cego. Eu sabia. Todos sabiam. O casamento foi mais parecido com um funeral. Lembram-se? Aqueles italianos todos. Todo aquele cabelo horrível, preto e oleoso. O cheiro a colónia barata. Acho que até o padre usava uma pistola. Quando ele lhe deu o anel, eu soube que ele era um homem morto. Soube. Mal ele lhe deu o anel. Mas foi a lua-de-mel que o matou. A lua-de-mel. Eu sabia que ele nunca voltaria da lua-de-mel. Beijei-o e ele parecia um cadáver. Todo pálido. Frio. Lábios azuis e gelados. Ele nunca costumava beijar assim. Nunca tinha acontecido. Foi então que soube que ela o tinha amaldiçoado. Tinha-lhe roubado a alma. Vi-o nos olhos dela. Ela sorriu-me com aquele sarcasmo católico dela. Disse-me com os olhos que o tinha assassinado na cama dele. Que tinha assassinado o meu filho. Ela disse-me. E eu não podia fazer nada. Absolutamente nada. Ele ia com ela, pensando que estava livre. Pensando que era amor. O que podia fazer eu? Não lhe podia dizer que ela era uma bruxa. Não lhe podia dizer isso. Ele ter-se-ia virado contra mim. Ter-me-ia odiado. Não conseguia suportar que ele me odiasse e depois morresse sem me ver novamente. Odiando-me no seu leito de morte. Odiando-me e amando-a! Como é que eu podia fazer isso? Tinha de o deixar ir. Tinha. Vi-o a ir-se embora. Vi-o a atirar gardénias enquanto a ajudava a entrar na limusina. Vi a cara dele desaparecer atrás do vidro.

(Ela pára abruptamente e olha para as folhas de milho. Olha para o espaço em redor como se estivesse a acordar. Volta-se e olha com atenção para TILDEN e DODGE, que continuam calmamente sentados. Volta a olhar para as folhas de milho.)

HALIE: (apontando para as folhas) O que é isto, dentro da minha casa? (dá um pontapé nas folhas) O que é isto?!

(TILDEN pára de desfolhar e olha para ela.)

HALIE: (para DODGE) E tu encorajas isto!

(DODGE volta a puxar o cobertor, tapando-se.)

DODGE: Vais sair à chuva?

HALIE: Não está a chover.

(TILDEN começa novamente a desfolhar.)

DODGE: Na Florida não chove.

HALIE: Não estamos na Florida!

DODGE: Não chove na pista de corridas.

HALIE: Sempre tomaste aqueles comprimidos? Aqueles comprimidos põe-te sempre a dizer disparates. Tilden, ele tomou algum daqueles comprimidos?

TILDEN: Ele não tomou nada.

HALIE: (para DODGE) O que é que andaste a tomar?

DODGE: Não está a chover na Califórnia, nem na Florida nem na pista de corridas. Só no Illinois. É o único sítio onde está a chover. No resto do mundo está um sol ofuscante e dourado.

(HALIE aproxima-se da mesa-de-cabeceira, junto ao sofá, e examina o frasco de comprimidos.)

HALIE: Quais é que tomaste? Tilden, deves tê-lo visto a tomar qualquer coisa.

TILDEN: Ele não chegou a tomar nada.

HALIE: Então, por que é que está a dizer disparates?

TILDEN: Tenho estado sempre aqui.

HALIE: Então estiveram os dois a tomar alguma coisa!

TILDEN: Estive só a desfolhar o milho.

HALIE: Onde foste buscar esse milho, afinal? Por que é que a casa ficou de repente cheia de milho?

DODGE: Foi uma colheita abundante!

HALIE: (movendo-se para o centro) Não temos milho aqui, há mais de trinta anos.

TILDEN: O terreno das traseiras está todo cheio de milho. Até onde a vista alcança.

DODGE: (para HALIE) As coisas continuam a acontecer enquanto estás lá em cima, sabes. O mundo não pára só porque estás lá em cima. O milho continua a crescer. A chuva continua a chover.

HALIE: Eu sei que há um mundo que me rodeia! Muito obrigado. Acontece que tenho uma visão abrangente lá de cima. O terreno das traseiras vê-se perfeitamente da minha janela. E não há milho que se veja. Absolutamente nenhum!

DODGE: O Tilden não mentia. Se ele diz que há milho, é porque há.

HALIE: Porquê este milho todo, Tilden!?

TILDEN: É um mistério. Eu estava lá atrás. E estava a chover. E não me apetecia voltar cá para dentro. Não sentia muito frio. Não me importava de ficar molhado. Por isso, estava simplesmente a andar. Estava enlameado mas não me importava muito com a lama. E olhei para cima. E vi este monte de milho. Na verdade, estava a pisá-lo. Por isso, ele estava mesmo debaixo dos meus pés.

HALIE: Não há milho lá fora, Tilden! Não há milho nenhum! Ou roubaste este milho ou o compraste.

DODGE: Ele não tem dinheiro.

HALIE: (para TILDEN) Então roubaste-o!

TILDEN: Não o roubei. Não quero ser expulso do Illinois. Fui expulso do Novo México e não quero ser expulso do Illinois.

HALIE: Tilden, vais ser expulso desta casa se não me disseres onde arranjaste esse milho!

(TILDEN começa a choramingar suavemente, consigo mesmo, mas continua a desfolhar milho. Pausa.)

DODGE: (para HALIE) Por que é que lhe disseste isso? O que é que interessa onde ele arranjou o milho? Por que é que lhe foste dizer isso?

HALIE: (para DODGE) A culpa é tua, sabes muito bem! Só tu é que estás por detrás de tudo disto! Deves ter achado que ia ser divertido! Uma piada qualquer! Encher a casa com folhas de milho. É melhor limpares isto antes que o Bradley veja.

DODGE: O Bradley não põe os pés cá dentro!

HALIE: (pontapeando folhas, andando nervosamente de um lado para o outro) O Bradley vai ficar muito aborrecido quando vir isto. Ele não gosta de ver a casa desarrumada. Ele não suporta que uma coisa esteja fora do sítio. A mínima coisa. Sabes como ele fica.

DODGE: O Bradley nem sequer vive cá!

HALIE: A casa é tanto dele como nossa. Ele nasceu nesta casa!

DODGE: Ele nasceu numa pocilga.

HALIE: Não digas isso! Nunca digas isso!

DODGE: Ele nasceu numa maldita pocilga! Foi lá que nasceu e é lá que pertence! Não pertence a esta casa!

HALIE: (pára) Não sei o que te deu, Dodge. Não sei mesmo o que te deu. Tornaste-te um homem malévolo. Antes, eras um bom homem.

DODGE: Sempre fui ela por ela.

HALIE: Ficas aqui sentado, dia e noite, a apodrecer! Em decomposição! A encher a casa com o cheiro do teu cadáver pútrido! A dizer anormalidades até de manhã! A pensar em coisas más, horríveis e estúpidas para dizer sobre o sangue do teu sangue!

DODGE: Ele não é sangue do meu sangue! O sangue do meu sangue está enterrado no terreno das traseiras!

(Eles ficam petrificados. Pausa longa. Os homens olham para ela.)

HALIE: (calmamente) Basta, Dodge. Já chega. Vou sair agora. Vou almoçar com o Padre Dewis. Vou pedir-lhe a opinião sobre um monumento. Uma estátua. Uma placa, ao menos.

(Ela cruza o palco em direcção à porta na direita alta. Pára.)

HALIE: Se precisares de alguma coisa, pede ao Tilden. Ele é o mais velho. Deixei algum dinheiro na mesa da cozinha.

DODGE: Não preciso de nada.

HALIE: Não, acho que não. (Ela abre a porta e olha para o alpendre) Ainda chove. Adoro o cheiro quando pára de chover. O cheiro do solo. Não vou chegar muito tarde.

(Ela sai pela porta e fecha-a. Ainda é visível no alpendre enquanto caminha em direcção à porta de rede, à esquerda do palco. Pára no meio do alpendre, fala a DODGE mas não se vira para ele.)

HALIE: Dodge, diz ao Tilden para não ir mais ao terreno das traseiras. Não o quero lá fora à chuva.

DODGE: Diz-lhe tu. Ele está aqui sentado.

HALIE: Ele nunca me ouve, Dodge. Nunca me ouviu.

DODGE: Eu digo-lhe.

HALIE: Agora, temos de tomar conta dele como dantes. Como sempre fizemos. Ele ainda é uma criança.

DODGE: Eu tomo conta dele.

HALIE: Óptimo.

(Ela cruza o palco em direcção à porta de rede, à esquerda, tira um guarda-chuva de um cabide e sai pela porta. A porta bate atrás dela. Pausa longa. TILDEN desfolha milho e olha fixamente para o balde. DODGE acende um cigarro e olha para a T.V.)

TILDEN: (ainda a desfolhar) Não lhe devia ter dito isso.

DODGE: (olhando para a T.V.) O quê?

TILDEN: O que lhe disse. O pai sabe.

DODGE: O que sabes tu disso?

TILDEN: Sei. Sei tudo. Todos sabemos.

DODGE: Então, que diferença faz? Todos sabem, todos esqueceram.

TILDEN: Ela não esqueceu.

DODGE: Devia ter esquecido.

TILDEN: É diferente, para uma mulher. Ela não podia ter esquecido aquilo. Como é que ela podia ter esquecido aquilo?

DODGE: Não quero falar sobre isso!

TILDEN: Quer falar sobre quê?

DODGE: Não quero falar sobre nada! Não quero falar de problemas ou sobre o que aconteceu há cinquenta anos, ou há trinta anos, ou sobre a pista de corridas, ou sobre a Florida, ou sobre a última vez que plantei o milho! Não quero falar!

TILDEN: Não quer morrer, pois não?

DODGE: Não, também não quero morrer.

TILDEN: Bom, tem de falar ou então morre.

DODGE: Quem te disse isso?

TILDEN: É uma coisa que eu sei. Descobri no Novo México. Pensei que estava a morrer, mas tinha só perdido a voz.

DODGE: Estavas com alguém?

TILDEN: Estava sozinho. Pensei que estava morto.

DODGE: Bem podias estar. Para que é que voltaste cá?

TILDEN: Não sabia para onde ir.

DODGE: És um homem adulto. Não devias precisar dos pais, com a tua idade. Não é natural. Seja como for, não há nada que possamos fazer por ti, agora. Não podias viver lá? Não podias encontrar um modo de vida? Para te sustentares? P’ra qu’é que voltaste cá? Esperas que te alimentemos eternamente?

TILDEN: Não sabia para onde ir.

DODGE: Eu nunca voltei para casa dos meus pais. Nunca. Nem sequer tive vontade. Eu era independente. Sempre independente. Sempre arranjei maneiras.

TILDEN: Eu não sabia o que fazer. Não consegui pensar em nada.

DODGE: Não há nada em que pensar. Segues em frente, só isso. O que é que há para pensar?

(TILDEN levanta-se.)

TILDEN: Não sei.

DODGE: Onde vais?

TILDEN: Lá atrás.

DODGE: Não deves ir lá. Ouviste o que ela disse. Não te faças de surdo!

TILDEN: Eu gosto de lá estar.

DODGE: À chuva?

TILDEN: Especialmente à chuva. Gosto da sensação. É a sensação de sempre.

DODGE: É suposto tomares conta de mim. Ires-me buscar coisas quando eu precisar.

TILDEN: Do que é que precisa?

DODGE: Não preciso de nada! Mas posso precisar. Posso precisar de qualquer coisa, a qualquer momento. A qualquer momento. Não me podem deixar sozinho um minuto!

(DODGE começa a tossir.)

TILDEN: Estou mesmo aqui fora. Pode gritar simplesmente.

DODGE: (enquanto tosse) Não! É muito longe! Não podes ir lá! É muito longe! Podes não me ouvir sequer!

TILDEN: (aproximando-se dos comprimidos) Por que não toma um comprimido? Quer um comprimido?

(DODGE tosse com mais violência, atira-se para trás no sofá, leva a mão à garganta com firmeza. TILDEN fica junto dele, com ar desamparado.)

DODGE: Água! Vai-me buscar um pouco de água!

(TILDEN sai a correr pela esquerda. DODGE estende a mão na direcção dos comprimidos, deitando algumas garrafas ao chão, com espasmos de tosse. Agarra num frasco pequeno, tira os comprimidos e engole-os. TILDEN regressa, apressado, com um copo de água. DODGE pega nele e bebe, a sua tosse diminui.)

TILDEN: Está melhor?

(DODGE assente com a cabeça. Bebe mais água. Tilden aproxima-se dele. DODGE pousa o copo de água na mesa-de-cabeceira. A sua tosse praticamente desapareceu.)

TILDEN: Por que não se deita um bocado? Descanse um pouco.

(TILDEN ajuda DODGE a deitar-se no sofá. Tapa-o com o cobertor.)

DODGE: Não vais lá fora, pois não?

TILDEN: Não.

DODGE: Não quero acordar e descobrir que não estás cá.

TILDEN: Estarei cá.

(TILDEN aconchega o cobertor em redor de DODGE)

DODGE: Ficas aqui?

TILDEN: Fico na minha cadeira.

DODGE: Isso não é uma cadeira. É o meu velho banco de ordenha.

TILDEN: Eu sei.

DODGE: Não lhe chames «cadeira».

TILDEN: Está bem.

(TILDEN tenta tirar o boné de baseball a DODGE.)

DODGE: O que estás a fazer? Deixa-o estar! Não mo tires! É o meu boné!

(TILDEN deixa DODGE ficar com o boné)

TILDEN: Eu sei.

DODGE: O Bradley rapa-me a cabeça se eu não o tiver posto. É o meu boné.

TILDEN: Eu sei que é.

DODGE: Não me tires o boné.

TILDEN: Está bem.

DODGE: Fica aqui, ouviste?

TILDEN: (senta-se no banco) Está bem.

DODGE: Não vás lá fora. Não há lá nada.

TILDEN: Está bem.

DODGE: Está tudo cá dentro. Tudo o que precisas. O dinheiro está em cima da mesa. A T.V. A T.V. está ligada?

TILDEN: Sim.

DODGE: Desliga-a! Desliga essa maldita coisa! Por que é que está ligada?

TILDEN: (desliga a T.V., a luz apaga-se) Deixou-a ligada.

DODGE: Então desliga-a.

TILDEN: (volta a sentar-se no banco) Está desligada.

DODGE: Deixa-a estar desligada.

TILDEN: Está bem.

DODGE: Quando eu adormecer, podes ligá-la.

TILDEN: Okay.

DODGE: Podes assistir ao jogo. Aos Red Sox. Gostas dos Red Sox, não gostas?

TILDEN: Sim.

DODGE: Podes ver os Red Sox. Pee Wee Reese. Pee Wee Reese. Lembras-te do Pee Wee Reese?

TILDEN: Não.

DODGE: Ele jogava nos Red Sox?

TILDEN: Não sei.

DODGE: Pee Wee Reese. (adormecendo) Podes ver os Cardinals. Lembras-te do Stan Musial?

TILDEN: Não.

DODGE: Stan Musial. (a adormecer) As bases estavam cheias. No fim do sexto2. As bases estavam cheias. Um corredor3 na primeira e na terceira. Uma bola em cheio. Até flutuava. Grande como um aeroplano. Zás! A bola levantou voo como um foguete. Pulverizou-se. Eu fiquei de olhos postos nela. Não tirei os olhos dela. Passou mesmo entre o relógio e o anúncio do Burma Shave. Eu fui o primeiro rapaz a chegar lá. O primeiro rapaz. Tive de lutar a sério por aquela bola. Não desisti. Quase me arrancaram as orelhas. Mas eu não desisti.

