Bruce Springsteen e Born in the U.S.A.: Nascido para se inconformar

Em 1983, Springsteen trabalhou em 100 canções que acumulara desde The River. A 10 de maio de 1984, edita «Dancing in the Dark», maxi-single com sintetizadores, misturas de dança e um refrão apelativo. O som pop surpreendeu muitos, mas Bruce, ao que parece, só se queria divertir um pouco e passou do folk de Johnny Cash, Hank Williams e Woody Guthrie para… Lauper?

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“Ouvi uma dance mix de «Girls Just Want to Have Fun» de Cyndi Lauper no rádio e achei incrível. Soava divertido. Por isso, contactei [o produtor] Arthur Baker. É um personagem. Ele trouxe outro tipo com ele e começaram a mexer na mesa de mistura. Eu não tive muito input. A coisa toda é Arthur Baker. Foi divertido simplesmente dar-lhe a canção e ver a interpretação que fazia dela. Sempre fui muito protetor da minha música, tanto que hesitava em fazer o que quer que fosse com ela. Agora acho que as minhas coisas não são tão frágeis como pensava.”

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A nível de marketing, também parecia insensato não se envolver com os videoclips, que eram um meio de vender discos muito forte nesta época. Portanto, Springsteen “alistou” o realizador Brian De Palma e a atriz Courtney Cox para com ele dançar no vídeo de «Dancing in the Dark». Aqui foi cauteloso, falando primeiro com a dupla Godley and Creme mas escolhendo De Palma. Já o vídeo de «Born in the U.S.A.» foi realizado por John Sayles e bastante criticado – vê-se claramente que Springsteen canta em playback:

“O vídeo é uma coisa poderosa e queria-me envolver nisso de algum modo. Mas apresenta vários problemas. Não queria interferir na imaginação do meu público, apresentando-lhe uma imagem concreta, uma réplica de uma imagem na canção, e não queria criar outra história, porque já contava a história que pretendia. Trouxe Brian De Palma porque ele é excelente. Eu não tinha tempo, estava a preparar-me para o nosso primeiro concerto e ele veio mesmo em cima da hora, e realmente tirou-me um peso dos ombros. Fizemos esse vídeo em três ou quatro horas. Cantar em playback é uma daquelas coisas… fácil de fazer, mas perguntamo-nos para que serve.”

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“Mas esse vídeo saiu muito bem, pois notei que a maioria das pessoas que me abordava e falava dele, não ouvira as minhas outras coisas. Com frequência, eram miúdos. Eu estava na praia e um miúdo veio ter comigo, acho que se chamava Mike, tinha sete ou oito, e diz-me: ‘Vi-te na MTV.’ E acrescentou: ‘Já sei como te mexes.’ E eu disse, ‘então vamos lá ver isso’. Ele começa a dançar o «Dancing in the Dark» e era muito bom, sabem?”

O single obteve grande sucesso e foi uma jogada comercial de mestre. A 4 de junho de 1984, é lançado Born in the U.S.A. que foi direto para o nº 2 do top britânico. A Village Voice, a Rolling Stone e o LA Times chamaram-lhe um clássico.

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Nem o presidente dos EUA, Ronald Reagan, ficou indiferente. O pessoal da sua campanha de reeleição tentou adotar o tema «Born in the U.S.A.» como hino oficial! Um emissário, George Will, foi enviado ao concerto de Springsteen em Washington D.C. com o plano traçado. O staff do presidente contactou o manager de Springsteen, Jon Landau, para que o artista apoiasse a campanha no seu Estado natal de New Jersey.

Infelizmente, Reagan não entendeu ou não quis entender que o tema e o álbum iam contra tudo o que apregoava. Não era “hurra, adoro a América”. Pelo que Springsteen sempre recusou liminarmente. A moralidade de Reagan nunca foi o seu forte e, incapaz de aceitar um “não”, foi mesmo a New Jersey e discursou: “O futuro da América reside em mil sonhos nos nossos corações; reside na mensagem de esperança patente nas canções de um homem que tantos jovens americanos admiram, o ‘filho’ de New Jersey, Bruce Springsteen.”

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Bruce ficou furioso, sentindo-se traído por esta manobra política e contra-atacou, participando em manifestações anti-Reagan, declarando-se contra ele e doando verbas aos seus opositores. Num concerto em Pittsburgh, poucos dias após o episódio de Jersey, entregou pessoalmente uma mensagem ao staff do presidente, dissociando-se da agenda política republicana, o que fez o partidário de Reagan, Walter Mondale, declarar no dia seguinte: “Bruce pode ter nascido para correr [born to run], mas não nasceu ontem.” Mas isto também não impediu os democratas de tentarem apropriar-se de um álbum que, politicamente, não tinha nada de idílico a dizer sobre os EUA.

