Maurizio Merli: O Comissário de Ferro, honesto e fora-da-lei

14 filmes em cinco anos, entre 1975 e 1980. Sucesso colossal e o esquecimento. Em 1989, morre de ataque cardíaco aos 49 anos. Maurizio Merli era o imperador do policial, que até fazia a polícia acorrer aos cinemas para evitar motins. Entre o idealismo e o realismo, era um cínico desiludido, sempre a esbarrar contra advogados, magistrados e marginais, três palavras tantas vezes indistintas.

Un poliziotto scomodo

Os policiais com Tomas Milian e Maurizio Merli causavam furor em Itália e na Europa, nos anos 70, saudados pelo público e insistentemente atacados pela crítica por serem politicamente incorretos. Um dos principais visados destas ofensivas era Merli, que, na figura do Comissário Betti, Tanzi, Olmi ou Murri, representou mais ou menos o mesmo personagem. O ator romano tornou-se até um símbolo da época.

E era uma época em que os italianos não encontravam defensores no sistema judicial – criminosos, terroristas, assaltantes de bancos e raptores subjugavam uma Justiça incapaz. Os cidadãos acorriam aos cinemas como escape, e lá encontravam Enrico Maria Salerno, Luc Merenda, Claudio Cassinelli, Fabio Testi e Merli, claro, o polícia sem medo, o cínico, o violento, o rebelde, o solitário, incómodo para o sistema e enraivecido perante a injustiça.

maurizio merli 3 (3)O Comissário de Ferro surge de mãos atadas pela venda da Justiça e a sua balança – ilusoriamente igual para todos -, tornando-se o braço violento ou a espada que esta empunha. O personagem assenta em vários protótipos americanos como Dirty Harry, mas com inúmeras variações à italiana. O Comissário está sempre disposto a ajudar as crianças, os velhos, os indefesos e as vítimas inocentes, com uma teimosia que o torna idealista, querendo ver atrás das grades juízes e outros agentes da lei. Merli nunca se tornou uma estrela internacional, apesar do êxito generalizado dos filmes que protagonizou. Ele próprio achava que “nos tornamos atores por 30% de presunção, 20% por nos sentirmos fisicamente aceitáveis, e 50% por estarmos convencidos de que podemos ter êxito”.

Com apenas 19 anos, Maurizio Merli já mostrava sinais de rebeldia, sendo expulso da Accademia Nazionale di Arte Drammatica por ter assinado um contrato teatral, o que era proibido. Aos 23 anos, em 1963, surge como figurante em O Leopardo de Visconti na famosa sequência do Grande Baile, a par de atores como Alain Delon, Claudia Cardinale e Burt Lancaster, no Pallazzo Gangi de Palermo.

Trabalha no teatro, obtendo algum sucesso com Orlando Furioso de Luca Ronconi, obra baseada num poema de Ludovico Ariost, ao lado da lendária Mariangela Melato. Faz também trabalhos radiofónicos na Radio Rai como La più bella del Mondo e La menzogna. O seu percurso discreto adquire outra dimensão quando protagoniza a mini-série televisiva Il giovane Garibaldi em 1974.

maurizio merli garibaldi
Il giovane Garibaldi (1974).

O ator disse: “Fiquei tão afeiçoado a este personagem que tentei ver as facetas mais secretas e desconhecidas da sua natureza.” Ainda em 74, surge em Zanna bianca alla riscossa, sequela dos filmes de Lucio Fulci, realizada por Tonino Ricci.

1974 foi o ano mais importante para Merli, até porque fica noivo de Rita di Santo, uma jovem estudante de 24 anos que conhecia desde a infância. O ator ganhou uma nova família porque Rita tinha sete irmãos mais novos e Merli apenas tinha uma irmã mais velha e segundo disse, sentira-se, até então, filho único. Poucos meses antes do noivado, falou-se que Merli tentava seduzir a cantora Gilda Giuliani, que recusou os seus avanços e o confirmou publicamente, acrescentando porém que Merli “sempre se comportou como um cavalheiro”.

Zanna Bianca alla riscossa (1974)
Zanna Bianca alla riscossa (1974).

