Os 45 anos da Black Strat de David Gilmour: O que é teu, à tua mão vem parar

Uma coisa que têm em comum várias músicas que fizeram e fazem parte das memórias de biliões de pessoas é uma guitarra. A Stratocaster do guitarrista dos Pink Floyd passou por tantos concertos, aeroportos; surgiu em filmes, álbuns, na rádio e foi sujeita a tantas mudanças que não é exagero dizer que integra a vida de biliões de seres humanos. E também ela tem uma história para contar.

David Gilmour bs on an island

Gilmour tornou a guitarra sua, e a Black Strat conta uma história, podendo-se até fazer uma espécie de biografia dos Pink Floyd através dela. Se falasse, teria muito a dizer. Mas já fala, pois é a voz de Gilmour, pelo menos, é essa a sua abordagem à guitarra. (Dele e de muitos outros; de B. B. King a Knopfler e Clapton.)

Gilmour com a sua primeira Fender Telecaster, oferecida pelos seus pais e, pouco depois, perdida.
Gilmour com a sua primeira Fender Telecaster, oferecida pelos seus pais e, pouco depois, perdida.

Começando pelo início… a primeira guitarra Fender de Gilmour foi uma Telecaster branca com braço rosewood (pau-rosa), que os pais lhe ofereceram em março de 1967 como presente pelo seu 21º aniversário. Tinha sido comprada em Nova Iorque. Em janeiro de 1968, David é convidado para entrar para os Pink Floyd. E o grupo oferece-lhe uma Fender Stratocaster, já que David tinha apenas a Telecaster.

Em julho desse ano, o grupo faz uma digressão pelos EUA e a companhia aérea perde a guitarra, que nunca foi encontrada. Gilmour continua a usar a Fender Stratocaster entre 1968 e 1970, que se torna o seu principal instrumento, sendo usado nos álbuns More, Ummagumma e Zabriskie Point. Comprou também uma Telecaster para substituir a que se perdera.

Gilmour com a Fender Stratocaster branca, oferecida pelos Pink Floyd e que pouco tempo durou.
Gilmour com a Fender Stratocaster branca, oferecida pelos Pink Floyd e que pouco tempo durou.

Em 1970, deixou-a em casa e, com a preocupação de ter uma Stratocaster de substituição, durante a terceira tournée dos Pink Floyd nos EUA, adquire uma Stratocaster preta e branca na Manny’s Music de Nova Iorque. Durou pouco, pois foi roubada em maio desse mesmo ano, bem como todo o equipamento do grupo. O FBI ainda conseguiu recuperar os restantes instrumentos, menos… as guitarras de David e os baixos de Roger Waters. Dir-se-ia que Gilmour estava com azar.

David regressou a Londres via Nova Iorque em maio, apenas um mês e meio depois de lá ter estado, voltou à Manny’s Music e comprou uma nova Stratocaster, com um braço de maple (madeira de bordo). E seria esta a Black Strat.

Era uma guitarra standard com uma pickguard branca. Era tão banal que faltavam as datas nas peças, mas especula-se que tenha sido submetida a alterações em 68 e 69, já que o braço não era o original. (Este tinha um número de série que correspondia a 1969.) A cor original da guitarra era sunburst e fora pintada de negro, o que se notou depois, quando a tinta começou a sair nalgumas partes. Recorde-se que, por esta altura, as Stratocasters não estavam na moda e eram relativamente baratas, ao contrário de hoje. A Gibson dominava o mercado.

David Gilmour usou a guitarra pela primeira vez na gravação de Atom Heart Mother e, em junho de 1970, tocou-a pela primeira vez ao vivo, num festival em Somerset, no sudoeste de Inglaterra, perante uma multidão de 150 mil pessoas.

Com a Black Strat em Pompeia.
Com a Black Strat em Pompeia.

Ao longo do ano, adquiriu mais duas Stratocasters e outras guitarras, mas regressou à Black Strat; foi usada na gravação de Meddle nos Morgan Sound Studios e em Abbey Road. Seguiram-se outras digressões pelo Japão e Austrália. Em outubro de 1971, os Pink Floyd são filmados no lendário cenário de Pompeia. Neste anfiteatro italiano, a Black Strat também surge; curiosamente até é tocada por Roger Waters no tema «Mademoiselle Nobs».

