Anne Sexton: Quase Regressada da Casa dos Loucos (tradução integral)

anne sexton bedlam completo portugues

I

O Senhor, Doutor Martin
Gentil Senhor: Estes Bosques
Despojada de Glória Dia a Dia
Música Flui de Novo Até Mim
Os Sinos
Elizabeth Desaparecida
Algumas Cartas do Estrangeiro
O Papagaio de Papel
Disse a Poetisa ao Psicanalista
Vénus e a Arca
Como Ela
Os Exorcistas
Onde Eu Vivo, nesta Honrada Casa do Loureiro
Retrato de Uma Velha na Parede da Taberna da Escola
A Mulher do Agricultor
Funil
Os Expatriados
Para Johnny Pole na Praia Esquecida
Rapariga Anónima na Enfermaria da Maternidade
O Que é Isso?
O Musgo da Pele Dele
Cesto
Passeio do Meio-Dia no Relvado do Hospício
Tocando os Sinos
Canção de Embalar
O Ingrediente Perdido
A Estrada de Regresso
A Cabeça Expectante
Elegia na Sala de Aula
Uma História Para Rose no Voo da Meia-Noite para Boston

II

Para John, Que Me Suplica Que Não Prossiga o Meu Inquérito
A Imagem Dupla
A Divisão das Partes

Acerca do título original: To Bedlam and Part Way Back: «Bedlam» é o nome pelo qual é conhecido o Hospital of Saint Mary of Bethlehem (Belém), em Londres, um asilo de doentes mentais. A denominação pode também ter um sentido pejorativo ou simplesmente coloquial. [N. T.]

Quase Regressada da Casa dos Loucos (1960)

Para Kayo, que esperou

É a coragem de fazer uma verdadeira confissão, diante de qualquer pergunta, que distingue um filósofo. Ele tem de ser como o Édipo de Sófocles, o qual, procurando esclarecer a sua terrível sina, se dedica ao seu infatigável inquérito, mesmo quando adivinha que um terrível horror o aguarda na resposta. Mas a maior parte de nós traz, no nosso coração, a Jocasta, pedindo a Édipo que não prossiga o seu inquérito, por amor de Deus…

De uma carta de Schopenhauer
a Goethe, Novembro de 1815

O SENHOR, DOUTOR MARTIN

O senhor, Doutor Martin, termina
o pequeno-almoço e entra na loucura. Agosto tardio,
apresso-me pelo túnel anti-séptico
onde cada morto móvel ainda fala
em empurrar os ossos contra o poderio
da cura. E eu sou rainha deste hotel de Estio
ou a abelha a rir num caule

de morte. Dispomo-nos em linhas descompassadas
e aguardamos que eles descerrem
a porta e nos contem aos portões gelados
do jantar. A senha é pronunciada
e avançamos para o caldo nas nossas batas
de sorrisos. Mastigamos em fila, os nossos pratos
rangem e chiam como giz

na escola. Não há facas
para cortarmos a garganta. Faço
mocassins a manhã toda. De início, as minhas mãos
mantinham-se vazias, desenredadas das vidas
para as quais trabalhavam. Agora reaprendo
a usá-las, cada dedo irado ordena
que eu remende o que outro irá quebrar

amanhã. É claro, eu amo-o;
o doutor debruça-se sobre o céu de plástico,
príncipe de todas as raposas, deus do nosso quarteirão.
As coroas quebradas são novas,
estas coroas de zé-ninguém. A sua terceira visão
move-se entre nós, iluminando as caixas isoladas
onde dormimos ou choramos.

Que crianças grandes nós somos
aqui. Por todo o lado eu cresço com fulgor
na melhor enfermaria. A sua profissão são as pessoas,
Faz visitas no asilo, um olho oracular
no nosso ninho. Lá fora no corredor
o intercomunicador chama-o. O doutor vira costas
às crianças matreiras que o puxam e caem com o vigor

diluvial de vida em geada.
E somos magia falando para si própria,
ruidosa e só. Sou rainha de todos os meus pecados,
esquecida. Ainda estarei desnorteada?
Outrora era bonita. Sou eu mesma, agora,
contando estes mocassins, esta fiada e aquela fiada
aguardando na estante silenciosa.

GENTIL SENHOR: ESTES BOSQUES

Já que, neste mundo, um homem precisa apenas de ser virado para o lado contrário uma vez, de olhos fechados, para ficar perdido… só quando nos perdermos… nos começamos a encontrar.
THOREAU, Walden

Gentil Senhor: Este é um jogo antigo
que jogávamos quando tínhamos oito e dez.
Às vezes na Island, lá no Maine,
em fins de Agosto, quando a névoa fria soprava
do oceano, a floresta entre Dingley Dell
e a herdade do avô tornava-se alva e estranha.
Era como se cada pinheiro fosse uma estaca castanha
que não conhecêssemos; como se o dia se tornasse
noite e morcegos voassem ao sol. Era um truque
voltarmo-nos uma vez e sabermo-nos perdidos;
sabendo que a trombeta do corvo gritava nas trevas,
sabendo que o jantar nunca viria, que o grito de
perdição da costa, daquele longínquo sino, o sino da bóia, dizia a vossa ama desapareceu. Oh, Mademoiselle,
o barco a remos virou. E depois morreste.
Virados uma vez, de olhos cerrados, a pensar nisto.

Gentil Senhor: Perdida e gentil como vós
Virei-me duas vezes de olhos fechados
e os bosques eram alvos e a minha mente nocturna
viu coisas tão estranhas, por contar, irreais.
E, abrindo os olhos, receio, é claro,
ver – esta paisagem interior que a sociedade espezinha –
Ainda assim, procuro nestes bosques e não encontro nada pior
do que eu própria, apanhada entre as vinhas e os espinhos.

DESPOJADA DE GLÓRIA DIA A DIA

Todo o dia, olhámos as gaivotas
chocando com o cimo do céu
e andando na montanha-russa de sopros.
Lá no alto
sublimando todo o mundo azul
e guinchando a um recorte de terra.

Agora, como crianças,
descemos depressões de rochas
com um saco de pães,
sobras do jantar,
e estendemo-los suavemente na pedra,
deixando seis côdeas para um rei primitivo.

Uma única sentinela avança, furtiva,
flutua na corrente movida pela fome
e paira
esculpida em seda
até que vibra de súbito e
salta, um milímetro acima da água;

para regressar
deslizante sobre a maré plana.
Trazendo o seu bando, uma cidade
alada caindo das alturas.
Elas aguardam, cada uma parece um ardil de madeira
ou suave como um pombo ou

um doce e agasalhado pato:
até que uma se move, move aquele bico de dardo
sem descanso. Já tem o pão.
O mundo está cheio delas,
um mundo de bestas
lançando-se a uma única pedra.

Apenas quatro esgotam o pão
e partem ondulantes sobre Gloucester
rumo ao cimo do céu.
Oh vejam como
elas aconchegam nas suas barrigas de peixe
a migalha de um irmão.

MÚSICA FLUI DE NOVO ATÉ MIM

Espere, senhor. Qual é o caminho para casa?
Eles apagaram as luzes
e as trevas movem-se ao canto.
Não há placas de sinalização neste quarto,
quatro senhoras, com mais de oitenta anos,
de fraldas, todas elas.
La la la, Oh, a música flui de novo até mim
e consigo sentir a canção que eles tocavam
na noite em que me deixaram
nesta clínica privada numa colina.

Imaginem só. Um rádio a tocar
e toda a gente aqui estava doida.
Eu gostei e dancei em círculo.
A música derrama-se nos sentidos
e de modo engraçado
a música vê mais do que eu.
Quero dizer, lembra-se melhor;
lembra-se da primeira noite aqui.
Foi no frio sufocante de Novembro;
até as estrelas se enfaixavam no céu
e aquela lua demasiado cintilante
forçava as barras com um tridente, picando-me
uma canção na cabeça.
Esqueci tudo o resto.

Eles prendem-me nesta cadeira às oito da manhã
e não há sinais a indicar o caminho,
apenas o rádio pulsando sozinho
e a canção que se lembra
melhor do que eu. Oh, la la la,
esta música flui de novo até mim.
Na noite em que vim, dancei num círculo
E não temi.
Senhor?

