Edgar Allan Poe e o seu famoso poema: Disse o Corvo… “Nunca mais”

Poe recebeu nove dólares por ter escrito um dos poemas mais conhecidos de sempre, «The Raven», publicado em 1845. Faleceu com 40 anos. Donde veio «O Corvo», que impacto teve no público e no seu autor? De que fala? Ou melhor, o que “diz”? Concluo o artigo com a tradução de Fernando Pessoa, mas adianto que a trama é mais ou menos o seguinte: “Conta a história de Lenore, o amor desaparecido e ele está sozinho no quarto, a pensar, ‘nunca mais verei Lenore, ela desapareceu’ e alguém bate. E é o corvo a recordar-lhe Lenore. E ele não quer saber.”

Esta é uma interpretação rápida de Lou Reed, que considerava Edgar Allan Poe, “em certos aspetos, um Shakespeare americano”. Ainda citando Reed:

“Acontecem coisas muito estranhas que ninguém consegue explicar. E Poe ‘vive’ aí. É onde ele constrói o seu castelo. A linguagem é tão bela. E todos nós, nalguma fase das nossas vidas, pensámos de uma forma que pode ser considerada talvez um pouco destrutiva. De vez em quando, podem tropeçar e cair, e se alguma vez tropeçaram e caíram, Edgar Allan Poe é para vós. Porque se apercebem do universo de anjos caídos.”

poe the raven capa

No início de 1845, Poe encontrou um jornalista amigo numa rua de Nova Iorque e confessou-lhe:

— Acabei de escrever o maior poema alguma vez feito.
— A sério? Que grande proeza.
— Queres ouvi-lo?
— Claro.

Poe recitou-o. Tinha-o escrito durante um período de retiro na quinta de Brennan, e finalizou-o num apartamento em Greenwich Street. Publicado a 29 de janeiro no Evening Mirror, foi rapidamente reeditado noutros jornais de Nova Iorque, tornando-se uma sensação.

Segundo uma jovem vizinha do escritor em Filadélfia, Poe era um homem reservado e austero, que vivia num lar pobre com a esposa e a sogra, Mrs. Clemm. “Pensávamos que era devido à pobreza deles e à grande ânsia dele pelo sucesso. Só depois de «O Corvo» ser publicado é que o encarámos como uma figura literária.”

Nesta altura, Poe já começara a escrever o seu poema mais famoso, que demorou muito a concretizar. O escritor disse que foi necessária uma dose de cálculo e experiências técnicas que teriam cansado Milton e Sófocles juntos. De início, queria que a ave fosse uma coruja.

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of someone gently rapping, rapping at my chamber door.
“Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door—
Only this and nothing more.

«The Raven» é uma fantasia, um lamento, um canto lúgubre e um hino. A sua cadência é tão melodiosa que traduzi-lo é praticamente impossível. Em Portugal, Fernando Pessoa fez a sua versão. No Brasil, foi Machado de Assis e, em França, Mallarmé e Baudelaire; os dois últimos como forma de homenagem ao poeta americano. É curioso, já que em vários aspetos, Poe foi precursor do romantismo europeu e pioneiro do simbolismo e do surrealismo.

O Corvo (1935) de Lew Landers, com Boris Karloff e Bela Lugosi.
O Corvo (1935) de Lew Landers, com Boris Karloff e Bela Lugosi.

«O Corvo» continua a fascinar leitores porque é uma história em que a ave assume a forma de uma lembrança que se quer afastar, a incapacidade de fugir a pensamentos obsessivos. Com uma cadência agoirenta e uma métrica medida ao milímetro, o conteúdo nunca é ofuscado pela forma.

E a forma é coesa, como defendia Poe, mas com espaço para a expressividade, coisa que os poetas sem talento não entendem ou empregam de modo a confundir. Este ilusionismo é feito de propósito com o intuito de receber elogios de leitores que nada entendem, pois não é escrito para ser entendido. Poe resumiu assim tal questão: “A concisão exagerada confunde-se com mania epigramática.”

A música na poesia era sempre essencial para Poe, como afirmou no ensaio «Filosofia da Composição»: “O que chamamos de longo poema, não é mais, na realidade, que uma sucessão de poemas curtos, ou seja, de efeitos poéticos breves. É supérfluo afirmar-se que um poema só é digno desse nome quando eleva a alma e lhe produz uma intensa excitação. E, por imperativo psíquico, todas as excitações intensas são de curta duração.”

Edgar Allan Poe põe o princípio em prática em «The Bells», a cadência dos sinos, a musicalidade das palavras que não têm de ser obscuras. Aliás, repetidas tornam-se fascinantes:

Yet, the ear distinctly tells,
             In the jangling,
             And the wrangling,
       How the danger sinks and swells,
By the sinking or the swelling in the anger of the bells—
                  Of the bells—
      Of the bells, bells, bells, bells,
             Bells, bells, bells—
   In the clamour and the clangour of the bells!

