O Estripador de Nova Iorque de Lucio Fulci: O medo não se mede às facadas

Entre todos os filmes de terror produzidos em Itália nos anos 70 e 80, um dos mais vilipendiados continua a ser Lo squartatore di New York (The New York Ripper), realizado por Lucio Fulci em 1982. A controvérsia que esta obra gerou, viria a menorizar as suas qualidades excecionais.

Almanta Suska aka Almanta Keller“É a história de um assassino louco que comete terríveis crimes em Nova Iorque, mas, até certo ponto, é um filme de fantasia, quanto mais não seja porque a polícia tem de encontrar este louco entre 20 milhões de nova-iorquinos… Procuro fazer um novo tipo de thriller, quero prestar homenagem a Hitchcock. O Estripador é, de certo modo, Hitchcock revisitado, um filme fantástico com enredo, violência e sexualidade.”

Estas declarações de Lucio Fulci não impediram que O Estripador de Nova Iorque, estreado em Itália em março de 1982 e posteriormente lançado no estrangeiro, provocasse um choque generalizado. Em Inglaterra, a receção foi particularmente má devido ao timing – O país ainda estava consternado pelos crimes de Peter Sutcliffe, alcunhado de “estripador do Yorkshire”. Nos media, os filmes de terror eram considerados um fator que despoletava tais criminosos (a velha teoria…) e a censura era implacável.

lucio fulci the new york ripper (1)Demonstrando uma notória incapacidade crítica e ignorância cinéfila, os censores britânicos desconheciam ou, mais provavelmente, não entendiam os propósitos de Fulci, e os seus filmes eram, com frequência, banidos ou exibidos com cortes drásticos. James Ferman, que liderava a BBFC (British Board of Film Classification) foi o principal responsável.

Entre toda a obra de Fulci, O Estripador de Nova Iorque  é o seu filme mais cínico, sombrio e niilista, sendo, ao mesmo tempo, um dos mais hábeis e bem construídos. Já li tantas críticas negativas que, mesmo quem o aprecia, como eu, é alvo de crítica; só um “doente mental” pode apreciar tal coisa. Isto originou, ao longo dos anos, algumas desavenças em fóruns na Internet. Contudo, os estudiosos do cinema italiano têm uma opinião diversa.

Cinzia de Ponti, a vítima do ferry de Staten Island.
Cinzia de Ponti, a vítima do ferry de Staten Island.

O filme é absolutamente feroz e misógino, pelo que, na primavera de 1982, a igualmente feroz campanha na imprensa inglesa contra os “video nasties” não poupou esta obra. Isto adveio da revolução do VHS, no início dos anos 80, que tornou acessíveis obras para visionamento em casa. Centenas de títulos foram editados por pequenas companhias que lucraram milhões à custa de um público ávido por alugar cassetes, particularmente de filmes obscuros e/ou raros.   

No topo desta vaga, andavam geralmente os filmes de terror como I Spit on Your Grave (1978) ou Videodrome de David Cronenberg, editado em vídeo em 1983, cheio de cortes. Originalmente, a obra fora lançada pela Universal, mas a videográfica CIC temia a represália dos serviços judiciais e lançou o filme truncado. Relembre-se que mesmo a polícia e o parlamento podiam intervir. Era mais seguro evitar acusações de “obscenidade”. A imprensa, como o The Daily Mail, era conservadora, de extrema-direita, e toda esta operação se assemelhou a uma cruzada pelos valores morais.

Um exemplo, entre vários, do artwork. O filme conta já com várias edições em DVD e Blu-ray.
Um exemplo, entre vários, do artwork. O filme conta já com várias edições em DVD e Blu-ray.

A revolução do VHS trouxe surpresas: O flop que tinha sido Yentl de Barbra Streisand repetiu-se no mercado vídeo, ao passo que filmes como The Last House on the Left de Wes Craven se tornaram populares. A BBFC elaborou então uma lista de filmes proibidos, um rol conhecido como Police 55, que incluía diversos filmes italianos, como Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato e Tenebre de Dario Argento. Até filmes relativamente inofensivos como Last Stop on the Night Train de Aldo Lado foram censurados. Fulci tinha já dois filmes na lista negra: Zombie e The House by the Cemetery.

A questão aqui não reside no pudor, mas sim no lucro. Muitos filmes espanhóis e italianos foram censurados porque assim ficava o caminho aberto a produções americanas e britânicas, que inundaram o mercado, independentemente do teor e até em versão X (equivalente a pornografia).