(DODGE cai num sono profundo. TILDEN fica sentado a olhar para ele, durante algum tempo. Inclina-se lentamente na direcção do sofá, para se certificar de que DODGE está a dormir um sono profundo. Desliza a mão lentamente por baixo da almofada e tira a garrafa de álcool. DODGE dorme profundamente. TILDEN levanta-se em silêncio, olhando para DODGE enquanto desarrolha a garrafa e bebe um longo trago. Fecha a garrafa e enfia-a no bolso de trás. Olha em redor, para as folhas no soalho e novamente para DODGE. Desloca-se até ao centro do palco, reúne uma braçada de folhas de milho, e regressa até junto do sofá. Fica de pé, segurando as folhas por cima de DODGE e, olhando para ele, espalha suavemente as folhas de milho sobre todo corpo de DODGE. Recua e olha para DODGE. Tira a garrafa, bebe outro trago, devolve a garrafa ao bolso de trás. Reúne mais folhas e repete o processo até o chão ficar sem folhas de milho e DODGE ficar completamente coberto com elas, excepto na cabeça. TILDEN bebe um novo e grande trago, olha para DODGE enquanto este dorme e sai tranquilamente pela esquerda. Pausa longa enquanto o som da chuva continua. DODGE continua a dormir. A silhueta de BRADLEY aparece na esquerda alta, do outro lado da porta de rede do alpendre. Segura um jornal molhado por cima da cabeça para se proteger da chuva. Parece lutar com a porta e escorrega, quase caindo. DODGE continua a dormir, sem dar por nada.)

BRADLEY: Filhadaputa! Grandefilhadaputa!

(BRADLEY recupera o equilíbrio e transpõe a porta de rede, entrando no alpendre. Atira o jornal ao chão, sacode a água do cabelo e dos ombros. É um homem corpulento, envergando uma sweat-shirt cinzenta, suspensórios pretos, calças largas, azuis-escuras, e sapatos de porteiro negros. A perna esquerda é de madeira, tendo sido amputada acima do joelho. Move-se com um coxear exagerado, quase mecânico. Os sons agudos de couro e metal acompanham o seu andar, provenientes das presilhas e das dobradiças da perna falsa. Os braços e as pernas são extremamente possantes e musculadas, devido a uma vida inteira de dependência da parte superior do torso, que executa todo o trabalho das pernas. Tem cerca de cinco anos menos do que TILDEN. Move-se penosamente em direcção à porta da direita do palco e entra, fechando a porta atrás de si. A princípio, não repara em DODGE. Move-se na direcção da escadaria.)

BRADLEY: (chamando para o andar de cima) Mãe!

(Pára e escuta. Volta-se para o fundo do palco e vê DODGE a dormir. Repara nas folhas de milho. Avança lentamente na direcção do sofá. Pára junto ao balde e olha lá para dentro. Olha para as folhas. DODGE continua a dormir. Fala consigo mesmo.)

BRADLEY: Que diabo é isto?

(Olha para o rosto adormecido de DODGE e abana a cabeça, repugnado. Tira do bolso uma máquina eléctrica e preta, de cortar o cabelo. Desenrola o fio e dirige-se ao candeeiro. Dá um golpe seco na perna de madeira, atrás do joelho, fazendo-a dobrar na articulação, e ajoelha-se desajeitadamente para ligar a ficha numa tomada no soalho. Põe-se outra vez de pé, usando o sofá como alavanca. Dirige-se à cabeça de DODGE e volta a dar um golpe seco na perna falsa. Abaixa-se, apoiado num dos joelhos. Afasta violentamente algumas folhas de milho e tira com brusquidão o boné de baseball de DODGE, atirando-o para o centro do palco. DODGE continua a dormir. BRADLEY liga a máquina. As luzes começam a baixar. BRADLEY corta o cabelo de DODGE enquanto este dorme. As luzes baixam devagar até se apagarem com o som da máquina e da chuva.)

SEGUNDO ACTO

CENÁRIO: O mesmo do primeiro acto. Noite. Sons de chuva. DODGE ainda dorme no sofá. Tem o cabelo cortado muito curto e, nalguns locais, o couro cabeludo está cortado e a sangrar. O seu boné ainda está no centro do palco. Todo o milho, as folhas, o balde e o banco de ordenha foram retirados. As luzes sobem ao som de uma jovem rindo nos bastidores, à esquerda. DODGE continua a dormir. SHELLY e VINCE surgem na esquerda alta, do lado de fora da rede do alpendre, abrigando-se com o sobretudo de VINCE sobre as cabeças. SHELLY tem cerca de dezanove anos, cabelo preto, é muito bonita. Usa jeans justas, saltos altos, t-shirt púrpura e um casaco curto de pêlo de coelho. A sua maquilhagem é exagerada e tem o cabelo frisado. VINCE é o filho de TILDEN, tem cerca de vinte e dois anos, usa uma camisa aos quadrados, jeans, óculos escuros, botas de cowboy e transporta uma mala de saxofone preta. Eles sacodem a chuva dos corpos enquanto entram no alpendre pela porta de rede.

SHELLY: (rindo-se, gesticulando para a casa) É isto? Não acredito que seja isto!

VINCE: É isto.

SHELLY: É esta casa?

VINCE: É esta casa.

SHELLY: Não acredito!

VINCE: Porquê?

SHELLY: É como uma capa do Normal Rockwell4 ou coisa parecida.

VINCE: E qual é o problema disso? É americano.

SHELLY: Onde é que está o leiteiro e o cãozinho? Como se chama o cãozinho? Spot. Spot e Jane. O Dick, a Jane e o Spot.

VINCE: Pára com isso.

SHELLY: O Dick, a Jane, o Spot, a Mamã e o Papá e o Júnior e a Sissy!

(Ela ri-se. Dá uma palmada no joelho.)

VINCE: Vá lá! São as minhas raízes. O qu’é que esperavas?

(Ela ri-se mais histericamente, descontrolada.)

SHELLY: «E, um dia, o Tuffy e o Toto e a Dooda e o Bonzo foram todos à mercearia da esquina comprar um grande saco de alcaçuz para o gatinho de Mr. Marshall!»

(Ela ri-se tanto que cai de joelhos, agarrada à barriga. VINCE fica a olhar para ela.)

VINCE: Shelly, levanta-te!

(Ela continua a rir. Levanta-se, cambaleando. Caminha em círculos, agarrada à barriga.)

SHELLY: (continuando a sua história com uma voz infantil) «Mr. Marshall estava de férias. Não fazia ideia que os quatro rapazinhos se tinham afeiçoado tanto ao seu bichano.»

VINCE: Vê lá se mostras algum respeito, ouviste?!

SHELLY: (tentando controlar-se) Desculpa.

VINCE: Vê se te dominas.

SHELLY: (faz-lhe continência) Sim, senhor.

(Ela ri-se entredentes.)

VINCE: Por amor de Deus, Shelly.

SHELLY: (pausa, sorrindo) E Mr. Marshall…

VINCE: Pára com isso.

(Ela pára. Fica a olhar para ele. Reprime um riso.)

VINCE: (após uma pausa) Já acabaste?

SHELLY: Oh, caramba!

VINCE: Não quero entrar contigo, se fizeres essa figura de parva.

SHELLY: Obrigada…

VINCE: Não quero.

SHELLY: Eu não te envergonho. Não te preocupes.

VINCE: Não estou preocupado.

SHELLY: Estás, sim.

VINCE: Shelly, ouve, não quero entrar ali contigo, se estiveres a rir como uma desalmada. Eles podem pensar que tens algum problema.

SHELLY: E tenho.

VINCE: Não tens nada!

SHELLY: Tenho qualquer problema, isso é certo.

VINCE: Não tens nada!

SHELLY: E tu também tens qualquer problema.

VINCE: Não tenho problema nenhum!

SHELLY: Queres saber qual é o teu problema?

VINCE: Qual é?

(SHELLY ri-se.)

VINCE: (cruza o palco em direcção ao fundo, à esquerda, aproximando-se da porta de rede) Vou-me embora!

SHELLY: (pára de rir) Espera! Pára! Pára! (VINCE pára) O teu problema é levares a situação demasiado a sério.

VINCE: Só não quero que eles pensem que cheguei de repente saído do nada, completamente doido.

SHELLY: Então, o que queres que eles pensem?

VINCE: (pausa) Nada. Vamos entrar.

(Ele cruza o alpendre em direcção à porta interior do lado direito do palco. SHELLY segue-o. A porta à direita do palco abre-se lentamente. VINCE mete a cabeça do lado de dentro, não repara em DODGE a dormir. Chama na direcção da escadaria.)

VINCE: Avozinha!

(SHELLY desata a rir, oculta atrás de VINCE. VINCE volta a pôr a cabeça do lado de fora e fecha a porta. Ouvimos novamente as suas vozes sem os vermos.)

VOZ DE SHELLY: (parando de rir) Desculpa. Desculpa, Vince. A sério. A sério. A sério. Não volto a fazê-lo. Não consegui evitar.

VOZ DE VINCE: Não tem assim tanta piada.

VOZ DE SHELLY: Eu sei que não. Desculpa.

VOZ DE VINCE: Não sei se sabes, mas esta situação é tensa para mim! Não os vejo há mais de seis anos. Não sei o que esperar.

VOZ DE SHELLY: Eu sei. Eu não volto a fazê-lo.

VOZ DE VINCE: Não podes morder a língua ou coisa assim?

VOZ DE SHELLY: Mas não digas «avozinha», está bem? (ela ri-se entredentes, pára) Quer dizer, se disseres «avozinha» não sei se me consigo conter.

Voz de vINCE: Bom, tenta!

VOZ DE SHELLY: Okay. Desculpa.

(A porta volta a abrir-se. VINCE mete a cabeça do lado de dentro e entra. SHELLY segue-o. VINCE cruza o palco em direcção à escadaria, pousa a mala do saxofone e o sobretudo, olha para o cimo da escadaria. SHELLY repara no boné de baseball de DODGE. Apanha-o coloca-o na cabeça. Vince sobe as escadas e desaparece no cimo. SHELLY observa-o e volta-se, vendo DODGE no sofá. Tira o boné de baseball.)

VOZ DE VINCE: (do cimo das escadas) Avozinha!

(SHELLY cruza o palco, dirigindo-se lentamente a DODGE e pára junto à cabeça dele. Estende a mão devagar e toca num dos cortes. No instante em que toca na cabeça dele, DODGE dá um pulo, sentando-se no sofá, de olhos abertos. SHELLY sobressalta-se. DODGE olha para ela, vê o boné nas suas mãos, e leva rapidamente a mão à cabeça descoberta. Fita SHELLY com ar ameaçador e tira violentamente o boné das mãos dela, colocando-o na cabeça. SHELLY afasta-se dele. DODGE olha-a fixamente.)

SHELLY: Eu estou, mmm… com o Vince.

(DODGE limita-se a fitá-la com ar ameaçador.)

SHELLY: Ele está lá em cima.

(DODGE olha para a escadaria e novamente para SHELLY.)

SHELLY: (chamando para o cimo das escadas) Vince!

VOZ DE VINCE: Só um segundo!

SHELLY: É melhor vires cá baixo!

VOZ DE VINCE: Só um minuto! Estou a olhar para os retratos.

(DODGE continua a olhar para ela.)

SHELLY: (para DODGE) Acabámos de chegar. Chovia a cântaros na auto-estrada, por isso, decidimos aparecer. Quer dizer, o Vince estava a pensar aparecer, de qualquer modo. Queria vê-lo. Disse que não vos via há muito tempo.

(Pausa. DODGE continua simplesmente a fitá-la.)

SHELLY: Íamos para o Novo México. Visitar o pai dele. Acho que o pai dele vive lá. Pensamos em aparecer e visitá-los, a caminho. Matar dois coelhos, sabe? (ela ri-se, DODGE olha fixamente, ela para de rir.) Quer dizer, o Vince sente isto pela família, agora. Acho que é novo para ele. Eu acho um bocado difícil de entender. Mas ele acha importante. Sabe. Quero dizer, ele sente que tem vontade de reatar o contacto convosco. Depois deste tempo todo.

(Pausa. DODGE limita-se a olhar para ela. Ela move-se com nervosismo na direcção da escadaria e grita a VINCE.)

SHELLY: Vince, vem cá baixo, por favor!

(VINCE desce metade da escadaria.)

VINCE: Acho que saíram durante algum tempo.

(SHELLY aponta para DODGE no sofá. VINCE volta-se e vê DODGE. Desce a escadaria e cruza o palco na direcção de DODGE. SHELLY deixa-se ficar atrás, junto às escadas, mantendo a distância.)

VINCE: Avozinho?

(DODGE ergue o olhar para ele, sem o reconhecer.)

DODGE: Trouxeste o whiskey?

(VINCE olha por cima do ombro, para SHELLY, e novamente para DODGE.)

VINCE: Avozinho, é o Vince. O Vince. O filho do Tilden. Lembra-se?

(DODGE olha-o fixamente.)

DODGE: Não fizeste o que me disseste. Não ficaste aqui comigo.

VINCE: Avozinho, só agora cheguei aqui. Acabei de chegar.

DODGE: Saíste. Foste lá fora, tínhamos-te dito para não ires. Foste às traseiras. À chuva.

(VINCE olha para SHELLY. Ela aproxima-se lentamente do sofá.)

SHELLY: Ele está bem?

VINCE: Não sei. (tira os óculos escuros) Olhe, avozinho, não se lembra de mim? Vince. O seu neto.

(DODGE olha-o fixamente e tira o boné de baseball.)

DODGE: (apontando para a cabeça) Vês o que acontece quando me deixas sozinho? Vês isto? É isto que acontece.

(VINCE olha para a cabeça dele. VINCE estende a mão para lhe tocar na cabeça. DODGE afasta-lhe a mão com o boné e volta a pô-lo na cabeça.)

VINCE: O que se passa, avozinho? A Halie?

DODGE: Não te preocupes com ela. Ela só volta daqui a alguns dias. Ela diz que volta, mas não é verdade. (começa a rir) Ainda há vida naquela velha rapariga! (pára de rir)

VINCE: Como é que fez isso à cabeça?

DODGE: Eu não fiz nada! Não sejas ridículo!

VINCE: Então quem fez?

(Pausa. DODGE olha fixamente para VINCE.)

DODGE: Quem achas que fez? Quem?

(SHELLY aproxima-se de VINCE.)

SHELLY: Vince, talvez fosse melhor irmos. Não gosto disto. Quer dizer, não acho isto divertido.

VINCE: (para SHELLY) Só um segundo. (para DODGE) Avozinho, olhe, acabei de chegar. Acabei mesmo de chegar. Há seis anos que não venho cá. Não sei de nada.

(Pausa, DODGE olha fixamente para ele.)

DODGE: Não sabes de nada?

VINCE: Não.

DODGE: Bom, está bem. Está bem. É muito melhor não saber nada. Muito, muito melhor.

VINCE: Não está aqui ninguém consigo?

(DODGE vira-se lentamente e olha para o lado esquerdo do palco.)

DODGE: Está cá o Tilden.

VINCE: Não, avozinho, o Tilden está no Novo México. Era para lá que eu ia. Vou lá visitá-lo.

(DODGE vira-se outra vez para VINCE, lentamente.)

DODGE: O Tilden está cá.

(VINCE recua e junta-se a SHELLY. DODGE olha para ambos.)

SHELLY: Vince, por que não passamos a noite num motel e voltamos de manhã? Podíamos tomar o pequeno-almoço. Talvez tudo fosse diferente.