OS SINOS

Hoje o cartaz do circo
é uma crosta saindo da parede de cimento
e as crianças esqueceram
se é que conheceram o momento.
Pai, lembras-te?
Apenas o som permanece,
o baque distante dos bons elefantes,
a voz dos leões ancestrais
e como os sinos
tremiam para o homem voador.
Eu, rindo,
às cavalitas nos teus ombros altos
ou pequena nas rudes pernas de estranhos,
não tinha medo.
Seguravas-me na mão
e explicavas logo
os três tinidos do perigo.
Oh, vejam o palhaço travesso
e o bravio desfile
enquanto o amor o amor
o amor desenhava círculos em meu redor.
Foi com este som que começou;
a nossa respiração ansiando por ver
o homem voador expor-se e voar
através do céu de tábuas
e escalar os ares.
Recordo a cor da música
e recordo para sempre
como todos os teus trémulos sinos
eram meus.

ELIZABETH DESAPARECIDA

1.

Jazes no ninho da tua morte verdadeira,
Para além da marca dos meus dedos nervosos
Onde eles tocaram a tua cabeça agitada;
A tua velha pele franzida, nos teus pulmões o alento
Regredira, curto como de um bebé, quando ergueste o último olhar
Para a minha face, oscilando sobre o leito humano,
E algures gritaste, deixem-me sair deixem-me sair.

Jazes no cesto da tua morte derradeira,
Mas não eras tu, finalmente não eras tu.
Eles encheram-lhe as faces, eu disse;
Esta mão de barro, esta máscara de Elizabeth
Não são autênticas. Dentro do cetim
E da camurça deste leito inumano,
Algo gritou, deixem-me sair deixem-me sair.

2.

Eles deram-me as tuas cinzas e conchas ossudas,
Sacudidas como cabaças na urna de cartão,
Sacudidas como pedras que o forno abençoara.
Aguardei-te na catedral de conjuras
E aguardei-te na terra dos vivos,
Ainda imóvel, a urna cantando suave no meu peito,
Quando algo gritou, deixem-me sair deixem-me sair.

Assim, deitei fora as tuas últimas conchas ossudas
E ouvi-me a gritar em busca da tua figura,
Do teu rosto de maçã, do simples infantário
Dos teus braços, dos aromas de Agosto
Da tua pele. Depois pus de parte os teus vestidos
E os amores que deixaste, Elizabeth,
Elizabeth, até teres desaparecido.

ALGUMAS CARTAS DO ESTRANGEIRO

Lohengrin: Ópera romântica de Richard Wagner com texto do compositor. A primeira apresentação foi na Alemanha em 1850. [N. T.]

Conheci-te desde sempre e sempre foste velha,
doce dama branca do meu coração. Decerto irias
censurar-me por ficar acordada, lendo as tuas cartas,
como se estes carimbos estrangeiros me fossem dedicados.
Primeiro, enviaste-os de Londres, envergando peles,
e um vestido novo no Inverno de oitocentos e noventa.
Li como Londres é aborrecida no dia do Lord Mayor,
O dia em que o cidadão eleito para mayor de Londres é apresentado ao rei depois de um cortejo público.
onde te desviaste de bandos de ladrões, dos tristes buracos
de Whitechapel, agarrada à tua carteira, a caminho
de Jack o Estripador dissecando os seus famosos ossos.
Esta quarta-feira em Berlim, dizes tu, irás
a um bazar em casa de Bismarck. E eu
vejo-te como uma rapariga ainda num mundo bom,
escrevendo três gerações antes da minha. Tento
apoderar-me da tua página, inspirá-la, reavê-la…
mas a vida é um ardil, a vida é uma gatinha numa bolsa.

Esta é a bolsa temporal que a tua morte deixa vaga.
Como estás distante nos teus patins niquelados
no ringue de patinagem em Berlim, deslizando
por mim com o teu Conde, enquanto uma banda militar
toca uma valsa de Strauss. A última vez que te amei,
eras uma velhinha enrugada com uma mão curvada.
Uma vez, leste Lohengrin e cada ganso
pairava alto enquanto fazias vida num castelo
em Hanover. Esta noite, as tuas cartas reduzem a
história a um palpite. O conde era casado.
Tu eras a velha tia solteira que vivia connosco.
Esta noite leio como o Inverno uivava em volta
das torres de Schloss Schwöbber, como te habituaste
ao fastio da linguagem, como amavas o som
musical das ratazanas tamborilando nos soalhos de
pedra. Quando te tinha comigo, usavas um aparelho auditivo.

Hoje é quarta-feira, 9 de Maio, perto de Lucerne,
Suíça, há sessenta e nove anos. Aprendo como foi
a tua primeira escalada ao Monte San Salvatore;
cá está o carreiro pedregoso, o buraco nos teus sapatos,
a rapariga ianque, o interior de ferro
do seu doce corpo. Deixas o Conde escolher
a vossa próxima escalada. Foram juntos, armados
com varas alpinas, sanduíches de presunto
e Água Seltzer.. Não te alarmaste
com os densos bosques de sarças e arbustos,
nem com o penhasco escarpado, nem com a primeira vertigem
lá no alto, sobre o Lago Lucerne. O Conde suava
de casaco despido enquanto avançavas pela neve no cimo.
Ele pegou-te na mão e beijou-te. Desceram apressados
no comboio, para embarcarem num vapor rumo a casa;
ou a outros carimbos: Paris, Verona, Roma.

Estamos em Itália. Aprendes a língua mãe.
Leio como passeaste no Palatino entre as ruínas do palácio dos Césares;
sozinha no Outono romano, sozinha desde Julho.
Quando eras minha, embrulharam-te e levaram-te daqui
com o teu melhor chapéu cobrindo-te o rosto. Chorei
porque tinha dezassete. Sou mais velha agora.
Leio como o teu bilhete de estudante te admitiu entrada
na capela privada do Vaticano e como
te alegraste com as outras, tal como eu e as amigas
no Quatro de Julho. Uma quarta-feira em Novembro
observaste um balão, pintado como uma bola prateada,
flutuar sobre o Fórum, sobre os imperadores perdidos,
a sua pequena e moderna caixa tremendo a uma brisa
ocasional. Aprimoraste a tua consciência de Nova Inglaterra
ao lado de artesãos, vendedores de castanhas e devotos.

Esta noite, aprenderei a amar-te duas vezes;
aprenderei os teus primeiros dias, o teu rosto de meados da era Vitoriana.
Esta noite, ergo a voz e interrompo
as tuas cartas, avisando-te de que vêm aí guerras,
que o Conde morrerá, que aceitarás
de novo a tua América para viveres com ar de cerimónia
na quinta do Maine. Digo-te, virás até cá
aos subúrbios de Boston, para veres o mundo moralista
embebedar-se todas as noites, para veres as belas
crianças dançarem o jitterbug, para sentires o ouvido esquerdo fechar-se,
numa sexta-feira, no concerto sinfónico. E digo-te,
vais sair a bater com as botas daquele auditório
atroador com o seu amargo som, para
a rua apinhada, deixarás cair os óculos
e a rede do cabelo emaranhar-se, quando abordares transeuntes
para resmungares sobre o teu amor culpado enquanto sentes os ouvidos já defuntos.

O PAPAGAIO DE PAPEL

West Harwich, Massachusetts, 1954-1959

Aqui, diante do hotel de Verão
a praia é um altar aguardando.
Repousamos num pano de areia
enquanto o meio-dia atlântico tinge
o mundo de luz.

                                                             Foi muito parecido
há cinco anos. Lembro-me
como Ezio Pinza lançava um papagaio de papel
para as crianças. Nenhum de nós reparou
nisso então. A dama enrugada
ainda fazia ninho a tricotar.
Quatro rapazes com olhos de insónia mantinham a sua conduta
de gin e tónica enquanto trocavam algum dinheiro.
As raparigas do guarda-sol dormiam, bronzeando
os seus anos adoráveis. Não ocorria a ninguém
como aquilo era precioso, nem como parecia
divertido o festival, bem manobrado no ar.
O ar era uma temporada por eles comprada,
como o pano de areia.

