Meiko Kaji – A Prisioneira Escorpião: Justiceira da Terra do Sol Nascente

Em 1972, surgiu Female Prisoner #701: Scorpion (Joshû 701-gô: Sasori), um grande sucesso e um dos filmes que melhor demonstra o carisma de Meiko Kaji. A atriz interpreta uma mulher que se apaixona por um polícia, é traída, aprisionada e foge para obter vingança. Se isto soa familiar é porque Tarantino “homenageou” essencialmente tudo em Kill Bill, indo também buscar a música e a estrutura do argumento a outro filme de Kaji, a obra-prima Lady Snowblood (Shurayukihime) de 1973. Os filmes de “Sasori” ou Prisioneira Escorpião, traduzindo livremente para português, podem ser considerados uma quadrilogia, e é nesses e na sua protagonista, Meiko Kaji, que se foca este artigo.

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Estes filmes de Meiko Kaji foram comercializados mundialmente em DVD com o chamariz “a inspiração de Kill Bill“, levando a que o grande público se interessasse de novo por eles. A atriz obteve também grandes atenções, sendo convidada para trabalhar no ocidente, mas recusou por não achar que pudesse representar adequadamente noutro idioma que não fosse o japonês.

Meiko Kaji, nome artístico de Masako Ota, começou a carreira nos estúdios Nikkatsu em 1965. Nascida a 24 de março de 1947, e apropriadamente do signo do Dragão, era então uma adolescente e fazia pequenos papéis, embora já se notasse nela uma característica destemida que se tornaria fulcral na série de filmes Female Scorpion. Usa pela primeira vez o nome Meiko Kaji no filme de gangsters 100 Gamblers (Bakuto hyakunin).

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Também foi redescoberta como cantora, já que o tema «Urami Bushi» ou «Canção do Rancor», cantado por ela, surge em Kill Bill: Vol. 2. Outra canção, «Shura no Hana» ou «Flor da Carnificina», é o tema de Lady Snowblood e foi usada em Kill Bill. Kaji começou a cantar quando entrou para o cinema, visto que era costume, na época, especialmente nos estúdios Nikkatsu, as protagonistas cantarem os temas dos filmes:

“Isso não significa que eu tenha estado propriamente ativa como cantora pop”, explica a atriz. “Gravei sete ou oito álbuns. Mais tarde, quando fui para a Toei, duas canções tiveram sucesso e uma vendeu um milhão de cópias [«Urami Bushi»], portanto as pessoas deduziram que eu tinha uma carreira musical anteriormente, quando fazia filmes na Nikkatsu.”

Blind Woman's Curse (1970).
Blind Woman’s Curse (1970).

O seu primeiro papel principal foi em Blind Woman’s Curse (Kaidan nobori ryû) de Teruo Ishii, em 1970, em que a sua personagem é alvo de vingança de uma lutadora cega (Hoki Tokuda), a quem tirou a visão num combate. O tema do ajuste de contas é muito explorado neste tipo de obras. É também um filme de ação e terror que se tornou um clássico. Kaji não se recorda dos elementos de horror na história, as filmagens deixaram-lhe outras marcas:

“Durante um dos combates de espada, é suposto que o gato negro salte sobre mim por detrás, e ele não tinha as unhas cortadas. Fiquei bastante arranhada e com cicatrizes. Portanto, pessoalmente, foi uma espécie de história de terror.”

Depois disso, Kaji protagoniza várias obras do estilo “girl gang” ou “delinquentes teenagers”, a Stray Cat Rock, que pretendiam promover a cantora Akiko Wada, mas foram Meiko Kaji e Tatsuya Fuji que roubaram o protagonismo. Kaji trabalhava apenas para a Nikkatsu e aceitava todos os papéis, o que produziu resultados: “Fui bem recebida como personagem fora-da-lei e por isso surgi repetidamente nesse género de filme. Era uma regra inassumida nestas companhias até cerca de 1975. Pertenci à última geração que ficou restrita a um certo tipo de papéis.”