VINCE: Não te assustes. Não há nada de assustador. Ele é velho, só isso.

SHELLY: Não estou assustada!

DODGE: Vocês não fazem um casal lá muito perfeito!

SHELLY: (depois de uma pausa) Oh, a sério? Porquê?

VINCE: Shh! Não o aborreças.

DODGE: Há qualquer coisa de errado com vocês os dois. Qualquer coisa de incompatível.

VINCE: Avozinho, onde foi a Halie? Talvez devêssemos telefonar-lhe.

DODGE: O que estás para aí a dizer? Sabes o que estás a dizer? Estás só a falar por falar? A lubrificar as gengivas?

VINCE: Estou a tentar perceber o que se passa aqui!

DODGE: Ai sim?

VINCE: Sim. Quer dizer, esperava que tudo fosse diferente.

DODGE: Quem és tu para esperar o que quer que seja? É suposto seres quem?

VINCE: Sou o Vince! O seu neto!

DODGE: Vince. O meu neto.

VINCE: O filho do Tilden.

DODGE: O filho do Tilden, Vince.

VINCE: Já não me vê há muito tempo.

DODGE: Quando foi a última vez?

VINCE: Não me lembro.

DODGE: Não te lembras?

VINCE: Não.

DODGE: Não te lembras. Como queres que eu me lembre, se tu não te lembras?

SHELLY: Vince, anda lá. Isto não vai resultar.

VINCE: (para SHELLY) Tem calma.

SHELLY: Eu estou a ter calma! Ele nem sequer sabe quem tu és!

VINCE: (avançando na direcção de DODGE) Avozinho, ouça…

DODGE: Fica onde estás! Mantém a distância!

(VINCE pára. Olha para SHELLY e depois para DODGE.)

SHELLY: Vince, isto está mesmo a enervar-me. Ouve, ele nem sequer nos quer aqui. Nem sequer gosta de nós.

DODGE: Ela é uma rapariga bonita.

VINCE: Obrigado.

DODGE: Uma Rapariga Muito Bonita.

SHELLY: Oh, meu Deus.

DODGE: (para SHELLY) Como te chamas?

SHELLY: Shelly.

DODGE: Shelly. Isso é nome de homem, não é?

SHELLY: Neste caso, não.

DODGE: (para VINCE) E é espertinha, também.

SHELLY: Vince! Podemos ir embora?

DODGE: Ela quer ir embora. Acabou de chegar e quer ir embora.

VINCE: Isto é um bocado estranho para ela.

DODGE: Ela habitua-se. (para SHELLY) Donde és?

SHELLY: Onde nasci?

DODGE: Isso mesmo. Onde nasceste. Onde começaste.

SHELLY: L.A.

DODGE: L.A. Que terra estúpida.

SHELLY: Não suporto isto, Vince! Isto é mesmo inacreditável!

DODGE: É estúpida! L.A. é estúpida! E a Florida também! Todos esses Estados soalheiros. São todos estúpidos. Sabes por que são estúpidos?

SHELLY: Esclareça-me.

DODGE: Eu digo-te porquê. Porque estão cheios de espertinhos! É por isso.

(SHELLY vira as costas a DODGE, dirige-se à escadaria e senta-se no primeiro degrau.)

DODGE: (para VINCE) Agora sente-se insultada.

VINCE: Bom, não foi muito educado.

DODGE: Ela sente-se insultada! Olha para ela! Sente-se insultada em minha casa! Está ali amuada porque a insultei!

SHELLY: (para VINCE) Isto é mesmo fantástico. É maravilhoso. E estavas tu preocupado com a primeira impressão que eu pudesse causar!

DODGE: (para VINCE) Ela é assanhada, não é? É mesmo assanhada. Conheci algumas, nos meus tempos. Coisas temporárias. Nunca duraram mais de uma semana.

VINCE: Avozinho…

DODGE: Pára de me chamar avozinho, ouviste!? É repugnante. «Avozinho». Não sou o avozinho de ninguém!

(DODGE começa a tactear em redor da almofada, procurando a garrafa de whiskey. SHELLY levanta-se do degrau.)

SHELLY: (para VINCE) Talvez te tenhas enganado na casa. Já pensaste nisso? Talvez este seja o endereço errado!

VINCE: Não é o endereço errado! Reconheço o pátio.

SHELLY: Sim, mas reconheces as pessoas? Ele diz que não é teu avô.

DODGE: (procurando a garrafa) Onde está essa garrafa!?

VINCE: Ele está só doente, ou coisa assim. Não sei o que lhe aconteceu.

Dodge: A minha maldita garrafa!

(DODGE levanta-se do sofá e começa a puxar as almofadas e a atirá-las para a frente do palco, procurando o whiskey.)

SHELLY: Não podemos ir simplesmente para o Novo México? Isto é terrível, Vince! Não quero ficar aqui. Nesta casa. Pensei que ia ser jantares de peru e torta de maçã e essas coisas todas.

VINCE: Bom, lamento desiludir-te!

SHELLY: Não estou desiludida! Estou assustada, foda-se! Quero ir embora!

(DODGE grita para a esquerda do palco.)

DODGE: Tilden! Tilden!

(DODGE continua a rasgar o sofá à procura da sua garrafa, derruba a mesa-de-cabeceira com as garrafas. VINCE e SHELLY observam-no a rasgar o estofo do sofá.)

VINCE: (para SHELLY) Ele perdeu o juízo ou coisa assim. Tenho de tentar ajudá-lo.

SHELLY: Ajuda-o tu! Eu vou-me embora!

(SHELLY começa a ir embora. VINCE agarra-a. Eles lutam enquanto DODGE continua a rasgar o sofá e a gritar.)

DODGE: Tilden! Tilden, anda cá depressa! Tilden!

SHELLY: Larga-me!

VINCE: Não vais a lado nenhum! Tens de ficar aqui!

SHELLY: Larga-me, seu filhodaputa! Não sou tua propriedade!

(De repente, TILDEN entra pela esquerda, tal como anteriormente. Desta vez, tem os braços cheios de cenouras. DODGE, VINCE e SHELLY param de súbito, quando o vêem. Olham todos para TILDEN, enquanto ele avança lentamente para o centro do palco com as cenouras e pára. DODGE senta-se no sofá, exausto.)

DODGE: (ofegando, para TILDEN) Onde diabo estiveste?

TILDEN: Lá atrás.

DODGE: A minha garrafa?

TILDEN: Foi-se.

(TILDEN e VINCE olham um para o outro. SHELLY recua.)

DODGE: (para TILDEN) Roubaste-me a garrafa!

VINCE: (para TILDEN) Pai?

(TILDEN limita-se olhar para VINCE.)

DODGE: Não tinhas o direito de me roubar a garrafa! Não tinhas direito nenhum!

VINCE: (para TILDEN) Sou o Vince. O Vince.

(TILDEN olha fixamente para VINCE, para DODGE, e depois volta-se para SHELLY.)

TILDEN: (depois de uma pausa) Apanhei estas cenouras. Se alguém quiser cenouras, eu apanhei-as.

SHELLY: (para VINCE) Este é o teu pai?

VINCE: (para TILDEN) Pai, o que está aqui a fazer?

(TILDEN limita-se a olhar para VINCE, segurando as cenouras, DODGE volta a puxar o cobertor sobre si mesmo.)

DODGE: (para TILDEN) Vais ter de me arranjar outra garrafa! Tens de me arranjar outra garrafa antes que a Halie volte! Há dinheiro em cima da mesa. (aponta para a cozinha, à esquerda do palco)

TILDEN: (abanando a cabeça) Não vou lá. Não vou à cidade.

(SHELLY aproxima-se de TILDEN. TILDEN olha para ela.)

SHELLY: (para TILDEN) É o pai do Vince?

TILDEN; (para SHELLY): Vince?

SHELLY: (apontando para VINCE) Este é o seu filho, supostamente! É o seu filho? Reconhece-o? Eu só vim a acompanhá-lo. Pensei que todos se conhecessem!

(TILDEN olha para VINCE, DODGE aconchega-se no cobertor e senta-se no sofá, olhando para o chão.)

TILDEN: Eu tive um filho mas nós enterrámo-lo.

(DODGE olha rapidamente para TILDEN. SHELLY olha para VINCE.)

DODGE: Cala-te com isso! Não sabes nada sobre isso!

VINCE: Pai, pensei que estava no Novo México. Íamos até lá visitá-lo.

TILDEN: É um longo caminho de carro.

DODGE: (para TILDEN) Não sabes nada sobre isso! Isso aconteceu antes de teres nascido! Muito antes!

VINCE: O que aconteceu, pai? O que se passa aqui? Pensei que estivesse tudo bem. O que aconteceu à Halie?

TILDEN: Foi-se embora.

SHELLY: (para TILDEN) Quer que segure nessas cenouras?

(TILDEN olha fixamente para ela. Ela aproxima-se dele. Estende os braços. TILDEN olha para os braços dela e deixa cair lentamente as cenouras nos seus braços. SHELLY fica imóvel segurando as cenouras.)

TILDEN: (para SHELLY) Gostas de cenouras?

SHELLY: Claro. Gosto de todo o tipo de vegetais.

DODGE: (para TILDEN) Tens de me arranjar uma garrafa antes que a Halie volte!

(DODGE bate no sofá com o punho. VINCE aproxima-se de DODGE e tenta consolá-lo. SHELLY e TILDEN ficam virados um para o outro.)

TILDEN: (para SHELLY) O terreno das traseiras está cheio de cenouras. Milho. Batatas.

SHELLY: É o pai do Vince, não é?

TILDEN: Todos os tipos de vegetais. Gostas de vegetais?

SHELLY: (ri-se) Sim. Adoro vegetais.

TILDEN: Podíamos cozinhar estas cenouras, sabes? Podíamos cortá-las e cozinhá-las.

SHELLY: Está bem.

TILDEN: Vou-te buscar um balde e uma faca.

SHELLY: Está bem.

TILDEN: Volto já. Não te vás embora.

(TILDEN sai pela esquerda. SHELLY fica ao centro, com os braços cheios de cenouras. VINCE está junto de DODGE. SHELLY olha para VINCE e baixa o olhar para as cenouras.)

DODGE: (para VINCE) Podias arranjar-me uma garrafa. (apontando para a esquerda) Há dinheiro na mesa.

VINCE: Avozinho, por que não se deita um bocado?

DODGE: Não me quero deitar um bocado! Cada vez que me deito, acontece qualquer coisa! (tira bruscamente o boné, aponta para a cabeça) Vê o que acontece! É isto que acontece! (volta a pôr o boné) Vai-te deitar e vê o que te acontece! Vê se gostas! Roubam-te a garrafa! Cortam-te o cabelo! Matam-te os filhos! É isso que acontece.

VINCE: Descontraia-se um bocado.

DODGE: (pausa) Podias ir buscar-me uma garrafa, sabes. Não há nada que te impeça.

SHELLY: Por que não lhe vais buscar uma garrafa, Vince? Talvez assim todos se reconhecessem.

Dodge: (apontando para SHELLY) Vês? Ela acha que me devias ir buscar uma garrafa.

(VINCE aproxima-se de SHELLY.)

VINCE: O que estás a fazer com essas cenouras?

SHELLY: Estou à espera do teu pai.

DODGE: Ela acha que me devias ir buscar uma garrafa!

VINCE: Shelly pousa essas cenouras, ouviste! Temos de lidar com a situação! Vou precisar da tua ajuda.

SHELLY: Estou a ajudar.

VINCE: Estás só a arranjar mais problemas! Estás a piorar as coisas! Pousa as cenouras!

(VINCE tenta atirar as cenouras ao chão. Ela afasta-se dele, protegendo as cenouras.)

SHELLY: Afasta-te de mim! Pára com isso!

(VINCE afasta-se dela. Ela volta-se para ele, ainda a segurar as cenouras.)

VINCE: (para SHELLY) Por que fazes isto?! Estás a tentar gozar comigo? Esta é a minha família, sabes?!

SHELLY: Quem diria! Mais valia não estar aqui. Mais valia estar a mil quilómetros daqui. Preferia estar em qualquer sítio, menos aqui. Tu é que queres ficar. Por isso, eu fico. Vou ficar e cortar as cenouras. E vou cozinhar as cenouras. E faço tudo o que tiver de fazer para sobreviver. Para sobreviver a isto.

VINCE: Pousa as cenouras, Shelly.

(TILDEN entra pela esquerda, trazendo o balde, o banco de ordenha e uma faca. Pousa o banco e o balde no centro do palco, para SHELLY. SHELLY olha para VINCE e senta-se no banco, pousa as cenouras no chão e recebe a faca de TILDEN. Olha para VINCE novamente e apanha uma cenoura, corta-lhe os extremos, raspa-a e deixa-a cair no balde. Repete isto, VINCE olha-a, ameaçador. Ela sorri.)

DODGE: Ela podia ir buscar-me uma garrafa. Ela é o tipo de rapariga que me podia ir buscar uma garrafa. Nas calmas. Ela ia lá. Ia furtivamente ao balcão. Provavelmente eles davam-lhe duas garrafas pelo preço de uma. Ela podia fazer isso.

(SHELLY ri-se. Continua a cortar cenouras. VINCE cruza o palco em direcção a DODGE, olha para ele. TILDEN observa as mãos de SHELLY. Pausa longa.)

VINCE: (para DODGE) Eu não mudei assim tanto. Fisicamente, quero dizer. Fisicamente estou quase na mesma. Do mesmo tamanho. Do mesmo peso. Tudo na mesma.

(DODGE continua a olhar fixamente para SHELLY enquanto VINCE fala com ele.)

DODGE: Ela é uma bonita rapariga. Excepcional.

(VINCE move-se, ficando à frente de DODGE para bloquear a visão de SHELLY. DODGE não pára de inclinar o pescoço para a ver, enquanto VINCE mostra truques do passado.)

VINCE: Olhe. Olhe para isto. Lembra-se disto? Eu costumava dobrar o polegar atrás dos nós dos dedos. Lembra-se? Costumava fazer isto à mesa.

(VINCE dobra um polegar atrás dos nós dos dedos para DODGE ver, e mostra-lhe. DODGE dá um rápida olhadela e volta a observar SHELLY. VINCE muda de posição e mostra-lhe outra coisa.)

VINCE: E isto?

(VINCE encolhe os lábios e começa a tamborilar nos dentes com as unhas, fazendo pequenos sons. DODGE observa durante algum tempo. TILDEN vira-se para o sítio donde vem o som. VINCE continua. Vê que TILDEN está a reparar e aproxima-se de TILDEN, enquanto bate nos dentes. DODGE liga a T.V. Fica a ver.)

VINCE: Lembra-se disto, pai?

(VINCE continua a tamborilar para TILDEN. TILDEN observa durante algum tempo, fascinado, depois vira-se para SHELLY. VINCE continua a tamborilar nos dentes, afasta-se na direcção de DODGE, continuando a fazê-lo. SHELLY continua o seu trabalho com as cenouras, falando com TILDEN.)

SHELLY: (para TILDEN) Às vezes, ele põe-me louca com aquilo.

VINCE: (para DODGE) Já sei! Deste devem lembrar-se. Costumavam pôr-me fora de casa por causa disto.

(VINCE puxa a camisa do cinto e prende-a debaixo do queixo, expondo a barriga. Agarra a carne de ambos os lados do umbigo, puxa-a para fora e para dentro, imitando uma boca a falar. Observa o seu umbigo e faz uma voz cavernosa de cartoon, sincronizando-a com o movimento. Demonstra-o a DODGE e depois aproxima-se de TILDEN, ainda a fazê-lo. Tanto DODGE como TILDEN dão olhadelas breves e desinteressadas e ignoram-no.)