                                                  Tenho aguardado
nesta extensão privada de terra de Verão,
contando estes cinco anos e perguntando porquê.
Quero dizer, era diferente nesses tempos
com Ezio Pinza lançando um papagaio de papel.
Talvez, no fim de contas, ele soubesse algo mais
e tivesse razão.

DISSE A POETISA AO PSICANALISTA

O meu trabalho são as palavras. As palavras são como etiquetas,
ou moedas, ou melhor, como enxames de abelhas.
Confesso que apenas me amargura a origem das coisas;
como se as palavras fossem contadas como abelhas mortas no sótão,
despojadas dos seus olhos amarelos e das asas secas.
Tenho sempre de esquecer como uma palavra é capaz
de escolher outra, de educar outra, até eu conseguir
algo que poderia ter dito…
mas não disse.

O seu trabalho é vigiar-me as palavras. Mas eu
nada admito. Por exemplo, trabalho melhor
quando consigo escrever o meu elogio a uma slot-machine,
naquela única noite no Nevada: relatando como o jackpot encantador
saiu com um tinido de três campainhas no sortudo mostrador.
Mas se porventura me disser que isto é algo que não é,
então enfraqueço, recordando como senti as mãos esquisitas
e ridículas e repletas com todo aquele dinheiro crédulo.

VÉNUS E A ARCA

O míssil que lançaria um míssil
era quase um segredo.
Dois graduados em filosofia foram eleitos
e preparados para enchê-lo
e uma centena
de insectos contados com cuidado,
três cobras quase novas,
enroladas num cubo,
precisamente três criaturas marinhas
em tanques, os ficheiros essenciais,
vinte barras de comida, dez breves curas,
fechos especiais, catorze ratazanas brancas,
catorze ratazanas negras, uma bolsa de terra,
tudo foi metido a bordo antes
da coisa ser projectada do deserto.

E o míssil que lançou
um míssil partiu
tornando-se um maravilhoso balão científico
que rolou e oscilou em redor
das névoas de Vénus; de súbito
afundou-se como uma doce e gorda uva,
ressumando através da gravidade, aconchegando-se
e descendo sobre o triunfante molde
do espaço. Os dois homens sinalizaram
para a Terra, dizendo ao seu Continente,
Vénus é Verde. E desfiles juntaram-se,
os ruidosos narradores terrenos passaram
um quarto de hora naquilo, até
encurtaram o boletim meteorológico.
Mas nações rivais, iradas e maliciosas,
despoletaram a sua melhor explosão de átomos
e a última guerra terrena terminou.
O lugar ficou repleto de crateras,
reduziu-se à sua caveira primitiva,
perdendo florestas, oceanos, ossos
secos e néons, caindo através dos tempos
como uma pedra esquecida e corroída.

Estes dois homens caminharam esperançados
saindo para o seu quente e vazio planeta
com máquinas, ratazanas, tanques,
caixas, insectos e o conjunto único e bizarro
de três cobras quase novas,
para fazerem os testes que deviam.
Mas ao sétimo mês, as jaulas
encolheram, demasiado pequenas para analisar,
demasiado comprimidas para sustentar. As ratazanas
eram coisas cinzentas e pesadas, correndo
contra arames e as cobras puseram ovos
atrás de ovos e até os peixes começaram
a saltar para dentro de água enquanto desovavam
por todo o lado ao nadar.
E os homens tornaram-se indiferentes; abriram
a bolsa de terra, destrancaram cada gamela
e soltaram todas as criaturas
para viverem em Vénus, ou fosse como fosse,
se esconderem sob as pedras. Abelhas enxamearam pelo ar,
deixando um ameno pólen deslizar
das asas para a erva.
Os peixes agitaram-se rumo a um pequeno lago
e as ratazanas desenredaram as pelagens
e caminharam furtivas pelo vestíbulo
do balão encolhido. Árvores floresceram
de líquenes, a rocha tornou-se um parque,
onde, mesmo à hora das estrelas, coisas roçagavam;
mesmo no novo nicho de trevas do planeta,
naquele ar saturado onde cobras
copulavam e ratazanas se roçavam confusas,
tornou-se veloz e ruidoso com
uma espécie de prodígio no ar solitário.

Velhos e definhados, dois graduados em filosofia
da Terra, regressaram com dificuldade e lentidão
ao seu balão vazio, gritando sozinhos
por algo que fizesse sentido, pela grave falta
de algo que devessem fazer,
enquanto incontáveis peixes se sacudiam
e as águas subiam, a verdura tornou-se
mais alta e as felizes ratazanas corriam
por florestas consumadas,
ladrando como cães às
alturas. Mas os dois homens,
naquela última manhã de morte, antes
da vinda da luz, observaram as terras
de Vénus, a sua costa amarga,
e pensaram, “Isto é o fim.
Isto é o fim de um homem igual a mim.”
Até que viram, para além das névoas
de Vénus, duas criaturas marinhas pararem
em pernas cobertas de lantejoulas e rastejarem
das entranhas do mar.
E, vindo do parque do planeta
ouviram cair o novo fruto.

COMO ELA

Parti, uma feiticeira possuída,
assombrando o ar negro, de noite, mais ousada;
sonhando o mal, pairei furtiva
sobre as casas singelas, pela calada:
coisa solitária, doze dedos, fora dela.
Uma mulher destas não é bem uma mulher, na verdade.
Eu fui como ela.

Encontrei as amenas cavernas no arvoredo,
enchi-as de caçarolas, esculturas, prateleiras,
inúmeros bens, armários, sedas;
para os vermes e os duendes, fiz ceias:
lastimando-me, corrigindo o desarrumado.
Uma mulher destas é mal interpretada.
Eu fui como ela.

Andei na tua carruagem, cocheiro,
passando por aldeias, os meus braços nus acenaram,
aprendi os derradeiros rumos radiosos e a sobreviver
ao que ainda sinto nas coxas – as tuas labaredas a morder,
e onde as tuas rodas giram, estalam-me as costelas.
Uma mulher destas não tem vergonha de morrer.
Eu fui como ela.

OS EXORCISTAS

E juro com toda a solenidade
pelo arrepio do secretismo
que não te conheço, nunca vi este quarto,
o vestido pretensioso que trago,
nem as colheres anónimas que me libertam,
nem este calendário nem o vigor que limitamos e encobrimos.

A todos os presentes,
perante esse fantasma transviado,
essa traça amarela da minha cama de Verão,
eu digo: este pequeno evento
não existe. Por isso, preparo-me, estou medicada
com éter e não gritarei o que fica por dizer.

Estava bronzeada pelo Agosto,
as ondas batiam-me nas coxas
e uma tempestade cavalgava para a enseada. Nadámos
enquanto os outros correram exaltados rumo à costa
para as suas cabanas de tábua, os gritos possantes
soando até nós e o estrondo cavo
do dóri contra a bóia.
Braços negros de trovão enfaixaram-se
à nossa volta; berrando, respirámos à chuva
e lançámo-nos para além do barco.
Agitámo-nos rumo à costa como se sitiados
por folhagem e por aquela desproporcionada mancha
súbita

de relâmpagos enfunando-se em redor
da nossa pele. Corpos ao ar
corremos para a cabana vazia do lagosteiro.
Estava amarelo lá dentro, a toada
das asas posteriores do Sol. Juro,
juro com a maior solenidade, por todo
o bricabraque

dos amores de Verão, que não
te conheço.

ONDE EU VIVO, NESTA HONRADA CASA DO LOUREIRO

Vivo com as minhas pernas e, oh,
as minhas verdes, verdes mãos.
É demasiado tarde
para desejar não ter fugido de ti, Apolo,
o sangue ainda me flui nas veias debaixo da casca.
Eu, que corri com pés de ninfa para me deixar enraizar,
apenas sinto este desejo tardio de armar as árvores
dentro das quais repouso. O ritmo que perdi
amacia-me o pulso. Em cada século, os ardis
da carência doem-me por todo o lado.
A geada cai-me na pele e fico acetinada
em honra porque tu desapareceste a tempo. O ar
ressoa por ti, por esse espantoso rito
da minha tenda de respiração desfeita à tua chama.
Apenas sei o modo inoportuno como a luxúria lançou
carne ao vento para sempre e deslocou os meus medos
para a íntima Roma de mitos que vivemos.
Retraio-me nos meus desassossegos
enquanto vazo para as estrelas nos anos vazios.
Construo o ar com a coroa da honra; ela afina
o meu apetite intempestivo e azarado.
Deste-me honra cedo demais, Apolo.
Já não sobra ninguém que compreenda
como eu espero
aqui, com minhas pernas de madeira e, oh,
as minhas verdes, verdes mãos.

