«Últimos pensamentos sobre Woody Guthrie» de Bob Dylan (tradução)

bob dylan (17)Quando a tua cabeça se torce e a mente desnorteia
Quanto te achas demasiado velho, jovem, esperto ou burro
Quando te arrastas e perdes a passada
E rastejas na câmara lenta da corrida intensa da vida
Não importa o que faças, se começas a desistir,
Se o vinho não chega ao cimo da tua taça
Se o vento te apanhou na diagonal e uma mão ainda prende
E a outra já escorrega e o sentimento se foi
E o fogo da tua locomotiva precisa de nova centelha
E encontrar a madeira é fácil, mas tens preguiça de o fazer
E o teu passeio já serpenteia e a rua se torna muito longa
E começas a recuar embora saibas que está mal
E aí vem a solidão enquanto o dia se afunda
E a manhã do amanhã parece tão distante
E sentes as rédeas do teu pónei fugir
E a tua corda desliza porque as tuas mãos já humedecem
E o teu deserto adornado por sol e vales sempre verdes
Se torna num bairro de lata deprimente e becos de lixo
E o teu céu grita por água e o teu cano de esgoto pinga
E o relâmpago lampeja e o trovão abala
E as janelas estremecem, partem, e os telhados abanam
E todo o teu mundo vai de estrondo em estrondo
E os teus minutos de sol se tornam horas de tempestade
E por vezes dizes a ti mesmo,
“Nunca soube que ia ser assim
“Por que não me disseram no dia em que nasci?”
E começas a sentir arrepios e tremes com suores frios
E procuras algo que ainda não encontraste muito bem
E estás até aos joelhos em água escura e de mãos no ar
E todo o mundo observa como quem espia pela janela
E a tua bela miúda parte e já voou há muito tempo
E sentes o coração doente como o peixe quando é frito
E a tua britadeira cai das mãos para os pés
E precisas dela muito, mas fica caída na rua
E o teu sino toca alto mas não lhe ouves a batida
E achas que os teus ouvidos podem ter sido feridos
Ou que os teus olhos ficaram sujos pela poeira que cega
E concluis que falhaste na pressa do ontem
Quando caíste num bluff e te faltava uma só carta
E afinal tinhas três damas o tempo todo…
E isso deixa-te louco, e isso torna-te malvado
Como se estivesses no meio da revista Life
Aos saltos e tombos e estrondos numa máquina de flippers
E há algo na tua mente que queres sempre dizer
Que alguém, algures, devia ficar a saber
Mas está preso na tua língua, selado na tua cabeça
E incomoda-te a sério, estendido na cama
E por muito que tentes, não consegues dizê-lo
E até a alma se assusta com a ideia de o esquecer
E os teus olhos quase nadam nas lágrimas que tens na mente
E as tuas almofadas de penas tornam-se cobertores de chumbo
E a boca do leão abre-se e olhas para as suas presas
E as mandíbulas se vão fechando, contigo por baixo
E de barriga no chão e mãos atadas nas costas
Desejas nunca ter optado pelo último sinal de desvio
E dizes a ti mesmo, que estou eu a fazer
Nesta estrada que percorro, neste carreiro que contorno
Nesta curva a que me prendo
Neste caminho por que passeio, no espaço que ocupo
Neste ar que inalo
Estarei confuso demais, confundido a valer
Por que ando, por que corro
O que digo, o que vou aprendendo
Nesta guitarra que toco, neste banjo que soo
Neste bandolim que dedilho, na canção que entoo
Na melodia que trauteio, nas palavras que escrevo
Nas palavras que penso
Neste oceano de horas de que bebo a toda a hora
Quem ajudo eu, o que desbravo
O que dou eu, o que tiro
Mas tentas com toda a alma
Nunca pensar tais coisas e nunca deixar
Que este tipo de pensamentos se enraizem
Ou te façam o coração latejar
Mas também sabes por que pairam em teu redor
Só à espera da altura para entrar e ir ao fundo
Porque às vezes ouve-los quando a noite se esgueira
E tens medo que te apanhem enquanto dormes
E saltas da cama, do capítulo final do teu sonho
E não te recordas, por muito que tentes
Se eras tu que gritavas no sonho
E sabes que precisas de algo especial
E sabes que não há droga que te sirva de cura
E nenhum álcool na terra que te impeça o cérebro de sangrar
E precisas de algo especial
Sim, precisas de algo especial, é verdade
Precisas de um comboio expresso no rasto de um tornado
Para te disparar para algures e te disparar de volta para cá
De um vento ciclónico numa locomotiva a uivar
Que desde sempre tenha rugido e trovejado
Que te conheça cem vezes as angústias
Precisas de uma camioneta de longas viagens que não se intimide com corridas
Que não se ria do teu aspecto
Da tua voz ou do teu rosto
E que indiferente às apostas do jogo anotadas
Rode muito depois de passar qualquer euforia de chicletes
Precisas de algo que abra nova porta
Que te mostre algo que antes nunca viste
Mas à qual não ligaste cem vezes ou mais
Precisas de algo que te abra os olhos
Precisas de algo que deixe bem assente
Que tu tens uma coisa que mais ninguém tem
Esse sítio onde estás, esse espaço que ocupas
Que o mundo não te deitou abaixo
Que não te deu uma sova
Não pode dar contigo em doido por muitas
Vezes que leves pontapés
Precisas de algo especial, lá isso é verdade
Precisas de algo especial para te dar esperança
Mas a esperança é só uma palavra
Que talvez tenhas dito e talvez ouvido
Nalgum canto ventoso depois de uma ampla curva