VINCE: (com uma voz cavernosa de cartoon) «Olá, como estás? Estou óptimo. Muito obrigado. É tão bom ver-te com tão bom aspecto nesta bela manhã de domingo. Eu ia à loja de ferragens buscar um balde de água.»

SHELLY: Vince, não sejas patético, está bem?!

(VINCE pára. Volta a meter a camisa para dentro.)

SHELLY: Jesus Cristo. Eles não vão responder a isso. Não vês?

(SHELLY continua a cortar cenouras. VINCE move-se lentamente na direcção de tilden. TILDEN continua a observar SHELLY. DODGE olha para a T.V.)

VINCE: (para SHELLY) Não percebo. A sério que não percebo. Talvez seja de mim. Talvez me tenha esquecido de alguma coisa.

DODGE: (do sofá) Esqueceste-te de me ir buscar uma garrafa! Foi isso que esqueceste. Qualquer pessoa nesta casa me podia ir buscar uma garrafa. Qualquer pessoa! Mas ninguém vai. Ninguém compreende a urgência! Descascar cenouras é mais importante. Tocar piano com os dentes! Bom, espero que todos se lembrem disto quando envelhecerem. Quando se virem imobilizados. Dependentes dos caprichos alheios.

(VINCE aproxima-se de DODGE. Pausa enquanto olha para ele.)

VINCE: Eu vou-lhe buscar uma garrafa.

DODGE: Vais?

VINCE: Claro.

(SHELLY levanta-se, segurando a faca e uma cenoura.)

SHELLY: Não me vais deixar aqui, pois não?

VINCE: (avançando para ela) Tu é que o sugeriste! Disseste, «por que é que não lhe vais buscar uma garrafa?» Então, vou-lhe buscar uma garrafa!

SHELLY: Mas eu não posso ficar aqui.

VINCE: O que foi!? Há um minuto, estavas pronta para cortar cenouras a noite inteira!

SHELLY: Isso era só se ficasses. Era uma coisa para me manter ocupada, para não me enervar. Não quero ficar aqui sozinha.

DODGE: Não deixes que ela te convença a ficar! Ela é uma má influência. Vi logo, mal ela pôs os pés aqui.

SHELLY: (para DODGE) Você estava a dormir!

TILDEN: (para shelly) Não queres cortar mais cenouras?

SHELLY: Claro. Claro que quero.

(SHELLY volta a sentar-se no banco e continua a cortar cenouras. Pausa. VINCE deambula, passando as mãos pelo cabelo, olhando para DODGE e TILDEN. VINCE e SHELLY trocam olhares. DODGE olha para a T.V.)

VINCE: Caramba! Isto é espantoso. É mesmo espantoso. (continua a deambular) O que é isto, afinal? Estou num lapso temporal ou quê? Cometi algum delito imperdoável? Não sou casado, é verdade. (SHELLY olha para ele e volta a olhar para as cenouras) Mas também não sou divorciado. É sabido que me deixei levar por uma seria atracção pelo saxofone alto. Sopro em palhetas número 5 até altas horas, até altas horas da noite.

SHELLY: Vince, para que é que estás com isso? Eles não se importam com nada disso. Eles simplesmente não te reconhecem, é tudo.

VINCE: Como é que eles podem não me reconhecer?! Por que carga d’água é que eles não me reconhecem?! Sou filho deles!

DODGE: (olhando para a T.V.) Meu filho não és. No meu tempo, tive filhos e tu não és um deles.

(Pausa longa. VINCE olha para DODGE e depois para TILDEN. Volta-se para SHELLY.)

VINCE: Shelly, tenho de sair um bocado. Tenho simplesmente de sair. Vou buscar uma garrafa e volto logo. Tu ficas bem aqui. A sério.

SHELLY: Não sei se consigo lidar com isto, Vince.

VINCE: Tenho só de pensar ou coisa assim. Não sei. Tenho de juntar estas peças todas.

SHELLY: Não podemos ir, simplesmente?

VINCE: Não! Tenho de descobrir o que se passa.

SHELLY: Olha, achas-te menosprezado, e eu? Eles não só não me reconhecem, como nunca os vi antes. Não sei quem são estes tipos. Podiam ser qualquer pessoa!

VINCE: Não são qualquer pessoa!

SHELLY: Isso é o que tu dizes.

VINCE: São a minha família, por amor de Deus! Eu devia saber quem é a minha própria família! Deixa-me em paz. Não demoro assim tanto. Vou sair e venho logo. Não vai acontecer nada. Prometo.

(SHELLY olha para ele. Pausa.)

SHELLY: Está bem.

VINCE: Obrigado. (dirige-se a DODGE) Vou sair agora, avozinho, e trago-lhe uma garrafa. Está bem?

DODGE: Mudaste de ideias, hã? (apontando para a esquerda) O dinheiro está em cima da mesa. Na cozinha.

(VINCE dirige-se a SHELLY.)

VINCE: (para SHELLY) Ficas bem?

SHELLY: (cortando cenouras) Claro. Estou óptima. Vou manter-me muito ocupada enquanto não vens.

(VINCE olha para TILDEN que continua a observar as mãos de SHELLY.)

DODGE: Persistência, vêem? É o que é preciso. Persistência. Persistência, força de espírito e determinação. São essas as três virtudes. Usem essas três e não há que falhar.

VINCE: (para TILDEN) Quer alguma coisa, pai?

TILDEN: (ergue o olhar para VINCE) Eu?

VINCE; Da loja? Vou buscar uma garrafa ao avozinho.

TILDEN: Ele não deve beber. A Halie não vai gostar.

VINCE: Ele quer uma garrafa.

TILDEN: Ele não deve beber.

DODGE: (para VINCE) Não negoceies com ele! Não faças nenhuma transacção antes de falares comigo primeiro! Ele rouba-te descaradamente!

VINCE: (para DODGE) O Tilden diz que não deve beber.

DODGE: O Tilden perdeu o juízo! Olha para ele! Está doido varrido. Olha para ele.

(VINCE olha para TILDEN. TILDEN observa as mãos de SHELLY enquanto esta continua a cortar cenouras.)

DODGE: Agora, olha para mim. Olha para mim!

(VINCE olha novamente para DODGE.)

DODGE: Agora, aqui entre nós, quem é que achas mais de confiança? Ele ou eu? Consegues confiar num homem que não pára de trazer vegetais saídos do nada? Olha bem para ele.

(VINCE volta a olhar para TILDEN.)

SHELLY: Vai buscar a garrafa, Vince.

VINCE: (para SHELLY) De certeza que ficas bem?

SHELLY: Fico óptima. Agora até me sinto em casa.

VINCE: A sério?

SHELLY: Estou óptima. Agora que tenho as cenouras, está tudo bem.

VINCE: Volto já.

(VINCE cruza o palco em direcção à esquerda.)

DODGE: Onde vais?

VINCE: Vou buscar o dinheiro.

DODGE: E depois, onde vais?

VINCE: À loja de bebidas.

DODGE: Não vás a mais lado nenhum. Não vás a qualquer sítio beber. Volta logo para aqui.

VINCE: Eu volto.

(VINCE sai pela esquerda.)

DODGE: (chamando VINCE) Agora, tens responsabilidade! E não saias pelas traseiras! Volta por aqui! Quero ver-te a sair! Não saias pelas traseiras!

VOZ DE VINCE: (fora do palco, à esquerda) Está bem!

(DODGE volta-se e olha para TILDEN e SHELLY.)

DODGE: Não é de confiança. Provavelmente afoga-se, se sair pelas traseiras. Cai num buraco. E eu nunca mais tinha a minha garrafa.

SHELLY: Eu não me preocupava com o Vince. Ele sabe tomar conta de si mesmo.

DODGE: Ai sabe, hã? Que independente.

(VINCE volta a entrar pela esquerda com dois dólares na mão. Cruza o palco em direcção à direita, passando por DODGE.)

DODGE: (para VINCE) Tens o dinheiro?

VINCE: Sim. Dois dólares.

DODGE: Dois dólares. Dois dólares são dois dólares. Não te armes em esperto.

VINCE: De que tipo quer?

DODGE: Whiskey! Gold Star Sour Mash. Fica ao teu critério.

VINCE: Okay.

(VINCE dirige-se à porta direita do palco. Abre-a. Pára quando ouve TILDEN.)

TILDEN: (para VINCE) Vieste a conduzir o caminho todo desde o Novo México?

(VINCE volta-se e olha para TILDEN. Fitam-se mutuamente. VINCE abana a cabeça, sai pela porta, cruza o alpendre e sai pela porta de rede. TILDEN fica a vê-lo afastar-se. Pausa.)

SHELLY: A sério que não o reconhece? Nenhum de vocês?

(TILDEN volta-se novamente e olha para as mãos de SHELLY enquanto ela corta cenouras.)

DODGE: (olhando para a T.V.) Não reconhecemos quem?

SHELLY: O Vince.

DODGE: E o que temos nós de reconhecer?

(DODGE acende um cigarro, tosse ligeiramente e olha para a T.V.)

SHELLY: Seria cruel se o reconhecessem e não lho dissessem. Não seria justo.

(DODGE limita-se a olhar para a T.V., fumando.)

TILDEN: Acho que o reconheci. Acho que reconheci qualquer coisa nele.

SHELLY: Reconheceu?

TILDEN: Acho que vi uma cara dentro da cara dele.

SHELLY: Bom, provavelmente viu o antigo aspecto dele. Já não o via há seis anos.

TILDEN: Não?

SHELLY: É o que ele diz.

(TILDEN caminha em círculos diante dela, enquanto ela continua a descascar cenouras.)

TILDEN: Onde é que o vi pela última vez?

SHELLY: Não sei. Só o conheço há uns meses. Ele não me conta tudo.

TILDEN: Não?

SHELLY: Coisas dessas, não.

TILDEN: O que é que ele te conta?

SHELLY: De um modo geral?

TILDEN: Sim.

(TILDEN contorna-a e fica atrás dela.)

SHELLY: Bom, ele conta-me todo o tipo de coisas.

TILDEN: Como?

SHELLY: Não sei! Quer dizer, não me posso pôr aqui a falar e contar-lhe o que ele sente.

TILDEN: Porquê?

(TILDEN continua a contorná-la lentamente num círculo.)

SHELLY: Porque são coisas que ele me contou em privado!

TILDEN: E não me podes dizer?

SHELLY: Eu nem sequer o conheço!

DODGE: Tilden, vai à cozinha e faz-me café! Deixa a rapariga em paz.

SHELLY: (para DODGE) Não há problema.

(TILDEN ignora DODGE e continua a andar à volta de SHELLY. Olha para o cabelo e para o casaco dela. DODGE olha para a T.V.)

TILDEN: Queres dizer que não me podes contar nada?

SHELLY: Posso-lhe contar algumas coisas. Quer dizer, podemos conversar.

TILDEN: Podemos?

SHELLY: Claro. É o que estamos a fazer agora.

TILDEN: Estamos?

SHELLY: Sim. É isso que estamos a fazer.

TILDEN: Mas há algumas coisas que não me podes contar, certo?

SHELLY: Certo.

TILDEN: Há algumas coisas que também não te posso contar.

SHELLY: Porquê?

TILDEN: Não sei. Ninguém as deve ouvir.

SHELLY: Bom, pode-me contar o que quiser.

TILDEN: Posso?

SHELLY: Claro.

TILDEN: Podem não ser coisas muito simpáticas.

SHELLY: Não faz mal. Não nasci ontem.

TILDEN: Podem ser horríveis.

SHELLY: Bom, não me pode contar nada de agradável?

(TILDEN pára em frente a ela e olha para o casaco dela. SHELLY devolve-lhe o olhar. Pausa longa.)

TILDEN: (depois da pausa) Posso tocar no teu casaco?

SHELLY: No meu casaco? (olha para o casaco e para TILDEN) Claro.

TILDEN: Não te importas?

SHELLY: Não. Pode tocar.

(SHELLY estende o braço para que TILDEN lhe toque. DODGE continua a olhar fixamente para a T.V. TILDEN move-se lentamente na direcção de SHELLY, olhando para o braço dela. Estende o braço muito lentamente e toca no dela, apalpando o pêlo com suavidade, e afasta a mão. SHELLY continua com o braço estendido.)

SHELLY: É pêlo de coelho.

TILDEN: Coelho.

(Volta a estender o braço muito lentamente, toca no pêlo do braço dela, e volta a afastar a mão. SHELLY baixa o braço.)

SHELLY: Estava a ficar com o braço cansado.

TILDEN: Posso segurar nele?

SHELLY: (pausa) No casaco? Claro.

(SHELLY tira o casaco e entrega-o a TILDEN. TILDEN pega nele lentamente, afaga o pêlo e veste-o. SHELLY observa enquanto TILDEN afaga lentamente o pêlo. Sorri a SHELLY. Ela recomeça a cortar cenouras.)

SHELLY: Pode ficar com ele, se quiser.

TILDEN: Posso?

SHELLY: Sim. Tenho um impermeável no carro. Só preciso disso.

TILDEN: Tens um carro?

SHELLY: É do Vince.

(TILDEN caminha devagar de um lado para o outro, afagando o pêlo e sorrindo para o casaco. SHELLY observa-o quando ele não está a olhar. DODGE continua a olhar para a T.V. e estica-se no sofá, enrolado no cobertor.)

TILDEN: (enquanto anda de um lado para o outro) Uma vez, tive um carro! Tive um carro branco! E conduzia. Ia a todo o lado. Ia às montanhas. Guiava na neve.

SHELLY: Isso deve ter sido divertido.

TILDEN: (ainda a caminhar, afagando o casaco) Às vezes, guiava o dia inteiro. Pelo deserto. Muito longe, no deserto. Passava por cidades. Por todo o lado. Passava por palmeiras. Relâmpagos. Tudo. Guiava através deles. Guiava através deles, parava, olhava à volta e continuava a guiar. Voltava a entrar e guiava! Adorava guiar. Não havia nada de que mais gostasse. Nada que eu sonhasse era melhor do que guiar.

DODGE: (de olhos na T.V.) Cala a boca, ouviste!

(TILDEN pára. Olha para SHELLY.)

SHELLY: Agora guia muito?

TILDEN: Agora? Agora? Agora não guio.

SHELLY: Porquê?

TILDEN: Agora sou crescido.

SHELLY: Crescido?

TILDEN: Não sou um miúdo.

SHELLY: Não precisa de ser um miúdo para guiar.

TILDEN: Na altura, não era guiar.

SHELLY: O que era então?

TILDEN: Aventura. Eu ia a todo o lado.

SHELLY: Bom, ainda pode fazer isso.

TILDEN: Agora não.

SHELLY: Por que não?

TILDEN: Acabei de te dizer. Não compreendes nada. Se te contasse uma coisa, não compreendias.

SHELLY: O quê?

TILDEN: Uma coisa verdadeira.

SHELLY: Como por exemplo?

TILDEN: Como um bebé. Como um bebé pequenino.

SHELLY: Quando era pequeno?

TILDEN: Se te contasse, obrigavas-me a devolver o casaco.

SHELLY: Não o farei. Prometo. Conte-me.

TILDEN: Não posso. O Dodge não me deixa.

SHELLY: Ele não o ouve. Não faz mal.

(Pausa. TILDEN olha para ela. Move-se ligeiramente na sua direcção.)