RETRATO DE UMA VELHA NA
PAREDE DA TABERNA DA ESCOLA

    Oh, lá na taberna
as crianças cantam
em redor da sua mesa redonda
e ainda em redor de mim.
Ouviste o que ele disse?

                   Eu apenas disse
que há uma urna de estanho
presa na parede da taberna,
tão velha com o termo
é velho e ainda está ali.
Eu disse, os poetas estão ali
ouço-os cantar e mentir
em redor da sua mesa redonda
e ainda em redor de mim.
Do lado oposto da sala há uma grinalda
feita do cabelo de um cadáver,
emoldurada em vidro na parede,
tão velha como o termo
é velho para ainda ser recordado.
Ouviste o que ele disse?

                    Eu apenas disse
o quanto quero estar ali e eu
cantaria as minhas canções com os mentirosos
e as minhas mentiras com todos os cantores.
Era o que faria, era o que faria mas
é o meu cabelo na grinalda de cabelo,
a minha chávena presa na parede da taberna,
é debaixo do meu rosto poeirento que eles cantam.
Há poetas sentados na minha cozinha.
Por que mentem estes poetas?
Por que é que as crianças têm crianças e perguntam
Ouviste o que ele disse?

               Eu apenas disse
o quanto quero estar ali,
Oh, lá na taberna
onde os profetas cantam
em redor da sua mesa redonda
até se calarem.

A MULHER DO AGRICULTOR

Na mistura heterogénea
da sua luxúria campestre,
da sua vida provinciana no Illinois,
onde todos os seus acres parecem
uma fábrica de vassouras germinando,
eles assinalam a passagem dos dez anos
em que ela foi hábito dele;
tal como hoje à noite dirá de novo,
doçura, vamos a isto
e ela não dirá como
a vida deve ser mais do que
esta breve e brilhante ponte
da áspera cama ou do que
o lento toque de braille dele
como um deus pesado tornado leve,
essa velha pantomina do amor
que ela quer, embora
isso ainda a deixe só,
recomposta, por fim,
com a mente totalmente longe dele, vivendo
a essência dela, pelas palavras dela
e odiando o suor na casa
que perdura quando finalmente se estendem
os dois em sonhos separados
e depois quando ela o observa,
ainda forte no casulo desleixado
do seu sono habitual, enquanto
os ouvidos jovens dela recordam, confundidos,
a sua cama mútua de casados
e ela deseja-o aleijado ou poeta
ou até solitário ou, por vezes,
ainda melhor, meu amor, morto.

FUNIL

Bunyan: Lenhador corpulento e lendário dos bosques nortenhos dos E.U.A. e do Canadá. [N. T.]

A história da família relata, e foi bem relatada,
histórias do meu bisavô que criou oito
filhos pródigos e comprou doze pianos de cauda
quase novos. Deixou bens avultados
quando morreu. Os filhos dedicaram-se a
artes diversas; dois tornaram-se moderadamente famosos,
três casaram e engordaram a sua delicada porção
de riqueza e aparato. O sexta foi
uma pianista de concertos. Fez uma carreira notável
e usava cabelo curto e tinha um andar de homem,
pelo menos, foi o que ouvi, quando espiava um carro, em criança,
uma conversa sussurrada do correcto clã do Maine.
Uma morreu, ainda de bibe, terá sempre
cinco anos. E aqui está uma que escrevia –
Separo os estranhos livros dele e imagino-lhe as palavras
outrora vivas, e rabisco as minhas breves notas à margem
e passo os dedos pelos meus apontamentos.

Descendi desse bisavô, para vir
em memória dele, cuidar de um cemitério no campo,
para conversar com o guarda a um sol anual
e tocar num som fantasma onde o som jaz vigilante.
Gosto mais de recordar aquele Bunyan
batendo nas pernas e regateando a venda ianque
de uma dúzia de pianos de cauda. Adequava-se ao seu
plano cultural fazer tudo pela medida grande.
Nesta mesma escala,
ele construiu sete casas como arcas e ainda estão de pé.
Uma, de cinco andares, aprumada como uma caixa
quadrada, ainda domina a sua orla costeira de terra.
É arrendada a preço barato, no ar bafiento de Verão,
a famílias de sapatilhas andando de lá para cá
pelas divisões e passando às vezes os dedos pelas teclas amarelas
de um velho piano que arqueja timbres de míldio.
Como uma fábrica de sapatos, no meio dos abetos,
agacha-se; de tecto plano e filas de janelas espiando
através da névoa. Onde aquelas oito crianças dançaram
nos seus Verões de estrelas-do-mar, com os trinta e
seis pinheiros suspirando,
aquele homem barbudo dava passos gigantes e presenteava
as suas dádivas às dúzias.

Descendi desse bisavô e vim
Interrogar uma curvada lápide em memória dele,
Questionar esta diminuição e alimentar um mínimo
de crianças com a sua fatia cuidadosa de bolo suburbano.

OS EXPATRIADOS

Meu querido, foi um instante
para agarrar por um instante
para que possas acreditar nele
e acreditar é o acto do amor, acho eu,
mesmo se o narrarmos, seja lá para onde foi.

Na falsa floresta de Nova Inglaterra
onde as árvores norueguesas transplantadas
se recusaram a ganhar raiz, as suas grossas raízes
sintéticas rasgando a terra para se agitarem no ar,
unimos as mãos e andámos de joelhos.
Na verdade, não estava lá ninguém.

Por quarenta anos, este experimental
bosque cresceu, haste após haste em alas perfeitas
onde os tocos de ramos se firmavam e os antebraços descaíam.
Era um lugar de árvores paralelas, as suas vidas
alinhadas num exílio por onde nós caminhávamos,
demasiado forasteiros para reconhecermos
a nossa semelhança e como a nossa semelhança sobrevive.

Fora de nós, no exterior, os carros da aldeia seguiam
a linha branca que percorrêramos com cuidado
duas noites antes, rumo às nossas camas separadas.
Repousámos a meio da encosta de uma colina feia e se caíssemos
seria aqui, nos bosques, onde os bosques estavam aprisionados
no seu estado moribundo e tu seguraste-me bem.

E agora tenho de sonhar a floresta una
e as tuas doces mãos, nunca tão congeladas
como aquelas árvores detidas, nem regidas, nem pálidas,
nem deixando as minhas. Hoje, em minha casa, vejo
a nossa casa, os seus pilares são um esbatido alicerce de homens
sustentando o seu solo estrangeiro para ti e para mim.

Meu querido, foi um tempo
devastado pelo tempo
que temos de narrar rapidamente
antes de perdermos o som das nossas próprias
bocas gritando, é meu, é meu, é meu.

PARA JOHNNY POLE 
NA PRAIA ESQUECIDA

No seu décimo Julho, qualquer instinto
ensinou-lhe a preparar-se para a onda que aguardava,
gigante de boca suspensa e aberta.
Ele flutuou no lábio que ali o fazia boiar
e o afivelou abaixo dela. A praia estava agitada
com crianças de várias idades chapinhando,
debaixo do clarão do meio-dia, lascando-lhe
a luz. Ele ergueu-se, anónimo
e aprumado entre elas, entre os
seus baldes de areia e barcos infantis.
As vagas, rebentando, giravam por cima
para lhes turvar os dedos e testar as suas peles
perfeitas. Ele era meu irmão, o meu pequeno
irmão Johnny, de quase dez anos. Tombámos
numa toalha para moermos a areia
debaixo de nós e observámos o mar Atlântico
estimular fogo, como diamantes nocturnos;
e perdemos peso na época
estival. Ele sonhava, dizia ele, que
era um homem feito como uma onda equilibrada…
que qualquer dia aguardaria, gigante
e aprumado.