Veio então a tournée de Meddle e os ensaios para The Dark Side of the Moon, em que a Black Strat esteve também presente. Por esta altura, Gilmour considerava-a a guitarra em que podia trabalhar ideias e fazer alterações: Experimentou seis braços diferentes, vários pickups e até algumas invenções como abrir um buraco para controlar a distorção (fuzz) através do corpo da própria guitarra. Quando tal não resultou, David reparou o buraco com serrim e cola, uma mistura secreta, e retocou a pintura.

A Black Strat era uma espécie de cobaia: Gilmour substituiu os afinadores Kluson por Schallers, e os pickups foram alterados a ferro de soldar para diminuir o ruído.

O guitarrista comprou uma nova guitarra Stratocaster último modelo, mas não gostava da amplitude do headstock, além de que não podia trocar o braço com as suas outras guitarras para fazer experiências. Contudo, os pickups foram parar à Black Strat.

Antes de surgir The Dark Side of the Moon, ainda houve tempo na atarefada agenda dos Pink Floyd para gravar a banda sonora de La Vallée: Obscured by Clouds. Depois de More, era a segunda colaboração da banda com o realizador Barbet Schroeder. Composto e gravado apressadamente, também lá soa a Black Strat, em vários temas como «Stay», com um uso fabuloso do pedal de wha wha.

David Gilmour photo black strat

Gilmour coloca então um braço novo na Black Strat, em rosewood e datado de 1963. Isto alterou a placa onde está inscrito o número de série. Nesta configuração, a guitarra é usada nos solos lendários e partes de ritmo de The Dark Side of the Moon, nas gravações que decorreram entre outubro de 72 e fevereiro de 73 em Abbey Road. A guitarra assim ficou, como a principal guitarra de David Gilmour até 1978.

Sempre à procura do som perfeito.
Sempre à procura do som perfeito.

O irrequieto engenhocas ainda experimentou com seletores de pickups. Isto é importante porque hoje o comum consiste em cinco posições: O pickup da ponte, o da ponte e do meio, o do meio, o do meio e do braço, e do braço. Muitos guitarristas nem sabem que, originalmente, a Fender Stratocaster padrão tinha apenas três posições: Ponte, meio e braço. Ou seja, o que se tornou hoje vulgar numa guitarra standard, estava a ser experimentado por Gilmour nestes tempos. Ao fazer da Black Strat um laboratório, estava a ser inovador.

Em concertos, a guitarra continuava a ser o seu instrumento de eleição, tendo o apoio da “Bullet Strat”.

Gilmour ainda queria experimentar mais, pelo que instalou um humbucker na guitarra, o que produz um sinal mais potente, ainda durante as gravações de The Dark Side of the Moon. O engenheiro de som Alan Parsons recorda que “Gilmour demorava várias horas a preparar o som para uma faixa, mas depois gravava sem rodeios com um único microfone, muito rapidamente e com um volume de fazer abanar as paredes”. O músico parecia obcecado em aprimorar as suas “cordas vocais”, usando a Black Strat, embora agisse como produtor de Roger Waters nos vocais (propriamente ditos) e ouvisse Waters quando este lhe sugeria outras formas de tocar guitarra (propriamente dita).

Com a Black Strat. Digressão de The Dark Side of the Moon (1973).
Com a Black Strat. Digressão de The Dark Side of the Moon (1973).

Durante as lendárias apresentações ao vivo de The Dark Side of the Moon, a Black Strat “cantou” em som quadrifónico. Gilmour decide remover o humbucker, preferindo o som mais límpido dos pickups individuais (retirados da “Bullet Strat”, entretanto remodelada), e é assim que a guitarra se renova em 1973. Acho bastante piada quando os guitarristas querem aprender a tocar as canções dos Pink Floyd ou aprender os solos de Gilmour, e rapidamente. É idêntico a um treino de cordas vocais. Querem ser cantores de ópera numa semana… O que a história de Gilmour, a sua persistência e inquietude ensinam é que o mais importante é encontrarmos a nossa voz, de acordo com a nossa personalidade e capacidade.

Junho de 1974 marca a última vez que Gilmour tocou a Black Strat com uma pickguard branca. Foi também a primeira vez que o ecrã circular dos Pink Floyd, que se tornaria tão copiado em espetáculos e concertos, foi utilizado. Nesse verão, Gilmour instala uma pickguard preta, tornando a Black Strat toda negra, o que lhe deu a alcunha. E assim surge, a 31 de agosto de 1974, num concerto em Hyde Park, Londres.

