Anthony Hopkins e O Silêncio dos Inocentes: “Olá, Clarice…”

Anthony Hopkins começara no teatro há 30 anos e terminava agora uma peça, M. Butterfly. Apesar de já ser conceituado, sentia alguma frustração e inquietude: O papel da sua vida ainda não chegara. Irritava-o fazer trabalhos para TV como vender os carros da Ford, embora fosse convincente.

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Hopkins era um purista quanto à representação teatral, mas os amigos achavam que o seu reconhecimento viria com um filme. Um deles disse: “Há uma raça de ator que tem a perícia, a força e o à-vontade para se sentar em aviões e andar à volta do mundo a fazer castings. Isso é um talento em si mesmo. Tony tinha tudo.”

Viajou para os EUA e participou nos encontros sociais que descreve como “a treta do costume”, porque estava aborrecido e queria fazer um filme americano. Uns meses depois, estava em Londres, quando lhe ligaram a propor dois – um golpe de sorte. Um era uma obra de relevo de Michael Cimino, outro era um thriller de Jonathan Demme. Hopkins não quis criar demasiadas expectativas e disse que nem queria ler os guiões a não ser que o negócio estivesse fechado. Para o ator, Hollywood, nessa época, era um antídoto contra a letargia.

Jonathan Demme era relativamente desconhecido, realizara Married to the Mob (Viúva… Mas Não Muito) com Michelle Pfeiffer no ano anterior. Ia agora dedicar-se a The Silence of the Lambs (O Silêncio dos Inocentes), um projeto complicado que começara com um romance, Red Dragon, de Thomas Harris, publicado em 1988 e já adaptado ao cinema com o título Manhunter, que foi um fracasso de bilheteira.

Gene Hackman interessara-se pela ideia e comprara os direitos do livro seguinte de Thomas Harris, mas ao ser nomeado para o Óscar em Mississippi Burning (Mississipi em Chamas) no papel de um vilão, achou demasiado interpretar outro, o sinistro psiquiatra canibal Dr. Hannibal Lecter. Os direitos passaram para a companhia Orion, que já produzira o filme anterior de Demme (e que iria à falência dois anos depois).

O chefe de produções da Orion, Mike Medavoy, estava muito entusiasmado com O Silêncio dos Inocentes e até já se decidira quanto aos atores: Michelle Pfeiffer seria Clarice Starling, a agente do FBI que conquista a confiança de Lecter, sendo este desempenhado por Robert Duvall.

anthony hopkins jodie foster silence of the lambs (1)Mas Jonathan Demme tinha outras ideias e argumentou que Hopkins daria um excelente Lecter. Medavoy argumentou: “John, não podes pôr um inglês [Hopkins é galês] a fazer isso. Está escrito para um americano. E precisamos de alguém que consiga ser subitamente sinistro e arrepiante.” Demme, contra-argumentou: Tinha visto O Homem Elefante e detetou potencial em Hopkins: “O que realmente conta é a capacidade de transmitir humanidade e inteligência. Lecter é traiçoeiro, e é daí que surge o terror – da distorção da humanidade e da inteligência.”

Assim, quando o ator ainda estava em cena com M. Butterfly, em Londres, o realizador Demme foi à capital britânica para jantar com Hopkins e dar-lhe o guião. Este leu-o na diagonal “para não sofrer desilusões mais tarde”, já que lhe interessava muito. As dúvidas dissiparam-se quando o ator foi a Nova Iorque fazer uma audição com Jodie Foster, a substituta de Michelle Pfeiffer, que se afastara devido ao terror contido na história. Segundo Demme, “ela não teve estômago para o lado sombrio”. Medavoy substituíra-a por Jodie Foster, que o encarou doutro modo.

jodie foster gun

“Para dizer a verdade, eu teria rastejado por cima de vidros partidos por aquele papel”, confessou a atriz. Demme também a achou uma excelente escolha: “É o primeiro papel de Jodie em que ela não tem de disfarçar a sua inteligência, em que pode ser tão esperta como a pessoa brilhante que de facto é.”