Johnny, o teu sonho estimula Verões
dentro da minha mente.

Ele era alto e tinha vinte, nesse Julho,
mas não houve equilíbrio que ajudasse;
apenas as conchas vieram aprumadas e estáveis.
Esta foi a primeira praia de assalto;
o odor da morte pairava no ar
como batatas apodrecendo; a lixeira,
o navio de desembarque aguardava. aberto e ferrugento.
Os cadáveres dispersavam-se como se ainda
se tentassem aproximar, onde jaziam
para enegrecer, para rebentarem a sua pele
perfeita. E Johnny Pole era um deles.
Ele rendeu-se como uma pequena onda, um súbito
buraco na barriga e todos os anos se sumiram
onde o meio-dia do Pacífico lhes lascou a luz.
Como um saco de feijões, aberto, cabeça solta
e anónimo, jazia ele. Será que o mar estimulava fogo
para a sua época marcial? Será que ele jaz ali
para sempre, onde a sua espingarda aguarda, gigante
e aprumada?… Acho que morres outra vez
e vives outra vez,
Johnny, em cada Verão estimulado dentro
da minha mente.

RAPARIGA ANÓNIMA NA
ENFERMARIA DA MATERNIDADE

Criança, o fluir da tua respiração tem seis dias.
Jazes, pequeno punho na minha cama descorada;
jazes, fechada como um caracol, tão pequena e bravia
no meu peito. Os teus lábios são animais; és alimentada
com amor. De início, ter fome não é anomalia.
As enfermeiras acenam com os kepes; és guiada
por corredores formais com a restante turba sem moradia
em cestos com rodas. Bolças como uma chávena; a tua cabeça
move-se ao meu toque. Pressentes a nossa harmonia.
Mas esta cama é num lar de caridade.
Não me conhecerás por muitos dias.

Os médicos são polidos. Querem saber
os factos. Indagam-se sobre o homem que me abandonou,
qualquer alma de pêndulo, partiu como os homens costumam fazer
deixando-nos uma filha nos braços. Mas o nosso registo
fica em branco. Tudo o que fiz foi deixar-te crescer.
Agora cá estamos, à vista de toda a enfermaria.
Eles acharam-me estranha, embora
eu não tenha dito palavra. Rebento, vazia
sem ti, deixando-te ver como é o ar.
Os médicos esboçam o enigma que me indagam
e viro a cara. Não sei explicar.

O único rosto que reconheço é o teu.
Somos ambas recém-nascidas, sorves as minhas respostas.
Seis vezes por dia prezo
a tua carência, os animais dos teus lábios, a tua pele
tornando-se amena e roliça. Vejo os teus olhos
erguendo as tendas. São pedrinhas azuis começando
a libertar-se do musgo. Pestanejas, espantada,
e imagino o que consegues ver, minha parente engraçada,
enquanto me embaraças o silêncio. Sou um abrigo de falsidades.
Devo aprender a falar de novo ou, desamparada
nesta sanidade, tocarei algum rosto que reconheça?

Ao fundo do corredor, os cestos retrocedem. Meus braços
servem-te na perfeição, a sustentar
as espigas dos teus salgueiros, as fogosas colmeias
dos teus nervos, cada músculo e ondulação
dos teus primeiros dias. O teu rosto de velho enternece
as enfermeiras. Mas os médicos regressam para censurar.
Eu falo. É a ti que o meu silêncio fere.
Eu devia ter sabido; eu devia ter-lhes contado
qualquer coisa para anotar. A minha voz embaraça-me
a garganta. “Nome do pai – incerto.” Seguro-te
e dou-te nome de bastarda nos meus braços.

E, pronto, é assim. Não há nada mais
que eu possa dizer ou perder.
Antes de mim, já outros entregaram a vida
sem conseguirem falar. Retraio-me para recusar
os teus olhos de coruja, minha frágil visitante.
Toco-te nas faces, são flores. Magoas-te
de encontro a mim. Desaprendemos. Sou um litoral
embalando-te para trás. Apartas-te de mim. Defino
a tua única senda, minha pequena herdeira
e entrego-te, sobressaltando os íntimos que perdemos.
Vai, criança, que és meu pecado e nada mais.

O QUE É ISSO?

Antes de isto entrar
eu observara-o da janela da minha cozinha,
vi-o insuflar-se como um balão novo,
vi-o afundar-se e dissociar-se,
como algo que sei que conheço –
uma pêra quebrada ou duas metades da Lua,
ou pratos brancos e redondos flutuando sem rumo
ou mãos gordas acenando no ar de Verão
até se unirem como um punho ou um joelho.
Depois disso, veio à minha porta. Agora vive aqui.
E claro: é um som suave, suave como o ouvido de uma foca
apanhada entre uma forma e outra forma e depois devolvida a mim.

Sabem como os pais nos chamam
de doces praias em todo o lado, venham lá, venham lá,
e como nos afundamos debaixo de água para apagar
o som, ou como um deles tocou no corredor
de noite: o roçagar e a pele
que não podíamos conhecer, mas ouvimos, o decidido
fustigar das marés e o cão a ressonar. Está aqui
agora, aprisionado no tempo até à minha idade adulta –
a imagem que esquecemos: as conchas instáveis sob os nossos pés
ou o rodar da colher na sopa. É real
como estilhaços alojados no ouvido. O ruído que captamos
é metade de um sino. E, lá fora, carros passam depressa na rua suburbana

e estão lá e são verdadeiros.
Mas isto, o que é, esta intrincada forma de ar?
chamando-me, chamando-te.

O MUSGO DA PELE DELE

Na antiga Arábia, as jovens eram muitas vezes enterradas vivas ao lado dos pais falecidos, aparentemente como sacrifício às deusas das tribos…
                           Harold Feldman, «Crianças do Deserto» Psychoanalysis and Psychoanalytic Review, Outono de 1958

Era apenas importante
sorrir e ficar quieta,
deitada ao lado dele
e repousar um bocadinho,
dobrados e unidos
como se fossemos seda,
afundarmo-nos aos olhos da mãe
e não falarmos.
O quarto negro tomou-nos
como uma caverna ou uma boca
ou um ventre cerrado.
Sustive a respiração
e o papá estava ali,
os seus polegares, o enorme crânio,
os dentes, o cabelo crescendo
como um campo ou um xaile.
Repousei junto ao musgo
da pele dele até
se tornar estranho. As minhas irmãs
nunca saberão que eu saio
de mim mesma e faço de conta
que Alá não me verá
abraçar o meu papá
como uma velha árvore de pedra.

CESTO

nos braços, foi este o seu pecado:
onde a arca de madeira das bagas
da floresta estava nova e cheia,
ela esgueirou-se pelos seus altos
pilares, aquelas pernas de madeira,
e ouviu o som de porcos selvagens

chamando e não esperou nem se importou.
As folhas choravam no seu cabelo
quando ela se afundou num poço de agulhas
e abriu o portão sem
heras, onde a arca de madeira das bagas
estava cheia e um porco entrou.

PASSEIO DO MEIO-DIA NO RELVADO DO HOSPÍCIO

O raio do sol de Verão
emana através de uma árvore suspeita.
ainda que atravesse os vales sombrios
As passagens em itálico pertencem aos Salmos de David, (23:1).
Sorve o ar
e anda à minha espreita.

A erva fala
Ouço cânticos verdes todo o dia.
nenhum mal temerei, nenhum mal temerei
As folhas estendem-se
e alcançam a minha via.

O céu fende-se.
Descai e respira-me na face.
na presença dos meus inimigos, dos meus inimigos
O mundo está cheio de inimigos.
Não há lugar seguro.