TILDEN: Tivemos um bebé. (gesticulando na direcção de DODGE) Ele teve. O Dodge. Conseguia pegar nele com uma mão. E punha-o na outra. Um bebé pequeno. O Dodge matou-o.

(SHELLY levanta-se.)

TILDEN: Não te levantes. Não te levantes!

(SHELLY volta-se a sentar. DODGE levanta-se do sofá e olha para eles.)

TILDEN: O Dodge afogou-o.

SHELLY: Não me conte mais! Está bem?

(TILDEN aproxima-se mais dela. DODGE fica mais interessado.)

DODGE: Tilden? Deixa essa rapariga em paz!

TILDEN: (sem prestar atenção) Nunca contou à Halie. Nunca contou a ninguém. Afogou-o simplesmente.

DODGE: (desliga a T.V.) Tilden!

TILDEN: Ninguém o conseguiu encontrar. Desapareceu simplesmente. Os chuis andaram à procura dele. Os vizinhos. Ninguém o conseguiu encontrar.

(DODGE debate-se, tentando levantar-se do sofá.)

DODGE: Tilden, o que lhe estás a dizer! Tilden!

(DODGE continua a debater-se até ficar de pé.)

TILDEN: Finalmente, todos desistiram. Pararam de procurar simplesmente. Todos tinham uma resposta diferente. Rapto. Assassínio. Acidente. Qualquer tipo de acidente.

(DODGE tenta caminhar na direcção de TILDEN e cai. TILDEN ignora-o.)

DODGE: Tilden, cala-te! Cala-te com isso!

(DODGE começa a tossir no chão. SHELLY observa-o do banco.)

TILDEN: O bebé pequenito desapareceu simplesmente. Não é difícil. É tão pequeno. Quase invisível.

(SHELLY faz um gesto no sentido de ajudar DODGE. TILDEN empurra-a com firmeza para o banco. DODGE continua a tossir.)

TILDEN: Ele disse que tinha as suas razões. Disse que eram muito antigas. Mas não contou a ninguém.

DODGE: Tilden! Não lhe contes nada! Não lhe contes!

TILDEN: Só ele sabe onde está enterrado. Só ele. É como um tesouro secreto e enterrado. Não conta a nenhum de nós. Não me diz a mim, à mãe, nem sequer ao Bradley. Especialmente ao Bradley. O Bradley tentou obrigá-lo, mas ele não contou. Nem sequer disse por que o fez. Uma noite, limitou-se a fazê-lo.

(A tosse de DODGE diminui. SHELLY fica no banco olhando para DODGE. TILDEN tira lentamente o casaco de SHELLY e estende-lho. Pausa longa. SHELLY treme.)

TILDEN: Provavelmente queres o teu casaco de volta.

(SHELLY olha para o casaco mas não se move para o agarrar. O som do ranger da perna de BRADLEY ouve-se, fora do palco, à esquerda. Os outros ficam imóveis. BRADLEY aparece na esquerda alta, do outro lado da porta de rede, envergando um impermeável amarelo. Entra pela porta de rede, transpõe o alpendre em direcção à porta da direita e entra no palco. Fecha a porta. Tira o impermeável e sacode-o. Vê os outros e pára. TILDEN volta-se para ele. BRADLEY olha para SHELLY. DODGE continua no chão.)

BRADLEY: O que se passa aqui? (gesticulando na direcção de SHELLY) Quem é esta?

(SHELLY levanta-se, afasta-se de BRADLEY quando este se aproxima dela. Ele pára junto de TILDEN. Vê o casaco na mão de TILDEN e agarra-o, tirando-lho.)

BRADLEY: Quem é ela?

TILDEN: Ela vai de carro para o Novo México.

(BRADLEY olha para ela. SHELLY está petrificada. BRADLEY coxeia até ela, segurando o casaco. Pára diante dela.)

BRADLEY: (para SHELLY, depois de uma pausa) Férias?

(SHELLY abana a cabeça, «não», tremendo.)

BRADLEY: (para SHELLY, gesticulando na direcção de TILDEN) Vais levá-lo contigo?

(SHELLY abana a cabeça, «não», BRADLEY recua na direcção de TILDEN)

BRADLEY: Devias levar. Não serve de nada deixá-lo aqui. Não trabalha nada. Não mexe um dedo. (parando, para TILDEN) Não é? (para SHELLY) Claro que foi um avançado ou um defesa ou coisa assim, dos melhores da América. Ele contou-te?

(SHELLY abana a cabeça, «não»)

BRADLEY: Sim, ele era todo importante. Usava camisolas com a inicial da escola. Tinha medalhas penduradas ao pescoço. Uma beleza. Grande coisa. (ri-se consigo mesmo, repara em DODGE no chão, aproxima-se dele, pára) E este também. (para SHELLY) Nem imaginavas, só de olhar para ele, pois não? Todo esquelético e gasto.

(SHELLY volta a abanar a cabeça. BRADLEY olha para ela, volta a aproximar-se dela, apertando o casaco com o punho. Pára diante de SHELLY.)

BRADLEY: As mulheres gostam desse tipo de coisa, não é?

SHELLY: Do quê?

BRADLEY: Da importância. Da importância de um homem?

SHELLY: Não sei.

BRADLEY: Sabes, sim. Tu sabes, tu sabes. Não me venhas com isso. (aproxima-se mais de SHELLY) Estás com o Tilden?

SHELLY: Não.

BRADLEY: (virando-se para TILDEN) Tilden! Ela está contigo?

(TILDEN não responde. Olha para o chão.)

BRADLEY: Tilden!

(TILDEN foge subitamente em direcção à esquerda alta. Bradley ri-se. Fala com SHELLY. DODGE começa a mover os lábios silenciosamente, como se falasse com alguém invisível no soalho.)

BRADLEY: (rindo-se) Morto de medo! Sempre teve medo!

(BRADLEY pára de rir. Olha para SHELLY.)

BRADLEY: Tu também tens medo, não é? (ri-se novamente) Tens medo e nem sequer me conheces. (pára de rir) Não tens de ter medo.

(SHELLY olha para DODGE no chão.)

SHELLY: Não podemos fazer nada para o ajudar?

BRADLEY: (olhando para DODGE) Podíamos dar-lhe um tiro. (ri-se) Podíamos afogá-lo! Que tal se o afogássemos?

SHELLY: Cala-te!

(BRADLEY pára de rir. Aproxima-se mais de SHELLY. Ela fica petrificada. BRADLEY fala num tom lento e ponderado.)

BRADLEY: Hei! Minha cara. Não me fales assim. Não me fales nesse tom de voz. Houve uma altura em que tinha de aturar esse tom de voz de quase toda a gente. (gesticulando na direcção de DODGE) Dele, por exemplo! Dele e daquele desmiolado que acabou de fugir daqui. Agora, eles não me falam assim. Já não. Agora, está tudo virado do avesso. Completamente. Não é engraçado?

SHELLY: Desculpe.

BRADLEY: Abre a boca.

SHELLY: O quê?

BRADLEY: (fazendo um gesto para que ela abra a boca) Abre-a.

(Ela abre ligeiramente a boca.)

BRADLEY: Mais.

(Ela abre mais a boca.)

BRADLEY: Mantém-na assim.

(Ela mantém. Olha para BRADLEY. Com a mão livre ele põe-lhe os dedos na boca. Ela tenta libertar-se.)

BRADLEY: Fica quieta!

(Ela imobiliza-se. Ele mantém os dedos na boca dela. Olha para ela. Pausa. Ele tira a mão. Ela fecha a boca, mantendo os olhos nele. BRADLEY sorri. Olha para DODGE, no chão, e cruza o palco, aproximando-se dele. SHELLY observa-o atentamente. BRADLEY fica junto de DODGE e sorri a SHELLY. Segura no casaco dela com ambas as mãos acima de DODGE e continua a sorrir a SHELLY. Baixa o olhar para DODGE e larga o casaco de forma a que este caia em cima de DODGE e lhe tape a cabeça. BRADLEY mantém as mãos erguidas na posição de segurar o casaco, olha para SHELLY e sorri. As luzes apagam-se.)

TERCEIRO ACTO

Cenário: O mesmo. De manhã. Sol radiante. Nenhum som de chuva. Foi tudo limpo novamente. Nenhum sinal de cenouras. Nenhum balde. Nenhum banco. A mala de saxofone de Vince e o seu sobretudo ainda estão ao sopé da escadaria. Bradley dorme no sofá debaixo do cobertor de Dodge. Tem a cabeça voltada para o lado esquerdo do palco. A perna de pau de Bradley está encostada ao sofá, mesmo junto à sua cabeça. Tem o sapato lá enfiado. As presilhas estão pendentes. Dodge está sentado no chão, encostado ao televisor, virado para a esquerda do palco, com o boné de baseball na cabeça. O casaco de pêlo de coelho de Shelly cobre-lhe o peito e os ombros. Ele olha para a esquerda do palco. Parece mais fraco e desorientado. As luzes sobem devagar, ao som de pássaros, e permanecem focadas durante algum tempo, em silêncio, nos dois homens. Bradley dorme um sono muito profundo. Dodge mal se mexe. Shelly aparece vinda da esquerda do palco com um grande sorriso, avançando lentamente na direcção de Dodge, baloiçando uma chávena fumegante de caldo num pires. Dodge limita-se a olhar fixamente para ela, enquanto ela se aproxima.

Shelly: (enquanto cruza o palco) Isto vai fazer toda a diferença, avozinho. Não se importa que lhe chame avozinho, pois não? Quer dizer, eu sei que se importou quando o Vince o tratou assim, mas nem sequer o conhece.

Dodge: Ele fugiu p’rà cidade com o meu dinheiro, sabes? Vou manter-te como garantia.

Shelly: Ele volta. Não se preocupe.

(Ela ajoelha-se junto de Dodge e põe-lhe a chávena e o pires no colo.)

Dodge: Já é de manhã! Fiquei sem a minha garrafa e, ainda por cima, ele ficou-me com os meus dois dólares!

Shelly: Tente beber isto, está bem? Não o entorne.

Dodge: O que é?

Shelly: Caldo de carne. Vai aquecê-lo.

Dodge: Caldo! Não quero nenhum maldito caldo! Tira esta coisa daqui!

Shelly: Acabei de o fazer.

Dodge: Não me importa se passaste a semana toda a fazê-lo! Não o bebo!

Shelly: Então o que hei-de fazer com ele? Estou a tentar ajudá-lo. Além disso, faz-lhe bem.

Dodge: Tira-o daqui!

(Shelly levanta-se com a chávena e o pires.)

Dodge: Como sabes o que me faz bem, já agora?

(Ela olha para Dodge e vira-lhe as costas, aproxima-se da escadaria, senta-se no primeiro degrau e bebe o caldo. Dodge olha para ela.)

Dodge: Sabes o que me fazia bem?

Shelly: O quê?

Dodge: Uma massagenzita. Um pouco de contacto.

Shelly: Oh, não. Já tive contacto quanto baste. Obrigada na mesma.

(Ela continua a beberricar o caldo, sentada. Pausa enquanto Dodge olha para ela.)

Dodge: Por que não? Não tens nada de melhor para fazer. Aquele tipo não vai voltar cá. Não esperas que ele apareça, pois não?

Shelly: Claro. Ele aparece. Deixou aqui o instrumento.

Dodge: O instrumento? (ri-se) Tu és o instrumento dele!

Shelly: Que engraçado.

Dodge: Ele fugiu com o meu dinheiro. Ele não volta. Aí tens.

Shelly: Ele volta.

Dodge: És uma miúda engraçada, sabias?

Shelly: Obrigada.

Dodge: Cheia de fé. De esperança. De fé e esperança. Vocês, as esperançosas, são todas iguais. Se não é Deus, é um homem. Se não é um homem, é uma mulher. Se não é uma mulher, então é a terra ou qualquer tipo de futuro. Qualquer tipo de futuro.

(Pausa.)

Shelly: (olhando para o alpendre) Ainda bem que parou de chover.

Dodge: (olha para o alpendre e para ela) É isso que quero dizer. Vês, estás contente por ter parado de chover. Agora, pensas que vai ser tudo diferente. Só porque o sol brilha.

Shelly: Já é diferente. Na noite passada, tive medo.

Dodge: Medo de quê?

Shelly: Tive simplesmente medo.

Dodge: Do Bradley? (olha para Bradley) Ele é um fanfarrão. Especialmente agora. Só tens de pegar na perna dele e atirá-la pela porta das traseiras. Fica desarmado. Totalmente desarmado.

(Shelly volta-se, olha para a perna de pau de Bradley e novamente para Dodge. Beberrica o caldo.)

Shelly: Era o que você faria?

Dodge: Eu? Mal tenho forças para respirar.

Shelly: Mas era o que faria, se pudesse?

Dodge: Não sejas tão impressionável, miúda. Não há nada que um homem não possa fazer. Basta imaginares e ele pode fazê-lo. Qualquer coisa.

Shelly: Suponho que você tentou.

Dodge: Não fiques aí a beber o teu caldo e a julgar-me! Esta é a minha casa!

Shelly: Esqueci-me.

Dodge: Esqueceste-te? Pensavas que era a casa de quem?

Shelly: A minha.

(Dodge olha simplesmente para ela. Pausa longa. Ela bebe o caldo.)

Shelly: Eu sei que não é minha, mas tive essa sensação.

Dodge: Que sensação?

Shelly: Essa sensação de que ninguém vive aqui a não ser eu. Quer dizer, foram-se todos embora. Você está aqui, mas acho que não devia estar. (apontando para Bradley) Também me parece que ele não devia estar aqui. Não sei o que é. É a casa ou coisa assim. Algo de familiar. Como se eu soubesse mexer-me aqui dentro. Alguma vez sentiu isso?

(Dodge olha-a em silêncio. Pausa.)

Dodge: Não. Não, nunca.

(Shelly levanta-se. Move-se pelo espaço, segurando a chávena.)

Shelly: A noite passada, dormi naquele quarto, lá em cima.

Dodge: Que quarto?

Shelly: Aquele quarto, lá em cima, com os retratos todos. Com todas aquelas cruzes na parede.

Dodge: O quarto da Halie?

Shelly: Sim. Seja lá quem for a «Halie».

Dodge: É a minha mulher.

Shelly: Então lembra-se dela?

Dodge: O quê?! Claro que me lembro dela! Ela só foi embora há um dia… há meio dia. Ou seja lá o que for.

Shelly: Lembra-se dela quando o cabelo dela era ruivo e brilhante? Em frente a uma macieira?

Dodge: O que é isto, um interrogatório, ou quê?! Quem és tu para me fazeres perguntas pessoais sobre a minha mulher?!

Shelly: Nunca olha para aqueles retratos, lá em cima?

Dodge: Que retratos?!

Shelly: A sua vida inteira está lá em cima, pendurada na parede. Alguém muito parecido consigo. Alguém com um aspecto muito parecido com o seu anterior aspecto.

Dodge: Aquele não sou eu! Eu nunca fui aquele! Este é que sou eu! Aqui. É isto. Em carne e osso, mesmo à tua frente.

Shelly: Então, pela parte que lhe toca, o passado nunca aconteceu?

Dodge: O passado? Jesus Cristo. O passado. Que sabes tu do passado?

Shelly: Pouco. Sei que havia uma quinta.

(Pausa)

Dodge: Uma quinta?

Shelly: Há o retrato de uma quinta. De uma grande quinta. De um touro. Trigo. Milho.

Dodge: Milho?

Shelly: Todos aqueles miúdos no milho. Estão todos a acenar com grandes chapéus de palha. Um deles não tem chapéu.

Dodge: Qual deles?