Ainda em 1974, surge no melodrama Catene, ainda de cabelo castanho comprido e sem bigode. Seguem-se alguns trabalhos na TV e é então que ocorre uma mudança de 180 graus. Quando o seu amigo Marino Girolami o contacta para…

Roma violenta (1975)

Realizador: Marino Girolami. Personagem: Comissário Betti.

O ator Richard Harrison, que já tinha recusado fazer a trilogia dos dólares com Sergio Leone, 10 anos antes, por não gostar do pagamento nem do guião, cometeu novo erro ao recusar o papel do Comissário Betti. Merli também não estava muito convencido com este polícia mas declarou: “Atirei-me ao papel com paixão, fazendo as cenas perigosas e as dramáticas, para criar um personagem verdadeiro, um polícia credível, um homem de todos os dias.”

maurizio merli 3 (1)Merli deixa crescer o bigode e oxigena o cabelo – as más línguas disseram que era para ficar mais parecido com Franco Nero, que interpretara o Comissário Belli no marco do policial à  italiana La polizia incrimina, la legge assolve de Enzo G. Castellari. Maurizio Merli decide também fazer as cenas mais perigosas (só as de alto risco envolveram duplos). E assim nasceu um personagem.

Roma violenta estreou em agosto de 1975, sem grande publicidade e obteve dois biliões e 750 milhões de liras de lucro, mantendo-se em exibição durante quatro meses seguidos nas salas de Roma. Por este e pelos seguintes papéis, Merli viria a vencer, em 1976, o prémio «Una vita per il cinema» do Centro Studi di Cultura, Promozione e Diffusione del Cinema. Na medalha de ouro estava inscrito por que a merecia: “Pelos seus dotes de ator inteligente e preparado.”

Num intervalo das filmagens.
Num intervalo das filmagens.

Com o western spaghetti em declínio e o poliziesco ou poliziotteschi em ascensão, o timing era perfeito. As pessoas até cumprimentavam Merli na rua, tomando-o por um verdadeiro comissário. E Merli era o único ator com uma característica particular nestes filmes, era capaz de nunca fechar os olhos ao disparar uma arma, o que obviamente é muito difícil devido aos reflexos.

Diz-se que Girolami copiou o desfecho de La polizia incrimina, la legge assolve, em que Franco Nero vislumbra a sua morte. Seja como for, a banda sonora de Guido e Maurizio De Angelis confere um frenesim a este filme, que contém uma das melhores e mais longas perseguições do poliziesco. Foi também o último filme de Richard Conte, já bastante doente. Os Alfa Romeo Giulia estão por todo o lado e há muito murro e chapada por parte do Comissário.

roma a mano armata 1976A crítica massacrou o filme: “Argumento de cartão que abusa dos clichés do género ao ponto do tédio”, disse o Corriere della Sera. “Maurizio Merli não tem hipótese de dar dimensão ao protagonista”, escreveu Leonardo Autera a 27 de agosto de 1975. O Il Giorno não foi mais benévolo, dizendo que o filme incitava a “justiça popular e execuções sumárias”. “O realizador não presta um bom serviço à sociedade, que tem problemas infinitos a resolver.” Estes paladinos dos bons costumes foram mesmo levados pelo vento com semelhantes acusações ridículas.  

Roma a mano armata (1976)

Realizador: Umberto Lenzi. Personagem: Comissário Leonardo Tanzi.

Seis meses após o sucesso de Roma violenta, estreia Roma a mano armata, com Lenzi a reunir pela primeira vez Tomas Milian e Maurizio Merli. Milian interpreta o Gobbo, ou o Corcunda, figura inventada pelo ator e o realizador, mas inspirada no verídico Gobbo del Quarticciolo, um criminoso romano. O argumento é mais consistente do que o do filme anterior, ainda que a história pareça dispersar-se, tendo como único fio condutor o antagonismo entre o Comissário e o Gobbo.

roma a mano armata maurizio merliLenzi, porém, era mestre do cinema de ação, usando e abusando do zoom, com uma montagem rápida, misturando ingredientes do film noir à americana. Portanto, Merli foi novamente acusado pela imprensa de estar “demasiado condicionado por certos filmes americanos antigos”. Vou relatando algumas destas críticas para que se saiba como estas obras eram constantemente atacadas na imprensa italiana.