“Foram os primeiros filmes em que tive papéis maiores e, com frequência, também tinha de fazer a coreografia das lutas de espadas em simultâneo. De início, foi difícil porque era novo para mim. É claro que acabei por aprender. Mas é muito árduo dominar os movimentos de espada, temos de conhecer mesmo a dança tradicional japonesa para dominar as posturas e unir o equilíbrio à coreografia. Tive de treinar muito tempo.”

“Era frequente darem-me o papel de mulher forte, e a Nikkatsu encorajou-me a seguir esse rumo. Era política da companhia moldar uma atriz de acordo consigo mesma, no sentido em que esta parecia seguir naturalmente. Enquanto mulher, não me sentia muito confiante para interpretar filmes de ação violentos, mas dei o meu melhor para corresponder ao exigido.”

Em 1971, os estúdios Nikkatsu, que produziam filmes mainstream, vocacionaram-se para o género erótico, o que não agradou a Kaji, e é então que se muda para a Toei, que, na época, produzia uma grande quantidade de películas de ação lideradas por mulheres, as “female yakuza”. Kaji explica por que deixou a Nikkatsu após seis anos: “Eles lidavam com um sério declínio financeiro e viraram-se para o género roman porn para se manterem no negócio. Não concordei com tal política e não quis participar. A Toei demonstrou interesse e, pouco depois, começou a série Female Prisoner Scorpion.”

A ESCORPIÃO

É em 1972 que lhe propõem o papel principal em Female Prisoner #701: Scorpion de Shunya Itô, uma adaptação da manga (banda desenhada japonesa) de Toru Shinohara, incluindo influências surrealistas, arquétipos e mitos. Meiko Kaji encarna Matsu, de alcunha Sasori (Escorpião), uma vingadora implacável e quase fanática perante a injustiça do mundo masculino. Chamaram-lhe até a Charles Bronson feminina. Tem muito poucas falas, que geralmente consistem em “traíste-me”.

Foto promocional de Female Prisoner #701: Scorpion (1972).
Foto promocional de Female Prisoner #701: Scorpion (1972).

“O primeiro da série foi também o primeiro filme realizado por Shunya Itô”, esclarece a atriz. “Quando ele me pediu para participar, eu desconhecia totalmente a origem da história, embora a manga fosse muito popular na época, no Japão. Assim, o Sr. Itô emprestou-me a coleção completa da banda desenhada de Sasori, e eu li-a.”

A expressividade de Meiko Kaji é uma verdadeira arma nestes filmes.
A expressividade de Meiko Kaji é uma verdadeira arma nestes filmes.

Parte do espírito da personagem foi adicionado pela própria atriz, que conta:

“Quando nos encontrámos pela segunda vez, o guião estava pronto e vi que tinham mantido a maioria das obscenidades que a personagem dizia na banda desenhada. Disse-lhe que era inaceitável e que acabaria por fazer o filme parecer vulgar; e que retirar essas palavras era uma das minhas condições para aceitar o papel.”

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“Ele concordou e começou a achar que seria mais interessante se a minha personagem praticamente não tivesse nenhum diálogo, excetuando algumas frases importantes. Decidimos que podíamos transmitir aquilo em que a Escorpião estava a pensar, o que iria fazer a seguir, através da performance, pelo visual em vez do verbal. Por isso, tivemos de nos aplicar no aspeto visual. Fizemos algo de bastante radical e que era um conceito novo.”

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“Já que era o primeiro filme que ele realizava e tentámos filmar em sequência, o que quase nunca se faz na indústria cinematográfica japonesa, demorou muito tempo. Ainda por cima, nesta fase, toda a indústria estava a cortar nos orçamentos do filme mediano de grande público. A duração da rodagem dos filmes da Toei, mesmo com grandes estrelas como Ken Takakura, era de três semanas. Mas, como filmávamos em sequência, demorámos quatro meses, o que é muito tempo. Felizmente, o Sr. Itô era chefe do sindicato nesses tempos, pelo que os executivos cooperaram. Quando o filme foi lançado, tornou-se um êxito enorme, devido à popularidade da manga e também ao modo único como abordámos a personagem da Escorpião. O facto de quase nem a fazermos falar foi realmente sensacional.”

meiko kaji 2 (6)O sucesso originou duas excelentes sequelas, Jailhouse 41 (Joshû sasori: Dai-41 zakkyo-bô) também de 1972 e Female Prisoner Scorpion: Beast Stable (Joshuu sasori: Kemono-beya) de 1973. A saga “terminou” com Grudge Song (Joshû sasori: 701-gô urami-bushi) em 1973. (Surgiriam outros filmes da Escorpião, mas já sem Meiko Kaji no papel.)