O RÉPTIL

Hopkins chegou a Nova Iorque e foi fazer jogging para o Central Park para descontrair antes da audição. Ed Lauter, que contracenara com ele em Magic (1978), ligou-lhe e disse:

“Tony, tens de fazer esta coisa do Lecter. Vai ser o teu Óscar. Já pensaste como o vais interpretar?” “Podes apostar, Ed. Ouve isto…” E então Hopkins disse com uma voz arrepiante: “Hello, Clareeece…” Lautner riu-se e recordaria mais tarde: “Ele captou aquela coisa de réptil e tornou-a em arte. Tinha todas as nuances. Sabia o que queria fazer com Lecter e eu soube que a sua altura tinha chegado, não me perguntem como.”

Anthony Hopkins explica como lhe ocorreu a voz do terrível Lecter: “Tinha de ser distanciada e desencarnada. Por isso, peguei na voz de HAL, do 2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick… fria, mecânica, precisa. Assustadora.”

anthony hopkins hannibal lecter smile

Já no escritório da Orion, na Quinta Avenida, o ator leu várias cenas com Jodie Foster, que fizeram Jonthan Demme entender que estava certo: “Meu Deus! É isso!” Até abraçou o ator, entusiasmado. Medavoy e restantes executivos da Orion levantaram-se e apertaram a mão a Hopkins e Foster. Os papéis eram deles.

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Curiosamente, Hopkins e Foster quase já tinham contracenado em 1981, 10 anos antes, em The Beethoven Street de Ken Russell, projeto que não se concretizou.

anthony hopkins jodie foster silence of the lambsEntretanto, o ator foi filmar Desperate Hours de Michael Cimino e não se deu bem com o coprotagonista, Mickey Rourke, tanto que, a certa altura, numa cena em Rourke lhe encostava uma pistola à nuca, este empregou tanta brutalidade que Hopkins perdeu as estribeiras: “Estou farto desta merda! Vou-me embora! Que arranjem outro ator.” Depois fizeram as pazes. Rourke até escreveu a Hopkins desejando que trabalhassem de novo juntos.

Depois desta filmagem tensa de mês e meio, Hopkins conduziu pela América, passando por vários Estados e ouvindo Handel, Mozart e Philip Glass no rádio do carro. Quando chegou a Pittsburgh, após a longa viagem, tinha-se transformado, segundo Jonathan Demme: “Ele apareceu como Lecter.”

anthony hopkins silence of the lambs

Em pausas da viagem, o ator lera as 120 páginas do argumento e enchera-o de anotações de grande exatidão: Qual era o aspeto de Lecter, como se vestia, caminhava, sorria, falava, ria, como penteava o cabelo, todo para trás. Os olhos, escreveu Hopkins, tinham de ser de “réptil”. Numa cena em que está na cela, anotou, “tão em forma e feroz como uma pantera enjaulada”.

anthony hopkins jodie foster cell

Leu cada frase em voz alta 250 vezes. “Só depois disso pude começar a improvisar.” Alguns destes improvisos deixaram Jodie Foster genuinamente desconcentrada, como a tirada de Lecter, quando se conhecem na cela subterrânea e o psiquiatra se aproxima e a cheira. E expele o venenoso discurso:

“Agente Starling, pensa que me pode dissecar com este bisturi embotado? É muito ambiciosa, não é? Sabe com que é que se parece, com a sua mala cara e sapatos baratos? Parece uma saloia. Uma saloia ambiciosa e bem polida, com algum bom gosto. Uma boa alimentação tornou-a mais alta, mas só deixou de ser uma branca rasca há uma geração, não foi? E esse sotaque que desesperadamente tenta ocultar: Virgínia Ocidental puro. Que faz o seu pai, querida? É mineiro de carvão? Cheira ao fumo das lanternas? Os rapazes deixavam-se atrair por si. Os apalpões maçadores e pegajosos nos bancos de trás dos carros, enquanto você só sonhava em sair dali, para onde quer que fosse, por aí acima até ao F… B… I…”

A cena impressionou Foster de tal modo que as lágrimas lhe vieram aos olhos: “Aquilo não estava no guião. Foi tão doloroso. Enquanto atriz, pensei, ‘este tipo está a gozar com o meu sotaque!’ Foi quando a fronteira entre mim e Clarice se tornou muito enevoada.”

Foster, normalmente metódica e serena, irritou-se com Hopkins, ou melhor, com o Dr. Lecter…

“Da primeira vez que ele fez aquilo, tive vontade de chorar ou de lhe dar um estalo. Fiquei mesmo perturbada. Estamos numa cena, portanto é como se sentíssemos estas coisas, mas, como atriz, ter alguém a imitar o nosso sotaque… arrasou-me. Era a coisa perfeita para Lecter fazer, já que Clarice estava a esconder o seu sotaque rural, tentando falar melhor, a fugir às suas origens, por assim dizer. E aqui está um tipo que a apanha.”

