Bruce Springsteen e a história de The River: Serão os sonhos uma mentira se não se realizam?

O Boss vem a Portugal em maio. Foi há exatamente 37 anos, em abril de 1979, que Bruce Springsteen começou a trabalhar no provisoriamente intitulado The Ties That Bind, álbum que seria o sucessor de Darkness on the Edge of Town. O compositor achou o tom demasiado pop e preferiu não prosseguir. Passaria ano e meio antes de o projeto ser lançado com o título The River.

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A participação no M.U.S.E. (Musicians United for Safe Energy), em setembro de 1979, suscitou surpresa, porque Bruce nunca se envolvera em causas políticas. Era uma resposta ao incidente da central nuclear de Three Mile Island na Pensilvânia, no início desse ano. As instalações quase explodiram e a população fugiu da zona. Bruce escreveu «Roulette» inspirado por esta roleta que brinca com vidas alheias e aceitou o convite do amigo Jackson Browne para participar em cinco concertos de beneficência.

Springsteen encerrou os dois últimos espetáculos e ofuscou os outros artistas, causando algumas invejas nos outros participantes – era a atração principal no Madison Square Garden e, ainda por cima, no dia seguinte fazia 30 anos; deu tudo por tudo em hora e meia. A multidão gritava “Broooooce” a noite inteira. Jackson Browne avisou Tom Petty: “Não te chateies, eles não estão a vaiar, estão só a gritar pelo Bruce.” “Tanto me faz…”, ripostou Petty.

Diz-se que, devido à pressão, Bruce irritou-se com a fotógrafa Lynn Goldsmith, sua ex-namorada, que estava ali em trabalho, puxou-a para o palco e pediu que a tirassem dali, porque tinham ambos acordado que não lhe tiraria fotos nesse concerto.

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Bruce pede a Lynn Goldsmith que não o fotografe no concerto M.U.S.E.

Vai acontecer o mesmo no Rock in Rio. Alguém quer realmente saber quem mais lá vai? Um festival “in Rio”, em Lisboa, em que 95 por cento das pessoas vai ver um só artista é um conceito estranho.

Desde Darkness on the Edge of Town, em 1978, Bruce Springsteen tirara bastante tempo de folga, mas o seu repouso era o trabalho – pelo que juntara 40 canções (!), repensando este ciclo como álbum duplo. Começara a gravação em abril de 1979. Em maio, alguém entrou no estúdio e roubou uma fita com ensaios e canções semi-terminadas.

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Embora esta cassete tenha sido recuperada e o trabalho protegido num cofre, várias canções acabaram em discos pirata: Por exemplo, «Cindy», tema recentemente lançado na edição especial The Ties That Bind: The River Collection, é conhecido há décadas, com qualidade profissional, assim como muitos outros, o que torna artigos como o de João Lisboa no Expresso irrelevantes e nada informativos. Chama “pérolas” aos 22 outtakes que já circulam há décadas. Mas não perco tempo com “críticos musicais” que embolsam por palavra, com discurso de ostra.

Um dos vários bootlegs de The River com os "preciosos" outtakes elogiados agora por certa imprensa que não distingue Lady Gaga de Bruce Springsteen.
Um dos vários bootlegs de The River com os “preciosos” outtakes elogiados agora por certa imprensa que não distingue Lady Gaga de Bruce Springsteen.

Apesar dos percalços, Springsteen continuou a gravar durante 1980, sem fim à vista, cancelando sessões à última hora e com o orçamento já a ultrapassar os 500 mil dólares, uma preocupação para a editora. Os elementos da E Street Band eram requisitados para outros projetos, sendo Roy Bittan o mais atarefado; neste período gravou com artistas tão díspares como os Dire Straits, David Bowie, Stevie Nicks, Jackson Browne, Peter Gabriel, Barbra Streisand e Meat Loaf, entre outros.

bruce springsteen the river wandrinstar (6)O baterista Max Weinberg elogiou o Estúdio A da Power Station em Nova Iorque: “Gravámos muita coisa lá; a bateria soa melhor do que noutro lado qualquer, é uma sala enorme e não há ângulos de 90º.