Em cada um, há um motivo de vingança, mas a Escorpião não é uma assassina aleatória desprovida de piedade. Pelo contrário, as circunstâncias levam-na a isso. No final, surge vestida de preto da cabeça aos pés, com um chapéu de aba larga (imagem que se tornou icónica) e já sabemos que vão rolar cabeças ou pelo menos, umas quantas punhaladas serão desferidas contra os malfeitores. Meiko Kaji explica como compôs estas personagens implacáveis:

meiko kaji“Quando eu tinha um papel forte, estava sempre preocupada em torná-lo ainda mais forte. Mas com uma força originada pela bondade e a aceitação dos progenitores e dos mais fracos. Estava mais concentrada na força mental do que na física. Eu tinha uma imagem de mulher forte, tanto na indústria como junto do público. E, depois de a termos, é muito difícil livrarmo-nos dela. Pedem-nos sempre o mesmo género de papel. Ainda hoje as pessoas me associam a isso.”

Visualmente, estes filmes, especialmente o segundo e o terceiro, são considerados obras-primas e influenciaram cineastas americanos, ou foram por eles influenciados. Por vezes, contêm uma violência surreal. No início do terceiro, Beast Stable, a Escorpião é capturada e, quando vai algemada a um detetive no metro, arranja forma de lhe cortar o braço para se livrar das algemas, começando então a fugir pelas ruas de Tóquio com o braço pendurado, perante o olhar incrédulo dos transeuntes!

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No último capítulo, achamos que a Escorpião finalmente encontrou a tranquilidade merecida, mas perante a traição do amado, volta a vingar-se e conclui com um sucinto: “Não te matei a ti, matei a parte de mim que te amava.” Desaparece então num corredor vazio do metro, olhando para trás, antes de seguir o seu caminho.

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TESTE DE RESISTÊNCIA FÍSICA

Algumas cenas são bastante violentas e incluem tortura, com a personagem a ser amarrada, espancada ou a ser o alvo do jato de mangueiras; quase é queimada viva nos corredores do esgoto de Tóquio, afogada… Isto exigiu bastante da protagonista, que recorda:

“Quando fiz o primeiro filme, pensei, ‘OK, vou fazer isto e é o fim da história da Escorpião. Ela derrota o sistema e acabou-se. Mas o filme teve tanto sucesso que a Toei obviamente o quis tornar numa série. E, quando tal sucede, é muito difícil manter a qualidade ou superar o original. E, ao nível do realismo, das coisas a que a protagonista é sujeita, é quase impossível acreditar que possa sobreviver. Então, infelizmente, tivemos de incluir estas peripécias, elementos mais fantasiosos nos filmes.”

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“O fulcro do enredo de cada um era abusar e maltratar a Escorpião até que ela voltasse novamente a exercer a sua vingança no clímax, um resultado que oferecia ao público o que ele esperava da série. E consequentemente, a filmagem foi muito difícil. Trabalhávamos para uma estreia no Ano Novo, portanto filmámos a cena que surge no início de Jailhouse 41, em que sou atingida por jatos de mangueiras de incêndio na masmorra, no final de novembro, quando estava muito frio. Nem podíamos usar água quente porque se queria ver o vapor a emanar do meu corpo e para fora do set.”

O uso interessante das cores e dos ângulos em Jailhouse 41.
O uso interessante das cores e dos ângulos em Jailhouse 41.

“Tornou-se mais um teste de resistência física do que capacidade de representação. Tinha de estar mais preocupada em não adoecer e não me aleijar no set. Em certos aspetos, foi muito limitador, física e mentalmente. A rodagem foi mesmo brutal. E a essência de cada filme sucessivo tornou-se cada vez mais grotesca e radical, apenas para prender o público, para assegurar que os filmes eram êxitos. Foi por isso que, por alturas do último, Grudge Song, não pude continuar com o papel.”