Shelly: Há um bebé. Um bebé nos braços de uma mulher. A mesma mulher de cabelo ruivo. Ela parece perdida, ali. Como se não soubesse como lá foi parar.

Dodge: Ela sabe! Disse-lhe cem vezes que não ia ser como na cidade! Avisei-a muitas vezes.

Shelly: Ela olha para o bebé como se ele fosse de outra pessoa. Como se nem sequer lhe pertencesse.

Dodge: Basta, já ouvi que chegasse! Tens umas ideias mirabolantes. Umas ideias bem mirabolantes. Achas que, lá porque as pessoas se reproduzem, têm de amar os seus descendentes? Nunca viste uma cadela comer as suas crias? Donde és, afinal?

Shelly: De L.A. Já falámos disso.

Dodge: É verdade, L.A. Eu lembro-me.

Shelly: Terra estúpida.

Dodge: Isso mesmo! Não admira.

(Pausa.)

Shelly: O que é que aconteceu a esta família, afinal?

Dodge: Não estás em posição de perguntar! O que te importa? És uma espécie de assistente social?

Shelly: Sou amiga do Vince.

Dodge: Amiga do Vince! Essa é boa. Essa é mesmo boa. «Vince»! «O Senhor Vince»! «O Senhor Ladrão», melhor dizendo! O nome dele não me diz patavina. Não me soa minimamente familiar. Sabes quantos filhos gerei? Sem falar em netos e bisnetos e trinetos depois deles?

Shelly: E não se lembra de nenhum?

Dodge: O que é que há para lembrar? A Halie é que tem o álbum de família. É com ela que deves falar. Ela fala-te da linhagem, se é isso que te interessa. Ela localizou-a até ao túmulo.

Shelly: O que quer dizer?

Dodge: O que achas que quero dizer? Podes recuar até onde? Uma longa fila de cadáveres! Não há uma alma viva antes de mim. Nem uma. Quem se recorda de mim? Quem se importa com ossos enterrados?

Shelly: O Tilden disse a verdade?

(Dodge cala-se bruscamente. Olha para Shelly. Abana a cabeça. Olha para a esquerda do palco.)

Shelly: Disse?

(O tom de Dodge muda drasticamente.)

Dodge: O Tilden? (volta-se, sereno, para Shelly) Onde está o Tilden?

Shelly: A noite passada. Ele disse a verdade sobre o bebé?

(Pausa)

Dodge: (voltando-se para a esquerda do palco) O que aconteceu ao Tilden? Por que é que o Tilden não está aqui?

Shelly: O Bradley afugentou-o.

Dodge: (olhando para o adormecido Bradley) O Bradley? Por que está ele no meu sofá? (volta-se novamente para Shelly) Estive aqui a noite toda? No chão?

Shelly: Ele não se ia embora. Escondi-me lá fora até ele adormecer.

Dodge: Lá fora? O Tilden está lá fora? Ele não devia estar lá fora, à chuva. Vai-se meter em sarilhos. Ele já não se sabe orientar por aqui. Já não sabe como sabia. Foi para o Oeste e meteu-se em sarilhos. Meteu-se em sarilhos dos grandes. Por cá, não queremos nada disso.

Shelly: O que é que ele fez?

(Pausa.)

Dodge: (olha serenamente para Shelly) O Tilden? Ficou confundido. Foi isso. Não podemos deixá-lo sozinho. Agora, não.

(O som de Halie rindo-se vem dos bastidores à esquerda. Shelly levanta-se, olhando na direcção da voz, segurando a chávena e o pires, não sabe se há-de ficar ou fugir.)

Dodge: (gesticulando a Shelly) Senta-te! Volta a sentar-te!

(Shelly senta-se. Volta a ouvir-se o riso de halie.)

Dodge: (para Shelly, num murmúrio rouco, puxando o casaco para cima e envolvendo-se nele) Não me deixes agora! Prometes-me? Não vás embora e não me deixes sozinho. Preciso de alguém que fique aqui comigo. O Tilden foi-se e preciso de alguém. Não me deixes! Promete!

Shelly: (sentando-se) Está bem.

(Halie surge do lado de fora da porta de rede do alpendre, na esquerda alta, com o Padre Dewis. Enverga um vestido amarelo-vivo, sem chapéu, luvas brancas, e tem os braços cheios de rosas amarelas. O padre Dewis está vestido com a tradicional sotaina e cabeção. É um homem muito distinto, de cabelo grisalho, com cerca de sessenta anos. Estão ambos ligeiramente bêbedos e tontos. Quando entram no alpendre, através da porta de rede, Dodge puxa o casaco de pêlo de coelho por cima da cabeça, escondendo-se. Shelly volta a levantar-se. Dodge deixa cair o casaco e sussurra intensamente a Shelly. Nem Halie nem o Padre Dewis se apercebem das pessoas dentro de casa.)

dodge: (para Shelly, num forte sussurro) Prometeste!

(Shelly volta a sentar-se nas escadas. Dodge puxa o casaco novamente sobre a cabeça. Halie e o Padre Dewis falam no alpendre enquanto avançam na direcção da porta interior, à direita do palco.)

halie: Oh, Padre! Isso é terrível! É mesmo terrível. Não tem medo de ser castigado?

(Ela ri-se entredentes)

Dewis: Não pelos italianos. Estão demasiado ocupados a castigar-se uns aos outros.

(Ambos se riem entredentes.)

halie: E Deus?

Dewis: Bom, piedosamente, Deus só ouve o que quer. Isto fica apenas entre nós os dois, é claro. No fundo do nosso coração, sabemos que somos tão maus como os católicos.

(Voltam a rir-se entredentes e alcançam a porta à direita do palco.)

halie: Padre, nunca o ouvi falar assim num sermão de domingo.

Dewis: Bom, eu reservo as minhas melhores piadas para o âmbito privado. Seria dar pérolas a porcos, compreende.

(Entram na sala a rir-se e param quando vêem Shelly. Shelly levanta-se. Halie fecha a porta atrás do Padre Dewis. Ouve-se a voz de dodge debaixo do casaco, falando a Shelly.)

Dodge: (debaixo do casaco, para shelly) Senta-te, senta-te! Não deixes que eles te apanhem!

(shelly volta a sentar-se no degrau. Halie olha para dodge no chão e para Bradley, adormecido no sofá, e vê a sua perna de pau. Solta um gritinho agudo e embaraçado por estar acompanhada pelo Padre Dewis.)

halie: Oh, meu Deus! Em nome dos Céus, o que é que se passa na minha casa?!

(Halie entrega as rosas ao Padre Dewis.)

Halie: Desculpe-me, Padre.

(Halie aproxima-se de dodge, arranca-lhe o casaco e tapa a perna de pau com ele. bradley continua a dormir.)

halie: Se deixamos esta casa um segundo, o diabo entra a correr pela porta da frente!

Dodge: Dá-me esse casaco! Dá-me esse maldito casaco antes que eu morra gelado!

Halie: Não vais gelar! O sol brilha, caso não tenhas reparado!

Dodge: Dá-me esse casaco! Esse casaco é para carne viva, não para madeira morta!

(halie puxa violentamente o cobertor de cima de bradley e atira-o a dodge. Dodge tapa outra vez a cabeça com o cobertor. A perna amputada de bradley pode ser simulada, escondendo metade dela debaixo de uma almofada do sofá. Ele está totalmente vestido. Bradley levanta-se num pulo quando lhe tiram o cobertor.)

halie: (quando atira o cobertor) Toma! Usa isto! É teu, seja como for! Não consegues tomar conta de ti mesmo, para variar?!

Bradley: (gritando a halie) Dê-me esse cobertor! Dê-me esse cobertor! Esse cobertor é meu!

(Halie recua, cruzando o palco na direcção do Padre Dewis que está especado com as rosas. Desamparado, Bradley bate no sofá, tentando alcançar o cobertor. Dodge esconde-se melhor com o cobertor. Shelly observa na escadaria, ainda segurando a chávena e o pires.)

halie: Acredite, Padre, não era isto que eu tinha em mente quando o convidei.

Dewis: Oh, não peça desculpa, por favor. Eu não estaria no sacerdócio se não conseguisse enfrentar a vida real.

(Ri-se, embaraçado. Halie repara de novo em shelly e aproxima-se dela. Shelly permanece sentada. Halie pára e olha para ela.)

bradley: Quero o meu cobertor de volta! Dê-me o meu cobertor!

(halie volta-se para Bradley e cala-o.)

halie: Cala-te, Bradley! Imediatamente! Já ouvi que chegasse!

(Bradley cala-se a pouco e pouco, volta a deitar-se no sofá, vira as costas a Halie e lamuria-se debilmente. Halie foca de novo a atenção em Shelly. Pausa.)

halie: (para Shelly) O que está a fazer com a minha chávena e o meu pires?

Shelly: (olhando para a chávena e para halie) Fiz um pouco de caldo para Dodge.

Halie: Para Dodge?

Shelly: Sim.

Halie: Bom, e ele bebeu-o?

Shelly: Não.

Halie: Você é que o bebeu?

Shelly: Sim.

(Halie olha para ela. Pausa longa. Vira abruptamente as costas a Shelly e cruza o palco, recuando na direcção do Padre Dewis.)

halie: Padre, está uma estranha em minha casa. O que aconselha? O que seria próprio de um cristão?

Dewis: (embaraçado) Oh, bom… eu… na verdade…

Halie: Ainda temos algum whiskey, não temos?

(Dodge puxa lentamente o cobertor para baixo, destapando a cabeça, e olha para o Padre Dewis. Shelly levanta-se.)

Shelly: Ouça, eu não bebo nem nada. Eu só…

(Halie vira-se para Shelly, com rudeza.)

Halie: Volta a sentar-te!

(Shelly volta a sentar-se no degrau. Halie vira-se novamente para Dewis.)

halie: Acho que temos bastante whiskey! Não temos, Padre?

Dewis: Bom, sim. Acho que sim. Terá de ir buscá-lo. Tenho as mãos ocupadas.

(halie ri-se entredentes. Põe a mão nos bolsos de Dewis, procurando a garrafa. Cheira as rosas enquanto procura. Dewis está hirto. Dodge observa halie atentamente enquanto ela procura a garrafa.)

halie: As rosas são mesmo coisas incríveis! Não são incríveis, Padre?

Dewis: Sim. Sim, pois são.

Halie: Quase encobrem o cheiro pestilento a pecado nesta casa. É mesmo magnífico! O cheiro. Teremos de pôr algumas aos pés da estátua de Ansel. No dia da inauguração.

(halie encontra uma garrafinha prateada de whiskey no bolso do colete de Dewis. Tira-a para fora. Dodge observa, ansioso. Halie aproxima-se de dodge, abre a garrafa e bebe um gole.)

halie: (para dodge) O Ansel vai ter uma estátua, Dodge. Sabias? Não vai ser uma placa, mas sim, uma estátua verdadeira. De bronze autêntico. Dos pés à cabeça. Uma bola de basquetebol numa das mãos e uma espingarda na outra.

Bradley: (de costas para Halie) Ele nunca jogou basquetebol!

Halie: Cala-te, Bradley! Não fales do Ansel! O Ansel jogou basquetebol melhor do que ninguém! E tu sabes! Ele foi um dos melhores da América! Não há motivo para roubar a glória aos outros.

(halie vira as costas a bradley e recua na direcção de Dewis, bebendo pela garrafa e sorrindo.)

halie: (para Dewis) O Ansel era um grande jogador de basquetebol. Um dos maiores.

Dewis: Lembro-me do Ansel.

Halie: Claro! Lembra-se. Lembra-se de como ele jogava. (vira-se para shelly) É claro que, nos dias de hoje, joga-se um estilo diferente de basquetebol. Mais agressivo. Não é verdade, minha querida?

Shelly: Não sei.

(halie aproxima-se de Shelly, bebendo pela garrafa. Pára diante de Shelly.)

halie: Muito, muito mais agressivo. Esmagam-se uns contra os outros. Partem os dentes uns aos outros. Há sangue por todo o campo. Bárbaros.

(halie tira a chávena a shelly e deita whiskey nela.)

halie: Eles não treinam com dantes. É completamente diferente. Perdem a cabeça. Drogas e mulheres. Especialmente mulheres.

(halie estende a chávena com whiskey a shelly, lentamente. Shelly pega nela.)

halie: Especialmente mulheres. Raparigas. Rapariguinhas tristes e patéticas. (volta a aproximar-se do Padre Dewis) É só um reflexo dos tempos, não acha, Padre? Uma indicação dos nossos valores?

Dewis: Sim, acho que sim.

Halie: Sim. Uma espécie de mau augúrio. Os nossos jovens a transformarem-se em monstros.

Dewis: Bom, eu, mmm…

Halie: Oh, pode discordar de mim se quiser, Padre. Estou receptiva a argumentos. Acho que o debate só enriquece ambos os lados da contenda, não acha? (aproxima-se de dodge) Acho que, no fim de contas, não importa. Quando vemos o modo como as coisas de deterioram à frente dos nossos olhos. Tudo a ir por água abaixo. É um bocado palerma pensar sequer na juventude.

Dewis: Não, acho que não. Acho que é importante acreditar em certas coisas.

Halie: Sim. Sim. Sei o que quer dizer. Acho que está certo. Acho que é verdade. (olha para dodge) Certas coisas básicas. Não podemos esquecer certas coisas básicas. Podemos acabar doidos. Como o meu marido. Pode vê-lo nos olhos dele. Pode ver como ele é doido.

(dodge tapa novamente a cabeça com o cobertor. Halie tira uma única rosa a Dewis e aproxima-se lentamente de dodge.)

halie: Não podemos deixar de acreditar em qualquer coisa. Não podemos parar de acreditar. Acabamos por morrer, se pararmos. Acabamos mortos.

(halie atira gentilmente a rosa para o cobertor de dodge Ela cai entre os seus joelhos e fica lá. Pausa longa enquanto halie olha para a rosa. Shelly levanta-se de súbito. Halie não se vira para ela, continuando a olhar para a rosa.)

shelly: (para halie) Não quer saber quem eu sou?! Não quer saber o que faço aqui?! Não estou morta!

(shelly aproxima-se de halie. Halie vira-se lentamente para ela.)

halie: Bebeste o teu whiskey?

Shelly: Não! E não vou beber!

Halie: Bom, isso é uma resolução firme. É bom resolvermo-nos com firmeza.

Shelly: Não me resolvi a nada. Estou só a tentar compreender isto tudo.

(halie ri-se e recua, aproximando-se de Dewis.)

halie: (para dewis) Que surpresa, que surpresa! Fazia ideia de que íamos encontrar isto?

Shelly: Vim aqui com o seu neto para fazer uma visita, só isso! Uma visitinha inocente e amigável.

Halie: O meu neto?

Shelly: Sim! Isso mesmo. Aquele de que ninguém se lembra.

Halie: (para dewis) Isto começa a tornar-se um bocado rocambolesco.

Shelly: Eu disse-lhe que era estúpido voltar aqui. Tentar recomeçar a partir da altura em que foi embora.

Halie: E quando foi isso?

Shelly: A altura em que foi embora daqui! Há seis anos! Há dez anos! Ou lá quando foi. Eu disse-lhe que ninguém se importava.

Halie: Ele não ouviu?

Shelly: Não! Não, não ouviu. Tivemos de parar em todas as cidadezinhas parolas que ele recordava da juventude! Todas as estúpidas lojas de donuts onde ele beijou uma rapariga. Todos os drive-ins. Todas as pistas de corridas. Todos os campos de futebol onde ele alguma vez partiu um osso.

Halie: (para dodge, subitamente alarmada) O Tilden?

