Salvare la faccia de Rossano Brazzi: Ode à “minha” família

“Não percebes que tentas destruir pessoas que já estão mortas? Estão todos mortos, Licia. Apenas não sabem disso. Não podemos dar-te nada, porque não temos nada. Só temos as nossas faces a salvar. E nem essas valem muito.”

Adrienne Larussa.«Ode to My Family» dos Cranberries tem algo a ver com este filme. Licia apaixona-se pela primeira vez por um rapaz. Ambos acham que é uma ótima ideia fazer amor num bordel enquanto o pai de Licia, conceituado político (e obviamente corrupto) faz uma das suas inaugurações. Ou seja, as prostitutas na inauguração e os amantes no bordel. Licia acha uma ideia irónica face às orientações da sua família, para a qual só contam o dinheiro e as aparências.

O problema é que o namorado pretende chantagear o pai de Licia. A polícia faz uma rusga, e o amante leva-a pela porta das traseiras, onde os fotógrafos esperam e o escândalo rebenta com fotos nos jornais. A amante do pai sugere que a façam passar por louca, justificando a situação perante a opinião pública.

E um ilustre membro do clero diz ao pai: “É doente, meu filho. Eu sei que uma rapariga de família tão decente, com princípios elevados, uma menina a quem foi dada uma educação tão perfeita… Apenas uma rapariga doente se comportaria desta maneira. É exactamente o seu dever como pai, usar todos os meios possíveis morais e materiais, para colocá-la de volta nos bons caminhos.”

salvare-la-faccia-9Licia revolta-se: “Não sou a primeira a ir para a cama com um homem! Onde está o mal?” Apesar disso, é enviada para um manicómio com a concordância de toda a família.

Salvare la faccia é um filme que pode ser interpretado de várias formas. Logicamente, há a estrutura familiar débil, com a irmã de Licia, Giovanna (a bela Paola Pitagora), que é casada com um interesseiro playboy (Alberto de Mendoza) a quem exclama: “Somos ricos, poderosos, mas ninguém nos quer ver. Estamos sempre mais sozinhos. E se alguém se aproxima de nós, só faz isso por dinheiro. Nunca terias casado comigo se eu…”

Pois é…

Paola Pitagora, a irmã que cai na razão. Qual Clint Eastwood qual cigarillo...
Paola Pitagora, a irmã que cai na razão. Qual Clint Eastwood qual cigarillo…

Giovanna é a única que se ressente das vidas vazias e também a única que visita Licia quando esta está internada. O problema é extrapolado. Licia não reage ao tratamento e regressa decidida a exterminar a família que quis “salvar a face” e resguardar as contas bancárias e o património. Entre eleições, promoções e manobras políticas, Licia mina tudo, sendo o principal alvo, o pai.

Licia sai do hospício, alegre mas rancorosa. Apesar disso, tenta reatar a sua vida. Todos lhe viram as costas, numa hábil sequência sem falas, fllmada com aquela sensibilidade italiana em forma de ópera brutal por Rossano Brazzi, apenas com a música de Benedetto Ghiglia, “é tudo ‘ontens’ e nenhum amanhã”. O que podia restar à menina bela e rica, vítima de um suposto escândalo e vista como uma galdéria? O filme até é atual; “antes sê-lo que parecê-lo”, deu lugar a “antes parecê-lo do que sê-lo”. Por razões que me iludem, confesso. (E ainda bem.)

Rossano Brazzi (que desempenha o pai e também realizou e foi autor do argumento).
Rossano Brazzi (que desempenha o pai e também realizou e foi autor do argumento).

Há portanto muito de anti-heroína na figura de Licia. Um pouco como Travis Bickle em Taxi Driver; alguém que põe as fantasias psicóticas em prática. A questão é que não sabemos se Licia era capaz do ataque à família antes de ser hospitalizada ou se saiu pior do que entrou. O filme é tão bem concebido que, nas mãos de um realizador americano e com as vedetas dessa época, estaria no top ten da IMDb, de certeza; ou melhor o remake com a… quem é a atriz que agora… ah, pois essa mesmo. Em suma, quem vota na IMDb não tem GPS? Sim, um GPS preconceituoso, mas a explicação é mais entediante: Como a IMDb pertence à Amazon, lucra com toda a porcaria, incluindo o preconceito e a ignorância. E como as pessoas não sabem que um filme existe, como não está “bem cotado” ou é desconhecido, rejeitam-no.