O romancista, argumentista e dramaturgo Ennio Flaiano definiu na perfeição em Lettere d’amore al cinema (1978) o que é, para mim, um crítico de cinema: “O crítico cinematográfico é sobretudo alguém que não percebe nada de cinema, mas frequenta o ambiente das salas e escreve os seus artigos sobre os filmes, quando na verdade fala de outras coisas… e frequentemente acha que este é o único modo de combater o fascismo.”

Lenzi injetou adrenalina em Roma a mano armata, que, com uma explosiva banda sonora de Franco Micalizzi, arrasou nos cinemas. Na estreia, no Adriano romano, 2.800 pessoas bateram palmas. O argumentista Dardano Sacchetti, que estava na galeria com Lenzi e Merli, relatou um episódio estranho porém: “No final, vi Maurizio a chorar… desolado porque o público não gostou da morte do vilão, o Gobbo, um personagem que evidentemente não suscitava respeito ao Comissário.

No set, Tomas Milian e Maurizio Merli criavam um constante clima de tensão, e era quase impossível mantê-los aos dois frente a frente, tal era o ódio que tinham um ao outro. Segundo Umberto Lenzi, “a relação entre Milian e Merli era um pouco como a dos personagens do filme. Tudo o resto são boatos [terem andado à pancada]. E o episódio no cinema Adriano é inventado. Eu estava lá, os aplausos foram para o filme e Merli estava muito satisfeito.” O cineasta recorda que Maurzio Merli tinha “um temperamento um pouco rabugento, mas no fundo era boa pessoa”.

A imprensa foi feroz, citando o Corriere della Sera de 28 de fevereiro de 1976: “Um insulto à magistratura, contrabando ideológico anti-democrata.” Merli era “um ator com expressão de Lee Van Cleef nos momentos cruciais, e que pouca credibilidade dá a isto”.

Napoli violenta (1976)

Realizador: Umberto Lenzi. Personagem: Comissário Betti.

Ainda em 1976, surge outra obra de Lenzi, formalmente a sequela de Roma violenta, com Merli a interpretar o Comissário no que seria a “trilogia do Comissário Betti”.

Desta vez, o sucesso foi de tal ordem que na estreia em Nápoles, a 23 de agosto, a polícia teve mesmo de intervir. As pessoas quase se esmagaram para entrar no cinema. O chefe da polícia napolitana (!) teve de arranjar uma segunda sala para que todos pudessem assistir. O êxito quase igualou o do anterior: Dois biliões de liras de lucro, com 169 milhões só em Nápoles.  

napoli violenta maurizio merli
A cena do funicular em Napoli violenta.

Neste capítulo, o Comissário Betti é transferido de Roma para Nápoles, onde os criminosos parecem uma epidemia de escaravelhos a pedir exterminação. O General é o chefe dos malfeitores, nesta metrópole à beira do Vesúvio. A erupção de crime precisa do Comissário, que vai prensando os bandidos em capôs de carros como tostas na grelha.

A banda sonora de Franco Micalizzi invoca uma tarantella nervosa, e o resultado é um filme imperdível. Uma referência à cena perigosa que Merli interpreta, atirando-se para cima do funicular de Montesanto, uma sequência parecida com a de Peur sur la ville de Henri Verneuil, do ano anterior, em que Jean-Paul Belmondo faz o mesmo no metropolitano, também ele sem recurso a um duplo. “Não há muito a dizer sobre essa cena”, recapitula Lenzi. “Era muito perigosa, e Maurizio interpretou-a com muito desprezo pelos riscos que corria. Em todo o caso, o filme fala por si.”

Mas houve duplos, e os italianos não brincavam em serviço: Um ex-campeão mundial de motocross foi contratado para levar um gangster à esquadra para as apresentações periódicas. Há também algum gore, com um bandido que tenta trepar um portão a ficar com a goela espetada numa das barras.

napoli violenta maurizio merli (1)John Saxon, frequentemente requisitado para estes filmes como vilão, disse isto de Merli após a rodagem: “Ele falava de si na terceira pessoa, como o Papa, ‘Merli pensa fazer esta cena assim, Merli acabou, Merli vai-se embora…'”

É inevitável uma referência a Umberto Lenzi, que realizou uma dúzia de policiais em cerca de 70 filmes, entre 1955 e 1996, em géneros como o terror, o filme de canibais, o giallo, o thriller, filmes de guerra, western spaghetti, aventura, capa e espada… com energia e produtividade invulgares. A qualidade é desigual, mas é raro que um filme de Lenzi mace o espectador.