TOCANDO OS SINOS

     E é assim que eles tocam
os sinos em Bedlam
e esta é a senhora do sino
que vem às terças de manhã
para nos dar uma aula de música
e porque os médicos nos obrigam a ir
e porque nos importamos por instinto,
como abelhas capturadas na colmeia errada,
somos o círculo das senhoras doidas
sentadas no salão do hospício
sorrindo à mulher sorridente
que nos dá um sino a cada uma,
que aponta para a minha mão
que segura o meu sino, Mi bemol,
e este é o vestido cinzento ao meu lado
que resmunga como se fosse especial
sermos velhos, sermos velhos,
e esta é a pequena e curvada rapariga esquilo
ao meu outro lado
que remexe os cabelos sobre o lábio,
que remexe os cabelos sobre o lábio o dia inteiro,
e é assim que soam realmente os sinos,
tão despreocupados e límpidos
como uma cozinha airosa,
e este é o meu sino, sempre a responder
à minha mão que responde à senhora
que aponta para mim, Mi bemol;
e embora não fiquemos melhor por fazer isto,
eles dizem-nos para irmos. E nós vamos.

CANÇÃO DE EMBALAR

É uma noite de Verão.
As traças amarelas fraquejam
contra as portas de rede trancadas
e as cortinas desbotadas
são repelentes sobre os peitoris
e de outro edifício
um bode grita em sonhos.
Esta é a sala da TV
na melhor enfermaria de Bedlam.
A enfermeira da noite entrega
os comprimidos do serão.
Ela caminha com dois apagadores,
passando por nós, uma a uma.

O meu comprimido para dormir é branco.
É uma pérola deslumbrante;
faz-me flutuar para fora de mim,
a minha pele aguilhoada fica estranha
como uma peça solta de lona.
Vou ignorar a cama.
Sou linho numa estante.
Os outros que gemam em segredo;
que cada borboleta perdida
vá para casa. Velha cabeça de algodão,
leva-me como uma traça amarela
enquanto o bode grita, dorme
bebé.

O INGREDIENTE PERDIDO

Ontem, ou quase, aquelas gentis damas partiram furtivas
para os seus banhos em Atlantic City, para os
rituais perdidos do primeiro mar do primeiro sal
jorrando de uma torneira. Ouvi dizer que se sentaram
horas a fio em banheiras salgadas, afagando toalhas de hotel
docemente sobre pele arrepiada, cheirando o bafiento
porto de um oceano perdido, rezando enfim
por amores impossíveis ou por uma nova pele, ou
por ainda mais um filho. E já que agiam neste estilo,
julgo que não sabiam o que haviam perdido.

Ontem, ou quase, guiando apressada rumo a Oeste, perdi
dez minutos em Utah, parei para me desviar
dos vendedores de postais, cruzei a fenda quente
de macadame para tocar na estupenda e solta
agitação do Salt Lake, para honrá-lo e assaltá-lo,
era uma prova, para me libertar de qualquer ligeira
privação da costa do Maine. Mais tarde, o sal divertido
formigou-me nos poros e picou como abelhas ou granizo.
Enxaguei-me em Reno e apressei-me para obter
uma prova melhor nas mesas de jogo onde sempre perdi.

O hoje assenta no ontem, cada vez que me atiro
a rituais que não conheço, aguardando o ingrediente
perdido, como se sal ou dinheiro ou até a luxúria
nos acalmassem e nos provassem unas, por fim.

A ESTRADA DE REGRESSO

O carro está pesado com as crianças
puxadas, trazidas do Verão,
varridas da sua praia sorridente,
varridas enquanto um persistente rumor
lhes diz que nada acaba.
Hoje irritamo-nos e arrancamos
sobre rodas, ignoramos a nossa perda usual
de tempo, contamos vacas e outras coisas
enquanto o sol se move no alto
como um velho albatroz
que não podemos contar nem matar.

Não há palavra que defina o tempo.
Hoje não vamos
pensar em dar um número a outro Verão
ou observar a sua ave nívea desfalecer.
Hoje, todos os carros,
todos os pais, todas as mães, todas as
crianças e amantes
terão de esquecer
aquela coisa no céu,
andando à roda
como um persistente rumor
que nos apanhará um dia.

A CABEÇA EXPECTANTE

Se caminho realmente como sempre,
passando pelo mesmo lar de repouso na mesma rua daqui
e vejo outra cabeça expectante, lá em cima, naquela janela da frente,
tal como ela sempre se sentava,
à espreita de alguém no seu assento de madeira,
então acredito em tudo. Apenas sei

que todas as noites, ela escrevia nos seus livros encadernados
que ninguém veio. Claro que recordo os grampos

dos seus dedos enroscados nos meus, embora,
nem agora admita os tempos em que evitei esta rua,
onde ela ia vivendo, vivendo, como um figo desbotado
e nos esqueceu, de qualquer modo;
visitando a polpa do seu beijo, debruçando-me para repetir
cada favor, tentando pentear-lhe a peruca musgosa

e obrigando o amor a perdurar. Agora ela está sempre morta
e os livros encadernados são meus. Hoje vejo a cabeça

mover-se, como qualquer anjo corroído, naquela janela alta
O que faz a cabeça expectante? Parece igual.
Vai debruçar-se para diante quando me voltar para partir?
Julgo ouvi-la chamar-me, lá de cima
mas ninguém veio ninguém veio.

ELEGIA NA SALA DE AULA

Na estreita sala de aula, onde a tua face
era nobre e as tuas palavras eram tudo,
encontro esta criatura em ebulição no teu lugar;

encontro-te desalinhado, agachado no peitoril da janela
irrefutavelmente ali colocado,
como qualquer disforme e grande sapo
observando-nos através do V
das tuas pernas de algodão.

Mesmo assim, tenho de admirar-te a perícia.
És tão graciosamente insano.
Enervamo-nos nas nossas singelas cadeiras
e fazemos de conta que catalogamos
os nossos factos para os expormos à tua consumada feitiçaria

ou ignoramos os teus olhos cegos e inchados
ou o príncipe que devoraste ontem
e que era sábio, sábio, sábio.

UMA HISTÓRIA PARA ROSE 
NO VOO DA MEIA-NOITE PARA BOSTON

Até esta noite eles eram especialidades separadas,
histórias diferentes, cada qual a pior no seu melhor.
A caminho do lar na minha amena cabina, recordo
o riso de Betsy; ela riu-se como tu, Rose, ao ouvir
a primeira história. Um dia, prometi-lhe, seria alguém
iria para algum lado e fizemos planos na monótona
escola para meninas comportadas. No Abril seguinte,
o avião assaltou-me como um cavalo, os meus lemes subiram
e o medo soprou-me pela garganta abaixo, esse último e profano conteúdo
de um estômago a vir ao de cima. E depois regressou
e aterrou, tão desagradável como qualquer marinheiro enjoado,
com a sinceridade dos dezoito; a minha primeira história, o meu divertido fracasso.
Talvez, Rose, haja sempre mais uma história,
que é melhor não contar, sombria, insípida ou predatória.

Descendo meia milha, as luzes das cidades intermédias
erguem os olhos para mim. E recordo a história de
Betsy; a noite de Abril do desastre do avião civil
e o seu nome abrupto mal escrito no vespertino,
o interior em choque e o jornal atirado para o lixo,
há já dez anos. Ela usou o bilhete de regresso que lhe dei.
Fora esta a sua cruel matança, dois aviões quebrando-se
no espaço aéreo sobre Washington, como aves cegas.
E a recolha posterior, os armadores procurando
cadáveres no Potomac e encaixando-os como tábuas
para refazerem uma perna ou uma face. Resta apenas
a sua fotografia em miniatura, já passou muito tempo para que o medo se recorde.
Hoje é um caso à parte, porque a tornei numa história
que aprendi a conhecer e saborear.

                                             É motivo para preocupações,
Rose, quando tu inventaste um morte daquelas,
e sobrevivendo ao impacto, descubro que fingiste.
Inclinamo-nos sobre Boston. Estou segura. Ponho o meu chapéu.
Sou quase alguém indo para casa. A história terminou.

