Tomas Milian: Não só os espectadores têm heróis do grande ecrã

O ator, que nasceu a 3/3/1933, escolheu as sapatilhas Adidas com três faixas ao criar o seu personagem mais famoso. (Para fugir melhor da polícia, não pela publicidade.) Por um lado, o introvertido Milian queria fugir, mas de si próprio. Assim, moldou este marginal de bom coração de acordo com quem gostaria de ser. E chega a ser comovente como, passados 40 anos, no Carnaval de Itália, esta figura continua a ser escolhida por miúdos e graúdos e identificável por todos.

tomas milian monnezza

Recentemente, a revista Empire publicou um artigo sobre os 100 maiores personagens de sempre no cinema. É bastante previsível, massificada e enfadonha; Indiana Jones, Darth Vader… o cinema americano imposto às audiências ao longo das décadas. Sem discordar de várias escolhas, não concebo o cinema no conceito “imperialista” da indústria e, como tal, decidi fazer a minha própria lista, que inclui Indiana Jones, claro, ou Charlot. E deparei-me com uma que merece menção à parte: Er Monnezza.

tomas milian monnezza (10)Foi em 1976 que Tomas Milian, então um dos principais nomes do cinema italiano e europeu, se deparou com esta figura, no argumento de Il trucido e lo sbirro. O guião chamava-lhe apenas “trucido” ou “criminoso violento”. “Sbirro” era o “chui”. Milian, conhecido por ser uma grande peste que só aturavam porque os seus filmes lucravam na bilheteira e era talentoso como poucos, teve de fazer algumas alterações…

tomas milian monnezza (2)

“Rebatizei-o logo de Monnezza [Lixo] e também inventei um look para ele.” Isto consistiu na maquilhagem muito acentuada, especialmente nos olhos: “Isto porque através dos olhos exprimo 99 por cento das minhas emoções. Com farta cabeleira, barba e bigode, acabava por desaparecer, cinematograficamente falando.”

“Terminado o rosto, passei à indumentária. Como queria que pertencesse à classe operária, optei por um fato-macaco azul celeste, simples e de uma peça só, que não dividia o corpo em dois como sucede com as calças, cinto e camisa.” Milian quase considera Monnezza uma entidade separada dele. “Sempre jovem e destemido, como um Dorian Gray invertido.”

Non si sevizia un paperino (1972) com Barbara Bouchet.
Non si sevizia un paperino (1972) com Barbara Bouchet.

Il trucido e lo sbirro foi recebido com entusiasmo pelo público, que acorreu aos cinemas. Os letreiros “esgotado” e “só lugares de pé” eram frequentes. O ator recorda que os jovens corriam para as primeiras filas e imitavam as frases de Monnezza, “li mortacci tua!”, enquanto os críticos tomavam notas com canetas munidas de luz, na escuridão da sala.

Na sua autobiografia, que é comparável à de Sondra Locke ou de Ben Gazzara, Tomas Milian trava vários diálogos humorísticos com o seu personagem ou alter-ego. Num deles, diz:

“Se me permites, dei-te vida, não por dinheiro mas por necessidade.”
“E não é a mesma coisa?”, “pergunta” Monnezza.
“Não! O que contei até agora é disso prova. Se depois vinha o dinheiro, queria dizer que o público desfrutava!”
“Como as prostitutas?”
“Monne’, as prostitutas vendem sexo, nós vendemos risos que fazem bem ao coração.”
“Então somos as prostitutas do coração!”
“Prostitutas, assistentes sociais ou o que quiseres, mas a verdade é que te fiz existir para poder reviver os momentos em que, quando era pequeno, acompanhava o meu pai a recolher o lixo de parentes e amigos.”

Isto era um hábito que o pequeno Milian tinha em criança, em Cuba. Uma espécie de ritual. O seu pai viria a suicidar-se quando Milian tinha 12 anos, com um tiro de pistola, na precisa altura em que o filho entrava no quarto. Pelo que assistiu. A traumatizante situação aprofundou nele a necessidade de ser ator, para ser outra pessoa, e não é exagero dizer que demorou a vida toda a reconciliar-se com as memórias más do pai e com semelhante tragédia. Se “reconciliar” é a palavra.

É, em parte por isso, que a figura de Monnezza e de outras personagens da galeria do camaleão Milian assumem uma aura de palhaço, na correta e respeitosa aceção do termo.