Eram negócios multimilionários, e Hollywood tinha todo o interesse em afastar filmes italianos, por serem pouco ortodoxos, notoriamente dobrados, classificando-os de lixo europeu ou eurotrash. Eram estranhos, não interessavam, não prestavam, eram “os outros”. Os grandes poderes americanos uniram-se assim à hipócrita cruzada moral. Curioso como a situação deu uma grande reviravolta com o DVD…

The New York Ripper é talvez o maior emblema deste período, e ganhou reputação por isso, ainda que má, de início. A BBFC já estava irritada com os filmes anteriores de Fulci, que sempre tivera problemas com a censura, até em Itália. A fase de terror do cineasta, que começou em 1979 com Zombie, despoletou uma verdadeira repressão. As cópias de O Estripador de Nova Iorque foram escoltadas desde os escritórios da BBFC, no Soho londrino, até fora do país. Nem uma cópia foi visionada. Não houve sequer hipótese de edição em VHS.

Peter (Andrea Occhipinti) e Fay (Almanta Keller).
Peter (Andrea Occhipinti) e Fay (Almanta Keller).

Mas, é claro, o diretor da BBFC ficou com uma cópia para si mesmo… com propósitos de incentivar a boa moral, ou seja, de a exibir a procuradores do ministério público e opositores da censura. Pretendia assim, mostrar a coisa terrível que protegia das terras de Sua Majestade. Ironicamente, isto podia ser motivo para um processo contra o diretor por pirataria e distribuição ilegal, algo que os produtores não fizeram por desconhecimento.

Regressando ao filme, é inquestionável que a violência é de alta ordem: Uma prostituta fica com os mamilos e um olho cortados ao meio por uma lâmina, o que basta para arrepiar qualquer um. De início, o filme intitulava-se The Beauty Killer. Dardano Sacchetti, um dos colaboradores de Fulci ao longo de muitos anos, e também autor do argumento em parceria com Fulci, Gianfranco Clerici e Vincenzo Mannino, sempre insistiu que o realizador reclamava para si mesmo demasiado crédito nos argumentos em parceria, mas, no caso de The New York Ripper, diz que a misoginia é apenas e só obra de Fulci.

Kitty (Daniela Doria).
Kitty (Daniela Doria).

O crítico inglês Alan Jones, autor de um livro sobre Dario Argento e conhecedor do cinema italiano, defendeu o cineasta:

“É o mais poderoso dos seus filmes até à data, uma obra-prima psicótica e erótica. A arte imita a vida em todas as suas formas feias. A abordagem de Fulci ao material de origem nunca foi educada e O Estripador de Nova Iorque confirma a sua posição como um dos realizadores mais influentes da última década.” Jones foi praticamente o único a vir em defesa do filme e do realizador. Muitos fanzines nem se atreviam a defender “tal coisa”.

Ao longo dos anos, a fúria acalmou, mas sempre houve um desfasamento peculiar entre os críticos da obra. Repudiam as cenas sangrentas, apelidando-as de inverosímeis e pirosas, mas afirmam-se chocados. Ou seja, culpam aspetos técnicos por imagens que perturbam, o que é bastante comum, e julgo mesmo que está na essência das críticas negativas: O filme é perturbador e as referidas cenas são bastante realistas. A moralidade nada tem a ver com o assunto. Só a falsa. O que também explica por que Lucio Fulci, sendo um cineasta tão experiente e hábil, foi sempre acusado de ser “inferior”. Sempre foi do contra, mas é mais genial do que o suposto génio Clint Eastwood. Porque Eastwood é do “pró”. E Fulci é do “contra”.

lucio fulci the new york ripper (13)

Houve outro problema, a crítica de cinema no que toca ao terror. Sempre foi considerado um género menor. Quanto a isso, nem perco tempo… Fulci impressiona, e este filme especificamente, porque não recorre só à violência gráfica, mas muito mais a impulsos psicológicos reprimidos, se quisermos empregar termos freudianos. Edgar Allan Poe também o fazia. Segundo Freud, o que está reprimido tem uma tendência insistente para vir à tona. Se o niilismo é a negação de todos os valores, onde se situa a repressão? Daí que Fulci tenha dito que o cinema de terror é uma libertação, tanto para ele como para os espectadores.

