David Bowie: O Planeta Terra é azul e não há nada a fazer

Seria irresponsável se não fizesse aqui qualquer menção à morte de David Bowie. Enquanto músico. E ele, como músico, sempre teve a coragem de ser diferente. É o mínimo que se pede a um artista e talvez o máximo. Quando soube que faleceu, foi como se morresse um pedaço de música que faz parte da vida de muitas pessoas.

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Nos anos 80, «Let’s Dance», em que deu uma oportunidade a Stevie Ray Vaughan de fazer o solo de guitarra. Um “Absolute Beginner” também eu era em termos musicais, mas Bowie agradava a pessoas diferentes em termos de gosto, sexo ou personalidade. Havia sempre alguma melodia de que gostavam.

Bowie era inteligente como poucos. Gostei quando me disseram que, no começo dos anos 70, iniciou uma verdadeira “praga” para os pais, cujos filhos se vestiam como Ziggy Stardust: “Que horror!” Pensei logo, “hum… horror o tanas, este tipo deve ser interessante”. E assim foi, porque encarnava a rebeldia do rock and roll, ao qual adicionava o estilo camaleónico (tantas vezes um cliché), mas que fazia como ninguém; reinventando-se no som e no visual. Como se não bastasse, alguém que faz uma tournée a tocar uma guitarra com uma só corda merece, para lá do espanto, a atenção…

A atenção que me suscitou em 1991 quando também eu tocava guitarra com uma só corda, inspirado por ter ouvido The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars com colegas do liceu, e constantemente a tirar a capa do disco das mãos de um tipo, porque queria olhar para ela. “He played it left hand.” Também eu era canhoto e me chamava David. Parte do que ouvi, fascinou-me, parte, não gostei. Mas, se ainda me lembro disso, alguma impressão forte me deixou.

Para lá do exibicionismo do showbiz que inspirou a empresária Madonna, também há a colaboração genial com Lou Reed em Transformer e uma participação em The Raven. Lou Reed gostava de Bowie e achava Madonna uma coisa para pré-adolescentes, que é, mas quero sublinhar a abrangência de Bowie. Era sempre bizarro saber que tinha um olho de cada cor. Quando era adolescente, pensava que fosse algo de genético, mas julgo que se deveu a um acidente em que ia perdendo a visão.

Ao dizer “julgo”, recordo-me também que me pediram para escrever um daqueles “making of” de um disco de David Bowie, como fiz aqui no site. Na altura, comprei uma biografia, e queria fazê-lo, mas, com a morte de Lou Reed, uma das minhas maiores influências, a ideia foi adiada.

Conheço mais de David Bowie, a nível de episódios pitorescos, justamente através de Reed. Transformer foi um álbum clássico devido à empatia entre ambos e à genialidade do material aliado ao modo como Bowie o moldou. No final da década de 70, falou-se de nova colaboração e, num jantar, Bowie terá dito que concordava, mas foi firme com Reed, dizendo para se “compor” e deixar o desleixo de droga e álcool em que andava. Reed pregou-lhe um murro ou um estalo (conforme as versões) e, depois de os separarem, foi dormir para o hotel. Bowie apareceu mais tarde, com o habitual “anda cá fora se és homem, etc.”, mas Reed já ressonava por essa altura…

Para lá de quem gosta de pop, havia uma maleabilidade que se provou num concerto de David Gilmour a solo, quando cantou «Arnold Layne», com entusiasmo e o tão falado espírito camaleónico. De certeza, a única pessoa que conseguiria cantar o tema de Syd Barrett com tanta autoridade e veemência.

Bowie sempre fez parte da minha vida porque o ouvi elogiado por músicos, porque me pediram para tocar mil vezes o «Space Oddity», a história do astronauta que não quer voltar à Terra. “Planet Earth is Blue and there’s nothing I can do.” E, às vezes, pediam-me para tocar e cantar esta canção, ironicamente quando eu preferia ser o astronauta. E quem me pedia era uma fã de David Bowie da qual eu gostava, mas que… estava na Terra.

E, além disso, dançarmos ao som de “Space Oddity” com alguém pode ser uma experiência inesquecível. Portanto, David Bowie sempre me “perseguiu”, a começar pelo nome, parecendo piscar o olho com aquela expressão provocadora e bem humorada.

Continuo a preferir «Heroes» porque gosto da música e da ideia de sermos heróis por um dia, como diz a letra. E estes “heróis” que tanto disseram a tanta gente, estão a desaparecer e não há quem os substitua. Lou Reed, Bowie… muitos anos desejo a Dylan, Clapton, David Gilmour, Roger Waters, Mark Knopfler, Joni Mitchell e outros. Os sobreviventes de uma Era que não se repete. Hoje não temos talentos como David Bowie. Que seja ouvido por muitas gerações. Que serão camaleónicas e mutantes como ele, de certeza absoluta. A natureza da sua música e da sua persona pública em constante mutação até propiciam a que assim seja.

Não escrevo sobre ele agora pois abomino a morbidez despoletada pela morte de artistas que escreveram partituras por linhas tortas e fizeram História. Bowie, para mim, não era uma celebridade ou uma estrela do rock, era um músico genial e inimitável. O Planeta Terra é azul e não há nada a fazer. Ficou mais azul. Talvez seja melhor, pois quem vai não volta. Fica acima do Mundo. “High above the World.”

David Furtado

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