Salvador da pátria

Umas notas sobre Salvador Sobral e a canção que venceu o Festival. Está de parabéns e só escrevo isto essencialmente para o afirmar. Vou usar algumas vezes a adversativa, Hoje que, infelizmente, a SIC Notícias não passou O Eixo do Mal, o único programa que sigo na TV. O Festival da Eurovisão é lixo, consegue-se estar a tocar guitarra por cima daquilo, é fogo de artifício, como disse o vencedor. Ouvi meia dúzia antes dele e fiquei sem paciência para o ouvir a ele. São construções destinadas a serem apelativas. Aquilo não é música, não são canções.

Quando Sobral surgiu, pareceu que uma canção tomou conta de um concurso de talentos da pior estirpe. Cantou uma canção. Nunca pensei que vencesse ao ver o contraste, imaginei que ficaria entre os últimos ou entre os primeiros, porque a originalidade não é bem acolhida. Neste sentido, é original. O facto de se cantar em inglês, ou não, é relativo. Até porque Sobral canta um tema que não tem nada de portugalidade. Aí vem a adversativa, ou parte dela.

A canção é, como disse Dina, entre muitos comentários de excitação desvairada e exacerbada, uma canção “gira”. Não está especialmente bem composta. É uma glosa tosca de Billie Holiday e Tom Jobim/Chico Buarque. Deve tudo ao Brasil e ao jazz melodioso e aceitável para ouvidos pouco instruídos, e está embrulhada num timbre xaroposo até dizer basta. É um estilo que aparece vezes sem conta, há anos, em certos filmes vindos da América, está em voga em elevadores e escritórios de advogados, e pode ser acompanhado facilmente ao estilo Diana Krall. Não era preciso aquele arranjo de cordas, tipo teia de aranha. É também ela um produto, mas não digo isto em tom negativo; todos refazem músicas, eu que o diga.

Outro ponto a favor é a atitude de “irreverência” do intérprete. Gostei porque já disse coisas parecidas e fui acusado de “revoltado”. O homem tem um “ennui”, palavra mais certa, quanto a estas coisas (por agora) que é de sublinhar. Não parece vedeta, não parece fingir-se “não vedeta”. Um dos cantores que mais gosta é o Bob Dylan. (Quem diz isto percebe que cantar não é só ter um vozeirão torrente tipo Dulce Pontes, mas depende de muitos outros factores,) Vê-se que não está unicamente focado no sucesso, coisa que me deixaria desconfortável.

Não gostei da atitude da compositora, que já fala como se tivesse dois Greatest Hits na carreira. Mas enfim… Da maneira que foi, é impossível que não suba à cabeça de um mediano “autor/compositor” como já lhe põem no rodapé, como se isso fosse profissão em Portugal. Até se riem de nós, a ser que estejamos com 50 microfones apontados e caladinhos. 

Se vai abrir caminho para a música feita em Portugal? Gostaria de pensar que sim, mas não acho. Tozé Brito disse que sim, mas visto que fecha as portas a novos talentos há anos e é um “gato gordo”, não vou pela opinião dele. José Cid falou entusiasticamente, um excelente compositor. Paulo de Carvalho fez publicidade ao seu novo disco. Não acho mal, embora fique mal. Só mostra o que alguém que está na música há tantos anos, e tem uma extraordinária voz, se vê obrigado a dizer. E um comentador afirmou que não temos música ligeira, e isto veio afirmar “que afinal temos”. Nunca gostei disso da “música ligeira”, é o que chamam aos Paul Simon de certo país. Mas vendo à luz da patetice jornalística corrente, é verdade.

Voltando ao tema, não gosto da interpetação, mas é uma interpretação. Pelo que ouvi e vi do Festival, ninguém interpretava nada. Sobral e a irmã expressam-se muito bem em inglês e português nas conferências de imprensa, com aquele acólito ao lado, “ele está muito cansado…” Isso é sempre, dos Xutos, aos James, aos Rolling Stones, ao Pat Metheny, está sempre tudo cansado. Parece que estamos a entrevistar Sua Majestade e, de facto, raramente estão. Cheios de adrenalina, querem é falar, mas há que fazer render a coisa…  A propósito disso, cansado estou eu e os músicos portugueses que trabalham sem resultados há décadas, e alguns, como já referi, de talento afirmado.

Uma última nota para os entrevistados ao calhas da TV: Demonstram uma absoluta ignorância boçal acerca de música: “Gosto porque me toca, gosto porque me diz algo…” Querem é ver o herói. Querem ver o Papa. Porque o Papa salva. Porquê? É uma questão de fé, não se questiona. Porque as pessoas precisam deles, ainda por cima num país tão massacrado como Portugal. Os idólatras têm essa desculpa, mas os “críticos” não têm, porque se expressam na mesma toada, como uma certa Jeremias que vi na CMTV, uma absoluta ignorante a dizer baboseiras. Ouvi esta pessoa, várias vezes, armada em Salazar a pedir-me um texto num jornal há 20 anos, com o mesmo sotaque de Cascais, e eu com o meu sotaque do Porto, a parecer que falava para outro planeta. Portanto, a questão vai dar aí, como disse o intéprete, a música é a expressão, vinda de um país tão pequeno que não admite expressão nacional, quanto mais globalizada. Mas o pormenor das “pessoas com as suas armas tecnológicas”, foi certeiro e desejo-lhe um excelente futuro musical. Se conseguir ignorar a patetice que o rodeia e as tais armas tecnológicas e o estado do mundo, fará estrada.

Não acompanho o meio musical português, pois não existe, mas não sei o que é feito de Sara Tavares, talentosa e que desenvolveu um estilo mais vincado, e depressa. Em suma, parabéns, sem dúvida. Até os podia cantar com sentimento, não duvido. Mas não deixavam de ser… os parabéns, cara compositora.

David Furtado

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