O ator, então com 43 anos, achou que tinha criado um personagem maior do que o próprio filme. Os produtores, naturalmente agradados, propuseram-lhe novo projeto, mas Milian só aceitou na condição de poder escrever as suas próprias falas. E declarou também que nos créditos iniciais ficasse assente: “Os diálogos de Monnezza são de Tomas Milian.” “Aos produtores, não lhes importava que diabo eu faria, desde que aparecesse dez vezes no filme.”

Gabriel García Márquez e Tomas Milian em 1974. Milian recusou ser fotografado com o escritor por não querer notoriedade à custa de outros. Aqui acedeu, visto que Márquez lhe pediu como favor ao fotógrafo.
Gabriel García Márquez e Tomas Milian em 1974. Milian recusou ser fotografado com o escritor por não querer notoriedade à custa de outros. Aqui acedeu, visto que Márquez lhe pediu como favor ao fotógrafo.

O filme, La banda del trucido (1977), foi realizado por Stelvio Massi e Luc Merenda representava o bom da fita. Merenda e Milian não se deram bem. “Era o giallo do costume, com o comissário bom e o mau da praxe, mas eu só queria saber de Monnezza. Assim, saiu um filme com duas almas: A do policial, com todos os seus ingredientes, e a de Monnezza, que fazia respirar a história e o público rir.” A definição é certeira; já vi o filme várias vezes e nem me recordo de Luc Merenda. Talvez por isso, o senhor não tenha gostado…

Logo no primeiro dia, Milian chegou ao set muito cedo porque, antes da maquilhagem, tinha de acabar de escrever um monólogo bastante elementar passado na cozinha, em que explicava ao filho (com cerca de dois anos!) o fim dos coelhos num mundo de lobos (metáfora para o casamento): Esfolado. Quando iam filmar, Milian reparou que se tinham esquecido do… coelho.

Chamou o supervisor da produção Marcello Mancini, que já sabia que Milian era um grande ator, mas também um grandessíssimo chato infernal…:

“Diz-me tudo.”
“Preciso de um coelho.”
“Para?…”
“A cena da cozinha.”
“Que eu saiba, não está previsto isso.”
“Estava previsto um biberão. Mas quero um coelho, porque quero basear o monólogo no coelho.”
“Bem, Tomas, ainda são 6:30. Quando abrirem os talhos, mando comprar um.”

Às 9:00, estava tudo a postos. Isto tem tanto de bizarro como de revelador: “Tais milagres só eram possíveis no cinema italiano, porque, no cinema americano, se pedimos algo de imprevisto, pára a máquina toda.”

Terminado o filme, Milian ainda foi discutir com o realizador para a sala de montagem e, ao descobrir que a cena do coelho estava dobrada, irritou-se. “E depois, Tomas? Ninguém sabe.” “Sei eu!”

Seguiu-se La banda del Gobbo, em 1978, em que Monnezza, (a alcunha de Sergio Marazzi) contracena com o seu irmão gémeo, Vincenzo, o corcunda ou Gobbo. O ator desempenhou ambos os papéis diametralmente opostos, contracenando consigo próprio. O Gobbo, que Milian interpretara pela primeira vez em Roma a mano armata (1976), era um criminoso mais revoltado, e o ator queria deixar explícita essa cólera perante as injustiças sociais que o tornaram tão pérfido. (Ainda que leal ao irmão.) Por coincidência, o ator estava já viciado em cocaína (como o personagem) e uma das cenas mais assustadoras derivou disso, para desagrado do realizador Umberto Lenzi. O Gobbo vai a um clube noturno de ricaços e, depois de sofrer a troça dos abastados, faz um discurso, de metralhadora em punho:

“O nosso maior erro, da escumalha… Não, não somos escumalha. Somos grandes filhos da puta, somos gentalha… é o de roubar, de andar nos assaltos. E também a matar. Assim podemos ver o que fazem vocês, com todo o dinheiro que desperdiçam aqui… andam a ver quem tem joias maiores… então o erro não é nosso… é vosso, que dão um mau exemplo, entendem? E se dão um mau exemplo, então a culpa é vossa. E se é culpa vossa, têm de pagar, entendem?!”

O Gobbo obriga a clientela a tomar uma grande dose de laxante…

Em la banda del gobbo (1978) em que representou dois papéis: Monnezza e o Gobbo.
Em La banda del gobbo (1978) em que representou dois papéis: Monnezza e o Gobbo.

