Laura Nyro – Christmas and the Beads of Sweat: Natal na primavera

O talento de Laura Nyro não passou despercebido a Bob Dylan, que a quis conhecer. O eremita Dylan fez uma rara aparição pública numa festa que o presidente da Columbia Records, Clive Davis, deu no seu apartamento, em honra de Janis Joplin. Dylan estava mais interessado em Nyro e pediu que lha apresentassem. “Adoro o que fazes, adoro os teus acordes”, disse-lhe. “Ensinas-me a tocar piano como tu?” A cantora, estupefacta com o pedido do seu herói, riu-se e concordou, mas só se ele lhe ensinasse a tocar guitarra.

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Além de Dylan, Nyro conheceu e deu-se bem com Stevie Wonder, que tocou com ela certa vez, e com Joni Mitchell que lhe pediu para lhe ensinar yoga. Até o ator Peter Sellers apareceu no clube Troubadour antes de um dos concertos de Nyro, convidando-a para jantar. A cantora acedeu, mas só se jantassem no próprio clube. Nem sabia quem Sellers era e o ator não se incomodou, interpretando algumas cenas dos seus filmes durante o jantar. Nyro reconheceu então o ‘Dr. Strangelove’ e divertiu-se com Sellers.

Não foi assim com todos. Jane Fonda ligou-lhe certa vez para o quarto de hotel, perguntando se podiam sair juntas, o que Nyro recusou por não achar grande ideia. Mas uma pessoa que se antagonizou realmente com Nyro foi Janis Joplin. David Geffen combinou um encontro entre as duas no apartamento de Nyro. Esta ofereceu a Joplin atum e champanhe cor de rosa, com a melhor das intenções, mas, segundo Geffen, Joplin achou que a rival fazia troça dela. “Eram mulheres muito diferentes. Janis bebia muito e não se deram nada bem.”

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Clive Davis também reparou no desconforto entre Joplin e Nyro. O presidente da Columbia levou Nyro aos bastidores de um dos primeiros concertos de Joplin em Nova Iorque, mas a cantora não foi simpática. Nyro queria dar-lhe os parabéns pela atuação, mas… “Janis bebia pelo gargalo de uma garrafa de Southern Comfort, mal a cumprimentou e pôs-se a fazer olhinhos a uma nova conquista”, de acordo com Davis. O presidente acrescenta que, mais tarde, quando as versões de temas compostos por Nyro se tornaram êxitos, Joplin lhe disse: “Vejo que já não sou a menina dos teus olhos. Agora viraste para a Laura.” A rivalidade até chegou às páginas da Rolling Stone.

laura nyro christmas and the beads of sweat (5)A hostilidade de Joplin fez com que, durante a festa em honra da cantora, em que Nyro conheceu Dylan, a compositora se “escondesse” num quarto das traseiras, onde se guardavam os casacos, por “não querer roubar as atenções a Joplin”, segundo disse. E também porque aí podia falar mais calmamente com Bob Dylan.

PALCOS, ESTUDANTES, RÁDIO E JOPLIN

Laura Nyro voltou a dar concertos depois do fiasco do Monterey Pop Festival. A manobra foi calculada pelo manager David Geffen, que de início a impedira de tocar ao vivo. Além disso, Geffen queria que Nyro tocasse sozinha ao piano, ao passo que a cantora preferia uma banda.

Ainda durante as sessões de gravação de New York Tendaberry, que duravam cerca de sete horas, Laura viajara pelos EUA, tocando em universidades. Dado que a sua música era bastante pessoal e intimista, os estudantes eram um público adequado. Os seus álbuns tornaram-se muito populares entre os universitários porque Nyro era apenas dois anos mais velha mas possuía uma sabedoria precoce.

A 28 de março de 1970, a Billboard publicou uma lista das cantoras mais populares entre a comunidade universitária. Laura Nyro estava em primeiro. Janis Joplin em segundo. A Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) elegeu-a a cantora mais popular do rock, novamente à frente de Joplin, que vencera no ano anterior.

laura nyro christmas and the beads of sweat (10)E também havia o hábito de os alunos das Faculdades da Costa Leste financiarem, eles próprios, os concertos, pagando com os que recebiam da atividade estudantil. A situação beneficiava os artistas, pois os jovens não tinham experiência em negociar com agentes e pagavam ingenuamente somas avultadas.