A primeira aparição da Black Strat. 1974, Hyde Park, Londres.
A primeira aparição da Black Strat. 1974, Hyde Park, Londres.

Durante a produção e ensaios de Wish You Were Here, Gilmour usou-a e foi nela que lhe ocorreram as quatro notas de «Shine On You Crazy Diamond». Isso bastou para que Roger Waters escrevesse a canção quase inteira.

Em 1976, não era comum instalar pickups de encomenda numa Stratocaster, mas Gilmour foi de novo contra a corrente e aplicou um DiMarzio FS-1, retirando o original da Fender. Conferia à guitarra um som mais agressivo, e adequado, por conseguinte, a Animals, em que a Black Strat foi uma das principais “intérpretes”, tanto na gravação do disco como na tournée, em 1977.

Com a Black Strat na digressão de Animals (1977).
Com a Black Strat na digressão de Animals (1977).

É a fase em que os Pink Floyd se distanciam e David Gilmour grava o seu álbum a solo homónimo, em Inglaterra e França. Novamente, a Black Strat é a sua guitarra principal. Em 1978, o guitarrista refere-se à Black Strat, quando lhe perguntam sobre a guitarra que usa, descrevendo algumas destas características de modo vago.

david gilmour black strat animals tour
A Black Strat ainda com o braço rosewood, prestes a ser removido.

O desgaste do braço rosewood já era notório devido ao uso, e David opta por substituí-lo por um de maple (madeira de bordo). O braço foi pedido a Grover Jackson, que comprara a fábrica de peças de guitarra Charvel, tendo iniciado a sua própria atividade de construir guitarras. Gilmour pediu que o logotipo da Fender fosse colado como decalque no topo do braço, tendo em conta a carta enviada pelo técnico de guitarras de Gilmour, Phil Taylor, à Charvel’s Manufacturing, na Califórnia. Não há nada de extraordinário a apontar, exceto materiais e especificações técnicas.

Aplicado um dos braços, seguiu-se a gravação de The Wall, em que a presença da Black Strat é predominante. Especialmente no solo de «Comfortably Numb», votado constantemente como um dos melhores de sempre.

Depois da gravação de The Wall, a vertente experimental de Gilmour chamou a atenção de companhias: A Seymour Duncan enviou-lhe alguns pickups para tentar. Gilmour gostou do som e instalou um deles na Black Strat, que pode ser ouvido nos lendários concertos de The Wall. Seria uma modificação permanente. Ainda hoje lá está.

David Gilmour Kahler
Com o tremolo Kahler, 1983.

O braço Charvel seria substituído por outro para as gravações de The Final Cut, em 1983, pois tinha 21 trastos em vez de 22, o que permitia tocar um semitom acima, nas notas agudas. Um preciosismo. Em 1983, Gilmour substitui o tremolo da Fender por um Kahler, abrindo mais uma cavidade na guitarra, o que foi algo precipitado pois não se pensou no efeito que teria no som. O objetivo era obter uma afinação perfeita depois do seu uso. O guitarrista “serrou” também a barra de tremolo para obter melhor controlo enquanto tocava. Com a Black Strat neste estado, gravou o segundo álbum a solo, About Face, em 1984.

David Gilmour desinteressou-se então pela Black Strat. Na digressão de About Face usou outras Stratocasters que comprara, todas modelos standard. Como o próprio disse:

“Posso obter o meu som numa loja de instrumentos qualquer. Preciso de um pouco de delay, alguma distorção, um amplificador e uma guitarra.” A tecnologia evoluíra e, em meados de 80, Gilmour opta pela Red Strat com pickups EMG. Isto teve mais a ver com baixa impedância e eliminação de ruído. A velha e fiável Black Strat foi tristemente abandonada, chegando a ser exibida com fins de beneficência no Hard Rock Café de Hollywood, em termos semi-permanentes; ou seja, caso requisitada, seria devolvida a David Gilmour.

Gilmour com a
Gilmour com a “Red Strat”, que se tornou a sua guitarra preferida nos anos 80 e 90. Foto da digressão de The Division Bell, em 1994.

