Ennio Morricone: Em defesa da música para cinema (Entrevista)

Visto que tenho feito adaptações para guitarra (uma delas com um cão) de temas de Ennio Morricone, achei esta breve entrevista de 2015 bastante interessante, assim como as perguntas. Reproduzo aqui alguns excertos que traduzi, incluindo os créditos no final. Se consegui que um cão fizesse os coros de O Bom, o Mau e o Vilão, e resultou (especialmente para o cão, de seu nome Brancaleone), serão necessárias ideias ao invés de preconceitos.

Há dois preconceitos acerca da música para cinema. O primeiro é o de que um compositor está limitado por requisitos específicos e, particularmente, por produtores cinematográficos. Concorda?

Não, já que isso sucedeu com a música através da História. Há sempre um cliente que requer uma determinada música por encomenda. Por exemplo, aconteceu a um músico de corte como Haydn. Quando o príncipe lhe pediu uma música específica, o compositor deu o seu melhor para a conceber. Sempre houve uma espécie de encomenda, dentro de certos limites, claro. Toda a música, na verdade, é influenciada pela História. É o espelho da História, da vida, da política. E isso também se aplica à música para cinema. O resultado é condicionado, em certa medida, pelas necessidades do cliente, mas é sempre um resultado da História, ou seja, o nascimento de uma composição é sempre influenciado pelas experiências do momento histórico.
Quando os pintores elaboravam frescos nas igrejas, como na Capela Sistina, não podiam pintar um Cristo de cabelo encaracolado, por assim dizer. Havia necessidades especiais a serem respeitadas. Mas, apesar disso, grandes obras-primas foram criadas. Este raciocínio pode levar um músico a manter-se afastado do mundo da música feita para filmes, mas não é a única razão. Primeiro, há amadores que fizeram a orquestração, mas não escreveram a música. Alguns até a assobiam, por exemplo, Fred Bongusto, Lucio Dalla… eles também escreveram para o cinema, podem fazer tudo no âmbito da sua competência, mas não são capazes de lidar apropriadamente com música para cinema. Não foram eles que a escreveram, e esse é o problema real com certo tipo de composições.

Então é o compositor que torna a influência do cliente mais ou menos eficaz, com maior ou menor sentido?

Por um lado, há indivíduos totalmente despojados de cultura musical, que nunca estudaram, são iletrados musicais. Por outro, há aqueles que conhecem bem a música e são capazes de encontrar um compromisso lógico, que permite espaço à estetica do cliente e do compositor em simultâneo.

Mario Nascimbene, acusou recentememte, como também está a fazer, aqueles que compõem sem nenhum passado musical consistente, mas admitiu que é apenas devido à “coerção” do cliente que a música para filmes é considerada uma expressão cultural de segunda classe.

Ele expressava as suas próprias ideias, é óbvio. Pelo que me toca, não concordo com o que ele disse sobre o condicionamento a que temos de nos submeter, já que todos os compositores, seja do passado ou do presente, sempre tiveram ou ainda têm algum tipo de condicionamento. As Cantatas de Bach, por exemplo, eram destinadas a serem interpretadas numa igreja na missa de domingo seguinte. A música foi feita para ser usada e desfrutada. Hoje em dia, do mesmo modo, se a música não pode ser usada e desfrutada, é inútil. O conceito de que a música nasceu para um propósito específico soa-me acertada. Julgo que Fred Bongusto terá de aceitar muito mais condicionamento do que eu, visto que não possui a técnica para reagir a isso e para se distanciar disso. Você precisa de técnica para ultrapassar o que chama de “coerção”, no sentido em que técnica implica estudo, sofrimento e degaste.

O segundo preconceito comum é o de que a música para cinema simplesmente se move no trilho sulcado pela música clássica…

Isso é parcialmente verdade e entendo porquê. Muitas vezes, um compositor de cinema tem de aceitar uma linguagem musical fora de moda. O resultado depende do temperamento do compositor, e de como ele se consegue assimilar a si mesmo nessa transição – interpretar uma técnica e uma linguagem clássicas no seu estilo particular. Por exemplo, entre os muitos modos como nos podemos expressar musicalmente, posso escolher utilizar um técnica de dodecafonismo serial [chamado método de 12 sons, uma espécie de música atonal com certas regras, que Morricone utilizou várias vezes] e aplicá-la a música apelativa e tonal. Deste modo, suporto o fardo do cliente e a sua Imposição, mas consegui criar algo que está em consonância com as necessidades técnicas da música moderna e as suas exigências de linguagem e composição.

Então diz que os preconceitos contra as bandas sonoras só podem ser ultrapassados pela personalidade do compositor?

Depende sempre do indivíduo. Nâo se pode generalizar.

Parece que muitos destes preconceitos são típicos do críticos de cinema italianos.

A crítica sobre música para cinema, na realidade, não existe. Crítica musical séria, a que abrange concertos de música clássica, por exemplo, não está interessada no nosso tipo de música. (…) Precisamos de historiadores de música para cinema. Não penso que existam, de momento.

E os outros críticos, os “sérios”, usam os preconceitos como desculpa para evitar o tema que aqui discutimos.

Isso é acertado.

E quanto à falta de informação generalizada no que diz respeito à música para cinema, entre os espectadores?

Na realidade, as pessoas preocupam-se pouco com o elemento musical, quando estão a ver um filme, excepto quando a música está bem misturada ou é particularmante enfatizada, como nos filmes de Sergio Leone, para dar um exemplo, e nalguns outros, em que a música é efectivamente ouvida. Muitas vezes, ainda que a música seja mesmo boa, é infelizmente deixada em pano de fundo, para que o público não repare nela.

30 de Março de 2015 por Gianni Bergamino e Giuseppe Fenzi, tradução para português por David Furtado
Soundtrack Magazine Vol.9/Nos.34/1990

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s