A modelo desconhecida de John William Waterhouse

Waterhouse utilizou várias modelos para os seus quadros, que retratam a mitologia, a literatura, a História e femmes fatales com uma expressividade invulgar, cheia de mistério. O pintor era, ele próprio, um enigma. Há modelos cujas feições podemos identificar em vários quadros, menos uma.

Circe Offering the Cup to Ulysses (1891).
Circe Offering the Cup to Ulysses (1891).

Muitos de nós já vimos as suas obras em capas de livros, posters, artwork e nem sabemos o nome do pintor. The Lady of Shalott é o exemplo mais comum. Desde o século XIX, vários estudiosos de arte conseguiram associar as modelos aos quadros, mas há um rosto misterioso que surge e nunca foi identificado.

Waterhouse usou como modelo a esposa Esther, a irmã Jessica e a meia-irmã Mary nos seus trabalhos menos importantes. Ao longo das décadas, e à medida que ia sendo reconhecido o seu génio, foram identificadas outras duas: Muriel Foster, uma das mais importantes, e Beatrice Flaxman. Os seus quadros tornaram-se mais e mais ambiciosos.

A Dama de Shalott (1888), é um dos quadros mais conhecidos de Waterhouse e uma das principais atrações da Tate Gallery em Londres.
A Dama de Shalott (1888), é um dos quadros mais conhecidos de Waterhouse e uma das principais atrações da Tate Gallery em Londres.

O artista nasceu em Roma e os seus pais ingleses eram ambos pintores. Os temas que explora parecem ter sido inspirados pela sua origem, dado que retrata com frequência a mitologia romana. Waterhouse foi a maior referência do movimento Pré-Rafaelita, iniciado em Inglaterra por Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Millais.

Os Pré-Rafaelitas surgiram em 1848, em oposição a arte académica inglesa e pretendiam seguir artistas clássicos do Renascimento com o objetivo de devolver pureza e honestidade à arte, que achavam ter-se tornado frívola, hipócrita e decorativa. Daí o nome – anterior a Rafael (1483-1520). Excluíam o convencional, estudavam a Natureza e ambicionavam atingir o pico dos mestres italianos. O formalismo estava fora de questão.

Study for Lady Clare (1900).
Study for Lady Clare (1900).

Mas os Pré-Rafaelitas, ainda que retratassem cenas inspiradas pela lenda do Rei Artur, a Divina Comédia de Dante, a religião ou o misticismo, não eram um grupo ou movimento coeso, dando origem a obras díspares, algumas delas más.

Waterhouse, especificamente, baseava-se, como os seus pares, no desenho à mão, mas há grande beleza, mistério, erotismo e poesia nos seus trabalhos. Alguns rascunhos e estudos seus são verdadeiramente extraordinários porque misturam todas as influências e atingem um efeito quase fotográfico.

Boreas study (1904).
Boreas study (1904).

Trabalhava de modo formal, em estilo geométrico mas envolvendo o quadro numa aura sonhadora e dando espaço a diversas interpretações.

De início, era uma sociedade secreta, uma irmandade, conhecida como Pre-Raphaelite Brotherhood, com a sigla PRB a distinguir as obras, pintada nalgum local da tela, que geralmente possuía cores vibrantes e uma atenção meticulosa ao detalhe. Isto e o uso da luz provocaram uma reação negativa de quase todos os críticos da época.

The Siren (1900), outra das obras-primas de Waterhouse.
The Siren (1900), outra das obras-primas de Waterhouse.

Waterhouse surgiu como um seguidor e levou o movimento até ao século XX, mas focando os quadros em femmes fatales enigmáticas, misteriosas e até ameaçadoras. Respeitado pela irmandade da qual era seguidor, foi reconhecido pelo seu génio e engenho. Aproveitou os temas, mas imbuiu as pinturas de uma qualidade sonhadora e romântica, com um estilo muito pessoal, também inspirado pelos escritores Tennyson e Keats.