Lenzi foi acusado de retratar uma “violência sem filtro”, o que não apreciou:

“Nós mostrávamos a Itália de então, um país repleto de fortes tensões sociais, onde o terrorismo e a criminalidade comum provocavam diariamente mortos e feridos. Os meus protagonistas são marginais da sociedade, sub-proletários sem emprego ou possibilidade de resgate social, personagens não muito diferentes das de Pier Paolo Pasolini e Émile Zola.”

Lenzi rodou quatro filmes com Maurizio Merli e ficou com boa impressão: “Era um ator muito profissional. Nos meus filmes, não variou o seu nível de qualidade, entrava sempre na perfeição na psicologia e na ação requerida pelo personagem.”

Paura in città (1976)

Realizador: Giuseppe Rosati. Personagem: Comissário Murri.

Um terceiro filme no mesmo ano. Haveria ainda um outro. Boa lição para as prima donnas de Hollywood de hoje, mal habituadas e preguiçosas. Nesta altura, Merli era o Comissário mais amado de Itália e 1976 foi um ano fértil para o cinema italiano. Na Cinecittà trabalhava-se sem parar. Numa fase em que o ator era muito requisitado e aceitava todas as propostas, o realizador napolitano Rosati convocou-o para este filme, que, infelizmente, não foi dos melhores.

maurizio merli 5 (5)A presença de James Mason no papel de chefe da polícia é pouco convincente; o talentoso ator americano passou para receber o cheque nesta obra com pouco ritmo e que recicla os filmes anteriores do Comissário. O Corriere della Sera apelidou-o de “bacanal de brutalidade” em setembro de 1976. O lucro de 983 milhões de liras foi escasso.

Há alguns méritos no filme, talvez cómicos, como o descarado product placement ou “marketing indireto”, com o maço de Marlboro a sair do bolso de Merli que não fuma ou a garrafa de Vat 69 tão visível que parece um anúncio publicitário.

Italia a mano armata (1976)

Realizador: Marino Girolami. Personagem: Comissário Betti.

Marino Girolami, por esta altura, estava irritado: Tinham-lhe roubado o personagem e lucrado um monte de liras. Quis terminar a trilogia de Betti e matar o personagem no fim. Assim, Merli confronta um triângulo de criminalidade que se movimenta entre Milão, Turim e Génova, acabando por sucumbir à cólera dos mafiosos. Na altura, comentou-se que Girolami queria mesmo impedir que outros realizadores, como Lenzi, se aproveitassem do sucesso.

maurizio merliPor curiosidade, refira-se que o tema musical do filme foi usado por Quentin Tarantino na perseguição final de Death Proof (sempre a copiar, Tarantino…) O filme obteve 376 milhões de liras em Itália. John Saxon retoma o papel de mafioso, já com algum automatismo, embora com humor. Italia a mano armata é um regresso à boa forma, com muita ação, cenas de pugilato e o Comissário a perseguir os bandidos pelo mercado hortofrutícola, usando as cabeças de alguns para amolgar capôs de carros. (Repetidamente, diga-se.)

Il cinico, l’infame, il violento (1977)

Realizador: Umberto Lenzi. Personagem: Comissário Tanzi.

Girolami não conseguiu matar o Comissário, que ressuscita, novamente sob a direção de Lenzi, com os rivais Milian e Merli a reencontrarem-se. “Desta vez, foi fácil porque nunca se cruzaram no set.” O realizador acrescenta que Maurizio Merli nunca interferia no guião: “Nos meus filmes, tal nunca sucedeu. Deixava-se orientar com diligência, seguia as minhas instruções, em suma, um grande profissional. Estávamos sempre de acordo.”