Enquanto os músicos se dividiam entre entrevistas e colaborações lucrativas com outros músicos, Bruce andava inquieto com o tempo passado em estúdio e insatisfeito com o material gravado no ano anterior. Já com 40 canções terminadas, ainda retocou o arranjo de «Drive All Night» e tocou ele mesmo o piano, remetendo Roy Bittan para o órgão. «You Can Look (But You Better Not Touch)», que começara em estilo rockabilly, tornou-se num tema mais “orquestrado”. Já na fase de mistura, Springsteen, Jon Landau e Steve Van Zandt apanharam um voo para Los Angeles para trabalhar com Chuck Plotkin no seu Clover Studio. O músico adicionou o monólogo no fim de «Point Blank» e o vocal definitivo de «Drive All Night».

Estávamos no início de maio de 1980 e já pesava sobre Springsteen uma pressão enorme para que lançasse o disco no fim do Verão. O compositor reduziu os 40 temas a 25 que precisavam de ser alinhados tematicamente, e parecia inevitável tratar-se um álbum duplo. Foi necessária a mediação do manager Landau entre artista e editora para que se chegasse a consenso, reduzindo as faixas a 21, sendo que a 21ª, «Held Up Without a Gun», acabaria como o primeiro lado B do single «Hungry Heart».

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A laboriosa jornada culminou em sucesso, quando The River, como agora se chamava o álbum, foi lançado, em outubro de 1980, vendendo de imediato dois milhões de cópias. Os problemas criativos com que Bruce se deparou são compreensíveis, ainda hoje, até porque a edição especial de The River não traz muitas novidades a nível de temas pirateados há séculos e com um som equiparável, sublinhe-se: Há canções efusivas de rock simples e direto, a par de outras mais sombrias que provinham das sessões de Darkness on the Edge of Town.

Não era fácil fazer conviver a alegria juvenil de «Sherry Darling» ou «Ramrod» com a tristeza de «Point Blank», em que uma jovem mulher é (emocionalmente) abatida à queima-roupa, ou «The River», em que Bruce faz uma das perguntas mais incisivas de toda a sua carreira: “Será que um sonho é uma mentira, se não se realiza, ou é algo pior?”

O álbum, no geral, foi aclamado pela crítica: “Ouvi-lo é como viajar pela terra natal do rock de uma forma que nunca experimentámos. É um passeio por todas as ruas, lugares, pessoas e almas que o rock sempre visitou, empolgou, por quem chorou e amou”, disse Paolo Hewitt na Sounds.

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Como explicou Springsteen:

“Ouvi muito do material gospel antigo de Hank Williams, tirei o refrão de «The River» de uma das suas canções. E também ouvi muito Johnny Cash, o que ele gravou para a Sun Records. Aquela voz é tão real e simples… com country e western, consegue-se uma coisa poderosa. Em The River, eu caía em canções que eram um tipo de celebração e canções sombrias, lado a lado, e era porque não as conseguia combinar. Não as conseguia sintetizar numa única canção. Eu sabia que era tudo parte da mesma imagem, por isso se tornou num álbum duplo. Era sobre tentarmos encontrar de novo uma ligação nos nossos relacionamentos. Foi o primeiro disco que fiz que tinha pessoas casadas.”

Bruce Springsteen prossegue:

“Eu não ia incluir «Out in the Street» no álbum porque é só idealismo. Pessoas a juntarem-se e a partilharem um certo sentimento. Sei que esse sentimento é real, mas é difícil de detetar, por vezes. Vamos para a rua [out in the street] e há a probabilidade de nos racharem a cabeça ou de sermos assaltados. A canção não é realista, de certa forma, mas há algo de muito autêntico na sua essência.”

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Vi ou li certa crítica pseudo-intelectual portuguesa explanar que foi uma mudança radical desde os “personagens de Kerouac” de Born to Run. Mais um disparate. Em Born to Run são mais otimistas, e em Darkness eram mais introspetivas. The River concilia – as realidades nítidas da juventude tornam-se mais confusas com a idade. Assim, os personagens de The River estão frequentemente sob ameaça; de perderem o emprego, os sonhos, a pessoa que amam, o idealismo. Bruce esclareceu ao LA Times, pouco depois de o disco ser lançado:

“O rock and roll sempre foi esta alegria, esta particular felicidade que é, ao seu modo, a coisa mais bela da vida. Mas o rock também é sobre dureza, proximidade e solidão. Em Darkness foi-me difícil fazer essas coisas coexistirem… não estava pronto, por qualquer razão, dentro de mim, para as sentir. Era demasiado confuso e paradoxal. Mas finalmente cheguei a um ponto em que percebi que eu tinha paradoxos, e muitos, e que temos de viver com eles. O que acontece a muitas pessoas é que, quando o seu primeiro sonho é morto, nada toma o seu lugar. O importante é continuarmos a agarrarmo-nos às possibilidades… há um artigo de Norman Mailer que diz, «a única liberdade que as pessoas mais querem é a que não podem ter: A liberdade do que se teme». Essa ideia está algures no coração do novo álbum, sei que está.”

bruce springsteen the river wandrinstar (5)O que Springsteen dizia (e sempre proclamou) é que os compromissos são inevitáveis, mas, se um vestígio de sonho se perde, a vida perde o sentido e torna-se uma charada. Ao New York Sunday News revelou: “Não podes ser apenas um sonhador. Isso pode-se tornar uma ilusão, que sofre uma mutação e se torna num engano, sabes? Ter sonhos é provavelmente a coisa mais importante da tua vida. Mas deixar que eles se tornem em enganos, caramba, isso é veneno.”

Lançar um álbum duplo é dispendioso e arriscado, mas fazia sentido, tendo em conta o que custou a produzi-lo. Neste risco calculado, Springsteen foi muito bem sucedido, ainda que só tivesse dado o disco como encerrado literalmente dias antes de entrar em digressão. Foi a 3 de outubro que começou a tournée mundial, que passou pelo Japão, Austrália, Inglaterra e Europa. O alinhamento incluía 11 temas do novo trabalho e começava com «Born to Run». Logo na noite de estreia, ocorreu uma pequena “catástrofe” emocionante em Ann Arbor, na Michigan’s Chrysler Arena. A pressão foi tanta que Bruce se esqueceu da letra:

“Já sabia que ia acontecer, porque ouvi a canção umas 10 vezes nos bastidores, tentando lembrar-me da letra. Mas tive uma autêntica ‘branca’. De repente, porém, comecei a ouvir a letra algures na minha cabeça e percebi… que raio… os miúdos estão a cantar-ma! Foi, de facto, um belo presente.”

A foto da capa, de Frank Sefanko.
A foto da capa, de Frank Stefanko.

A banda estava mais em sintonia do que nunca – compatibilizando os instrumentos usados no estúdio com os utilizados ao vivo. Como referiu Steve Van Zandt, uma intenção de The River foi a de recriar a energia dos espectáculos ao vivo no estúdio, algo que, achava, ainda não fora conseguido.

Esta digressão foi uma maratona que durou quase um ano, com mais de 130 concertos em todo o mundo. E chegavam a durar cinco ou seis horas cada. Peter Frampton, numa entrevista, disse: “Vi o Bruce, sim… é um concerto longo… muito longo. Ele é excelente, muito talentoso, mas foi numa época em que ele obviamente não tinha lado nenhum para ir depois do concerto. Quero dizer, cinco, seis horas?… [risos]”. Springsteen perdia entre 2.2 e 2.7 quilos em cada concerto, adoeceu, e acabou a digressão bastante magro e com ar exausto mas feliz.

Dois meses depois de iniciada a digressão, a 8 de dezembro de 1980, em Filadélfia, Bruce entrou em palco na noite em que John Lennon foi assassinado. Era uma das suas influências e nunca o tinha conhecido. Claramente abalado, falou ao público: “É um noite difícil para vir aqui tocar quando tanto foi perdido… É um mundo duro que nos faz viver muitas coisas que não são passíveis de serem vividas. E é difícil vir aqui tocar, mas não há mais nada a fazer!” O tema final foi «Twist and Shout».

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O que movia o Boss a forçar o limites do físico, foi, é claro, a interrogação de muitos jornalistas. À Musician, Springsteen tentou explicar:

“A razão é que temos uma ideia sobre o que queremos dizer. Uma ideia sobre as coisas, uma opinião, um sentimento sobre como as coisas estão ou podiam estar. E queremos ir lá fora, dizer isso às pessoas. Queremos dizer-lhes, bom, se toda a gente fizesse isto ou se as pessoas pensassem isto, talvez fosse melhor. Quando fazemos o concerto longo, é porque dá a imagem inteira. E se não vos derem a imagem inteira, não vão ‘captar’. Tocamos a primeira parte, isso é a base; sem isso, o resto não acontecia. Não haveria segunda parte sem a primeira, essas coisas todas não teriam lugar. Sem essa base das coisas difíceis, das coisas por que se luta, das coisas em que se trabalha. Esse é o ‘coração’, e é onde tudo vai levar.”

