Murderock de Lucio Fulci: Matança a passo de dança

Murderock – Uccide a passo di danza (Murder-Rock: Dancing Death) é um mistério que tem por palco uma escola de dança ao estilo de Fame, com algum ritmo de Flashdance pelo meio. (Na Europa, foi lançado como Slashdance.) Alguém anda a assassinar bailarinas nesta academia. Esta “matança a passo de dança” não é uma obra-prima nem o melhor filme de Fulci, mas merece reavaliação.

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O Tenente Borges (Cosimo Cinieri), com a sua gabardina à Columbo, é encarregado de solucionar os crimes. Enquanto o assassino de luvas negras vai matando com um longo estilete que espeta no coração das vítimas, a principal professora da Academia (Olga Karlatos) começa a ter pesadelos nos quais é perseguida por um homem (Ray Lovelock) que a tenta assassinar com um estilete idêntico. Ao vê-lo num cartaz publicitário, decide descobrir quem é. Será que a professora tenta desvendar o crime com a ajuda do assassino, ambos têm segredos ou a solução será mais linear?

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Ray Lovelock e Olga Karlatos.

Concebido com profissionalismo e sem o desleixo que caracteriza obras posteriores do realizador, Murderock é um mistério entre o racional e o irracional, território em que Fulci era hábil. A trama e o desfecho deste giallo são surpreendentes, até porque as motivações do assassino possuem a “racionalidade” enviesada que geralmente adiciona um toque imprescindível a este tipo de obras quando bem aplicada.

lucio fulci - murderock (14)Há vários números de dança, bastante bem filmados (quanto a mim, que nada entendo da matéria), adicionando tensão à história. O diretor de fotografia Giuseppe Pinori concorda. Este conheceu Fulci quando filmaram um anúncio em 1974: “Ele filmava terror e publicidade a água mineral da mesma forma…”, diz Pinori, referindo-se à versatilidade do cineasta.

Em Murderock dança-se (e morre-se) ao som de Keith Emerson que compôs uma boa parte da banda sonora sem ter visto o filme. O trabalho de Emerson não obtém consenso: Talvez o meio-termo seja o mais apropriado. As sequências de suspense são eficazes, com o baixo preponderante a sublinhar o clima de medo, e as cenas de dança são acompanhadas pela sonoridade anos 80, tal como inúmeros filmes da época. O músico estabeleceu uma boa relação de trabalho com Lucio Fulci, que apreciou a banda sonora (ou a detestou, depende das versões). Ironicamente, Emerson não se dera bem com Dario Argento em 1980, para o qual compôs a música (bastante superior) de Inferno.

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Fulci em Nova Iorque no início dos anos 80.

Lucio Fulci defendeu Murderock nestes termos no livro Spaghetti Nightmares de Luca Palmerini:

“É um bom filme. Um ‘televisivo’ americano. Para mim, foi o fim de uma Era. Nessa altura, senti necessidade de me renovar. Achei que aquele tipo de terror violento estava terminado. Algum tempo antes, no Festival de Avoriaz, ao falar com Clive Barker, concordámos que o cinema de terror devia mudar a partir do núcleo. Precisávamos de regressar à humanidade encontrada nos sonhos. Com Murderock, tentei afastar-me do tipo de filmes que tinha realizado até essa época. O que daí saiu foi uma espécie de história de detetives, nada mais do que um filme americano decente, ao estilo americano. Depois disso, adoeci e passaram dois anos antes de poder trabalhar de novo.”