II

PARA JOHN, QUE ME SUPLICA QUE NÃO PROSSIGA O MEU INQUÉRITO

Não é que fosse belo,
mas, no final, havia
uma certa sensação de ordem ali;
algo que merecia ser aprendido
naquele limitado diário da minha mente,
nos lugares-comuns do hospício
onde o espelho quebrado
ou a minha própria morte egoísta
me olhavam na cara.
E se eu tentasse
dar-te outra coisa qualquer,
algo exterior a mim,
não saberias
que o pior de toda a gente
pode ser, por fim,
um acidente de esperança.
Dei leves pancadas na minha cabeça;
era vidro, uma taça invertida.
É uma coisa de nada
enraivecermo-nos na nossa própria taça.
De início, era privado.
Depois extravasou;
eras tu, ou a tua casa
ou a tua cozinha.
E se virares as costas
por não encontrares aqui qualquer lição
segurarei a minha grosseira taça,
com todas as suas estrelas fendidas brilhando
como uma mentira complicada,
e aplicarei uma nova pele em redor dela
como se enfeitasse uma laranja
ou um sol estranho.
Não é que fosse belo,
mas encontrei qualquer ordem ali.
Deve haver algo de especial
para alguém
neste tipo de esperança.
Isto é algo que nunca encontraria
num sítio mais adorável, meu querido,
embora o teu medo seja o medo de toda a gente,
como um véu invisível entre nós todos…
e, por vezes, em privado,
na minha cozinha, na tua cozinha,
na minha face, na tua face.

A IMAGEM DUPLA

1.

Faço trinta, este Novembro.
Ainda és pequena, no teu quarto ano.
Ficamos a ver as folhas amarelas, à toa, voando,
agitadas pela chuva de Inverno,
caindo rasas e molhadas. E o que mais lembro
são os três Outonos em que não viveste aqui.
Eles disseram que nunca mais te teria comigo.
Eu conto-te o que nunca poderás assimilar:
todas as hipóteses médicas
que explicaram o meu cérebro nunca serão tão reais como estas
folhas afligidas, deixando-se vaguear.

Eu, que duas vezes escolhi
matar-me, tratara-te pela tua alcunha
as bocas piegas quando vieste da primeira vez;
até uma febre te assustar
a garganta, e movi-me como uma pantomina
sobre a tua cabeça. Anjos feios falaram-me. A culpa,
ouvi-os dizer, era minha. A tagarelar,
como feiticeiras vaidosas na minha cabeça, deixaram a ruína
vazar como uma torneira partida;
como se a ruína me tivesse inundado a barriga e enchido o teu berço,
uma velha dívida que tenho de assumir.

A morte era mais simples do que eu pensara.
A vida, dia a dia, fez-te boa e consumada,
deixei que as bruxas me levassem a alma culpada.
Fingi que estava morta
até que os homens brancos bombearam o veneno cá para fora,
deixando-me indefesa e lavada através do palavreado
de caixas falantes e da cama eléctrica.
Ri-me ao ver o ferro privado daquele hotel.
Hoje as folhas amarelas
voam à toa. Perguntas-me para onde vão. Acho
que o «hoje» acredita em si, ou então decai.

Hoje, minha pequena filha, Joyce,
ama o âmago da tua personalidade onde ele vive.
Não há um Deus especial ao qual recorrer; ou se há,
por que te deixei crescer
noutro lugar? Não me conhecias a voz
quando voltei para te chamar. Todos os superlativos
da árvore branca e azevinho do amanhã
não te ajudarão a conhecer as épocas festivas que tiveste de perder.
Nos tempos em que não me amava,
visitei os passeios que limpaste; pegavas-me na luva.
Já nevou outra vez depois disto acontecer.

2.

Eles mandaram-me cartas com notícias
de ti e eu fiz mocassins que nunca usaria.
Quando me senti suficientemente boa para me
tolerar, vivi com a minha mãe. Demasiado tarde,
demasiado tarde para vivermos com a nossa mãe, as feiticeiras disseram.
Mas não fui embora. Mandei pintar o meu retrato,
em vez disso.

Quase regressada da Casa dos Loucos
vim para casa da minha mãe em Gloucester,
Massachusetts. E foi assim que me apoiei
nela; e foi assim que a perdi.
Não consigo desculpar o teu suicídio, minha mãe disse.
E nunca poderia. Mandou pintar o meu o retrato,
em vez disso.

Vivi como uma hóspede com rancor,
uma coisa em parte remendada, uma criança crescida.
Lembro-me que a minha mãe fez o seu melhor.
Levou-me a Boston e arranjou-me um novo
estilo de penteado.
O seu sorriso lembra o da sua mãe, o artista disse.
Não pareceu importar-me. Mandei pintar o meu retrato,
em vez disso.

Havia uma igreja, onde cresci
com as suas brancas divisões onde nos fechavam,
fila após fila, como puritanos ou camaradas de bordo
cantando juntos. O meu pai passava o prato das esmolas.
Agora é demasiado tarde para o perdão, as feiticeiras disseram.
Não fui exactamente perdoada. Eles mandaram pintar
o meu retrato, em vez disso.

3.

Todo esse Verão, os aspersores arquearam-se
Sobre a relva à beira-mar.
Falámos sobre a falta de água
enquanto o campo ressequido
de sal adocicou-se outra vez. Para ajudar o tempo passar
tentei aparar o relvado
e de manhã pintavam-me o retrato,
eu mantinha o sorriso no lugar, até se tornar formal.
Uma vez, mandei-te pelo correio o retrato de um coelho
e um postal com o Motivo número um da vida,
como se fosse normal
ser mãe e estar desaparecida.

Eles penduraram o meu retrato à gelada
luz do norte, fazendo-me
a vontade para me manter boa.
Só que a minha mãe foi adoecendo.
Afastou-se de mim, como se a morte fosse contagiosa,
como se a morte se transferisse,
como se a minha morte a tivesse devorado por dentro.
Nesse Agosto, vocês eram duas, mas eu contei
os meus dias com incerteza.
A um de Setembro ela olhou para mim
e disse que eu lhe provocara cancro.
Eles retiraram-lhe as doces colinas a cinzel.
E eu ainda não lhe conseguia dizer nada.

4.

Nesse Inverno, ela
quase regressou
da sua suite estéril
de médicos, do enjoativo
cruzeiro do raio X,
as células numa aritmética
em desvario. Cirurgia incompleta,
o braço inchado, o prognóstico pobre,
ouvi-os dizer.

Durante os temporais no mar
ela mandou
pintar o seu próprio retrato.
Um espelho cavernoso
colocado na parede sul:
sorriso a condizer, perfil a condizer.
E tu parecias-te comigo; desabituada
ao meu rosto, exibia-lo. Mas eras minha
apesar de tudo.

Passei o Inverno em Boston,
noiva sem filhos,
nada de doce para conceder
com feiticeiras a meu lado.
Perdi os tempos em que eras bebé,
tentei um segundo suicídio,
tentei o hotel selado um segundo ano.
Em Abril, no dia dos enganos, enganaste-me. Rimo-nos
e foi engraçado.

5.

Tive alta pela última vez
no primeiro de Maio;
a graduada em problemas mentais,
com o okay do meu psicanalista,
com o meu livro completo de rimas,
as malas e a máquina de escrever.

Todo esse Verão, aprendi a viver
regressada ao meus próprios
sete quartos, visitei os barcos em forma de cisne,
o mercado, atendi o telefone,
servi cocktails como é dever de
esposa, fiz amor entre as minhas combinações

e o bronzeado de Agosto. E tu vinhas aos
fins-de-semana. Mas minto.
Vinhas raramente. Eu apenas fingia que vinhas
pequena porquinha, rapariga
borboleta com faces de gelatina,
sempre desobediente, minha esplêndida

desconhecida. E tive de aprender
por que preferia
morrer a amar, como a tua inocência
magoaria e como eu reúno
culpas como um jovem interno,
os sintomas, determinados indícios.

Nesse dia de Outubro, fomos
a Gloucester, as colinas encarnadas
lembraram-me o casaco de seco e rubro
pêlo de raposa com o qual eu brincava na infância; imóvel
como um urso ou uma tenda,
uma grande caverna rindo ou uma raposa de pêlo vermelho.

Passámos de carro pelo viveiro,
pela cabana que vende iscas,
passámos por Pigeon Cove, pelo Yacht Club, por
Squall’s Hill, rumo à casa que ainda
aguarda, ao cimo do mar,
e há dois retratos pendurados em paredes opostas.