Shelly: Não me ignore!

Halie: Dodge! Onde foi o Tilden?

(shelly aproxima-se violentamente de halie.)

shelly: (para halie) Estou a falar consigo!

(bradley senta-se rapidamente no sofá, Shelly recua.)

bradley: (para shelly) Não grites à minha mãe!

Halie: Dodge! (dá pontapés a dodge) Eu disse-te para não perderes o Tilden de vista! Onde é que ele foi?

Dodge: Dá-me de beber e eu digo-te.

Dewis: Halie, talvez esta não seja a altura certa para uma visita.

(Halie volta a aproximar-se de Dewis.)

halie: (para Dewis) Eu nunca devia ter saído. Nunca, nunca devia ter saído! O Tilden pode estar em qualquer parte, agora! Em qualquer parte! Ele não tem o domínio das suas faculdades. O Dodge sabia isso. Eu disse-lhe, antes de sair. Disse-lhe especificamente para vigiar o Tilden.

(bradley curva-se, agarra o cobertor de dodge e puxa-lho. Estende-se no sofá e põe o cobertor por cima da cabeça.)

dodge: Ele tem outra vez o meu cobertor! Ele tem o meu cobertor!

Halie: (voltando-se para Bradley) Bradley! Bradley, põe esse cobertor onde estava!

(halie aproxima-se de Bradley, shelly atira subitamente a chávena e o pires contra a porta à direita do palco. Dewis abaixa-se. A chávena e o pires desfazem-se. halie pára, vira-se para shelly. Todos se imobilizam. Bradley tira lentamente a cabeça de baixo do cobertor, olha para a porta à direita do palco e para shelly. Shelly olha para halie. Dewis agacha-se com as rosas. Shelly move-se lentamente na direcção de halie. Pausa longa. Shelly fala em tom suave.)

shelly: (para halie) Não gosto que me ignorem. Não gosto que me tratem como se eu não estivesse aqui. Não gostava quando era miúda, e ainda não gosto.

Bradley: (erguendo-se e sentando-se no sofá) Não temos de te dizer nada, rapariga. Nada mesmo. Não és a polícia, pois não? Não és o Governo. És só uma prostituta qualquer que o Tilden trouxe para aqui.

Halie: Que linguagem! Não tolero essa linguagem em minha casa!

Shelly: (para bradley) Metes a mão na minha boca e chamas-me prostituta!

Halie: Bradley! Puseste a mão na boca dela? Tenho vergonha de ti. Não te posso deixar sozinho um minuto.

Bradley: Nunca fiz isso. Ela está a mentir!

Dewis: Halie, acho que vou indo. Vou só pôr as rosas na cozinha.

(Dewis move-se para a esquerda do palco. Halie impede-o.)

halie: Não vá agora, Padre! Agora não.

Bradley: Eu não fiz nada, mamã! Nunca lhe toquei! Ela insinuou-se! E eu recusei. Recusei logo!

(shelly tira subitamente o seu casaco de cima da perna de pau e leva ambos para a frente do palco, para longe de Bradley.)

Bradley: Mamã! Mamã! Ela tem a minha perna! Ela levou a minha perna! Eu nunca lhe fiz nada! Ela roubou a minha perna!

(Bradley faz gestos patéticos no ar, tentando apanhar a perna. Shelly pousa-a por instantes, veste rapidamente o casaco e volta a pegar na perna. Dodge começa a tossir ligeiramente.)

halie: (para Shelly) Acho que já estamos fartos de ti, minha menina. Mesmo fartos. Não sei de onde vieste ou o que fazes aqui, mas já não és bem-vinda nesta casa.

Shelly: (ri-se, segura a perna) Já não sou bem-vinda!

Bradley: Mamã! É a minha perna! Vá buscar a minha perna! Não consigo fazer nada sem a minha perna.

(Bradley continua a lamuriar-se e a tentar agarrar a sua perna.)

halie: Devolve a perna ao meu filho. Imediatamente!

(dodge começa a rir-se suavemente consigo mesmo, enquanto tosse.)

halie: (para dewis) Padre, faça alguma coisa! Não vou deixar que me assustem na minha própria casa!

Bradley. Dá-me a minha perna!

Halie: Oh, cala-te, Bradley! Cala essa boca! Agora não precisas da tua perna! Deita-te e cala essa boca!

(Bradley soluça. Deita-se e põe o cobertor à volta do corpo. Deixa um braço fora do cobertor, estendido na direcção da sua perna de pau. Dewis aproxima-se cuidadosamente de shelly com as rosas nos braços. Shelly agarra a perna de pau, apertando-a contra o peito, como se a tivesse raptado.)

dewis: (para shelly) Vamos, minha querida, vá lá, não seria melhor conversarmos sobre isto? Tentar usar a razão?

Shelly: Aqui não há razão! Não encontro razão para nada.

Dewis: Não há que ter medo de nada. Estas pessoas todas são boas. São todas pessoas de bem.

Shelly: Não tenho medo!

Dewis: Mas esta não é a sua casa. Tem de mostrar algum respeito.

Shelly: Vocês são os estranhos aqui, eu não sou.

Halie: Isto já foi longe demais!

Dewis: Halie, por favor. Deixe-me lidar com isto.

Shelly: Não se aproxime de mim! Não deixe que ninguém se aproxime de mim. Não preciso que me diga nada. Não estou a ameaçar ninguém. Nem sequer sei o que faço aqui. Todos vocês dizem que não se lembram do Vince, está bem, talvez não se lembrem. Talvez o doido seja o Vince. Talvez ele tenha inventado toda esta trama familiar. Já nem me interessa. Eu só vim acompanhá-lo. Pensei que seria um gesto simpático. Além disso, tinha curiosidade. Ele fez com que todos vocês me soassem familiares. Todos vocês. Para todos os nomes, eu tinha uma imagem. Cada vez que ele me falava no nome, eu via a pessoa. Na verdade, todos vocês estavam tão nítidos no meu espírito que cheguei a acreditar que eram assim. Quando entrei por aquela porta, cheguei a acreditar que as pessoas que viviam aqui se revelariam as mesmas pessoas da minha imaginação. Mas não reconheço nenhum de vocês. Nem um. Não há sequer a mínima semelhança.

Dewis: Bom, não pode culpar os outros por não satisfazerem a sua alucinação.

Shelly: Não foi alucinação nenhuma! Foi mais parecido com uma profecia. Acredita em profecias, não acredita?

Halie: Padre, não vale a pena falar mais com ela. A única coisa a fazer é chamar a polícia.

Bradley: Não! Não chamem a polícia. Não queremos a polícia aqui. Isto é a nossa casa.

Shelly: Isso mesmo. O Bradley tem razão. Não costumam resolver os vossos assuntos em privado? Não costumam levá-los lá para fora, às escuras? Para as traseiras?

Bradley: Não te metas na nossa vida! Não tens nada que interferir!

Shelly: Não tenho nada, ponto final. Não tenho nada a perder.

(Ela caminha de um lado para o outro, olhando para cada um deles.)

Bradley: Não sabes o que passámos. Não sabes nada!

Shelly: Sei que têm um segredo. Têm todos um segredo. Na realidade, não é um segredo, vocês estão convencidos de que nunca aconteceu.

(halie aproxima-se de dewis.)

halie: Oh, meu Deus, Padre!

Dodge: (rindo-se consigo mesmo) Ela pensa que nos vai obrigar a falar. Acha que vai descobrir a verdade dos factos. Como um detective, ou coisa assim.

Bradley: Eu não lhe digo nada! Não há nada de mal aqui! Nunca houve nada de mal! Está tudo como deveria estar! Nunca aconteceu nada de mal! Está tudo bem aqui! Somos todos boas pessoas!

Dodge: Ela pensa que vai trazer tudo cá para fora, de repente, depois destes anos todos.

Dewis: (para shelly) Não vê que estas pessoas querem ser deixadas em paz? Não sabe o que é a misericórdia? Eles não lhe fizeram nada.

Dodge: Ela quer ir ao fundo da questão. (para shelly) É isso, não é? Gostavas de ir o mais fundo possível? Queres que te conte? Queres que te conte o que aconteceu? Eu conto-te. Mais vale.

Bradley: Não! Não lhe dês ouvidos! Ele não se lembra de nada!

Dodge: Lembro-me de tudo, do princípio ao fim. Lembro-me do dia em que ele nasceu.

(pausa)

halie: Dodge, se contas esta coisa… se contas isso, morres para mim. É como se morresses.

Dodge: Não será uma mudança assim tão grande, Halie. Sabes, é que esta rapariga, esta rapariga quer saber. Ela quer saber mais qualquer coisa. E tenho a sensação de que não faz diferença nenhuma. Prefiro contá-lo a um estranho do que a outra pessoa qualquer.

Bradley: (para dodge) Fizemos um pacto! Temos um pacto! Não pode quebrá-lo agora!

Dodge: Não me lembro de pacto nenhum.

Bradley: (para shelly) Vês, ela não se lembra de nada. Sou o único da família que se lembra. O único. E nunca te contarei!

Shelly: Agora já não tenho a certeza se quero saber.

Dodge: (rindo-se consigo mesmo) Ouve o que ela diz! Agora está com medo!

Shelly: Não estou com medo!

(dodge pára de rir, pausa longa. Dodge olha para ela.)

Dodge: Não estás, hã? Ora, isso é bom. Porque eu também não estou. Sabes, noutros tempos éramos uma família estável. Muito estável. Todos os rapazes eram crescidos. A quinta produzia leite suficiente para encher duas vezes o Lago Michigan. Eu e a Halie entrávamos no que parecia a nossa meia-idade. Connosco estava tudo assente. Tudo o que tínhamos de fazer era vivê-la. Então, a Halie engravidou outra vez. Sem mais nem menos, engravidou. Não tínhamos planeado ter mais filhos. Já tínhamos filhos que chegassem. Na verdade, não dormíamos na mesma cama há cerca de seis anos.

Halie: (movendo-se na direcção das escadas) Não vou ouvir isto! Não tenho de ouvir isto!

Dodge: (impede halie) Onde vais?! Lá para cima?! Lá em cima, ficas à escuta! Se fores lá para fora, ouves lá de fora. Mais vale ficares aqui e ouvires.

(halie fica junto às escadas)

bradley: Se eu tivesse a minha perna, você não estava a dizer isso. Nunca se safava com isto, se eu tivesse a minha perna.

Dodge: (apontando para shelly) Ela tem a tua perna. (ri-se) E vai ficar com ela. (para shelly) Ela quer ouvir isto. Não queres?

Shelly: Não sei.

Dodge: Bom, mesmo que não queiras, vou contar-te. (pausa) A Halie teve um filho. Um rapaz. Teve-o. Eu deixei que ela o tivesse. Todos os outros rapazes que eu tive, foram assistidos pelos melhores médicos, pelas melhores enfermeiras, tudo. Este, deixei que ela o tivesse sozinha. Este magoou mesmo muito. Quase a matou, mas ela teve-o na mesma. Sobreviveu, compreendes? Sobreviveu. Queria crescer nesta família. Queria ser igualzinho a nós. Queria ser parte de nós. Queria fingir que eu era pai dele. Ela quis que eu acreditasse nisso. Mesmo quando todos à nossa volta sabiam. Toda a gente. Todos os nossos rapazes sabiam. O Tilden sabia.

Halie: Cala-te! Bradley, obriga-o a calar-se!

Bradley: Não posso.

Dodge: O Tilden era o que sabia. Melhor do que qualquer um de nós. Caminhava quilómetros com aquele miúdo nos braços. A Halie deixava que ele o levasse. A noite toda, às vezes. Caminhava com ele a noite toda, pela pastagem. Falava com ele. Cantava-lhe. Eu costumava ouvi-lo a cantar-lhe. Inventava histórias para lhe contar. Contava todo o tipo de histórias àquele miúdo. Mesmo sabendo que ele não o compreendia. Não compreendia uma palavra do que ele dizia. Nunca o compreenderia. Não podíamos deixar que uma coisa destas continuasse. Não podíamos deixar que uma coisa assim crescesse mesmo no meio das nossas vidas. Fazia com que tudo o que tínhamos conquistado perdesse todo o valor. Tudo ficava anulado por este único erro. Esta única fraqueza.

Shelly: Por isso, matou-o?

Dodge: Matei-o. Afoguei-o. Tal como a cria de uma ninhada. Afoguei-o e pronto.

(halie aproxima-se de Bradley.)

halie: (para Bradley) O Ansel tinha-o impedido! O Ansel tinha-o impedido de contar aquelas mentiras! Ele era um herói. Um homem! Um homem a sério! O que aconteceu aos homens da família?! Onde estão os homens?!

(De repente, vince entra de rompante pela porta de rede do alpendre, na esquerda alta, arrancando-a das dobradiças. À excepção de dodge e bradley, todos se afastam e olham para vince, que caiu de barriga para baixo no alpendre, entorpecido pelo álcool. Canta ruidosamente para si mesmo e ergue-se devagar. Tem um saco de compras de papel, cheio de garrafas vazias de álcool. Tira-as uma a uma, enquanto canta e as parte no extremo oposto do alpendre, atrás da porta interior sólida, à direita do palco. Shelly move-se lentamente em direcção à direita do palco, segurando na perna de pau e observando vince.)

vince: (cantando ruidosamente enquanto atira as garrafas) «Dos salões de Montezuma às costas de Tripoli. Lutamos pela pátria em terra e no mar.»

(Pontua as palavras «Montezuma», «Tripoli», «batalhas» e «mar» com uma garrafa partida por palavra. Pára de as atirar por instantes, olha para a direita do alpendre, escuda os olhos com a mão como se olhasse para um campo de batalha, e depois arqueia os dedos junto à boca e grita para o espaço do alpendre, para um exército imaginário. Os outros olham, aterrorizados e expectantes.)

vince: (para exército imaginário) Já levaram que chegasse, vocês aí!? Porque ainda vos podemos dar muito mais! (apontando para o saco de papel cheio de garrafas) Há mesmo muito mais! Temos aqui que chegue para vos mandar p’rò Além!

(Pega noutra garrafa, imita o som agudo e sibilante de uma bomba, e atira-a para o lado direito, na direcção do alpendre. Som de garrafa a partir-se contra parede. Isto deverá ser o verdadeiro partir de garrafas e não som de fita magnética. Ele continua a gritar e a atirar garrafas, uma após outra.

Vince pára por instantes, respirando pesadamente devido à fadiga. Longo silêncio, enquanto os outros o observam. Shelly aproxima-se de Vince, de um modo experimental, ainda a segurar a perna de pau de Bradley.)

Shelly: (depois do silêncio) Vince?

(vince volta-se para ela. Espreita através da rede.)

Vince: Quem? O quê? Vince quem? Quem está aí?

(vince empurra o rosto contra a rede do alpendre e olha para todos.)

dodge: A minha maldita garrafa?!

Vince: (olhando para dodge) O quê? Quem é que falou?

Dodge: Sou eu! O teu avô! Não te faças de estúpido! Os meus dois dólares?

Vince: Os seus dois dólares?

(halie afasta-se de Dewis, subindo o palco, espreita para fora, observando vince e tentando reconhecê-lo.)

halie: Vincent? És tu, Vincent?

(Shelly olha para Halie e para Vince.)

Vince: (do alpendre) Vincent quem? O que é isto?! Quem são vocês?

Shelly: (para halie) Hei, espere aí. Espere aí! O que se passa?

Halie: (aproximando-se da rede do alpendre) Pensámos que eras um assassino ou coisa assim. A entrar de rompante dessa maneira.