Murderock foi filmado entre 17 de dezembro de 1983 e fim de janeiro de 1984, em Nova Iorque, numa casa em Fregene e nos estúdios De Paolis em Roma. O argumento foi escrito em parceria por Fulci, Gianfranco Clerici, Roberto Gianviti e Vincenzo Mannino. No elenco, encontramos a atriz grega Olga Karlatos, então com 37 anos, mais conhecida pela infame cena da farpa de madeira em Zombi 2 e que também participou em Purple Rain e Era Uma Vez na América em 1984. Karlatos contracena com Ray Lovelock, veterano do cinema de género italiano e Claudio Cassinelli, um grande ator tragicamente falecido no ano seguinte, com apenas 46 anos, num acidente de helicóptero.

lucio fulci - murderock (11)De fora, ficou o argumentista Dardano Sacchetti, que conheceu Fulci em 1975, trabalhou com ele nalguns dos seus filmes mais emblemáticos e conheceu-o bastante bem. Isto antes da desavença que os separou em 1982, na época de Manhattan Baby, quando Fulci lhe disse que estava farto e queria fazer filmes a sério.

Apesar de não ter colaborado nesta obra, Sacchetti explica que Fulci era “grande amante dos mistérios de Agatha Christie devido à sua racionalidade lógica, mas tinha um lado negro que nem ele conhecia”. Segundo o argumentista, tal faceta surgiu pela primeira vez com Beatrice Cenci (1969). Sacchetti compara este paradoxo a Sade, afirmando que “representa o seu lado violento; ele era um ser muito frágil, doce e educado num mundo que o estava a esmagar”.

lucio fulci - murderock (16)Sacchetti começou a carreira em 1971, com Il gatto a nove code de Dario Argento e trabalhou com Mario Bava em Reazione a catena, podendo-se portanto dizer, tendo em conta os plágios descarados de que esta obra foi alvo, que foi ele a criar indiretamente a franchise Sexta-Feira 13. O seu currículo é vasto, e nele constam vários clássicos do cinema italiano.

Para Sacchetti, “Fulci é o unico grande realizador italiano do ponto de vista técnico, se deixarmos de fora Sergio Leone, que é outra história, que não foi compreendido. Se trabalhasse nos EUA com meios à altura dos grandes realizadores americanos, seria considerado um dos maiores, porque, quando ele pensava num filme, não o fazia só a nível de interpretação dos atores ou do argumento ou como se movia a câmara, ele pensava também em como utilizar todos os seus colaboradores a todos os níveis”.

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Olga Karlatos e Claudio Cassinelli.

Outro argumentista, Antonio Tentori, conheceu-o em 1986, tornando-se amigo devido a uma simpatia imediata. Também ele elogia o “estilo hiper realista e surreal” de obras como Beatrice Cenci, onde “a violência psicológica e física coexistem”.

“O horror de Fulci dificilmente tem rivais pois ele transmitia uma visão pessoal e sofrida e, de modo existencial, transferia isso para o cinema de terror com resultados excecionais. Isto, sem dúvida.” Tentori encontra paralelos em duas influências de Fulci, Antonin Artaud e H. P. Lovecraft, mais precisamente no “que move a vida e o destino dos personagens de modo implacável como sucede em …E tu vivrai nel terrore! L’aldilà” e na “força revolucionária e anárquica de Artaud”.

lucio fulci - murderock (17)Luigi Cozzi conheceu Fulci apenas duas vezes e, a seu ver, o que aconteceu ao cineasta, aconteceu a muitos outros grandes talentos: “O cinema é assim, os fãs adoram e os produtores e distribuidores usam e deitam fora, o que é uma miséria. Sentia-se nele grande amargura nos últimos tempos, embora estivesse aparentemente bem disposto e alegre.”

Antes de Murderock, Claudio Cassinelli trabalhara com Fulci em I guerrieri dell’anno 2072 (também lançado em 1984). Já Ray Lovelock nunca trabalhara com o realizador e guarda boas recordações do cineasta rebelde e, para muitos, intratável. Atente-se que Lovelock (que foi a segunda escolha, a primeira foi Andrea Occhipinti) é conhecido por ser avesso a conflitos e desprovido de vedetismos, sendo esta última característica crucial para Fulci.

lucio fulci - murderock (6)Segundo Lovelock: “Ele tinha muito cuidado com a técnica, mas também conversava com os atores e isso não é a regra de hoje no cinema e na TV; há cada vez menos tempo para falar com os intérpretes e trocar algumas ideias. Em Murderock, lembro-me que podíamos falar das cenas e ele aceitava as propostas.” Devido a esta harmonia criada pelo realizador, o elenco e equipa jantaram juntos várias vezes, ocorrência pouco comum no meio.