6.

À luz do norte, o meu sorriso mantém-se no lugar,
a sombra acentua-me os ossos.
Em que estaria eu a sonhar, ali sentada,
toda eu expectante, via-se no olhar, na zona
do sorriso, no rosto jovem,
na armadilha da raposa.

À luz do sul, o sorriso dela mantém-se no lugar,
as suas faces murchando como uma orquídea
seca; o meu espelho trocista, o meu amor
destroçado, a minha primeira imagem. Ela fita-me daquele rosto,
daquela cabeça empedernida de morte
da qual eu crescera.

O artista captou-nos no ponto de viragem;
sorríamos no nosso lar de tela
antes de escolhermos os nossos caminhos
separados, conhecidos de antemão.
O casaco de pêlo de raposa, seco e encarnado, foi feito
para ser queimado.
Apodreço na parede, o meu próprio
Dorian Gray.

E era este o espelho cavernoso,
aquela mulher dupla que se fita
a si própria, como se petrificada
no tempo – duas damas sentadas em cadeiras ocres.
Beijaste a tua avó
e ela chorou.

7.

Não podia ter-te de volta
salvo aos fins-de-semana. Vinhas
Sempre agarrada ao retrato do coelho
que eu te mandara. Pela última vez, retiro as tuas
coisas da mala. Tocamo-nos, por um velho hábito.
Na primeira visita, perguntaste-me o nome.
Agora ficas para sempre. Esquecerei
como chocámos e nos afastámos como marionetas
presas por fios. Não era igual
ao amor, deixando que os fins-de-semana nos
contivessem. Esfolas o joelho. Aprendes o meu nome,
cambaleando pelo passeio, chamando e chorando.
Ao tratares-me por mãe, recordo novamente a minha mãe,
algures no centro de Boston, morrendo.

Recordo que te pusemos o nome de Joyce
Para te podermos tratar por Joy
Alegria…
Vieste como uma hóspede embaraçada
daquela primeira vez, toda húmida e agasalhada
e estranha no meu peito oprimido.
Precisava de ti. Não queria um rapaz,
só uma rapariga, um ratinho brando,
uma rapariga, já amada, já barulhenta na casa
de si mesma. Chamámos-te Joy.
Eu, que nunca tive bem a certeza
de como se é rapariga, precisava de outra
vida, outra imagem para me recordar de mim.
E era esta a pior das minhas culpas; não podias curá-la
ou apaziguá-la. Concebi-te para me encontrar.

A DIVISÃO DAS PARTES

Por baixo da cruz da Trinity Church em Boston, está inscrita uma passagem da Bíblia (João 8:32): «E saberás a verdade, e a verdade libertar-te-á.» [N. T.]

1.

Mãe, minha Mary Gray
outrora residente em Gloucester
e em Essex County,
uma cópia do teu testamento
chegou hoje pelo correio.
Esta é a divisão do dinheiro.
Eu sou um terço
das tuas filhas contando o meu prémio
ou sou uma rainha sozinha
ainda na sala,
comendo o pão com mel.
É Sexta-Feira Santa.
Aves negras debicam no parapeito da minha janela.

O teu casaco no meu armário
as tuas jóias brilhantes na minha mão,
os animais de pêlo garrido
que não sei envergar,
assentam-me como uma dívida.
Há uma semana, quando os fortes temporais de Março
fustigavam a tua casa,
separámos as tuas coisas: obstáculos
de cartas, prata de família,
óculos e sapatos.
Como qualquer Natal prematuro, o valor
subia e estabilizava,
saí cheia de presentes que não escolhi.

Agora as horas da Cruz
regridem. Em Boston, os devotos
esforçam os seus joelhos frios
rumo àquele doce martírio
que Cristo planeou. A minha perda oportuna
é demasiado usual para ser notada; mas ainda assim
eu planeava sofrer
e não consigo. Não agrada
aos meus ossos de ianque observar
a morte apresentar-se
na sua hora vil. Aves negras debicam
na vidraça da minha janela
e a Páscoa levará o seu filho andrajoso.

O fragor da veneração
que me ensinaste, Mary Gray,
é antiquado. Eu imito
a memória de uma crença
que não é minha. Tropeço
na tua morte e Jesus, o meu estranho
paira lá em cima
sobre o meu lar cristão, envergando o seu aprumado
espinheiro. Juntei o meu lote
e sou um terço dos teus ladrões.
O tempo, esse reconstrutor
de bens, equipa-me
com as tuas vestes, mas não com a angústia.

2.

Este Inverno, quando
o cancro começou a sua fealdade
sofri contigo dia a dia
por três meses
e encontrei-te no teu recanto privado
do palácio medicinal
para Mulheres da Nova Inglaterra
e nem por uma vez
esqueci o quanto demorou.
Li-te
o New Yorker, comi jantares
que não comias, remexi
nas tuas flores,
brinquei com as tuas enfermeiras, como se
fosse eu o bálsamo entre leprosos,
como se pudesse desfazer
uma vida em horas
se nunca dissesse adeus.

Mas ficaste velha,
todos os teus cinquenta e oito anos deslizando
como máscaras do teu crânio,
e no fim
guardei as tuas camisas de noite em malas,
paguei às enfermeiras, vim depressa
para casa como se me tivessem dito
que podia fantasiar
que as pessoas vivem em lugares.

3.

Desde então fingi à-vontade,
amei com as astúcias da necessidade, mas não chegou
para irradiar a minha maternidade
ou enternecê-lo enquanto homem.
Bebo os martinis das cinco
e atiço esta página seca como um grosseiro
bode. Tola! Tacteio a minha infância perdida
por uma mãe e perco tempo com coisas tristes
tentando agarrar amor, tanto quanto posso.

E Cristo ainda aguarda. Tentei
exorcizar a memória de cada evento
e manter-me imóvel, uma criança desnorteada,
na qual pesam os teus cleros.
Doce feiticeira, és a minha guia inquieta.
Anjos tão perigosos caminham pela Quaresma.
As suas paredes rangem Anne! Converte-te! Converte-te!
A minha escrivaninha move-se. A sua caverna murmura Boo
E fico dominada e seduzida.

Ou iludida. Já que terei de repisar
todo o caminho que percorri. Em vez disso, tenho de me converter
ao amor, tão sensato
como o Latim, tão sólido como louça de barro:
um equilíbrio
que nunca conheci. E a Quaresma guardará a sua dor
para outra pessoa. Cristo sabe que suficientes
tipos fiéis se agarraram a ele em apuros,
achando que as suas vergastadas eram emblemas para ostentar.

4.

A Primavera enferruja no seu ramo descarnado
e o relvado do último Verão
está ensopado e pardo.
Ontem é apenas um número.
Toda a sua avalanche de Invernos
sumiu-se. O que foi, lá vai.
Mãe, na noite passada dormi
na tua camisa de noite Bonwit Teller.
Dividida, entraste-me na cabeça.
Aí, no meu sonho tagarela,
ouvi os meus próprios gritos de ira
e amaldiçoei-te, Dama
sai do meu torpor.
Minha boa Dama, estás morta.
E mãe, três jóias
deslizaram dos teus olhos cintilantes.

Agora é meio-dia de Sexta-feira
e eu ainda te amaldiçoaria
com as minhas palavras em rima
e trazer-te-ia esvoaçando, velho amor,
velha malha de circo, deusa-na-sua-lua,
toda encantadora no meu verso de outrora,
a noiva transparente entre as crianças,
a fantasia no meio do absurdo
e do aborrecido, aquele trombeta para cães de caça
aquele capitão de navio rumo a casa, aquele conservador
de museu, de hirtas estrelas-do-mar, aquela labareda
dentro da mulher peregrina,
uma reparadora de palhaços, uma face
de pomba entre as pedras,
minha Senhora das minhas primeiras palavras,
esta é a divisão de caminhos.

E agora, enquanto Cristo se mantém
preso ao seu Crucifixo
para que o amor possa glorificar
o seu sacrifício
e não a grotesca metáfora,
tu vens, fantasma bravio, fixar-te
na minha mente sem glorificação
ou paraíso
para me tornares tua herdeira.

Tradução: David Furtado

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