Por esta altura, Laura Nyro teve a sorte de se deparar com várias mudanças nos regulamentos radiofónicos. A frequência AM era mais vocacionada para canções de dois minutos ou playlists de sucessos (como hoje). Foi quando a rádio FM em estéreo obteve um grande boost. É certo que a FM já existia há 30 anos, emitindo em estéreo há 10, mas era convencionalmente para música clássica. A FCC (Comissão Federal de Comunicações americana) obrigou, porém, a que as estações que difundiam em AM e FM tivessem de programar as duas frequências em separado. Como a FM não era tão lucrativa, permitia um formato mais livre, experimental e imaginativo, esquivando-se ao popular e imediato. Portanto, a FM começou por ser considerada underground, privilegiando álbuns inteiros, artistas alternativos e não uma lista repetitiva de sucessos.

Estes dois fatores foram muito benéficos para a divulgação da música de Laura Nyro que, quando começou a atuar em universidades, se deparou com estudantes que conheciam mal o seu trabalho mas responderam com entusiasmo, o que, por sua vez, empolgou a intérprete.

laura nyro christmas and the beads of sweat (12)O seu primeiro concerto em Nova Iorque data deste período. Foi a 22 de março de 1969 no Memorial Hall do Pratt Institute, escola superior de arte e design em Brooklyn. O camarim de Nyro era o balneário das raparigas. Os fãs da cantora deram-lhe flores, e a fama parecia uma perspetiva agradável.

Terminada a gravação de New York Tendaberry, Nyro teve de regressar à costa Oeste, para uma estreia mais formal, no conceituado Troubadour em West Laura-Nyro 1969 Carnegie Hall-Concert PosterHollywood. A atuação provocou grande impacto entre executivos de outras editoras e a imprensa, que não lhe poupou elogios. O mesmo estratagema de atuar no Troubadour seria empregue, poucos anos depois, para lançar a carreira de Elton John.

De regresso a Nova Iorque, Laura Nyro aguardou pacientemente para se estrear ao vivo no ainda mais prestigiado Carnegie Hall, num concerto esgotado. A família estava na plateia e a atuação tornar-se-ia lendária. A postura de Nyro, a sua reserva e timidez ao falar com o público, dizendo apenas “obrigada” num tom suave, manter-se-iam ao longo da sua carreira. Outras vezes, era mais extrovertida, como neste concerto, mas os breves discursos eram previamente pensados, não espontâneos.

Curiosamente, Nyro não foi tão apreciada em Nova Iorque como noutras partes dos EUA. Santos da casa não fazem milagres. A Village Voice, por exemplo, admitiu que as canções eram notáveis mas fez troça do estilo vocal da cantora e dos seus fãs. O New York Times ainda foi menos benévolo: A voz era estridente e os fãs eram os “Nyro freaks”. Vince Aletti, na Rolling Stone, ainda disse pior: Nyro tinha ar de “dona de casa/prostituta italiana”. Os seus vestidos eram feitos por uma costureira russa. Aletti não percebia de moda, aparentemente.

laura nyro christmas and the beads of sweat (4)“NOBREZA”

O séquito de fãs femininas de Nyro era considerável, mas o de homens também, por outros motivos. Um admirador refletiu: “Laura Nyro era o primeiro segredo da música das raparigas. As que a ouviam, normalmente não ouviam os Beach Boys. Não pintavam o cabelo nem o passavam a ferro. Eram as mais espertas mas não faziam por agradar. Tinham namorados mais velhos. Nós, os rapazes, tivemos a bizarra ideia de que, se ouvíssemos a música dela, aprenderíamos alguma coisa. Não por nobreza, mas porque queríamos compreender aquelas criaturas misteriosas que nos enlouqueciam de desejo…”

