Chernobyl, 30 anos depois: O aviso que o mundo não ouviu

O mais grave acidente da história da energia nuclear ocorreu em 1986, em Chernobyl. Mikhail Gorbachev admitiu que, pela primeira vez, se enfrentava esta energia a um nível descontrolado. As consequências perduram, mas os governos investem. 30 anos não bastaram para uma reflexão. Incluo aqui as declarações de Susana Fonseca, da Quercus, retiradas de um artigo que escrevi em 2008 e que, infelizmente, são atuais.

chernobyl 1 (3)

A Central Nuclear de Chernobyl situava-se em Pripyat, na Ucrânia, 18 km a noroeste da cidade de Chernobyl e 110 km a norte de Kiev. Era composta por quatro reatores do tipo RBMK-1000, cada um capaz de produzir um gigawatt de energia elétrica. A construção começou na década de 70, com o reator nº 1 (1977), seguido pelo nº 2 (1978), o nº 3 (1981) e o nº 4 (1983).

Embora a sequência exata dos eventos de 25 e 26 de abril ainda seja nebulosa, sabe-se que o Reator da Unidade 4 ia ser desligado para uma manutenção de rotina, decidindo-se que seria oportuno testar a capacidade do gerador. À 1:23, o teste começou, mas a situação instável do reator não foi detetada no painel de controlo. Os operadores acionaram a Defesa Rápida de Emergência 5, ordenando uma inserção total de todas as hastes de controlo. Devido à baixa velocidade do mecanismo de inserção das hastes, a paragem provocou o aumento da velocidade da reação, aumentando a potência para cerca de 30 gigawatts, 10 vezes acima do normal.

A sala de controlo antes do acidente.
A sala de controlo antes do acidente.

A temperatura subiu para mais de dois mil graus, as hastes derreteram, e a pressão do vapor aumentou rapidamente, causando uma violenta explosão. A cobertura de proteção, de mil toneladas, não resistiu e os tubos de arrefecimento romperam, abrindo um buraco no teto. A entrada de oxigénio e a alta temperatura do combustível provocaram um incêndio.

Para reduzir custos, e devido ao seu grande tamanho, o reator era dotado de contenção parcial, o que permitiu a fuga de matérias radioativas para a atmosfera. A maior parte da radiação foi emitida nos primeiros 10 dias, entre 26 de abril e 4 de maio de 1986. A chuva frequente fez com que a radiação fosse distribuída local e regionalmente. 31 pessoas morreram no acidente.

mikhail_gorbachevMikhail Gorbachev era líder da União Soviética há apenas três meses, quando recebeu um telefonema às 5:00 de sábado, 26 de abril de 1986. Foi informado de que “um grave acidente, seguido de um incêndio, acabara de ocorrer no Reator Quatro da Central Nuclear de Chernobyl”, relembra. Garantiram-lhe que o reator estava intacto.

“Nesses primeiros momentos, até à noite de 26 de abril, não percebemos que o reator realmente explodira, provocando uma gigantesca descarga de matéria radioativa para a atmosfera. Ninguém fazia ideia de que enfrentávamos um gravíssimo desastre nuclear”, recordou Gorbachev em 2006.

A tentativa de controlo de danos após a catástrofe.
A tentativa de controlo de danos após a catástrofe.

Foi o que o governo soviético tentou esconder da comunidade mundial. No entanto, quando altos níveis de radiação foram detetados noutros países, despoletando uma nuvem de radioatividade que atingiu a Europa Oriental, a Escandinávia e o Reino Unido, Gorbachev admitiu:

“Todos sabem que aconteceu um inacreditável erro – o acidente na Central Nuclear de Chernobyl. Afetou duramente o povo soviético e chocou a comunidade internacional. Pela primeira vez, confrontamos a força verdadeira da energia nuclear, fora de controlo.”

INCERTEZAS PERMANECEM

A TV soviética anuncia o desastre.
A TV soviética anuncia o desastre.

Grandes áreas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram fortemente contaminadas, resultando na evacuação de aproximadamente 200 mil pessoas. Cerca de 60% da radioatividade afetou território bielorrusso.

Existem duas teorias oficiais e contraditórias sobre a causa da catástrofe. A primeira, de 1986, atribuiu as culpas aos operadores da Central. A segunda, de 1991, imputou o acidente a defeitos no desenho do reator, especificamente nas hastes de controlo. Ambas foram apoiadas por diferentes grupos, incluindo os responsáveis pelo projeto dos reatores, o pessoal da Central e o Governo. Peritos independentes acreditaram mais tarde que nenhuma das teorias estava completamente certa. A 12 de dezembro de 2000, a Central foi desativada.

Uma imagem captada durante os sete meses de descontaminação.
Uma imagem captada durante os sete meses de descontaminação.

“A humanidade enfrenta hoje um desafio tão grande que faz a Guerra Fria parecer um vestígio incongruente do passado. Temos o potencial de deixar um terrível legado às gerações vindouras”, reavaliou Gorbachev há cerca de 10 anos.

QUATRO MIL AINDA MORRERÃO

É difícil determinar com precisão o número de mortos causados pelo desastre de Chernobyl, devido às mortes esperadas por cancro, que ainda não ocorreram, além de serem difíceis de atribuir especificamente ao acidente. Em 2005, um relatório da ONU atribuiu 56 mortes até 2005; 47 trabalhadores acidentados e nove crianças com cancro da tiroide, estimando que cerca de quatro mil pessoas ainda viessem a morrer de doenças relacionadas com o acidente. O desastre aumentou as preocupações com a segurança da indústria nuclear soviética, reduzindo a sua expansão por muitos anos. A Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia foram suportando um contínuo e substancial custo de descontaminação e cuidados de saúde devido ao acidente.