A seguir ao segundo filme da Escorpião, Meiko Kaji é contratada para o papel de Lady Snowblood, a história de uma criança que é treinada para se vingar dos assassinos dos pais, sob a direção de Toshiya Fujita e mais uma vez numa adaptação da banda desenhada manga, desta vez de Kazuo Koike, criador de Lone Wolf And Cub e Razor Hanzo. O sucesso deste filme deu origem a uma sequela.

Lady Snowblood (1973). Meiko Kaji torna-se uma das atrizes mais populares do Japão.
Lady Snowblood (1973). Meiko Kaji torna-se uma das atrizes mais populares do Japão.

PROBLEMAS DA MULHER ASSERTIVA

Kaji continuaria a interpretar papéis em filmes yakuza, ou “máfia japonesa”, como Yakuza Burial: Jasmine Flower (1976), mas, à semelhança dos seus papéis de mulher forte, também a nível pessoal e profissional demonstrou caráter, tornando-se uma defensora do papel das mulheres na indústria do entretenimento. Contudo, esta imagem de dura nem sempre foi benéfica para ela, segundo afirma:

meiko kaji 2 (3)“Enquanto atriz, posso interpretar qualquer coisa, desde uma jovem a uma idosa, ou algo de intermédio. Por regra, a indústria não nos dá a oportunidade de demonstrar que podemos fazer algo de diferente. Por exemplo, na América, atrizes com uma certa idade, como Meryl Streep, podem fazer filmes como Falling in Love (1984) ou thrillers como The River Wild (1994) e são aplaudidas. Mas raramente isso acontece aqui no Japão. Quando os homens japoneses vêem uma atriz forte num filme americano, uma mulher assertiva, muitos comentam, ‘eu nunca me apaixonaria por uma cabra daquelas!’ Entristece-me muito. Por vezes, os homens japoneses, no seu todo, podem ser muito infantis.”

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Ainda que se tenha popularizado em obras dirigidas ao grande público, e a que alguns críticos snobes chamam série B, “exploitation” ou “lixo”, Meiko Kaji adquiriu a reputação de atriz séria, e ainda hoje se encontra ativa. Mas não é fácil ganhar prémios e adquirir estatuto para além de filmes populares ao estilo de Female Prisoner Scorpion ou Lady Snowblood, como sublinha Meiko Kaji:

“As companhias de cinema vêem um intérprete vencer um prémio e pensam logo, ‘oh, esta pessoa ganhou um prémio’, e nem a consideram para determinado papel por ser demasiado pequeno ou aquém dela. É difícil sobreviver. É quase impossível ganhar a vida só com o cinema. Os atores e atrizes têm de fazer muito teatro e TV para sobreviver. Há uma forte hierarquia, não só na indústria cinematográfica mas no mundo dos negócios japonês e na sociedade em geral, e é bastante difícil ganhar o sustento se sairmos do sistema. É muito difícil para mim envolver-me no tipo de filmes que gostaria de fazer.”

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Está a ser escrito um livro dedicado à atriz, aos seus mais de 100 filmes e influência no cinema asiático e ocidental. Ainda assim, Kaji critica o modo como funciona a indústria do cinema japonês, e a sua abertura relativamente a estes tópicos causa-lhe algum desconforto:

“Às vezes, pondero se será sábio da minha parte ser tão aberta nas minhas opiniões, talvez fosse melhor mantê-las para mim. Há certas palavras que não podem ser usadas hoje em filme, como ‘kojiki’, que significa ‘sem-abrigo’, que é muitas vezes usada em filmes de época. Alguns setores do negócio do cinema estão num patamar muito infantil, e não emprego esse termo de modo positivo. É imaturo. Como podemos ter esperanças e sonhos, deste modo? Entristece-me. Mas não quero com isto dizer que sou ‘grande’ ou ‘superior’ e que podia fazer melhor. Não é isso. Toda a indústria precisa de aspirar a coisas maiores. Neste momento, culturalmente, somos muito pobres e não estamos a crescer.”

David Furtado

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