Il cinico, l'infame, il violentoO título, um referência óbvia a O Bom, o Mau e o Vilão, não reflete a intenção desse filme, já que os três, Merli, Saxon e Milian, são dignos de serem cínicos, infames e violentos. Tomas Milian é hilariante como o mafioso Il Cinese: “O advogado é pontual, já cá devia estar.” Batem à porta: “Fala-se no cornudo, ele bate com os cornos.”

maurizio merli 4 (3)Com Micalizzi a assinar a banda sonora novamente, o filme é outra entrada empolgante no catálogo do Comissário, que faz uso de extintores, barras de ferro e câmaras fotográficas para abrir caminho entre a marginalidade. “Sorri”, diz Tanzi a um pornógrafo. Este sorri antes de apanhar com a câmara no nariz.  

I gabbiani volano basso (1977)

Realizador: Giorgio Cristallini. Personagem: Albert Morgan.

As gaivotas voam mesmo baixo nesta obra, numa fase em que Merli queria libertar-se do policial, atitude compreensível, mas sem resultados. Foi uma desilusão com fracos lucros de bilheteira quando surgiu nos ecrãs em janeiro de 1977. Merli lucrou alguma coisa, pelos menos, sob a forma romântica, tendo-se envolvido com Nathalie Delon nas filmagens.

Ainda em 1977, Maurizio Merli opta pelo western spaghetti, género já moribundo, sob a direção de Sergio Martino em Mannaja. Objetivamente, o filme é eficaz, mas salvo raras exceções, os spaghettis desta fase já pouca atenção atraíam. Não ajudou muito o tema-título xaroposo.

Poliziotto sprint (1977)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Marco Palma.

Não era só o spaghetti que entrava em declínio, o policial também. O western teve mais longevidade, apesar de tudo. Um realizador que tentou revitalizar o género foi Stelvio Massi, que tinha o dom de estar em sincronia com os sentimentos das pessoas comuns e, sendo já hábil no policial, viu em Maurizio Merli um ator capaz da árdua tarefa. Massi e Merli ficaram amigos, num período em que o ator denotava alguns tiques de vedetismo.

maurizio merli (3)Fora do set, Maurizio Merli andava com cara de duro, era esquivo e por vezes rude. Quem o conheceu para lá desta fachada diz que a atitude escondia uma grande timidez e uma alma de criança quase. Stelvio Massi sugeriu-lhe que cortasse o bigode, para mudar a aparência, e o ator obedeceu. Foi também a primeira vez que usou a sua voz.

Realizador e ator queriam libertar-se das fórmulas do policial. O argumentista Gino Capone trabalhava numa história sobre o brigadeiro Armando Spatafora da Brigada Móvel de Roma, que, nos anos 60, perseguia os criminosos com o seu Ferrari 250 GT/E. Os colegas alcunharam-no de “chui dos sprints” ou do “carro desportivo”.

maurizio merli stelvio massi
Ouvindo as orientações de Stelvio Massi.

Pela primeira vez, Maurizio Merli obteve as boas graças da crítica. “O filme tem o mérito de não cair na violência gratuita e na ideologia reacionária”, comentou o Il Giorno em setembro de 1977. À saída dos cinemas, os jovens entravam empolgados nos seus automóveis, ávidos por imitar as cenas do filme, que foi um grande êxito, especialmente em Roma.

Poliziotto sprint contou com várias acrobacias que ficaram a cargo de Rémy Julienne e da sua equipa de duplos franceses. Era o filme de que Stelvio Massi, falecido em 2004, mais gostava, entre os 33 que realizou. Julienne destruiu acidentalmente o carro do protagonista, que ficou em chamas, fornecendo assim um final diferente do que o previsto. Um duplo ficou seriamente ferido num acidente.

Lilli Carati, atriz principalmente conhecida pelos filmes eróticos e que mais tarde enveredou pela pornografia, era a coprotagonista com Merli, que já tinha a fama de se atirar a todas as atrizes. Teve pouca sorte com Carati, que declarou à imprensa: “Ele só pensava em si mesmo. Nunca me entendi com ele.”

A 1 de dezembro de 1977, Merli casa, o que parecia impensável para quem o tomava por conquistador. Colaboradores e amigos recordam uma personalidade quase esquizofrénica. No set, era rude e fanfarrão, em casa, era um pai e marido preocupado e exemplar.  

Poliziotto senza paura (1978)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Walter Spada.