Mas a admiração era mútua. Hopkins elogiou a colega:

“Ela trabalha com muita economia. Não faz nada, mas de repente vemos-lhe os pensamentos espelhados nos olhos, como se pensasse, ‘Meu Deus, este homem é um animal, uma besta’. Ela não tem de o representar, acho que é esse o seu grande trunfo como atriz, revela-se-lhe na cara.”

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HOPKINS ASSUSTA A EQUIPA

O trabalho de Hopkins foi tão eficaz que até Jodie Foster admitiu ter medo dele no set, bem como a equipa técnica, que o evitava quando o ator estava vestido como Lecter. Hopkins, pelo contrário, divertia-se com esta impressão. No início de cada dia, ia para a cela, arrumava-a, punha gel no cabelo e cumprimentava os operadores de câmara e técnicos com um satírico, “hello, boooooys…” As brincadeiras de Hopkins causavam o caos. Um técnico até comentou que “a melhor parte era quando o fechavam na cela. Não nos sentíamos muito confortáveis com ele a vaguear por ali.”

O realizador Jonathan Demme observa a atuação de Hopkins durante as filmagens.
O realizador Jonathan Demme observa a atuação de Hopkins durante as filmagens.

A filmagem correu bem, segundo Demme: “Foi das experiências mais agradáveis que tive. Sem discussões, crises motivadas pelo guião, uma boa química entre todos.” Hopkins gostou especialmente de Foster. “A Jodie trabalha como eu. Aprende as falas, faz o seu trabalho e vai para casa.”

A obra conseguiu captar uma essência do terror difícil de descrever, tal como Psycho. Era um filme com dinâmica e, como disse um crítico, “uma certa magia negra”. Toda a crítica ficou desconcertada com o desempenho, nunca tinham visto algo parecido. Possuía a originalidade de Anthony Perkins em Psycho. Foi desde logo encarado como um trabalho de exceção e perguntaram ao ator como o fizera. Anthony Hopkins respondeu:

“Não sei… se vão desempenhar um personagem mau e perverso, têm de o interpretar do modo mais sedutor possível. Acho que me sinto atraído por monstros. Não gosto da crueldade, mas talvez seja melhor aceitar o lado negro das nossas naturezas do que o reprimir.”

– Tinha tanto medo de olhar lá para dentro, mas tinha de o fazer.
– O que viu, Clarice? O que viu?
– Cordeiros.

O filme foi um enorme sucesso de crítica e público, embora fosse ignorado pela imprensa mais séria (estúpida e snobe, acrescente-se) por ser um filme de “terror”. Foi tão bem-sucedido, de facto, que só menciono dois países onde não o foi: Na Grécia e no Japão. Vários jornais, contudo, acharam que tinham ido longe demais, com o “canibalismo e a misoginia”. Mas foi um sucesso na mesma, aliás, sem precedentes para um psycho-thriller. Os jornalistas atacaram vários aspetos, mas a performance de Hopkins foi consensual.

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O Silêncio dos Inocentes já desiludira nos Globos de Ouro, e o ator nem sequer pensava que tivesse hipótese de ganhar o Óscar, por competir com Robert De Niro, Nick Nolte, Robin Williams e Warren Beatty. Muitos disseram que era a competição mais cerrada em 10 anos.

O ator diz que, quando Kathy Bates entrou em palco e anunciou as nomeações, teve um estranho pressentimento de que ia ganhar. Ainda assim, foram tantos os aplausos que Hopkins disse, emocionado: Primeiro quero dizer olá à minha mãe. Ela está no País de Gales a ver isto pela TV. Faz hoje 11 anos que o meu pai faleceu, por isso, talvez ele tenha algo a ver com tudo isto…”

No final, Lecter foge e telefona a Clarice:

– Não tenho planos para a visitar, Clarice. O mundo é mais interessante consigo cá. Por isso veja se tem o cuidado de me retribuir a cortesia.
– Sabe que não lhe posso prometer isso.
– Gostava que pudéssemos falar mais mas… tenho um velho amigo para o jantar. Adeus.
– Dr. Lecter?…

David Furtado

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