Ennio Morricone: Óscar. Chi Mai… Quem mais, qualquer um…

“Certamente, foi uma expressão de inteligência cinematográfica… nem sempre a tiveram, os americanos, devo dizer, mas… nesse caso, sem dúvida, viram nela algo de especial e fora da norma; não era uma atriz talentosa, era uma atriz que podia ser ela mesma.”

Dacia Maraini, escritora italiana, comentando o primeiro Óscar para Itália, para Anna Magnani.

ennio morricone oscar 2016

E este foi o mais recente. E o que dizer de Ennio Morricone? Não vou pelo argumento da “inteligência cinematográfica” americana, porque isso não existe, e hoje muito menos. Pelo filme também não, pois nem vejo motivo para Tarantino pegar numa câmara e fazer filmes. Não tem capacidade para isso. É anedótico.

Sergio Sollima disse algo, entre muito o que se disse de Morricone, a respeito do filme Revolver (1973):

“Ele capta a cena imediatamente e torna-se o ‘realizador musical’. Consegue encontrar a coisa certa, e nem sequer é a melodia certa, é a criação musical certa para aquela determinada situação daquele determinado personagem…”

E Fabio Testi, ator no mesmo filme, acrescentou: “Ennio Morricone criou a História do cinema com a sua música. É uma assinatura, uma garantia, uma marca, uma impressão digital… um marco de qualidade.”

Não escrevo sobre Ennio Morricone sob o aspeto musical/cinematográfico, o que seria uma área em que me moveria bem e decerto elaboraria um bom texto (penso e modéstia à parte); porque consultam este site para fotos e informação fidedigna que é, posteriormente, republicada em sites brasileiros sobretudo. (Ainda há dias encontrei mais um “génio do bloguismo” que copiou o texto sobre Wish You Were Here, abrasileirou e foi muito elogiado, e por mim, também…)

Estou a divagar porque francamente não sei que dizer de Morricone… Tenho à minha frente uma lista de 76 filmes com banda sonora dele, que tenho e vi. E que adoro. Acho que é o melhor compositor de bandas sonoras de sempre, sem rival nenhum. A par da minha admiração por Bruno Nicolai, Stelvio Cipriani e Bernard Herrmann. Nunca gostei de John Williams ou James Horner. E lamento que Mário Augusto, jornalista português, pronuncie, “western spargeti”. Mas é o país que temos, não há outro.

E continuo com esta lista e a folha em branco, para a qual, certamente, Morricone encontraria a banda sonora certa.

A referência ao “jornalismo cinematográfico português” remete para outro aspeto: Morricone foi criminosamente ignorado, em prol das coisas do costume: DiCaprio, etc. Mas como habitualmente vejo a RAI e não ouço (mas também não entendo o que dizem “profissionais” como Mário Augusto desde que o vi insultar um cameraman e comecei a ouvir e ler as nulidades assombrosas que sempre disse – nisso é coerente), em Itália, não acharam estranho. Foi, é claro, a primeira citação em rodapé e assinalado com respeito e admiração.

Mas para quem estuda italiano, como faço, é difícil, por vezes, entender a relação que o cinema italiano teve e tem com Hollywood. Sendo o maior mercado, todos lá sempre quiseram entrar; De Cleopatra a Quo Vadis, Lawrence da Arábia, Ben-Hur… filmes americanos? Sim… filmados com 70 por cento da criatividade e meios técnicos italianos. Até Zorba é uma produção greco-italiana com distribuição americana. Portanto, há uma certa subserviência incaracterística dos italianos aliada a uma espécie de “os americanos nunca cá deviam ter entrado e ficado com os louros”.

Até para uma indústria com relações internacionais tão poderosas com Hollywood, o Óscar para Morricone provocou-me apenas um polegar erguido. É redundante. Os Óscares já não importam, de todo. E as pessoas estão cansadas. A Academia sabe disto e, pelo que sei, tenta diversificar… E não está a conseguir adaptar-se. Basta olhar para DiCaprio a ganhar um Óscar com o entusiasmo de varredor do mês que teve um aumento de cinco dólares. Comparemos com 1967, em que Anne Bancroft recebeu o Óscar para Elizabeth Taylor das mãos do hellraiser Lee Marvin. Bancroft, extraordinária atriz, estava muito emocionada, quase como se fosse para ela.

Acabei por falar pouco de Morricone porque a música fala e… estou certo que faria a banda sonora deste texto, porque é um génio e deram-lhe isto. Que me soa a insulto. Mas, vindo de Holywood, já anda entre o silêncio e o ruído ensurdecedor de uma fábrica.

Uma vez, perguntaram a Mark Knopfler se gostaria que alguém visse um filme apenas porque a banda sonora era sua. Este respondeu, “espero bem que não!” No caso de Morricone, como admirador, diria que sim. Mas não vou sugerir 76… É estranho, parece que deram um Óscar a Mozart depois de o ouvirem durante 50 anos no Alasca.

Curiosamente, Ennio Morricone só surgiu num filme: A Classe Operária Vai Para o Paraíso, cuja banda sonora é bastante atonal e nada melódica. Tal como este Óscar.

David Furtado

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