Em «O Corvo» há outro “refrão”, o “Nevermore” ou “Nunca mais”. Numa noite, o narrador pensa em Lenore, o amor perdido, e é visitado por um agoirento corvo que lhe intensifica a solidão e tristeza. Um crítico chamou-lhe “o desespero a meditar sobre a sabedoria”. Poe descreveu a ave como o evocar de uma “fúnebre e interminável recordação”.

Gustave Doré ilustrou «O Corvo», recebendo 30.000 francos pelo trabalho em 1883.
Gustave Doré ilustrou «O Corvo», recebendo 30.000 francos pelo trabalho em 1883.

O impacto foi extraordinário; o New York Express disse que superava “tudo o que fora feito, até pelos melhores poetas da Era”. Para o Richmond Examiner, o poema tomara de assalto todo o mundo literário. As suas 10 reedições valeram a Poe diversas paródias: Começou a ser conhecido como o «Corvo», e até as crianças corriam atrás do escritor na rua, gritando, “olhem o Corvo!” E Poe, que sempre teve uma aura sombria, vestido de negro, agitava as vestes, respondendo à brincadeira dos miúdos.  

O poema tornou-se tão popular que toda a gente dizia “Nevermore”, incluindo atores que incluíam a expressão nos diálogos. (Quando Lou Reed compôs o álbum The Raven pediu ao ator Willem Dafoe para recitar a sua versão reescrita do poema:)

Nos meios literários de Nova Iorque, Poe era requisitado para o recitar ao seu modo tristonho, depois de atenuar a luz dos candeeiros até a sala ficar quase nas trevas. Quem o ouvia tinha até “medo de respirar até que ele terminasse, tão maravilhoso era o seu poder, não fosse o encanto quebrar-se”, como referiu um dos presentes.

Todos queriam conhecer Edgar Allan Poe, embora poucos tivessem conseguido conhecê-lo bem, em parte devido à sua reserva. Nos salões de várias senhoras do meio literário, Poe fazia a sua aparição. Assim foi, em casa de Miss Lynch em Waverly Place e Mrs. Smith de Greenwich Street.

O Corvo e Poe. Artwork de Paul Green.
O Corvo e Poe. Artwork de Paul Green.

Muito bem vestido e com os modos impecáveis de um cavalheiro, o escritor nunca aparecia embriagado. Era polido, fascinante, sereno e despretensioso. A esposa Virginia acompanhava-o a este tipo de tertúlias, sempre demonstrando grande admiração pelo génio do marido, praticamente idolatrando-o. Aliás, o escritor causava mais impressão no sexo feminino, perante a intolerância dos homens. As mulheres ficavam fascinadas por ele. Mrs. Smith escreveu uma conversa num diário, que indicia o modo de ser de Poe nestas ocasiões:

— Ah, Mr. Poe, este país não permite uma arena para os que vivem para sonhar.
— A senhora sonha? Quando dorme, quero dizer?
— Oh, sim, e sonho perfeitamente só que os meus sonhos são acerca do desconhecido, do espiritual.
— Eu sabia. Soube pelos seus olhos.

O SONHO DENTRO DO SONHO

Chegara a fama que o escritor sempre perseguira, e que mais pareceu um sonho dentro de um sonho, citando outro poema seu — nunca é bem o que se imagina. Poe apreciava as atenções, embora se mostrasse irónico quanto a «O Corvo». Numa carta a Frederick Thomas, escreveu:

“«O Corvo» ‘correu’ muito, Thomas, mas eu escrevi-o com o objetivo explícito de correr… tal como fiz no «Escaravelho de Ouro», sabes. Mas o pássaro bateu o escaravelho.” A um amigo disse que queria ver o quanto “poderia roçar o absurdo sem cruzar a fronteira”.

Em «Filosofia da Composição», explicou os princípios da sua arte e examinou «The Raven» verso a verso, analisando os efeitos necessários e o tom apropriado de tristeza, equiparando a escrita poética à resolução objetiva de um problema matemático. Poe concluía que “a morte de uma mulher bonita é, sem dúvida, o tópico mais poético do mundo”, mas sem explicar porquê. A abordagem fria contrasta com outros relatos, como o de um amigo que disse que recitar o poema “lhe incendiava o cérebro”. Uma dualidade presente em vários personagens que criou.

Ilustração de Gustave Doré.
Ilustração de Gustave Doré.

O sucesso fez com que o escritor passasse do Evening Mirror para o rival Broadway Journal. Além de publicar de novo alguns dos seus poemas e contos mais antigos, Poe continuou os ataques ferozes a figuras do mundo literário, como o proeminente Henry Wadsworth Longfellow. Numa crítica a The Waif, Poe acusou-o de plagiador, imitador determinado, apontando que o seu “plágio de Tennyson” era “demasiado palpável para não se detetar”; “pertencia à “classe mais bárbara do roubo literário”. Longfellow nunca respondeu a estes e outros ataques em público, viria apenas a comentar que tinham sido provocados pela “irritação de uma natureza sensível levada ao rubro por qualquer noção indefinida de mal”. O visado parecia reconhecer a vida difícil (trágica, melhor dizendo) que Poe tivera.