E por lá ficou durante A Momentary Lapse of Reason e Delicate Sound of Thunder, entre 1986 e 1989. A Red Strat tornou-se a guitarra principal de David Gilmour durante a fase que durou até 1994, o segundo regresso dos Floyd, The Division Bell, colaborações, o álbum Pulse, quase 20 anos. Mas…

Há mais de 10 anos que a Black Strat estava no Hard Rock Café. E, se Gilmour a quisesse reaver, o prazo estava quase a terminar. O guitarrista achou que queria ficar com ela, mas o Hard Rock Café disse que desconhecia tais termos de “devolução ou empréstimo”. Até já se esquecera. A situação foi resolvida por meios legais, ou seja, à força.

Quando a Black Strat chegou a Inglaterra, remetida da Flórida, a tristeza foi generalizada: Não tinha afinal estado atrás de uma vitrina, mas sim, exposta às mãos de todos os clientes, exposta ao vandalismo; tão suja e em mau estado que foi entregue à workshop de Charlie Chandler para ser consertada. O Hard Rock Café nunca deu explicações para tal.

Gilmour decide retirar o tremolo e instalar um tremolo original da Fender. A caixa original com as letras “Pink Floyd London” também se “extraviara” graças ao Hard Rock Café. A guitarra foi restaurada mas David só a voltou a usar em 2003, no DVD do making of de The Dark Side of the Moon. Foi infelizmente remetida para outra exibição pública, a Interstellar Exhibition de Paris, onde ficou em 2003 e 2004. Esta exposição foi um grande sucesso, e a Black Strat ficou na chamada “Echoes Room”… Bem podia ser um eco.

Gilmour ouviu este eco durante os ensaios para o Live8, em 2005. Os Pink Floyd iam viver uma reunião histórica com Roger Waters e, ao terceiro dia, alguém sugeriu que David, insatisfeito, experimentasse a Black Strat, pois gravara aquelas canções lendárias com aquela guitarra. Assim, pôs de lado a Red Strat e tentou. Foi o reencontro. Diz quem viu que até a sua linguagem corporal mudou, interagia com a guitarra como se fosse uma amiga perdida há muitos anos.

E assim, diante de três biliões de pessoas a assistir em todo o mundo, os Pink Floyd reuniram-se em palco por uma causa e a Black Strat brilhou. Há 24 anos que David Gilmour, Richard Wright, Nick Mason e Roger Waters não tocavam juntos. E há 20 anos que David não tocava a Black Strat.

Gilmour, Waters, Mason e Wright no Live8.
Gilmour, Waters, Mason e Wright no Live8.

A guitarra foi alterada outra vez, sendo-lhe instalado um braço da Stratocaster creme, dos tempos de About Face, o segundo álbum a solo, por ser mais confortável. E assim voltou a ser a guitarra favorita de David.

Em 2006, Gilmour gravou On an Island, com a Black Strat em predominância. A esposa, Polly Samson disse, segundo o músico: “Ela expressa os meus pensamentos melhor do que eu. Ela acha que a minha guitarra fala por mim, melhor do que eu faço por palavras.” Samson ofereceu-lhe uma correia de guitarra que pertencera a Jimi Hendrix. O círculo estava completo. Gilmour colocou-a na Black Strat.

Polly Samson e David Gilmour durante a digressão de On an Island, em 2006.
Polly Samson e David Gilmour durante a digressão de On an Island, em 2006.

David Gilmour recusou diversas vezes que copiassem a sua guitarra e a vendessem como signature model. Mas mudou de ideias e achou que podiam fazer uma réplica da guitarra perdida e encontrada, em modelo de baixo e alto custo, para fãs e colecionadores. Em 2008, a Black Strat regressou à Califórnia para ser medida ao milímetro. Gilmour ficou com um exemplar da réplica barata e da cara.

Não é de estranhar que, nos dias de hoje, a Black Strat seja uma espécie de membro da família Gilmour, já que passa a maior parte do tempo em sua casa. Às vezes, viaja um pouco, para uma gravação ou um concerto. David Gilmour sempre a viu como um instrumento de trabalho. Nunca foi tratada com grande reverência.

Em 2006, de novo com a Black Strat.
Em 2006, de novo com a Black Strat.

Mas era um guitarra especial. Os guitarristas sabem que, muitas vezes, não importa a marca, as guitarras não são todas iguais. Há as caras, as baratas, as intermédias, e as que têm algo de especial. A Black Strat passou por muitas mudanças, esquecimento, foi maltratada, como as pessoas, mas finalmente devolvida ao lugar devido. A primeira guitarra de David Gilmour perdeu-se para sempre, mas afinal não foi a mais importante. O que é teu, à tua mão vem parar e o que não vem, nunca te pertenceu.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s