Para quem disse, “para vivermos, temos de viver dentro de certos limites”, não admira a declaração que se segue, no seguimento desta:

“E depois há a vivência e tudo o que a rodeia. Por isso é que é que o concerto é tão longo. Queremos deixar de fora «Stolen Car»? Não, faz parte do puzzle. Queres deixar isto de fora? Não, é outra pequena peça. E, no fim, se quiseres, podes olhar para trás e ver… apenas um ponto de vista, na verdade. Vês a ideia de alguém, a maneira como alguém vê as coisas. E conheces alguém. As pessoas vão a esse concerto e conhecem-me. Sabem muito de mim, tanto quanto eu conheço essa parte de mim mesmo. É por isso que, quando as encontro na rua, já nos conhecem. E nós também as conhecemos. Por causa da resposta delas.”

bruce springsteen the river wandrinstar (14)Num tom mais descontraído, Springsteen falou das maratonas da digressão de The River: “Nem sei bem… simplesmente aconteceu. Começou por ser uma ideia de libertação física e… pôr os rabos do pessoal a mexer e o espírito segue-se. E também, tocar até ao ponto da exaustão era importante para mim.”

A mesma pergunta sobre esta entrega “demencial” já lhe fora feita em 1978, sobre a digressão de Darkness, com espetáculos de cerca de três, quatro horas. Bruce disse à Sounds:

“Podemos fazer 80 concertos em oito meses, mas está um miúdo ali, é o dinheiro dele, e é a sua única noite. Pode não nos ver durante um ano. Por isso, não o podemos deixar ficar mal… temos de estar à altura da situação ao entrar em palco – uma certa tradição dos primeiros rockers até agora em que acredito muito. É como se tivéssemos de ser o nosso próprio herói, descobrirmos por nós mesmos… eu só sou uma espécie de catalisador.”

The River alterna entre baladas e canções mais ligeiras, por vezes, ao ponto da banalidade, como «I’m a Rocker» ou «Drive All Night», com a premissa absurda de se guiar toda a noite só para comprar um par de sapatos à amada… Outros têm graça: “Ela faz com que Vénus de Milo pareça sem estilo, e com que a Sheena da Selva pareça domada”. Mas é difícil resistir à energia dos acordes iniciais de «The Ties That Bind», que soam aos The Seachers. E todas as ideias que Springsteen quis transmitir nesta fase estão lá – personagens que passaram um mau bocado mas que não sobrevivem apenas, vivem porque reconhecem a amargura do sistema em que se inserem, “fugindo” assim para o rio, a autoestrada, a baixa ou os subúrbios. Como um perspicaz crítico assinalou, Springsteen admira-as por simplesmente tentarem.

Algumas figuras de The River abriram mão da dignidade, como a rapariga de «Point Blank»; o protagonista de «Stolen Car» guia um carro roubado e espera ser capturado todas as noites mas nunca é. «The Price You Pay» baseia-se na ideia americanizada da Terra Prometida, saída dos westerns de John Wayne e em toada digna – há que fazer compromissos, e os sonhos são o que mantêm a sua pureza. Nada se consegue sem sacrifício.

O tema-título «The River», que Bruce apresentou no concerto M.U.S.E. com um taciturno, “isto é o meu cunhado e a minha irmã…” deriva de conversas que teve com o cunhado e mostra um retrato da recessão económica dos EUA através de um casal, com detalhes biográficos. A irmã de Bruce casou antes dos 20 anos e começou uma família. O marido perdeu o emprego na construção civil e a família passou tempos terríveis – são essas também as pessoas que Bruce acha heróicas, falando delas sem sentimentalismo.

«Independence Day» é sobre a “quebra” entre pais e filhos ao longo das gerações; estes que têm de seguir os seus caminhos quando chega o Dia da Independência, trocadilho com o marcante dia da História dos EUA. Portanto, Bruce é um cantor americano, mas nunca obrigatoriamente… The River termina com «Wreck On The Highway», sobre um homem que testemunha a morte doutro num desastre de automóvel, uma vida ceifada por acaso. Como se dissesse a quem ouve, pensem agora vocês no que podem ou não mudar, porque o tempo passa depressa, e demasiado depressa para muitos.

