Bruce Springsteen: Nebraska e as razões para acreditar

Composto em dois meses e gravado em dois dias no quarto de Bruce Springsteen num aparelho Teac Tascam 144 de quatro pistas, Nebraska foi um caso em que menos é mais. Springsteen era considerado agora o artista rock de maior notoriedade dos EUA e, terminada a digressão de The River, regressou a New Jersey e passou bastante tempo a guiar pelo país, falando com as pessoas e apreciando o anonimato. Numa destas viagens de automóvel, levou consigo as fitas de Nebraska e entregou-as à CBS.

A editora de Springsteen ficou espantada ao receber o trabalho e passou nove meses a avaliar se seria digno de publicação. Soava a um disco pirata, não a um “projeto”. Quando foi editado, a 30 de setembro de 1982, Nebraska vendeu apenas 200 mil cópias, e a discográfica lançou um clip do tema «Atlantic City», tentando aumentar as vendas. Mas Bruce também não aparecia no vídeo, tal como não surgira na capa do álbum.

O compositor lera a biografia de Woody Guthrie, escrita por Joe Klein. Guthrie, o lendário músico americano era uma influência para Bob Dylan e também para Bruce, que começara a interpretar «This Land is Your Land» ao vivo. Pouco antes de Nebraska ser editado, Marc Didden perguntou-lhe a razão:

“Por que toco versões de Woody Guthrie? Porque o acho necessário fazer agora. Toda a gente anda em penitência no meu país, nos dias que correm.” Bruce usa o termo “sackloth and ashes”, um costume hebraico de demonstrar humildade perante Deus ao envergar vestimentas rudes de serapilheira (sackloth) e cobrindo-as com cinzas (ashes).

“Depois do Watergate, a América morreu emocionalmente. Não sobrou esperança a ninguém. As pessoas ficaram tão horrorizadas ao saberem da corrupção em larga escala na ‘terra dos bravos e dos livres’ que ficaram em casa, assustadas e entorpecidas. Canto essa canção para que as pessoas saibam que a América pertence a toda a gente que lá vive: Os negros, os chicanos, os índios, os chineses e os brancos. É altura de alguém encarar a realidade dos anos 80. Farei o meu melhor.”

Coerente com esta atitude, Nebraska é um álbum minimalista, com guitarra, harmónica, bandolim, e alguns sons discretos de xilofone. Curiosamente, este minimalismo e esta “mensagem” convenceram mais os estrangeiros dos que os americanos. Era um álbum melancólico e até soturno, com influências de Hank Williams, o icónico cantor country/western que abordou a solidão e o isolamento em temas como «I’ll Never Get Out of This World Alive» ou «I’m So Lonesome I Could Cry» e… «Mansion on the Hill», um tema a que Bruce foi buscar o título para uma das suas canções em Nebraska.

“Adoro aquela antiga música country”, adiantou Bruce a Dave Marsh. “Ouvi Hank Williams, fui desenterrar todas as suas primeiras sessões… isso e o primeiro disco de Johnny Cash.” Recorde-se que Cash gravou o álbum Johnny 99 em 1983, incluindo, além deste tema, «Highway Patrolman», ambas canções de Nebraska. John Hammond, que descobriu Springsteen e tanto apostou nele, disse que era o álbum que ele queria que o músico fizesse logo no início.

A ausência da E Street Band torna Nebraska um álbum a solo, e Bruce explicou-se deste modo à International Musician and Recording World:

“Arranjei um pequeno gravador de cassetes que era supostamente muito bom, liguei-o, e a primeira canção que toquei foi «Nebraska». Fiquei… ali sentado… pode-se ouvir a cadeira ranger em «Highway Patrolman». Gravei tudo em dois dias. Só tinha quatro pistas, portanto só podia tocar guitarra, cantar e fazer mais duas coisas. E foi isso. Misturei-o numa pequena mesa, uma velha Echoplex.”

Nesta fase, supunha-se que fossem demos para a banda e tal ainda se tentou em estúdio. Springsteen, descontente com o resultado, optou por masterizar o material das cassetes que gravara e editá-lo assim mesmo, o que foi um pesadelo para o engenheiro de som.

Quando foi editado, houve quem apreciasse a atitude iconoclasta de Bruce, comparando Nebraska a John Wesley Harding de Bob Dylan ou Plastic Ono Band de John Lennon, sendo a crítica bastante favorável. E se, de início, vendeu mal, Nebraska acabou por conquistar os fãs. Em meados de 1983 já vendera um milhão de cópias e, apesar de ser um álbum tão despido e cru, chegou ao 3º lugar das tabelas americana e inglesa. Em retrospetiva, não foi um gesto tão estranho como possa parecer. Depois de um êxito enorme, muitos artistas tentam regressar às raízes por saberem que correm o risco de perderem o contacto com aqueles para quem cantam, com a realidade, e os seus próprios objetivos.