Um outro ator que surge num pequeno papel é Al Cliver, que o realizador contactou na noite anterior para uma cena de um minuto, sabendo que Cliver se encontrava à procura de trabalho. Deu-lhe um monólogo repleto de termos técnicos em inglês para memorizar. Apanhado de surpresa, o ator ficou a noite inteira acordado, tentando decorá-lo. No dia seguinte, vendo-o muito nervoso, Fulci teve paciência e deu-lhe uma pausa para repousar. Cliver desempenha o técnico forense que examina a voz do assassino ao telefone.

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Ray Lovelock guarda boas recordações do filme e do realizador.

“Eu só conhecia Fulci de nome, claro”, diz Ray Lovelock, “era já considerado um dos mestres. Fiquei com boa impressão dele. Eu trabalhava em TV há três anos e, portanto apreciei a ideia. Havia descontração na rodagem, tanto que podíamos absorver o clima de Nova Iorque. O maior problema era o frio, que tornava difícil dizer as falas. Reparei que Olga Karlatos [que tinha um apartamento em Nova Iorque] já estava habituada ao modo de trabalhar de Lucio Fulci, isso notava-se”.

lucio fulci - murderock (1)A única má recordação de Lovelock é o facto de ter tido a sua voz dobrada pois os produtores queriam conferir um ar americanizado ao filme. “Tendo em conta o enredo, grande parte do orçamento foi obviamente para a música.” À distância de mais de 30 anos, Lovelock já não recorda certos pormenores, mas lembra: “Não acho que o filme se tenha saído muito bem comercialmente, embora Fulci já fosse um ‘histórico’ neste tipo de obras. Já o encaravam de outro modo, não o massacravam como tinham feito durante os anos 70. Mas, ao contrário de outros filmes que rodei nessa década, este parece-me ter uma boa atmosfera e não o acho datado, julgo que, para isso, contribuiu a atmosfera nova-iorquina.”

De facto, Murderock estreou em Roma a 20 de abril de 1984, no Cinema America, e rendeu 250 milhões de liras, nada de extraordinário. Recebeu, contudo, as atenções da crítica que deixara de ser snob para com o cineasta.

lucio fulci - murderock (15)Ray Lovelock afirma-se um ator “sem escola”, pelo que sempre tentou “aprender e absorver os ensinamentos de colegas e realizadores, de todos”. “Em The Cassandra Crossing [filme de 1976, com Sophia Loren, Martin Sheen, Lee Strasberg, Ava Gardner, Burt Lancaster e Alida Valli], trabalhei com tantos nomes conhecidos que andava constantemente a ‘roubar’… Com Lucio Fulci não foi muito diferente. A minha maneira de estar no set é, por natureza, observadora, por isso, via como ele arquitetava tudo, posicionava a câmara…”

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Olga Karlatos encontra mais uma vítima.

“Devo dizer que não me dera bem com Umberto Lenzi no passado e estava sempre a dizer que no dia seguinte… mas claro, tal nunca aconteceu.” Lovelock culpa o seu próprio feitio, em parte: “De início, foi parecido com Fulci, mas isso foi superado. Sou muito lento a revelar-me com as pessoas no trabalho.”