Mas é disso que precisas, pá, e muito
E o teu problema é que o sabes muito bem
Porque procuras e começas a arrepiar-te

Porque não o encontras numa nota de dólar
E não está na prateleira das lojas em cadeia
E não está no mapa das estradas de um miúdo rico
E não está na república estudantil de um miúdo gordo
E não é feito de nenhum gérmen de trigo de Hollywood
E não está nesse palco semi-escurecido
Com esse comediante mediano lá plantado
Que fala pelos cotovelos e te leva o dinheiro
E tu achas engraçado

Não, não o encontras em nenhum clube nocturno ou de regatas
E não está nos assentos de um clube gastronómico
E certo e sabido, irás dizer
Que não importa com que força esfregues
Não o vais encontrar nem no teu bilhete rasgado
Não, não está nos boatos que as pessoas te contam
E não está na pomada das borbulhas que essa gente te vende
E não está em nenhuma casa de cartão
Nem enfiada pela blusa abaixo de nenhuma estrela de cinema
E não a encontras no campo de golfe
E os contos folclóricos do Tio Remus não te podem dizer, nem o Pai Natal
Não está no penteado cheio de laca nem nas roupas de algodão doce
E não está nos manequins das lojas de bricabraque nem nos rufias da chiclete
E não está nos ruídos de guloseima das vozes do bolo de chocolate
Que vêm bater e insistir no embrulho natalício
A dizer, não sou bonito, não sou giro e olha para a minha pele
Olha para a minha pele a brilhar, olha para a minha pele a reluzir
Olha para a minha pele a rir, olha para a minha pele a chorar
Quando nem pressentes se têm entranhas
Estas pessoas tão giras com as suas fitas e laços
Não, nem agora nem noutro dia qualquer
O encontrarás na escadaria de papier mâché
E lá dentro, essas pessoas feitas de melaço
Dia sim, dia não, compram novo par de óculos escuros
E não está nos generais de cinquenta estrelas nem nos falsos malucos
Que te denunciavam por um décimo de tostão
Que respiram e arrotam e dobram e partem
E antes que consigas contar até dez
O fazem outra vez, mas desta, nas tuas costas
Meu amigo

Os que passam e negoceiam e giram e rodopiam
E fazem joguinhos uns com os outros no seu mundo de caixa de areia no recreio
E também não o encontras nos tolos sem talento
Que andam por aí, galantes
E fazem regras para os que têm talento
E não está nos que não têm talento mas acham que o têm
E pensam que te enganam
Os que saltam para a coisa em voga
Só por um bocado porque está na moda
Para se divertirem, e saltam fora depressa
E fazem muito dinheiro e engatam muitas gajas por aí
E gritas a ti mesmo e atiras o chapéu ao chão
E dizes, “Cristo, tenho de ser assim
Ninguém aqui sabe onde eu paro
Ninguém aqui sabe o que eu sinto
Deus Todo-Poderoso
ESTA TRALHA NÃO É VERDADEIRA

Mas sabes que não é o teu jogo nem sequer a tua corrida
Não consegues ouvir o teu nome ou ver a tua cara
Tens de procurar noutro lugar
E onde procuras esta esperança que tanto queres
Onde procuras esta lamparina que arde
Onde procuras este poço de petróleo a jorrar
Onde procuras esta vela que brilha
Onde procuras esta esperança que sabes que está lá
E por aí, algures
E os teus pés só podem percorrer dois tipos de estradas
Os teus olhos, espreitar por dois tipos de janelas
O teu nariz só cheira dois tipos de corredores
Podes tocar e torcer
E rodar dois tipos de puxadores
Podes ir à igreja da tua escolha
Ou podes ir ao Brooklyn State Hospital
Encontrarás Deus na igreja da tua escolha
Encontrarás Woody Guthrie no Brooklyn State Hospital

E embora seja só a minha opinião
Posso estar certo ou não
Encontrarás ambos
No Grand Canyon
Ao pôr do sol.

Bob Dylan, Town Hall, Nova Iorque, 12 de Abril de 1963.
Tradução: David Furtado

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