Hylas and the Nymphs (study 2) de 1896. Exposto em Oxford, Inglaterra.
Hylas and the Nymphs (study 2) de 1896. Exposto em Oxford, Inglaterra.

Ao contrário dos seus confrades, era um homem sereno e não se queria impor à força. Chamaram-lhe um “realista tímido” e embora fosse influência para outros, Waterhouse “voava sozinho” como o descreveram, com uma lealdade para com a sua arte que acreditava ser a essência de si mesmo e transparece nos seus quadros, que exercem uma forte atração em quem os observa, daí que se torne intemporal. Adorava lendas e mistérios e deu às mulheres o centro do seu palco, o quadro, com uma forte sexualidade e carácter enigmático. Ainda hoje fascina pelo modo como captou literalmente o eterno feminino, sem cair no cliché.

A Female Study (1894).
A Female Study (1894).

Os seus primeiros trabalhos eram tecnicamente bons mas insípidos. Roma sempre o influenciou, com o seu sangue fervilhante e mitologia e uma arte que derivava da grega, mais fria. As ruas de Roma, o Coliseu, Pompeia, atraíam-no, tal como Nero e os seus remorsos.

Em 1883, Waterhouse casa e muda-se para Primrose Hill em Londres, onde pintou os seus quadros mais importantes. Um deles é hoje uma das atrações principais da Tate Gallery: The Lady of Shalott, exposto em 1888 pela primeira vez.

Ulisses e as sereias (1891).
Ulisses e as sereias (1891).

Então entram em cena as “damas em apuros” que Waterhouse retratou com um toque exímio em Circe oferecendo a taça a Ulisses ou Ulisses e as sereias, que rondam o navio como aves predadoras, sobressaindo o efeito ameaçador e as linhas geométricas, com uma atenção ao detalhe que dá vida à criação de Homero, evocando o mundo real onde, por vezes, acontecem eventos sobrenaturais.

A lenda de Circe interessou Waterhouse – Circe Invidiosa (1892) mostra-a a envenenar o mar em que a sua rival Cila se banhava, com ciúmes de Glauco. A modelo desconhecida é retratada como uma beleza escultural mas o quadro emana um ar de ameaça, com os azuis e verdes carregados. É a modelo-mistério.

Circe Invidiosa (1892).
Circe Invidiosa (1892).

Hylas e as Ninfas (1896) é outra obra-prima onde também surge, centrada e a terceira a contar da direita. O quadro retrata o mistério que os homens querem desvendar nas mulheres, ainda que aplicado à mitologia: Hylas abandonou Hércules para ficar com as ninfas e partilhar e descobrir o seu poder e beleza.

Hylas and the Nymphs (1896).
Hylas and the Nymphs (1896).

Ninfas encontrando a cabeça de Orfeu foi exibido em 1891. É outra obra-prima de Waterhouse e baseia-se na seguinte lenda: Eurídice foi mordida por uma cobra e morreu, sendo levada ao mundo inferior. Orfeu, seu marido, desce ao mundo inferior e convence Hades a deixar que ela volte ao mundo dos vivos. O deus permite, na condição de que o lendário músico não olhe para trás até chegar a casa, mas ele desobedece, vê a esposa, e ela volta ao Hades. Orfeu é desmembrado e lançado ao mar, onde as ninfas compassivas encontram a sua cabeça. O quadro capta o momento. A modelo-mistério é a do lado esquerdo.

Ninfas encontrando a cabeça de Orfeu (1900).
Ninfas encontrando a cabeça de Orfeu (1900).

A quarta e última pintura é também uma imagem conhecida: Circe oferecendo a taça a Ulisses (1891). A modelo foi novamente elogiada pelos críticos de arte por inspirar beleza e sedução, uma promessa de prazer associada a uma intimação ao fim iminente.

Não se sabe quem era a modelo, mas é certo que despoletou em Waterhouse uma criatividade que impulsionou o seu trabalho e talento. Talvez, um dia, se venha a saber quem foi.

David Furtado

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