Giuseppe Pinori foi o diretor de fotografia em Murderock e compara Fulci a Fellini no sentido em que morreram “quando viram que não podiam fazer o mesmo tipo de cinema”. Também o técnico tem boas recordações da filmagem, que parece ter sido mais pacífica do que outras produções do realizador: Afirma que Fulci não se inspirou em Flashdance e deu orientações bastante específicas à coreógrafa Nadia Chiatti para as cenas de dança. Várias intérpretes/vítimas do assassino, não são atrizes, mas sim, bailarinas, tendo participado unicamente em Murderock. Um exemplo é a brasileira Carla Buzzanca. A maioria do elenco é jovem, mas terá sido orientado com firmeza pelo realizador.

lucio fulci - murderockNo aspeto técnico, Pinori realça a sobrexposição patente em boa parte do filme, o que “às vezes, não é bom, mas neste contexto é extraordinário”. Lembra-se que a película era 320 ASA, as lentes eram Zeiss e que, em certas cenas, como aquela em que Karlatos investiga o apartamento do suspeito, estilo POV, foi usada a câmara à mão, uma Arriflex. Ou seja, não falamos aqui de uma produção série Z. “É um filme de grande público, mas tecnicamente impecável.” (Quando abordei O Estripador de Nova Iorque, escrevi que foi o último grande filme que Fulci realizou, o que é algo injusto para Murderock.)

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O confronto com o assassino.

Para o diretor de fotografia, “se Fulci achava que as pessoas estavam no projeto por dedicação e não apenas por dinheiro, afeiçoava-se a elas. Ele não se levava demasiado a sério e não apressava as coisas. Noutro filme, nos Estúdios Elios, em Roma, irritou-se, mas neste não. É certo que resmungava bastante, mas isso era uma questão de caráter, não era por causa das pessoas”.

Uma das sequências mais marcantes de Murderock, o sonho em que Olga Karlatos é perseguida por Ray Lovelock numa espécie de cenário futurista, foi rodada na garagem subterrânea do Palazzo delle Esposizioni, no centro da capital italiana, na zona EUR (Esposizione Universale Roma). Este cuidado com os locais, era, segundo o técnico, característico de Fulci. Aconteceu o mesmo nas cenas de rua de Nova Iorque: “Demorou a encontrar entradas de prédios e ambientes. Ele chegava a procurar cinco ou seis e, se não lhe agradavam, não se filmava. Mas Nova Iorque é como um grande teatro, há sempre sete ou oito filmes em produção e cada esquina possui atmosfera própria.”

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“Ao trabalhar com equipas americanas, notei que ficavam espantadas como nós [italianos] resolvíamos um problema. Se um cabo era visível, por exemplo, solucionava-se com um arame ou punha-se um vaso à frente. Eles chamavam um engenheiro e passavam horas a passar o cabo por uma janela e fazê-lo entrar por outra…”

A nível de financiamento, não houve problemas, com Giuseppe Pinori a realçar: “Hoje os financiadores dão seis milhões e três ficam no seu bolso, caso corra mal.” O técnico recorda a situação do produtor Enzo Gallo que quando “produziu um filme na Bulgária, o IRS descobriu uma conta lá com um milhão e meio de euros supostamente destinados ao filme. E todos trabalharam por quase nada. Estes senhores não apreciam o cinema e, digo-o sem contemplações, deviam desaparecer da face da Terra”.

lucio fulci - murderock (3)Ao recordar Murderock, o diretor de fotografia não esconde alguma nostalgia em relação aos realizadores: “Hoje quem ficou? Morreram todos. Poucos restaram.” Admite que Lucio Fulci era uma pessoa “com problemas na vida privada mas genuíno e profissional no trabalho, com ironia e grande sentido de humor. Isso todos reconheceram. Só posso dizer que, mal acabávamos a filmagem, ele desaparecia, devido ao frio em Nova Iorque que atingia os 10 graus abaixo de zero”.

Nos últimos tempos, Lucio Fulci enfrentou tantos problemas financeiros que teve de vender duas casas, até para sustentar a filha. “Ele fazia troça da crítica, recordo-me”, afirma Pinori. “‘Quando eu morrer’, etc. Acho que os críticos deviam ir todos para a escola de cinema aprender todas as disciplinas, fotografia, música, cenografia, iluminação, tudo. E também deviam saber ler. Depois disso, sim, podiam ser críticos de cinema. Não se pode falar só do que se vê e ‘ajuizar’ como crítico. Quase sempre sai asneira.”

David Furtado

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