O Estripador de Nova Iorque contém estes elementos, talvez em dose excessiva. Todos têm fases niilistas, o problema é que a obra contém tudo isto num mundo sórdido, sem iniciativa, onde o amor é uma anedota e o desespero abunda. O Modo de Vida Americano é ridicularizado pelo cineasta, por ser o único valor a que merecemos aspirar. Sob esse ponto de vista,  todos os personagens masculinos do filme são hipócritas. Contudo, a misoginia é discutível, até porque o assassino fala com a voz do Pato Donald, nas chamadas em que faz troça da polícia. Portanto, também ele é ridicularizado pelo implacável Fulci. E, ainda que completamente louco, o assassino tem uma “lógica” por detrás do rasto de cadáveres que semeia.

Outro exemplo do artwork.
Outro exemplo do artwork.

Um crítico chamou à Nova Iorque de Fulci, uma metrópole que até Woody Allen gostaria de abandonar. E com razão. É um local corrupto e sujo, onde as réstias de humanidade se comparam à de vermes, um cenário odioso, pessimista e até grotesco. Isto, por si só, consegue deixar o espectador desconfortável. O Estripador de Nova Iorque segue a fórmula típica do giallo, levando-nos a presumir coisas sobre os personagens, mas, com uma reviravolta semelhante à de Psycho de Hitchcock, uma nova personagem surge e troca completamente as voltas da narrativa, a estrutura do filme desnorteia-se e, a partir daí, todos são suspeitos, a não ser os que vão tombando às mãos do assassino, em sequências que até impressionam os fãs habituais do terror. A pior sequência, a este nível, é aquela em que Kitty (Daniela Doria) é barbaramente assassinada.

Paolo Malco, Almanta Keller e Jack Hedley.
Paolo Malco, Almanta Keller e Jack Hedley.

Mas, enquanto em Psycho, Norman Bates não deixa de ser o protagonista, aqui o filme divide-se por vários, com Fulci a examiná-los em separado e nas relações que estabelecem entre si – geralmente relacionamentos falsos, abusivos, alienados ou depravados, o que contribui ainda mais para a atmosfera cínica do filme.

O diretor de fotografia Luigi Kuveiller e o compositor Francesco De Masi contribuem para o retrato de uma Nova Iorque muito diversa da que é mostrada em filmes americanos. Se a fotografia sublinha uma cidade emporcalhada, que já não é tão suja como no início dos anos 80, com os peep shows em Times Square, por exemplo, a banda sonora e o tema-título foram comparados à de uma mera série policial americana. Não é bem verdade: Os ambientes criados por De Masi, com saxofones a invocar uma noite quase espiritual, não são o típico estardalhaço televisivo que nos chega normalmente dos Estados Unidos.

Jane (Alexandra Delli Colli) encontra o estripador.
Jane (Alexandra Delli Colli) encontra o estripador.

A obra foi filmada em abril de 1981, em Nova Iorque (exteriores) e nos estúdios Incir De Paolis em Lazio, Roma. E mostra-nos uma metrópole tão decrépita como os habitantes que retrata. Por exemplo, Jane (Alexandra Delli Colli) é uma mulher decadente com um casamento aberto, com um marido (Cosimo Cinieri) que não se importa e até se excita com as suas saídas, visitas a sex shows e encontros promíscuos.

Fay Majors (Almanta Keller).
Fay Majors (Almanta Keller).

Fay Majors (Almanta Keller) é a personagem que aparece a meio do filme, quando pensávamos ter descoberto a verdadeira protagonista. Pouco depois de surgir, a atraente Fay já está em fuga pelo metropolitano com um lunático no seu encalço e, por pouco, não sucumbe à lâmina do estripador. Fay, aparentemente, é uma rapariga feliz, loira de olhos azuis, mas apenas em público. De caráter forte, é ela que confronta o assassino.

Perigo no metropolitano.
Perigo no metropolitano.

O Tenente Fred Williams (Jack Hedley) é o típico polícia nova-iorquino, que já viu toda a sordidez. O seu chefe (Lucio Fulci num dos seus cameos) pergunta-lhe se há algum sítio privado onde possam falar, e Williams responde, “claro, na igreja do outro lado da rua”. Há aqui um aparte à fé apregoada por tantos, uma hipocrisia que Fulci sempre atacou.

Lucio Fulci, num cameo como chefe da polícia e o Tenente Williams (Jack Hedley).
Lucio Fulci, num cameo como chefe da polícia, e o Tenente Williams (Jack Hedley).