O tema-título descrevia algo que escapou e escapa a muita gente: O percurso e o regresso de um veterano do Vietname ao seu país, deparando-se com o isolamento a que o votam, com a desilusão e o tormento pessoal. É do conhecimento geral que a América não tratou nada bem os soldados que conseguiram voltar. É também uma espécie de homenagem agridoce a «Back in the U.S.A.» de Chuck Berry, que exalta, essa sim, os valores que Springsteen vê agora corrompidos.

bruce springsteen born in the usa wandrinstar (11)O próprio Bruce fugira ao recrutamento e foi declarado inapto. A sua compaixão para com os soldados que lutaram no Vietname já vinha de longe: «Racing in the Street» de 1978 fora inspirada pelo livro de Ron Kovic, Nascido a 4 de Julho. É uma América sem oportunidades ou idealismos. Perguntaram-lhe por que escrevia sobre isto se nem lá estivera. À Rolling Stone, disse:

“Na verdade, nem sequer tive uma experiência. Não havia nenhum tipo de consciência política em Freehold no fim dos anos 60. Era uma terra pequena e a guerra simplesmente parecia muito distante. Quero dizer, estava consciente dela, alguns amigos foram. O baterista do meu primeiro grupo foi morto no Vietname. Ele alistou-se nos Marines. Chamava-se Bart Hanes. Era um daqueles tipos que está sempre a brincar, sempre a fazer de palhaço. Apareceu um dia e disse, ‘alistei-me, vou para o Vietname’. Lembro-me de ele dizer que não sabia onde era. E assim foi. Partiu e não voltou. E os tipos que voltaram não eram os mesmos.”

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“Fui classificado de 4-F. Tinha uma concussão cerebral devido a um acidente de moto aos 17 anos. E também fiz as tretas básicas dos anos 60; preenchi os impressos de modo maluco, recusei-me a fazer os testes. Aos 19, não estava pronto para ser assim tão generoso com a minha vida. Fui chamado e, quando entrei no autocarro para ir ao exame físico, pensei numa coisa: ‘Não vou.'”

“Já tinha tentado ir para a faculdade e não me integrara. Fui para uma escola muito retrógrada onde as pessoas me criavam muitos problemas e fui expulso do campus. Eu simplesmente era diferente e agia de modo diferente, por isso deixei a escola. E lembro-me de estar nesse autocarro, eu e mais dois tipos do meu grupo, e 60, talvez 70% do autocarro era composto por negros de Asbury Park. E recordo-me de pensar, ‘o que torna a minha vida, ou a dos meus amigos, mais dispensável do que a de alguém que vai para a universidade?’ Não parecia certo.”

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“E foi curioso, porque o meu pai tinha estado na II Guerra Mundial e era do tipo que está sempre a dizer, ‘espera até ires para a tropa. Caramba, vão-te cortar esse cabelo todo. Mal posso esperar. Vão fazer de ti um homem’. Andávamos sempre em conflito, nesses tempos. E lembro-me de ficar fora de casa três dias e quando voltei, fui à cozinha e estavam lá os meus pais, que perguntaram, ‘onde estiveste?’. Respondi, ‘fui fazer o exame físico’. E eles, ‘o que aconteceu?’ E eu, ‘bem, eles não me quiseram’. E o meu pai ficou ali sem olhar para mim, a olhar sempre em frente, e disse, ‘isso é bom’. Foi… nunca me esquecerei disso.”

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GRAVAÇÃO E DIGRESSÃO

A primeira metade de Born in the U.S.A. tinha sido composta durante as sessões de Nebraska, o que se nota pela semelhança de temas e narração. Bob Clearmountain sugeriu a Bruce uma abordagem mais livre, já que o compositor tinha tendência para estar obsessivamente atento a cada pormenor da música. Assim, várias faixas foram gravadas ao vivo, com todos a tocarem em estúdio: O tema-título, «Working on the Highway», «Darlington County», «I’m on Fire», «Bobby Jean» e «My Hometown». Trabalhando deste modo, a E Street Band conseguia uma versão finalizada ao fim de uns seis takes e depois de poucos ensaios, para manter a vivacidade.

bruce springsteen born in the usa wandrinstar (9)O álbum consegue equilibrar de forma notável a forma e o conteúdo, com o rockabilly de «Working on the Highway» a contrastar com a angústia de «Downbound Train», sobre um casamento que acabou; os «Glory Days» nostálgicos e efémeros da juventude, a esperança resignada de «No Surrender». Algumas canções mais fracas como «Cover Me» ou «I’m Going Down» são, apesar de tudo, aquilo que pretendem, não são presunçosas.

A digressão começou a 29 de junho de 1984, durou 14 meses e englobava concertos de três horas e meia com 30 canções cada. Como era um intérprete tão enérgico, Springsteen teve de tomar certas precauções. Começou a seguir uma dieta saudável, livrou-se do vício de junk food e contratou cozinheiros que lhe preparavam refeições vegetarianas quando saía do palco. Tanto ele como a banda frequentavam ginásios durante o itinerário da digressão. Disse a um jornalista: “Experimente saltar e cantar a plenos pulmões durante 20 minutos e verá como se sente!”