A colaboração com Massi prosseguiu neste filme, em que Merli, pela primeira vez como detetive particular, surge ao lado de Joan Collins. A atriz americana só concordou em entrar no filme depois de o realizador lhe mandar dezenas de fotos de Merli… O ator já era amigo da família do realizador e o filho, Danilo Massi, lembra-se bem dele e comenta objetivamente o bem e o mal que advieram da figura do Comissário e os efeitos na carreira do ator:

“Em parte, não foi culpa dele, foi culpa do personagem, em filmes escritos em série, que deixavam pouca margem para uma interpretação. Era uma espécie de sociopata que se tornava um sociopata como os que combatia. Por outro lado, também era o cinema daqueles anos, do ‘policial de fotocópia’. Só em Poliziotto senza paura, Maurizio pôde mostrar os seus dotes de comédia, a par do excecional Gastone Moschin.”

Com Joan Collins em Poliziotto senza paura.
Com Joan Collins em Poliziotto senza paura.

O filho de Massi recorda também que Merli “era um verdadeiro atleta, jogava muito bem futebol e era um ótimo tenista. Tinha muito cuidado com a forma física e era mesmo por isso que dispensava duplos, apesar de os produtores o tentarem fortemente dissuadir”. Com Stelvio Massi, nunca houve problemas, explica o filho: “O meu pai era um grande realizador mas também um extraordinário diplomata. Ouvia sempre com atenção o ponto de vista de todos. A colaboração com Maurizio nem sequer foi assim, porque eles pensavam do mesmo modo.”

Maurizio Merli não tinha amigos no mundo do cinema, ou pelo menos, não cultivava as falsas amizades que impulsionam carreiras. Danilo Massi descreve: “Encontrar um verdadeiro amigo, até para uma pessoa normal, é muito difícil. No ambiente do cinema é quase impossível. A inveja e o rancor são sentimentos inevitáveis. Maurizio não tinha bem um caráter rude, eu diria que ele era determinado. O único defeito que lhe apontaria era que ostentava demasiado essa determinação e segurança. Mas como o podíamos criticar se depois o sucesso calava a boca a todos?”

maurizio merli 2 (1)Danilo Massi assistiu também ao engatatão Merli, mas abstém-se de grandes confidências. “Não quero faltar ao respeito a Rita, e garanto que Maurizio amava profundamente a esposa. Mas como digno representante do amante latino de origem italiana, foi, como todos nós, umas vezes caçador, outras vezes presa. Testemunhei muito assédio por parte das fãs, mas quanto às escapadelas de que se falou na época, desconheço o epílogo.”

Misturando ação com comédia, esta obra foge aos estereótipos. Collins, que nunca foi grande atriz, é convincente e Gastone Moschin, ator fora de série, faz dupla com Merli neste filme recomendável. O produtor Giuseppe Amati não ficou muito divertido porque Merli não “dispara como um louco!” “Assim ninguém o vem ver ao cinema!” De facto, não foi um êxito.

Un poliziotto scomodo (1978)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Comissário Olmi.

maurizio merli poliziotto scomodoEste filme é seguramente uma das entradas mais originais na saga do Comissário, além de ser um tributo à cidade natal do realizador, Civitanova Marche, povoação costeira na província de Macerata. O polícia, farto de lutar contra a imundície que o cerca, e alvo dos corruptos braços da lei, acaba por alvejar um agente por engano, sendo transferido para a vila piscatória de Civitanova Marche. Algo de semelhante “aconteceu” a Dirty Harry em Sudden Impact. (Tal como Magnum Force de 1973 da saga de Harry Callahan, que assenta em La polizia ringrazia, de 1972; só dois breves exemplos de como o policial americano se apropriava descaradamente do que considerava eurotrash. Com exterminadores implacáveis a voarem hoje das sarjetas, já nem sei o que dizer do cinema americano atual.

É claro que Olmi, nesta pacífica localidade, arranja problemas, ou melhor, descobre-os. E descobre também a bela Olga Karlatos (atriz mais conhecida por Zombi 2 de Fulci). Guardando a pistola na gaveta, procura desmantelar uma rede de tráfico de armas. A obra foi descrita pela imprensa italiana como “uma voz fora do coro”, e Stelvio Massi elogiado como um dos poucos que soube renovar um género em declínio. Merli procurava novos ângulos num personagem já insípido, o que não passou despercebido. Talvez a inspiração adviesse do local das filmagens, em cujas ruas Merli e Karlatos passeavam e faziam compras perante os olhar dos curiosos.