Mas, na redação do jornal, o escritor era um homem sereno e educado, que, quando em companhia de pessoas alegres, se tornava também ele divertido, a julgar pelo que disse o office boy Alexander Crane. Chegava às nove todas as manhãs e trabalhava, constante e metodicamente, até às três ou quatro da tarde.

Celebrado em selo nos EUA, país que o reduziu a esse tamanho quando era vivo, ironicamente.
Celebrado em selo nos EUA, país que o reduziu a esse tamanho quando era vivo, ironicamente.

Nem sempre foi assim, porque o sucesso de «The Raven» espicaçou a sua natureza contraditória e atormentada. Quando uma das suas recitações públicas foi cancelada devido ao mau tempo, Poe apareceu na manhã seguinte no jornal, apoiado por um amigo e embriagado. O hábito de beber toda a noite provocou alguns ataques jocosos e rasteiros, típicos do mundo jornalístico — uma revista nova-iorquina publicou uma lista fictícia de livros a editar, e entre eles constava “«Um tratado sobre a Água Pura, os seus usos e abusos» por Edgar A. Poe”.

O álcool era, para Poe, um grave problema — chegava a delirar, a imaginar conspirações contra ele, e quase agrediu fisicamente um editor rival em Nassau Street, sendo impedido por Thomas Chivers. A sogra disse a Chivers, “acredito que o pobre rapaz é louco!”

Estes episódios eram despoletados pela doença da esposa que sofria de tísica. Poe desesperava ao vê-la consumir-se a pouco e pouco. Virginia, por seu turno, também sofria ao ver o marido naquele estado e encontrava-se demasiado frágil para lidar com tais comportamentos. Um colega notou que havia “o Poe, com a sua serenidade, higiene pessoal imaculada e sensibilidade, continuamente a descer ao nível da mais baixa canalhice através de uma combinação de embriaguez moral, mental e física”.

Outra ilustração de Doré.
Outra ilustração de Doré.

«The Imp of the Perverse», ou «O Duende dos Perversos» também publicado em 1845, analisava a capacidade humana de agir de modo contrário ao que deveria, simplesmente porque não o deve fazer. Este “duende” que refere o título é algo que impulsiona o Homem a praticar o proibido, a ir contra os instintos de auto-estima e auto-preservação, mesmo consciente de tais atos.

Ainda no verão de 1845 é publicado um volume de 12 contos de Edgar Allan Poe, incluindo os clássicos «Os Crimes da Rua Morgue» e «O Gato Negro», uma tentativa de aproveitar o sucesso de «O Corvo». Foi o livro mais bem-sucedido da carreira de Poe, enquanto vivo, e vendeu 1.500 exemplares, pelo que o escritor recebeu pouco mais de… 100 dólares de royalties. E «O Corvo» rendera-lhe… nove dólares. Mais tarde, as reedições do poema, que vendeu quase 1.500 cópias em cinco meses, renderam 120 dólares, mas não recebeu nada pois já tinha pedido um empréstimo de 135. Chega a lembrar Van Gogh, sobre o qual já aqui escrevi, e que tinha telas suas a tapar buracos em redes de galinheiros quando faleceu.

TRIBUTOS DE OUTROS MESTRES

Ilustração de John Tenniel (1858), artista mais conhecido pelo trabalho em Alice no País das Maravilhas.
Ilustração de John Tenniel (1858), artista mais conhecido pelo trabalho em Alice no País das Maravilhas.

E também Poe seguiu esse tortuoso caminho, já que, nos anos depois da sua morte, em Inglaterra e França, se tornou célebre e reconhecido: A enraizada tradição norte-americana de se recusar a admitir o mérito dos seus artistas enquanto vivos. Verlaine e Rimbaud foram profundamente influenciados por Poe, e Baudelaire confessou que, ao ler os seus poemas e contos, não encontrou apenas “certos temas sobre os quais sonhara”. “Encontrei frases nas quais pensara, e que tinham sido escritas por ele 20 anos antes.”  

Rémy de Gourmont comentou que Poe pertencia mais à literatura francesa do que à americana. O filósofo e escritor Paul Valéry disse a André Gide que “Poe é o único escritor impecável. Ele nunca está errado.” Tennyson classificou-o como “o génio mais original que a América produziu”, Thomas Hardy achou-o “o primeiro a compreender totalmente as possibilidades da língua inglesa”. Yeats disse, “é certamente o maior dos poetas americanos”.

E a sua influência vai ainda mais além. De Júlio Verne a H.G. Wells, passando por Conan Doyle, que seguiu os passos pioneiros de Poe no policial. Nietzsche e Kafka admiravam-no e identificaram-se com ele. Era admirado por Dostoiévski, Joseph Conrad, James Joyce… e por um vasto universo de quem tropeçou e caiu e se apercebeu… do universo de anjos caídos.

David Furtado

O CORVO (Tradução de Fernando Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigos, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

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