“Eu devia dar voz à dor do Gobbo e à frustração de uma vida. No fundo, também ele era parte de mim”, reflete Milian. Também a este personagem o ator se justifica:

“Eu devia acreditar em ti, encontrar a razão da cólera no teu passado, porque no argumento estava descrito que eras mau sem razão. Para poder ser tu, tive de te dar uma vida passada e descobrir como te tornaste no bandido que és. Antes da rodagem, escrevi a tua biografia, desde o dia em que nasceste. Era inútil dizê-lo ao realizador pois ele não teria entendido e não mudaria o argumento.”

Milian afirma que começou a “amar” mais estes personagens do que a si mesmo. Sendo um ex-aluno do Actors Studio, além de uma pessoa evidentemente complexa, teríamos de entrar no domínio da psicologia e de noções da representação. Mas nunca tive dúvidas que, se Milian tivesse feito carreira nos anos 70, nos EUA, seria tão conceituado como outros grandes nomes infinitamente menores. No entanto, “o cubano romano” acabou por fazer de Roma a sua casa. É também por isso que muitos fãs do cinema de género italiano não o apreciam especialmente – destoa do mediano e “o que é original é obviamente mais difícil”, como disse John Cassavetes.

Olimpia Di Nardo, Paco Fabrini e Tomas Milian no penúltimo filme de Nico Giraldi, Delitto in Formula Uno (1984).
Olimpia Di Nardo, Paco Fabrini e Tomas Milian no penúltimo filme de Nico Giraldi, Delitto in Formula Uno (1984).

Monnezza terminou aqui, mas as características mantiveram-se na saga Nico Giraldi. Milian, devido à sua admiração por James Dean, estava obcecado com o seu “filme americano”. Numa viagem a Nova Iorque viu Serpico, com Al Pacino: “Na minha vida, nunca tive inveja de ninguém, mas daquela vez, senti algo muito semelhante a isso. Alguns meses depois, encontrei-me em Roma com o produtor Galliano Juso e o realizador Bruno Corbucci.”

O produtor queria fazer um filme ao estilo de Serpico. “Nem pensar nisso”, disse Milian. “Significava que o filme seria, à partida, um subproduto. Ofereciam-me muito dinheiro, mas não podia interpretar um personagem em que não acreditava, idealizado para ser a imitação de outro.”

Milian matutou no assunto e telefonou ao produtor: “Aceito, mas com uma condição. Não o vamos fazer à Serpico. Façamos um filme baseado numa história verdadeira.” Esta história era a sua: “Imaginemos que Monnezza vai ao cinema ver Serpico e adora. Tanto que prefere ser polícia que ladrão. Assim, torna-se polícia, usando a sua experiência de marginal. Assim, teria de haver várias referências a Serpico no filme.”

Squadra antiscippo (1976).
Squadra antiscippo (1976).

A obra tornou-se o êxito Squadra antiscippo. Tomas Milian não queria mudar o nome de “Monnezza”, mas, visto que havia direitos de autor envolvidos, acabou por se tornar “Nico Giraldi”. Aprofundaram-se então os laços que uniam Tomas Milian a Roma e aos romanos.

“A idiossincrasia e a paixão dos romanos, o fatalismo e a generosidade, a argúcia e a sabedoria eram o meu escudo na vida. Até os palavrões me soavam sem malícia.” Apesar de, por esta altura, de acordo com os colegas, como o ator Massimo Vanni, Milian falar um italiano ótimo, o ator decidira (já nos tempos da criação de Monnezza) que o personagem tinha de ter o sotaque de Roma: “Na fase de dobragem, Ferruccio Amendola, o qual escolhi pessoalmente por ser muito bom, cancelou aquele meu sotaque, aquela cadência cubana que me denunciava, a meu contragosto.”

O
O “pai” dedicado com o “filho” do grande ecrã.

Bruno Corbucci deixou Milan à vontade para criar “o mundo do Monnezza”, desde os gorros garridos às vestimentas. O ator recomendou uma amiga sua, Sandra Cardini, para se encarregar do guarda-roupa. O filho desta, Paco Fabbrini, acabou por desempenhar o filho de Nico Giraldi, Rocky, em todos os filmes da série.