Nem toda a gente ficou convencida com The River, e Bruce continuava a ter alguns problemas no Reino Unido. Julie Burchill da New Musical Express: “Não há pior maçada que uma Maçada Bruce!” Chamava as personagens femininas por “baby”, foi acusado de chauvinista, disseram que “o futuro do rock and roll”, como o tinham entronizado cinco anos antes, era uma fraude e achavam-no enfadonho e evangélico ao falar do rock nas entrevistas que dava.

Frances Lass, na Time Out até inquiriu: “O que faria ele se reprovasse no teste de condução?”, devido às várias referências a automóveis. De facto, o automóvel é um símbolo americano e Springsteen abusa disso, mas também pode ser uma metáfora. O músico irritou-se e respondeu:

“Não escrevo canções sobre carros. As minhas canções são sobre as pessoas nesses carros!”

As críticas negativas em Inglaterra não refrearam o entusiasmo do público, até porque a Grã-Bretanha atravessava uma séria crise e as canções de The River encontraram eco. Bruce até adicionou o solidário «This Land Is Your Land» de Woody Guthrie (inspirado pela Grande Depressão) ao alinhamento, fazendo uma ponte sobre o Atlântico.

Nos anos 90, João Gobern escreveu uma crítica sobre Human Touch no extinto Sete, dizendo que Bruce Springsteen parecia escrever sobre temas banais, mas, na verdade, escrevia sobre temas muito complexos. E também há partes com as quais qualquer pessoa se pode identificar.

A GUITARRA

A guitarra principal de Bruce era uma Esquire de 1954, modificada com um pickup de Telecaster extra, tornando sempre difícil de identificar o modelo. Foi submetida a muitas modificações (pickups Seymour Duncan instalados pelo técnico Phil Petillo, para eliminar o ruído). O braço desgastado (em forma de V) já fora reparado várias vezes, assim como o fretboard.

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As pickguards já tinham sido dezenas. A original era preta e tinha cinco parafusos. Agora tinha sete. A guitarra original possuía um asterisco à frente do número de série, o que implica que terá sido vendida como uma espécie de rejeição de fábrica. Além da guitarra que ficou tão associada à sua imagem, Bruce usou duas Fender Telecaster, de 1954 e 1956, além de duas Rickenbacker de 12 cordas. (Matéria para um artigo à parte.)

RIO SEM BARRAGEM

O sucesso de The River foi incrível; pela primeira vez, Bruce Springsteen chegou ao Top Ten com «Hungry Heart». Alcançou os lugares cimeiros da Billboard e da Record World pela segunda vez na História: Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy de Elton John não foi ultrapassado. Ainda assim, The River vendeu com incrível rapidez, ultrapassando The Wall dos Pink Floyd. E revitalizou também os dois primeiros álbuns de Bruce, Greetings From Asbury Park N.J. e The Wild, the Innocent & the E Street Shuffle, que também chegaram a disco de platina.

Houve alguns reveses: Steve Van Zandt começou a querer a sua própria independência criativa e vários críticos e ouvintes acharam The River demasiado extenso e, em simultâneo, sentimentalista e deprimente. Seja como for, Bruce, depois de um breve repouso, gravaria Nebraska, num gravador de quatro pistas, lançando-o em 1982. Refira-se que todas as primeiras gravações dos Beatles foram registadas num sistema basicamente igual. Obviamente, tal já não era prática na indústria. Contudo… certas coisas não têm tempo, como os clássicos do rock que Springsteen tocava para plateias da Europa, em jeito de homenagem: De «Proud Mary» a «Mony Mony»:

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Bruce disse à Crawdaddy: Às vezes, as pessoas perguntam-me quais são as minhas favoritas. Elas mudam… Para mim, a ideia do rock and roll é a minha favorita, de certo modo… Não tocamos velhos clássicos. Podem ser canções mais antigas mas não são nostálgicas… são ótimas agora, são ótimas hoje, e se alguém as toca e alguém as ouve, vão adorá-las amanhã.”

O mesmo aconteceu ao seu próprio trabalho. Quanto à pergunta de «The River», permanece uma que cada pessoa tem de fazer a si mesma. E fazer uma boa pergunta, mesmo que não haja resposta, não é nada mau para um artista verdadeiro, até porque esses só fazem metade do trabalho. Cabe a nós fazer o resto. 

David Furtado

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