Il commissario di ferro (1978)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Comissário Mauro Mariani.

Nova colaboração com Massi, desta vez num filme que se chamaria “Um maldido domingo” e acabou por receber um título comercial que não agradou ao ator nem ao realizador. A tentativa de aprofundar o casamento falhado do protagonista não resultou bem. Maurizio Merli disse mesmo na época: “Este filme não trata de nada.” Honra lhe seja feita por não ter tornado o seu personagem especialmente simpático. O Corriere della Sera atacou o filme e o “louro e opaco intérprete Maurizio Merli”, o “comissário da pistola fácil”. O filme é fraco em parte porque, como sucedia frequentemente em Itália, os financiadores cortaram o dinheiro subitamente, isto de acordo com Massi: “Tivemos de nos arranjar para o conseguir terminar.”

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A insistência nas camisas azuis e o relógio do pai, sempre visível no pulso direito.

Escrito e filmado à pressa, o filme foi um relativo fracasso de bilheteira. O ator Massimo Mirani, que representa o criminoso que rapta o filho do comissário, afirma: “Merli não gostava do trabalho do fotógrafo no set, insistia que realçassem os seus olhos e o fotografassem de baixo para cima, para parecer mais alto e coisas do género…” Mirani assinala porém que “a popularidade de Merli nesses anos era imensa, difícil de imaginar hoje”, tanto entre o público como entre os polícias.

No set, insistia em envergar camisas azuis para fazer sobressair o azul dos olhos. Ainda segundo Mirani, “teve um caso com Nathalie Delon e não parava de falar nisso. Assim fiquei a conhecer na perfeição os detalhes anatómicos e o comportamento sexual da senhora… e acho que não fui o único privilegiado”.   

Sbirro, la tua legge è lenta… la mia… no! (1979)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Comissário Paolo Ferro.

“A tua lei é feita de provas, juízes e testemunhos, a nossa não, para nós, quem erra, paga”, declara o mafioso. Por esta altura, Maurizio Merli já acusava o cansaço. A equipa achou que não dava o seu melhor. Isto também se nota na dobragem: Nos filmes mais populares do Comissário, Merli era geralmente dobrado por Pino Locchi, que também dobrava as vozes de Sean Connery e Tony Curtis. Em Itália, quem dobrava os filmes era também conhecido do público. Ferruccio Amendola, por exemplo, foi a voz de Tomas Milian em muitos filmes, sendo escolhido pelo ator para dobrar os míticos Er Monnezza e o Inspetor Giraldi. O problema de Merli, ao contrário de Milian, não era o sotaque, mas uma voz mais suave que nem sempre condiz com o personagem “de ferro”.

Da Corleone a Brooklyn (1979)

Realizador: Umberto Lenzi. Personagem: Berni.

A filmar em Manhattan, com 25 graus abaixo de zero, Merli fez algo que dificilmente um ator faria. Umberto Lenzi considera este o melhor policial que realizou, e recapitula:

“Tínhamos de rodar uma cena junto ao porto, com um grupo de personagens pouco recomendável e não tínhamos duplos, por isso usámos uns tipos que andavam pelas redondezas. [Uns marinheiros.] Disse a Merli que tinha de ser a sério. Filmei tudo num só take porque Maurizio, após ser convencido com muita paciência, prestou-se a tal [exigindo que fosse apenas um take]. O espancamento foi autêntico! Por sorte, ele não saiu muito esmurrado e recuperou com um bom copo de uísque.”

Poliziotto solitudine e rabbia (1980)

Realizador: Stelvio Massi. Personagem: Nick Rossi.

Este título parece um bom mote para o espírito do personagem e do ator, agora enraivecido e enclausurado no papel que lhe dera a fama. Massi trabalhou muito com Merli e naturalmente ouviu histórias de colegas. Também com ele, o ator litigou mas esqueceu rapidamente. “Era um tipo simpático e verdadeiramente excecional, segundo diziam os outros realizadores, e quando reagia mal, fazia-o para esconder a sua insegurança.”