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Todos queriam ver Springsteen e a E Street Band: 200 mil bilhetes foram vendidos para o seu concerto em Meadowlands, New Jersey, num só dia. No Wisconsin, a procura foi tanta que o Governador do Estado, Tony Earl, proclamou 13 de Julho, como o “Dia Springsteen”.

Em palco, o cantor, fazia umas introduções divertidas ou longas e ponderadas. O lado B de «Dancing in the Dark era «Pink Cadillac», com uma letra que mistura alusões bíblicas com sensualidade. Bruce apresentava-a assim:

“Parece que, de acordo com a Bíblia, já há muito tempo, Eva mostrou a maçã a Adão e Adão mordeu. Tem de haver mais qualquer coisa do que isso. Fruta?…”

Os espetáculos não se apoiavam em tecnologia mas em rock and roll, e com um vigor incomparável para a Era. Os Jacksons não impressionaram os críticos com bilhetes a 30 dólares. Bruce e companhia tocavam o triplo do tempo e não cobravam mais.

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Com Born in the U.S.A., Bruce arrecadou diversos prémios. Em 1985, os leitores da Rolling Stone atribuíram-lhe o prémio de melhor compositor, com 31%, à frente de Sting com 24%, Phil Collins com 20, Mark Knopfler com 13 e Bono com 11.7. Springsteen venceu nesta categoria em 1978, 1980, 1982 e 1984. Em Inglaterra, um jornal londrino especulou que a capa, que consiste no traseiro de Springsteen com um boné de baseball no bolso, era uma subtil alusão gay. Não se tratava disso, era apenas um hábito do músico.

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HOMEM RICO, HOMEM POBRE

Já muito se escreveu sobre o sucesso bombástico de Born in the U.S.A., mas pouco sobre a atitude de Springsteen, proveniente da classe trabalhadora e que se tornara uma espécie de porta-voz dela. A fama e o dinheiro subiram-lhe à cabeça?

“Sim, há uma mudança. Não torna a vida mais fácil, mas torna certos aspetos da vida mais fáceis. Não temos de nos preocupar com a renda, podemos comprar coisas para os nossos pais e podemo-nos divertir. Houve alturas muito confusas porque me apercebi que era um homem ‘rico’, mas sentia-me um homem pobre por dentro.”

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Durante a digressão, Bruce explicou como lidava com um sucesso tão colossal:

“Devido à minha maneira geral de ver as coisas, porque acho que se consolidou quando eu era muito jovem e, também devido ao processo legal [com Mike Appel] e uma data de outras coisas… e devido ao muito tempo que me demorava a fazer discos, não consegui ganhar muito até à época da digressão de The River. E esta tournée está a correr muito bem até agora. Mas não sei se o dinheiro nos muda. Não acho que realmente nos mude. É uma coisa inanimada, uma ferramenta, uma conveniência. Se temos de ter um problema, é um bom problema para ter.”

Palavras curiosas para alguém cujo álbum vendera, logo à partida 18 milhões de cópias. A saída de Steve Van Zandt da E Street Band foi provisória, eram afinal grandes amigos; e «No Surrender» e «Bobby Jean» são em grande parte sobre ele. Van Zandt sublinhou: “Já éramos amigos antes de tocarmos juntos e seremos para sempre.”

Miami Steve queria dedicar-se à sua própria banda, os Disciples of Soul e foi substituído pelo talentoso Nils Lofgren, que já trabalhara com Neil Young e Lou Reed e conhecia Springsteen desde 1969. Lofgren afirma que se sentiu o tipo mais sortudo do mundo e não lhe demorou muito a abrir o seu próprio espaço na E Street Band. Bruce escolheu-o porque… “Víamos a música da mesma forma e preocupávamo-nos com as mesmas coisas.” Lofgren já fora namorado de Patti Scialfa, que, como se sabe, viria a tornar-se esposa de Bruce. Scialfa também era natural de New Jersey e já fizera uma audição em 1978 para vocalista da banda. Foi recusada por ser demasiado jovem. Tentou de novo para esta digressão e foi aceite.

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Born in the U.S.A. fala sobre crescer, nos EUA ou noutro lado qualquer, e não vendia ao público mais do mesmo. Springsteen afirmou que queria “entreter o seu público, mas também fazê-lo pensar um pouco”. Na noite de estreia, disse à multidão: “Quando comecei a tocar guitarra, tinha umas quantas ideias. Uma era evitar a responsabilidade, o mais que pudesse, para o resto da vida… Só que isso da responsabilidade não resulta. Parece que quanto mais envelhecemos, mais nos apercebemos de que não nos podemos livrar dela.”

David Furtado

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