Vince: Sou um assassino! Não me subestimem um segundo! Sou o Estrangulador da Meia-Noite! Devoro famílias inteiras de uma vez só!

(vince pega noutra garrafa e parte-a no alpendre. Halie afasta-se.)

Shelly: (aproximando-se de halie) Quer dizer que o reconhece?

Halie: Claro que o reconheço! A ti é que não reconheço.

Bradley: (sentando-se no sofá) Sai do nosso alpendre, meu patife! Para que é que estás aí a partir garrafas? Quem são estes forasteiros, afinal? Donde vieram eles?

Vince: Talvez eu devesse ir parti-las aí dentro!

Halie: (aproximando-se do alpendre) Não te atrevas! Vincent, o que é que te deu?! Por que te comportas assim?

Vince: Talvez eu devesse ir aí usurpar o vosso território!

(halie volta-se para Dewis e cruza o palco em direcção a ele.)

halie: (para Dewis) Padre, por que se limita a ficar aí, enquanto isto rebenta pelas costuras? Não pode corrigir esta situação?

(dodge ri-se e tosse.)

Dewis: Sou só um convidado aqui, Halie. Não sei exactamente qual é o meu lugar. Estou fora da minha paróquia, seja como for.

(vince começa a atirar mais garrafas, à medida que as coisas progridem.)

bradley: Se eu tivesse a minha perna, corrigia-a! Corrigia-o todo de uma ponta a outra! Se o apanhasse, arrancava-lhe as orelhas!

(Bradley mete o punho através da rede do alpendre e tenta agarrar vince, sem conseguir. Vince salta para longe da mão de Bradley.)

vince: Aaaah! Entraram nas nossas linhas! Animais com tentáculos! Bestas das profundezas!

(VInce ataca a mão de Bradley com uma garrafa. Bradley volta a meter a mão para dentro.)

shelly: Vince! Pára com isso, ouviste?! Eu quero sair daqui!

(vince encosta a cara à rede, olha para shelly.)

vince: (para shelly) Eles fizeram-te prisioneira aí dentro, querida? Que coisa doce. Com toda a vida pela frente. Cortada pela raiz.

Shelly: Eu vou aí fora, Vince! Vou aí fora e nós entramos no carro e vamos para longe daqui. Para qualquer sítio. Mas longe daqui.

(shelly aproxima-se da mala do saxofone e do sobretudo de vince. Pousa a perna de pau na esquerda baixa e pega na mala do saxofone e no sobretudo. Vince observa-a através da rede.)

vince: (para shelly) Teremos de negociar. De fazer qualquer tipo de combinação. Uma troca de prisioneiros ou coisa assim. Alguns dos deles por um dos nossos. É um preço baixo, se queres saber.

(Shelly cruza o palco em direcção à porta da direita, com o sobretudo e a mala.)

shelly: Vai buscar o carro! Vou aí agora. Vamos embora.

Vince: Não venhas cá fora! Não te atrevas a vir cá!

(shelly pára bruscamente diante da porta, à direita do palco.)

shelly: Porquê?

Vince: É proibido! Verboten! É território interdito. Nenhum homem ou mulher alguma vez passou a fronteira e sobreviveu para contar como foi!

Shelly: Eu arrisco.

(shelly aproxima-se da porta à direita do palco e abre-a. Vince tira uma grande faca de caça desdobrável e puxa a lâmina. Espeta a lâmina na rede e começa a cortar um buraco suficientemente grande para entrar. Bradley encolhe-se a um canto do sofá enquanto Vince corta a rede.)

Vince: (enquanto corta a rede) Não venhas aqui! Estou a avisar-te! Desintegras-te!

(Dewis pega em Halie pelo braço e puxa-a na direcção da escadaria.)

dewis: Halie, talvez devêssemos ir lá para cima até isto acabar.

Halie: Não percebo. Não consigo perceber. Ele era o rapazinho mais doce que se pode imaginar!

(Dewis deixa cair as rosas ao lado da perna de pau, ao sopé da escadaria, e acompanha Halie rapidamente pelas escadas acima. Halie não pára de olhar para trás, para Vince, enquanto sobem.)

halie: Ele não tinha um pingo de maldade. Todos adoravam o Vincent. Todos. Ele era o bebé perfeito.

Dewis: Ele fica bem, daqui a algum tempo. Bebeu demais, é só isso.

Halie: Ele costumava cantar enquanto dormia. Cantava. A meio da noite. Tinha a voz mais doce que se pode imaginar. Como um anjo. (pára por momentos) Eu costumava ficar acordada a ouvi-lo. Costumava a ficar acordada a pensar que, se eu morresse, não havia mal nenhum. Porque o Vincent era um anjo. Um anjo da guarda. Ele olharia por nós. Ele olharia por todos nós.

(Dewis leva-a até ao fim da escadaria. Eles desaparecem no cimo. Vince trepa agora através da porta de rede do alpendre e desce para o sofá. Bradley cai abaixo do sofá, segurando com firmeza o cobertor, mantendo-o em redor do corpo. Shelly está do lado de fora, no alpendre. Vince prende a faca entre os dentes, quando consegue abrir suficientemente o buraco para conseguir passar. Bradley começa a rastejar lentamente na direcção da sua perna de pau, estendendo a mão.)

dodge: (para vince) Anda lá! Apodera-te da casa! Apodera-te da maldita casa inteira! Podes ficar com ela! É tua. Foi uma dor de cabeça desde a primeira hipoteca. Eu vou morrer, não tarda nada. Não tarda nada. E tu nem sequer vais reparar. Por isso, resolvo os meus assuntos de uma vez por todas.

(Enquanto dodge proclama a sua última vontade e o seu testamento, vince entra na sala, de faca na boca, e caminha lentamente pelo espaço, inspeccionando o seu património. Repara incidentalmente em Bradley enquanto este rasteja em direcção à perna. VInce aproxima-se da perna e começa a empurrá-la com o pé para que fique fora do alcance de Bradley, e depois prossegue a sua inspecção. Apanha as rosas e leva-as com ele, cheirando-as. Pode-se ver Shelly do lado de fora do alpendre, movendo-se lentamente no centro e olhando para dentro, para vince. Vince ignora-a.)

dodge: A casa fica para o meu neto, Vincent. Com toda a mobília, equipamento e recheio nela contidos. Com tudo o que está preso às paredes ou que repousa debaixo deste tecto. As minhas ferramentas… nomeadamente, a minha serra de fita, a minha serra circular, o meu aparelho para furar, a minha serra articulada, o meu torno mecânico, a minha lixadeira mecânica, vão todos para o meu filho mais velho, Tilden. Isto é, se ele voltar a aparecer. O meu barracão e o meu equipamento a gasolina, nomeadamente o meu tractor, o meu bulldozer, o meu arado, além de todos os acessórios e apetrechos da maquinaria acima mencionada, nomeadamente a minha grade de engrenagem, as minhas charruas de profundidade, as minhas charruas circulares, o meu equipamento automático de fertilização, a minha segadeira, a minha gadanha, o meu semeador, o meu John Deere Harvester, o meu escavador, o meu martelo pneumático, o meu torno mecânico… (consigo mesmo) Referi o meu torno mecânico? Já referi o meu torno mecânico… os meus discos do Benny Goodman, os meus arreios, os meus freios, os meus cabrestos, o meu berbequim, a minha lima grossa, a minha forja, o meu equipamento de soldar, os meus cravos, os meus níveis de bolha de ar, os meus biséis, o meu banco de ordenha… não, o meu banco de ordenha, não… os meus martelos e cinzéis, as minhas charneiras, os meus portões do gado, o meu arame farpado, as minhas brocas, as minhas cordas de crina de cavalo, e todos os materiais relacionados serão reunidos num monte gigantesco e queimados mesmo no centro dos meus terrenos. Quando a fogueira estiver ao rubro, de preferência numa noite fria e sem vento, o meu corpo será atirado para o meio dela e queimado até que não reste nada a não ser cinzas.

(Pausa. Vince tira a faca da boca e cheira as rosas. Está voltado para o público e não se vira para shelly. Recolhe a lâmina e guarda a faca no bolso.)

shelly: (do alpendre) Vou-me embora, Vince. Eu vou, contigo ou sem ti.

Vince: (cheirando as rosas) Deixa o meu saxofone no sofá, antes de te pores a andar.

Shelly: (aproximando-se do buraco na rede) Não vens?

(Vince fica na frente do palco, volta-se e olha para ela.)

vince: Acabei de herdar uma casa.

Shelly: (através do buraco, no alpendre) Queres ficar aqui?

Vince: (enquanto empurra a perna de Bradley para fora do alcance deste) Tenho de continuar a linhagem. Tenho de me certificar que as coisas continuam.

(Bradley, no chão, ergue o olhar para ele, continua a arrastar-se em direcção à sua perna. VInce continua a empurrá-la.)

Shelly: O que é que te aconteceu, Vince? Tu desapareceste.

VInce: (pausa, discursa à frente do palco) Eu ia fugir, a noite passada. Ia fugir sem parar. Guiei a noite toda. O caminho todo até à fronteira do Iowa. Os dois dólares do velho estavam ali no assento, ao meu lado. Nunca parou de chover, o tempo todo. Não parou, uma única vez. Eu conseguia ver-me no pára-brisas. A minha cara. Os meus olhos. Examinei a minha cara. Examinei tudo nela. Como se olhasse para outro homem. Como se conseguisse ver toda a sua raça atrás dele. Como o rosto de uma múmia. Vi-o morto e vivo ao mesmo tempo. No mesmo fôlego. No pára-brisas, vi-o respirar como se estivesse suspenso no tempo. E cada respiração marcava-o. Marcava-o para sempre, sem que ele soubesse. E então a sua cara mudou. O seu rosto tornou-se no rosto do seu pai. Os mesmos ossos. Os mesmos olhos. O mesmo nariz. O mesmo hálito. E o rosto do seu pai transformou-se no rosto do seu avô. E assim por diante. Alterando-se. Recuando até caras que eu nunca vira antes, mas que reconhecia, apesar disso. Reconhecia os ossos por baixo, apesar disso. Os olhos. O hálito. A boca. Segui a minha família o caminho todo até ao Iowa. Todos eles. Até Corn Belt e mais além. Recuei o máximo que eles me permitiram. Depois, tudo se esvaneceu. Tudo se esvaneceu.

(shelly olha para ele durante algum tempo, estende a mão pelo buraco na rede e pousa a mala do saxofone e o sobretudo de Vince no sofá. Olha novamente para vince.)

Shelly: Adeus, Vince.

(Sai do alpendre pela esquerda. Vince observa-a a ir embora. Bradley tenta impetuosamente agarrar a sua perna de pau. Vince apanha-a rapidamente e baloiça-a por cima da cabeça de Bradley como uma cenoura. Bradley tenta desesperadamente agarrar a perna. Dewis desce a escadaria e pára a meio, olhando para vince e para bradley. Vince ergue o olhar para dewis e sorri. Continua a recuar com a perna em direcção à esquerda alta, enquanto Bradley rasteja atrás dele.)

vince: (para Dewis, enquanto continua a torturar bradley) Oh, desculpe-me Padre. Estava a só a livrar-me de alguns vermes da casa. Esta casa agora é minha, sabia? Toda minha. Tudo. Excepto as ferramentas mecânicas e isso. Vou arranjar equipamento novo, seja como for. Novos arados, um novo tractor, tudo. Tudo novinho em folha. (vince faz troça de bradley mais perto do canto da esquerda alta do palco.) Vou começar já pelo rés-do-chão.

(vince atira a perna de pau de bradley para fora do palco, à esquerda. Bradley segue a sua perna para fora do palco, arrastando-se pelo chão, soluçando. Quando bradley sai, vince puxa-lhe o cobertor e coloca-o no seu próprio ombro. Cruza o palco na direcção de dewis, com o cobertor, e cheira as rosas. Dewis desce até ao fim da escadaria.)

dewis: É melhor subir e ir ver a sua avó.

Vince: (olhando para as escadas e para dewis) A minha avó? Não está mais ninguém nesta casa. A não ser você. E você vai embora, não é?

(dewis cruza o palco em direcção à porta da direita. Volta-se e olha para vince.)

Dewis: Ela vai precisar de alguém. Eu não a consigo ajudar. Não sei o que fazer. Não sei qual é o meu lugar. Vim só tomar um pouco de chá. Não fazia ideia de que havia problemas. Não fazia ideia nenhuma.

(vince limita-se a olhar para ele. Dewis sai pela porta, cruza o alpendre e sai pela esquerda. Vince ouve-o a sair. Cheira as rosas, olha para a escadaria e volta a cheirar as rosas. Vira-se e olha para o fundo do palco, para dodge. Cruza o palco na sua direcção e curva-se, olhando para os olhos abertos de dodge. Dodge está morto. A sua morte deve ter ocorrido de modo completamente despercebido. Vince levanta o cobertor e tapa-lhe a cabeça. Senta-se no sofá, cheirando as rosas e olhando para o corpo de dodge. Pausa longa. Vince coloca as rosas no peito de dodge e estende-se no sofá, com os braços atrás da cabeça, olhando para o tecto. O seu corpo está numa posição semelhante à de dodge. Algum tempo depois, ouve-se a voz de halie, vinda do cimo da escadaria. As luzes começam a baixar quase imperceptivelmente enquanto halie fala. Vince continua a olhar para o tecto.)

voz de halie: Dodge? És tu, Dodge? O Tilden tinha razão acerca do milho, sabes. Nunca vi um milho assim. Tens olhado para ele ultimamente? Já está do tamanho de um homem. Logo no começo do ano. E há cenouras também. Batatas. Ervilhas. É um paraíso, ali fora, Dodge. Devias dar uma olhadela. Um milagre. Nunca o vi assim. Talvez a chuva tenha feito alguma coisa. Talvez tenha sido a chuva.

(Enquanto halie continua a falar, fora do palco, Tilden aparece à esquerda, ensopado em lama dos joelhos para baixo. Os seus braços e mãos estão cobertos de lama. Nas mãos, traz o cadáver de uma criança pequena, ao nível do peito, olhando para ele. O cadáver consiste essencialmente em ossos embrulhados num pano enlameado e rasgado. Ele desloca-se lentamente para a frente do palco, em direcção à escadaria, ignorando vince, no sofá. Vince continua a olhar para o tecto como se Tilden não estivesse ali. À medida que a voz de halie continua, Tilden sobe as escadas devagar. Os seus olhos nunca abandonam o cadáver da criança. As luzes continuam a baixar.)

Voz de halie: Uma chuva a sério. Apanha tudo até às raízes. O resto resolve-se por si mesmo. Não se pode obrigar uma coisa a crescer. Não se pode interferir. Está tudo escondido. Está tudo oculto. Temos apenas de esperar até ela sair do solo. Um rebento pequenino. Um rebento branco e pequenino. Inexplicável e frágil. Mas forte. Forte quanto baste para rasgar a própria terra. É um milagre, Dodge. Nunca vi uma colheita como esta, a vida inteira. Talvez seja do sol. Talvez seja isso. Talvez seja do sol.

(Tilden desaparece lá em cima. Silêncio. As luzes apagam-se.)

1 No original, bookoos, uma variante de beaucoup utilizada no Sul dos E.U.A. [N.T.]

2 Sexto inning. Em cada um dos nove innings, ambas as equipas têm direito a um lançamento. [N.T.]

3 Um jogador de baseball que está na base ou que tenta alcançar uma base. [N.T.]

4 Ilustrador americano (1894-1978) cujos trabalhos apresentam uma visão sentimentalista e idealizada da vida diária. [N.T.]

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