E há bastante humor negro no diálogo entre o Chefe e o Tenente Williams:

Chefe: Enlouqueceste ou queres provocar-me uma úlcera? Um médico-legista espertinho fala demais e tu declaras que há um maníaco à solta?
Williams: Devia dizer que anda aí um escuteiro a cortar raparigas com uma navalha?
Chefe: Não interpretes mal. Não quero interferir no teu estilo. Mas sê discreto a dizer as coisas. Os jornais podem gerar o pânico. Não queres outro caso como o de Atlanta, pois não? Tenta ver as coisas pelo meu lado.
Williams: Sim, está bem, está bem.
Chefe: Por que excluíste o dono do carro?
Williams: Espera uma resposta séria ou quer uma piada? Acha que esse otário, que vomitou quando a descobriu, conseguia estripá-la num ferry à pinha?

O Tenente Williams tem uma relação escondida com Kitty (Daniela Doria) personagem igualmente cínica e que lhe responde assim, quando o polícia lhe pede um café: “Querido, sou uma prostituta, não sou tua mulher. Se queres café, faz tu mesmo.” Williams podia impedir o assassínio de Kitty, mas, por medo de ver a relação desmascarada, chega ao local sozinho e demasiado tarde.

Williams pede ajuda a um professor de psicoterapia brilhante da Universidade de Columbia para obter o perfil do criminoso: O Dr. Davis (Paolo Malco) também este um indivíduo arrogante mas inteligente, que fornece pistas acerca do presumível assassino: “Pode ter a certeza que lidamos com uma mente muito superior”, diz acertadamente Davis ao polícia. E segue-se mais humor negro:

Davis: O nosso homem, embora voyeur… gosta de atenção. É neurótico e egomaníaco.
Williams: Com 10 milhões de pessoas nesta cidade, é bom saber, não é?…
Davis: Mas, como disse Verlaine, a essência das coisas está na subtileza.
Williams: Merdas.

O Dr. Davis (Paolo Malco).
O Dr. Davis (Paolo Malco).

Peter Bunch (Andrea Occhipinti) é um físico, inteligente e bem parecido, namorado de Fay. E Mickey Scellenda (Howard Ross) é um imigrante grego pouco escrupuloso. Agora basta descobrir o culpado, o que só se sabe nos últimos minutos do filme.

Em 1982, o giallo já há muito que não estava no seu auge. O revivalismo de hoje, trouxe o género, e ainda bem, a novos públicos. Já existe uma versão integral (não estripada) de O Estripador de Nova Iorque. Dario Argento continuaria, com resultados variáveis, a realizar filmes do género.

Toda a controvérsia de que o filme foi alvo deixou Fulci desiludido. Está, para a sua carreira, o que Opera representa para a de Argento – o último bom filme que realizou. Com a morte de Fulci vieram os elogios ao seu estilo brutal mas único e à capacidade de contar histórias com uma câmara. Injustamente relegado para terceiro plano, após Mario Bava e Argento, Fulci é um realizador que não deixa de pertencer ao triunvirato do terror italiano.

Repare-se no que diz, sobre o filme, Peter Bondanella, autor de livros sobre Fellini e Rossellini, e um verdadeiro conhecedor do cinema italiano, dos tempos áureos ao cinema de género e mais além:

“O estilo cinemático de Fulci neste filme é altamente polido: A montagem é excecional, o enredo cheio de suspense, e até a dobragem dos sotaques nova-iorquinos é notável. Em suma, esta obra tem valores de produção elevados, bons diálogos, e um hábil trabalho de câmara. O que incomodou alguns críticos foi a sua violência extremamente realista: As navalhas ou facas a cortarem pescoços de mulheres, estômagos e outras partes do corpo, parecem absolutamente realistas – o sangue não é ketchup, verdadeiras artérias bombeiam o que parece sangue autêntico, há numerosos planos aproximados dos danos físicos aos belos corpos femininos em questão. As acusações de misoginia são muitas vezes apontadas a filmes que contêm violência contra mulheres, e Fulci certamente recebeu a sua dose de críticas pela violência gráfica, que ultrapassa muito a dos primeiros giallo. Filmes menores talvez não sejam menos misóginos, mas a abordagem mais engenhosa de Fulci aos detalhes físicos do ódio que o seu assassino tem por mulheres, produz maior impacto no público.”

Portanto, o medo nem sempre se mede às facadas. E nem sempre o talento se mede pelo reconhecimento, já agora.    

David Furtado

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