A MAIOR CENTRAL NUCLEAR EM MAIS DE UMA DÉCADA

Apesar disto, os governos não quiseram e não querem saber. Em 2005, começou a construção do maior reator nuclear do mundo em Olkiluoto, na Finlândia. Em mais de uma década, foi a primeira central nuclear projetada num país desenvolvido.

Desde o início, o projeto foi perturbado por problemas de qualidade, atrasos e custos acrescidos. 11 anos depois, o orçamento previsto já é uma miragem: Custou 8.5 biliões de euros, quase três vezes mais do que a estimativa inicial de 3 biliões. Em janeiro deste ano, começaram os testes dos sistemas automáticos e operativos.

Em 2007, seis ativistas da Greenpeace subiram a esta grua de 100 metros de altura, na Central de Olkiluoto, Finlândia, para chamar a atenção do mundo contra a "loucura nuclear".
Em 2007, seis ativistas da Greenpeace subiram a esta grua de 100 metros de altura, na Central de Olkiluoto, Finlândia, para chamar a atenção do mundo contra a “loucura nuclear”.

CRIANÇAS SOFREM EFEITOS DA RADIAÇÃO

E quando se “comemora” o 30º aniversário do maior desastre nuclear de sempre, a energia nuclear continua a ser uma forte aposta dos Estados europeus. Em 2008, um estudo revelou que existe um acréscimo de 120 por cento de leucemia nas crianças que habitam junto às centrais nucleares alemãs.

O pai da bomba atómica, J. Robert Oppenheimer, ao ver o resultado da sua invenção, terá dito: “Tornei-me na morte, no destruidor de mundos.” Uma das perguntas colocadas numa canção de Sting, datada de 1985, é a seguinte: “Como posso proteger o meu filho do brinquedo mortífero de Oppenheimer?”

A tarefa é cada vez mais difícil. O estudo alemão apurou que as crianças com menos de cinco anos têm um risco acrescido de 60 por cento de contrair cancro e 120 por cento de contrair leucemia, se viverem num raio de cinco km de uma central nuclear. A análise englobou 16 locais onde se situam centrais nucleares alemãs, ao longo de um período de 23 anos, entre 1980 e 2003.

A floresta em redor de Chernobyl.
A floresta em redor de Chernobyl.

Mas o problema é mundial, engloba mais de 100 países, incluindo os EUA, Canadá, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão, em que foram detetados estes perigos de leucemia infantil junto às “nukes”, como vulgarmente são chamadas estas centrais. Ao longo de muitos anos, foi verificado um nível acrescido de mortalidade nas proximidades das centrais. 30 anos depois de Chernobyl, a energia nuclear é um negócio chorudo para empresas e governos, à custa de muitas vidas.

Um lobo na desolação em redor de Chernobyl. (Foto de Sergey Gashchak.)
Um lobo na desolação em redor de Chernobyl. (Foto de Sergey Gashchak.)

MONOPÓLIO DO SENSO COMUM

A canção de Sting, «Russians», mencionava o confronto EUA/União Soviética. Embora tenha sido editada no período da Guerra Fria e muitas vezes mal interpretada, refere: “Não há um monopólio do senso comum em ambos os lados da barreira política. Partilhamos a mesma biologia, independentemente da ideologia.” À distância de 31 anos, a mensagem continua atual, independentemente dos continentes, dos Estados ou dos países envolvidos.

O que resta do parque de diversões de Pripyat: Uma cidade fantasma.
O que resta do parque de diversões de Pripyat: Uma cidade fantasma.

Em 2008, acerca da efeméride de Chernobyl, entrevistei a então vice-presidente (e mais tarde presidente) da Quercus, Susana Fonseca. As suas declarações são tristemente atuais: “É motivo para relembrar, não para comemorar. A Quercus considera-o um assunto muito importante, e as suas consequências ainda são estudadas. Mas, apesar do que aconteceu em Chernobyl, estamos a assistir a um aumento de quotas nucleares por parte dos governos europeus.” Susana Fonseca referiu o reator finlandês, então em construção, apontando o “desastre financeiro” em que já se estava a tornar. “A Finlândia é um país de rigor, e a construção está a derrapar a nível de tempo e custos.”

Susana Fonseca da Quercus.
Susana Fonseca da Quercus.

A responsável da organização ambientalista disse que “se os governos querem reduzir as emissões de CO2, não se pode tentar amenizar a questão invocando as reservas de urânio, o que há muito se tenta fazer. Estas reservas têm uma duração prevista entre os 65 e os 70 anos. O petróleo também tem um prazo, embora isso seja segredo de Estado. Falamos de um investimento numa energia não sustentável. Temos de apostar na energia renovável e na poupança. A culpa não é só dos governos, não se pode desresponsabilizar os cidadãos que não sabem utilizar devidamente a energia.”

Para Susana Fonseca, “estamos a lidar com aspetos obscuros da radioatividade. Ainda hoje há divergência de opiniões relativamente às causas do desastre, os testemunhos dos operadores que trataram da limpeza não condizem com as conclusões dos estudos. Penso que Chernobyl devia servir de aviso, não só a nível ambiental mas também económico. Apostamos em energias esgotáveis, como o carvão – ainda que dure, pensa-se, cerca de 200 anos -, enquanto outras formas são mais sustentáveis, como os painéis solares. Chernobyl serve para refletirmos um pouco sobre tudo isto”, concluiu Susana Fonseca.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s