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Este factor não é, contudo, “agravado” pelas versões do filme, que é seguramente uma das obscuridades mais curiosas de finais dos anos 60, um autêntico puzzle. Há a edição italiana em 4:3 dobrada em italiano. E a versão pirata da Alpha Blue que é bastante diferente e dobrada em inglês como foi originalmente gravada (de acordo com os flagrantes movimentos dos lábios). Começa com Licia internada, passando por experiências escabrosas e a tentar explicar ao psiquiatra como foi lá parar e como é a “família” em que se insere.

salvare-la-faccia-8As cenas iniciais insinuam que a injustiça que sofreu se acentuou. Ao confronto jurídico entre costumes e regras sociais, já de si complexo para advogados broncos e juristas mal formados, é adicionado um componente: O resultado disso e as consequências que, às vezes, caem sobre eles; tal é a ganância que nem a face salvam. Recordando John Cassavetes em Brass Target, no papel de um militar formado em Direito e lidando com os “direitos” da Máfia:

– O Juiz De Lucca era da sua família?
– Era o meu pai.
– Ele era um homem bom, muito justo. Você também é advogado, ouvi.
– É verdade. A primeira vez que fui a um tribunal, olhei à volta. E perguntei ao meu pai quem eram as putas… e quem eram os espectadores.”

Salvare la faccia retrata com integridade o modo como o sistema judicial, inerentemente corrupto, nem a sua própria face salva. Vai “salvando”. Futilidades.

É péssimo que esta versão, que, ainda por cima, não é fácil de encontrar, tenha uma imagem descolorada de VHS. E a “editora” está conotada com filmes “adultos”, o que é desgostante, visto que Salvara la faccia é uma pérola perdida. Larussa poderia ter tido uma carreira com mais notoriedade, mas, ao estrear-se num filme politicamente incorreto, teve azar (quanto a mim e de acordo com os filmes subsequentes que vi, exceto Beatrice Cenci).

Na versão “oficial” de Psychout for Murder, a canção inicial com a toada “trata o próximo como te tratam, mata-os”, é totalmente diferente. Adrienne Larussa e Nino Castelnuovo na cama, aparentam mais apelo… carnal nesta versão. E assim começa a versão com aspect ratio errado mas cor vívida, cuja banda sonora e letra estão sintonizadas com as possíveis interpretações do filme e sublinham o Complexo de Electra com o qual vários espectadores o associam.

Nino Castelnuovo, Renzo Petretto e Adrienne Larussa,
Nino Castelnuovo, Renzo Petretto e Adrienne Larussa.

Só que na versão não oficial da Alpha Blue, temos Adrienne Larussa em nu frontal e  a masturbar-se no chuveiro… compreendo a intensa discussão acerca da cena, isso até me aflige, admito, embora não seja nada de chocante hoje. Nesses tempos, sim. A estreante Larussa, que fez um grande papel logo depois em Beatrice Cenci de Lucio Fulci, era… “madone”…

Pai e filha.
Pai e filha.

É difícil  categorizar este filme: Sátira, thriller, comédia negra… drama, mistério… desafia catalogações porque Rossano Brazzi, autor da história, realizador, co-argumetista e que também desempenha o papel do pai, além de já ser um lendário actor italiano, conseguiu aqui criar um feito. Trouxe talentos novos e/ou promissores para os papéis certos numa história que é um alvo facílimo para um remake da Hollywood que por aí anda.

Uma das coisas que me agrada, em cinema, é ver pessoas entusiasmadas com um filme, com a terrível Licia, neste caso, e com a versão definitiva deste filme. “Todas as famílias felizes são parecidas; cada família infeliz é infeliz ao seu modo”, como escreveu na pedra Tolstoi na primeira frase de Anna Karenina.

salvare-la-faccia-1No final, sem desvendar o enredo, resta, para muitos expectadores, o Complexo de Electra (a fixação da filha no pai). Novamente, é uma interpretação… menciono-a porque em vários fóruns se aludiu a tal. Quanto a mim, não é um erro; o erro parece o destino dado à irmã de Licia, ainda que realista.

salvare-la-facciaSalvare la faccia é notável porque permite todas estas interpretações e também… voltando a Tolstoi, “cada família é infeliz ao seu modo”, o que equivale à suposta desgraça de alguns e à suposta fortuna de outros. Para mim, e ainda estamos em maio (há quem diga isto em janeiro) é o meu filme do ano.

A canção dos Cranberries complementa este filme mas, em última análise, a frase que fica é “será que alguém se importa?” Obviamente, não. Não é o amor que faz girar o mundo, é o dinheiro. E Deus teve o sarcasmo de trocar as voltas: O evolucionismo contra a teologia popular. Temos o que queremos e de nada nos serve. Não temos dinheiro, mas… se o tivéssemos… Com o fim à vista, alguns tornam-se religiosos. Queremos o que não temos e servirá para salvar a face? E quando tivermos uma mulher nua, de que nos servirá vestida?  Depende das famílias, das boas famílias, como diria Tolstoi, certa e ironicamente. Mas tempo é dinheiro, e o fim é igual para todos. Estou agora a olhar para a face… do relógio. O ponteiro nunca pára.

David Furtado

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