Elegia desconfiada a Clara Ferreira Alves

Esta senhora sempre me atraiu as atenções porque consegue ser pior do que eu! Ontem tive uma espécie de reencontro com as suas opiniões e escrita, e senti-me devolvido ao meu lugar.

clara ferreira alvesE isto aconteceu, como as coisas interessantes da vida, por acaso, num lugar literalmente comum, ao ler revistas do Expresso numa sala de espera. No meio daquela literatura “Hola”, só me atraiu a atenção uma coisa sobre Bowie, outra sobre os “bonzos”, outra sobre Paris após os atentados e já não me lembro da quarta porque estava a pensar que ainda há gente pensante em Portugal. Pessoas que sabem escrever direto e comunicar.

Nunca conheci a senhora e ouvi coisas pouco abonatórias sobre ela, mas como também as dizem de mim sem fundamento, prefiro seguir o conselho de Hemingway, de que ninguém se consegue esconder atrás das palavras. E como estas salas de espera são uma antecâmara intemporal, um vácuo no tempo, estudei as palavras e as ideias.

Quando, há 20 anos, andava na faculdade de jornalismo, se assim se pode chamar a essa escola, o professor de imprensa disse horrores sobre Clara Ferreira Alves. “Essa senhora julga-se a maior, é arrogante, odeia os jornalistas, etc.”, prolongando meia hora. Mas este professor não era muito popular porque conseguiu o recorde de… toda a turma faltar, certo dia. Não é que esteja interligado.

Já nessa altura, as opiniões e o modo de Clara Ferreira Alves se expressar eram incisivos. E eu gostava disso. Era agressiva, quando ria, era sarcasticamente. Mas os seus olhos tinham uma certa aspereza contida – denotava que conhecia muito melhor os meandros do jornalismo do que este suposto professor.

E depois, na TV, tinha este ar de western spaghetti político, mas dos sérios, à Leone. E um sentido de humor quase romano. E não posso deixar de lado o facto de a achar atraente, com o cabelo curto, aparentemente ao desleixo, e os olhos claros que parecem ver tudo, até o movimento dos cameramen. [Curiosamente, ao acompanhar os seus textos e ouvir as suas opiniões, descobri a sua admiração por vários artistas, escritores e filmes que também admiro; por exemplo, Camus, Giulietta Masina, os filmes As Noites de Cabíria e Belíssima. Não foi só esta coincidência que me surpreendeu: Ferreira Alves explica em poucas palavras por que motivo os aprecia, sem os laivos de vaidade da maioria dos blogueiros. Mas não me parece uma pessoa “cómoda” ao dizer que as redes sociais são a estupidificação do ser humano, algo com o qual também concordo.]

Dando um tiro no escuro, ou num tanque, diria, parece que Ferreira Alves possui uma característica que alguém assinalou a John Lennon: “As nozes mais duras têm os núcleos mais suaves.”

Ouvi, ao longo dos anos, vários apartes invejosos de jornalistas ineptos que só me fizeram interessar mais pelo que fazia, o que dizia e o que escrevia, ainda que com ceticismo. Li pouco e, do que li, gostei.

E Clara Ferreira Alves não comete os erros básicos do “voto em pessoas, não em partidos”, não opta pelo “fui passear com uma amiga por Montparnasse”, não se arma. O tanque, digo.

E naquelas quatro crónicas, aprendi que devo mesmo conter os caracteres. E, verdade seja dita, Ferreira Alves escreveu o melhor epitáfio de David Bowie que li. Mas devia ter referido Lou Reed… porque esse não se estava nas tintas para os “likes”, era mas é capaz de torcer o polegar e parti-lo!

Ainda assim, achei estes textos excelentes; implacáveis para com o portuguesinho subserviente que tanto detesto, para com a semi-burguesia, o Facebook, os novos-ricos, políticos e outros temas que não domino, como o meio político espanhol. A única nota negativa que dou é ao esboço do seu rosto (falando a nível gráfico). Não está mau, mas não é… grande coisa.

Uma boa coisa é que Rui Tentúgal figure como editor, não sei se diretamente ligado a estas crónicas, mas alguém que apostou em mim tanto quanto pôde, quando comecei a trabalhar, aos 23, à distância Lisboa-Porto, que é muuuito grande e merece referência neste contexto.

E acabando ao seu estilo (ainda que desconfiado, porque Clara Ferreira Alves domina bem as mecânicas da rebeldia), a sala de espera tornou-se, por uma hora, sala de ensino, e se fosse minha professora de imprensa há 20 anos, acho que me teria tornado melhor jornalista. Em vez de ouvir o que o meu professor disse sobre ela. E que felizmente nunca me soou afinado nem bem ensinado. Sempre me disseram que tinha ouvido para a música, até mais, como era o termo… “ouvido certo” porque identificava o tom. Mas ter ouvido para as mulheres… oh, é muito mais difícil.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s