O ator deu-se bem com Corbucci mas fartou-se do produtor Juso, culminando numa discussão em Assassinio sul Tevere (1979). Depois de uma rodagem que durou a noite toda, Milian estava exausto. O produtor apareceu e disse-lhe que tinha chegado o cavalo.

“Qual cavalo?”
“O da publicidade.”
“Qual publicidade?”
“Para o cartaz do filme.”
“E depois?”
“Então põe-te em cima dele!”

“Não gostei do tom dele. Lembrou-me o meu pai. ‘No cavalo, metes-te tu!'”

“Já te disse, vai para cima do cavalo!”
“Olha, Galliano, não só não vou para o cavalo, mas o próximo filme da série, o caralho é que o faço!”

“Hoje lamento a situação. Até porque tinha um sincero afeto por ele. E o que sabia ele da situação com o meu pai?”

Também essencial para os filmes de Nico Giraldi foi o comediante Bombolo ou melhor, Franco Lechner, que Milian conheceu na rodagem de Squadra antifurto, em 1976 e desempenhou o personagem Venticello, assaltante inveterado mas inofensivo, leal ao Inspetor Giraldi. O comediante faleceu em 1987, e Milian sempre manteve que queria ser sepultado a seu lado, tal foi a amizade entre ambos. Só mudou de ideias aquando do falecimento, há poucos anos, da sua esposa, com a qual era casado desde 1964.

Sobre Bombolo, Tomas Milan diz:

“Ele era mesmo o que parecia: Terno, sincero, um amigo de enorme talento. Suportava os golpes da vida como suportava as minhas estaladas nas filmagens. Era de origem humilde e eu sabia que tinha sido difícil para ele impor o seu talento. No funeral de Franco, mantive-me afastado, para lhe dar o seu momento de glória, mas quando o corpo passou, na igreja, escondi-me atrás de uma coluna e… pam! Dei uma palmada na coluna. Foi a minha afetuosa chapada de adeus.”

Fazendo tropelias a Bombolo em Delitto sull'autostrada (1982).
Fazendo tropelias a Bombolo em Delitto sull’autostrada (1982).

Os 11 filmes de Nico Giraldi terminaram em 1984. O personagem já se tornara uma “couraça” de Tomas Milian contra a vida e a dor, como descreve. A “simbiose” com esta figura, que era “melhor” do que ele e “diferente” dele, começara a causar problemas ao ator, que, em 1982, protagonizou Identificazione di una donna de Michelangelo Antonioni. Ainda hoje dizem que Milian foi o intérprete masculino mais sensível num filme de Antonioni, mas, na altura, o ator não quis aceitar o trabalho, para o qual foi a primeira escolha.

Disse a Antonioni que não o queria fazer, que fazia filmes de grande público, do… Monnezza. “E depois?”, surpreendeu-se o cineasta. “Vi todos os filmes de Monnezza, ri-me a valer e adoro-os!”

Surpreendido, Milian aceitou, também porque a sua vida na época se assemelhava aos problemas que enfrenta no filme. Foi um dos melhores desempenhos da sua carreira.

Filmagens de Identificazione di una donna de Antonoini (Abril de 1981).
Filmagens de Identificazione di una donna de Antonoini (Abril de 1981).

Mas a sua personagem perseguia-o. “Em suma, não queria que os meus fãs me vissem como eu era na vida real, mas só como me conheciam do cinema. Evitava sair de casa. Deixei de dar entrevistas para que o meu ser Tomas não interferisse com o ser Monnezza.” A figura de que tanto se orgulhava, começava a destruí-lo, segundo diz. Assim, parou com o álcool, a droga e dedicou-se ao papel que mais lhe dizia e que, durante anos, negligenciara. À pergunta, “que papel queres fazer, Tomas?”, respondia com “o papel de pai”. Quando Robert Redford lhe perguntou “projetos para o futuro”, respondeu, “reformar-me”. Percebeu que dissera uma “blasfémia”, perante a atitude altiva do pobre ator Redford. Nos EUA, não se pode dizer isso.

Tomas Milian diz que se repete ao dizer o seguinte: “A mim, Tomas não me agrada, mas Monnezza, sim. Tomas é vulnerável, ingénuo, tímido. Monnezza é corajoso, sábio, extrovertido. A única coisa que temos em comum é o sentido de humor.”

Não só os espectadores têm heróis do grande ecrã.

David Furtado

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