Poliziotto solitudine e rabbia, o seu
Poliziotto solitudine e rabbia, o seu “último” filme.

Este filme foi o último policial de Merli que, em 1984, surgiria com o complicado Lucio Fulci (que o animou discretamente) num histórico talk show da TV italiana, algo tímido, mas sem esconder a desilusão em que a sua carreira mergulhara. À pergunta, “o que anda Merli a fazer?”, o ator respondeu: “Neste momento, estou em crise, não sei se me deva considerar jovem ou não…” Fulci, de 57 anos, foi simpático: “És um ancião muito jovem, ancião na carreira, quero dizer.” A verdade é que Maurizio Merli foi “despromovido” para a TV e só reapareceria no obscuro e medíocre Tango Blu de Alberto Bevilacqua, em 1987.

Merli mantinha uma dieta que mais parecia um massacre, e era fanático pela forma física, o que lhe terá criado (especula-se) os problemas cardíacos que se revelaram fatídicos. A 10 de março de 1989, uma sexta-feira, pouco depois das 13:00, durante um jogo de ténis no Circolo Cassetta Bianca em Via Cássia, o ator sofreu um enfarte enquanto jogava, imobilizando-se subitamente. Isto diante da filha. Diz-se que tinha discutido com a esposa, mas embora frequentasse o clube há pouco tempo, era tido como simpático por todos.

Um médico no local prestou-lhe os primeiros-socorros e uma massagem cardíaca, declarando a situação como urgente, visto que o ator não reagia. Transportado para o hospital por um professor de ténis, sem que se esperasse pela ambulância, Merli morreu durante o percurso. Completara 49 anos há um mês.

Umberto Lenzi soube da morte de Merli através da filha, que ouvia rádio, e sabendo o sucedido quase em tempo real, foi à casa mortuária do Hospital Gemelli: “Fiquei destroçado ao vê-lo ali estendido, pálido, exangue, frágil, ele que tinha um físico de atleta. A comoção tirou-me as palavras. Pobre Maurizio! Foi uma grande perda para o cinema italiano de género e para todos nós.” Também o compositor e amigo Stelvio Cipriani, que compôs tantas lendárias bandas sonoras ficou em choque, até porque tinha estado com Merli nessa manhã. “Íamos rever-nos no domingo seguinte, no futebol. Eu tinha já dois bilhetes.”

Foi esquecido e sepultado discretamente em Rieti, um local que continua a ser de “peregrinação” para os seus admiradores. Umberto Lenzi aponta-lhe um único defeito, o de achar que o seu rosto bastasse para fazer sucesso no cinema.

maurizio merli 3Acusavam-no de fazer filmes comerciais, o que o irritava, e originou uma relação de ódio com a imprensa. Certa vez, Merli defendeu-se assim no Paese Sera, a 24 de novembro de 1977:

“Para um ator, é sempre difícil tornar-se conhecido do público. Mesmo a interpretar filmes comerciais. Por isso, não aceito o juízo baseado mais na qualidade do filme em que se surge do que no talento, ou falta dele, do ator. Também eu gostaria de trabalhar com realizadores empenhados em filmes de qualidade, e ter mais tempo para os fazer como sucede a outros. Mas salvo alguma iniciativa pessoal (um filme em cooperação sem financiamento), ninguém me deixa afastar do cliché do Comissário.”

“Não bebia, não fumava, não esbanjava dinheiro e, quando filmava, tinha o hábito de calçar sempre os mocassins que usara no primeiro filme do Comissário”, diz Stelvio Massi. Tinha também o hábito de trazer no pulso “o relógio de mostrador retangular que pertencera ao seu pai”. Vivia a norte de Roma junto a Marino Girolami e Enzo G. Castellari. Apreciava o futebol e integrava a Nazionale Attori, na qual era médio. Não guiava carros de luxo; um Citroën, um Rover, um Lancia Delta… Era propenso a grandes rivalidades, uma das quais com Fabio Testi, que simultaneamente admirava e de quem era amigo. Na verdade, Testi compareceu no seu funeral e chorou.

David Furtado

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