A principal influência do trabalho, contudo, é Woody Guthrie, que 50 anos antes, vagueara pelos EUA no meio da Grande Depressão, observando e comentando uma crise económica e de valores que nada tinha a ver com o Sonho Americano. Além de nómada, Guthrie era ativista, poeta folk e envolvia-se politicamente naquilo em que acreditava. Escreveu sobre o herói de As Vinhas da Ira de Steinbeck, Tom Joad. O alvo principal de Guthrie eram os bandidos legalizados, que hoje… enfim, cada pedra que se levanta, rasteja de lá um.

As personagens de Nebraska são as mesmas de John Steinbeck e Woody Guthrie, vítimas manipuladas por burocratas sem face no meio de sistemas políticos para lá da sua compreensão. Segundo Bruce Springsteen, numa entrevista a Chet Flippo da Musician:

“Era um pouco sobre uma crise espiritual, na qual um homem se sente perdido. Como se já não tivesse nada que o ligasse à sociedade. Está isolado do governo. Isolado do seu trabalho. Isolado da sua família. E, numa canção como «Highway Patrolman», isolado dos seus amigos.”

Encarar o público apenas com uma guitarra e uma voz pode ser muito poderoso, mas também é exigente, porque não há nada atrás do qual nos possamos esconder. Bruce sabia disso, obviamente. Por exemplo, o tema-título fala dos assassínios de Charlie Starkweather no Nebraska em 1959, o que também já fora retratado no cinema por Terence Malick em Badlands, com Martin Sheen e Sissy Spacek. O casal de namorados encetou uma série de homicídios no Wyoming. Para se informar sobre este caso, Bruce Springsteen contactou Ninette Beaver, que escrevera um livro sobre o casal.

«Atlantic City» fala de extorsão e compararam-no ao filme homónimo de Louis Malle, de 1980. A toada de «My Father’s House» é tão solene que escreveram que parecia saída de Psycho, o que também é exagerado. Mas as comparações cinematográficas não o são. Sean Penn estreou-se na realização com Indian Runner em 1991, filme baseado no tema «Highway Patrolman» e no qual deu um pequeno papel a Charles Bronson. Springsteen, quatro anos antes de Nebraska, já falara dos aspetos cinematográficos da sua escrita à Rolling Stone:

“Não há pausas, inércia, pegamos na ação e, a certo ponto… a câmara afasta-se e o que quer que tenha acontecido, aconteceu. As canções que escrevo não têm começos específicos e não têm finais. A câmara aproxima-se e afasta-se.” Godard já dissera: “Os meus filmes têm princípio, meio e fim… mas não necessariamente por essa ordem”…

Os EUA não são um paraíso de democracia, são um lugar onde milhões, quando lhes é roubado o direito de viver dignamente recorrem à criminalidade. Podiam ter optado por outra via, como o sacerdócio… mas há diferença de classes e os homens não são todos iguais. Veja-se Steve McQueen, que afirmou, “se não tivesse ido para ator, teria acabado como criminoso”. Portanto, Bruce emprega muito a palavra “sir”. Como o ‘Johnny 99’ que matou um guarda noturno e apela ao juiz, “sir”, sem que nada lhe sirva.

A pequena América, das terras pequenas, da rapariga que pega no batom e o roda, a lealdade do filho para com o pai, o conflito entre irmãos que termina mal e a cortante frase: “Homem que vira as costas à família simplesmente não presta.” Tudo elementos que Springsteen usa e muito bem para contrabalançar o tom angustiante de Nebraska. E, para isso, dá um passado às personagens. Elas não nos surgem como marginais por combustão espontânea. São pessoas sem voz, levadas a cometer atos que provavelmente nunca cometeriam. Afinal, “todos os pecados resultam de uma colaboração”, como escreveu Stephen Crane, e não acho que nenhum padre ou crente o negará.

Por falar em crentes… Springsteen termina o álbum com otimismo: «Reason to Believe» refere um homem que atropela um cão e fica na berma da estrada, empurrando-o com um pau, recusando-se a admitir que está morto. Como Springsteen conclui na canção: “Ao fim de cada dia ganho arduamente, as pessoas encontram alguma razão para acreditar.”

David Furtado

Anúncios

One Comment Add yours

  1. Lavreh diz:

    Quanta falta fazem “comentários” como esse na Internet… Estando além do juízo de gosto, expande a experiência do disco. Obrigado!

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.