É facto consumado que Bob Dylan foi o primeiro a abrir caminho a cantores/compositores, influenciando gerações. Laura Nyro estava agora na vanguarda da fação feminina, a ponto de a Newsweek publicar um extenso artigo sobre o tema em julho de 1969, no qual mencionava Nyro, Joni Mitchell e Melanie. O crítico Robert Christgau sublinhou lucidamente que “num intérprete masculino, tanta preocupação com os próprios problemas seria considerada uma fuga egoísta. Numa mulher, é um ato de desafio”. Neste campo, Nyro antecipou-se ligeiramente a Mitchell e foi pioneira na abordagem.

laura nyro christmas and the beads of sweat (9)Recorde-se que Joni Mitchell, até à data, era sobretudo conhecida pela versão que Judy Collins fizera de «Both Sides Now», um grande sucesso. Melanie era conhecida por «Brand New Key». Nyro tinha já um catálogo de êxitos e a sua carreira estava em ascenção: Três composições suas estavam no top 10 da Billboard: «Wedding Bell Blues», «And When I Die» e «Eli’s Comin». Diana Ross, Mama Cass Elliott e Petula Clark gravaram versões. Esta avalanche de covers não incomodou Nyro, que nunca comentou negativamente versões de outros cantores. Sentia-se lisonjeada, não invejosa: “Se alguém canta uma canção minha, não tenho espírito crítico. Simplesmente adoro.” Apesar disso, confessou a amigos que receava que as suas composições, na voz de outros, fossem interpretadas erroneamente.

laura nyro christmas and the beads of sweat (6)O facto de tantos artistas diferentes editarem canções de Nyro fez com que a companhia que detinha os direitos das suas composições, a Tuna Fish Music, alcançasse o nº 23 numa lista das 100 mais lucrativas, de acordo com a Billboard. Por outro lado, isto não a deixava dependente da venda dos seus próprios discos perante a editora. Os maiores lucros provinham das royalties, mas também viriam a contribuir para uma certa obscuridade que a cantora sofreu, em prol de artistas (muito) menos talentosas e totalmente obcecadas pelo sucesso como Barbra Streisand, mais uma empresária/vedeta do showbiz do que cantora, atriz ou realizadora (apesar dos triliões de dólares que embolsou e embolsa).

Até Carole King, cujo trabalho Nyro adorava, confessou a influência da compositora, repensando a sua carreira e editando o enorme êxito que foi Tapestry em 1971. Em 1979, Rickie Lee Jones foi outra seguidora. Tinha 15 anos quando Laura Nyro surgira e nunca esqueceu a sua influência. A escolha de instrumento era também invulgar para Nyro. O piano era associado a Jerry Lee Lewis ou Little Richard, não a cantoras. Outro fator insólito foi o facto de Nyro ser elogiada pela imprensa especializada em jazz como uma das melhores cantoras jazz de anos recentes. Compararam-na a Morgana King, que, por sinal, Nyro também adorava.

NATAL FORA DE ÉPOCA

Os lucros financeiros possibilitaram que Laura Nyro se mudasse para um apartamento mais luxuoso, junto ao Museu de História Natural, o imponente Edifício Beresford, em 211, Central Park West. Foi aí que começou a compor o álbum seguinte. Pretendia uma atmosfera outonal, pelo que espalhou flores sobre o piano. O álbum também incluiria uma canção sobre o Natal, e Nyro arranjou uma árvore natalícia artificial, colocando-a no apartamento, apesar de ser primavera.  

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A capa de Christmas and the Beads of Sweat seria supostamente desenhada por um artista gráfico, com base numa foto da cantora. Só que, um dia, uma fã e estudante de arte, Beth O’Brien, deixou um retrato de Nyro encostado à porta do seu camarim, antes de um concerto em Boston. O trabalho, executado com caneta de feltro, mostrava Laura com ar enigmático e pensativo. Antes do concerto, ouviu-se através do P.A.: “A pessoa que deixou o trabalho para Miss Nyro pode vir ao palco?”

Entusiasmada, O’Brien deixou o seu número de telefone. Dias depois, recebeu uma chamada de Laura Nyro e desligou, pensando tratar-se de uma brincadeira. A cantora ligou de novo e disse, “não, Beth, é a Laura”. Desculpou-se por ter “estragado” a pintura, ao colorir o brinco de vermelho com batom e perguntou se a podiam usar para a capa do álbum. A artista nem podia acreditar: Recebeu 300 dólares e dois bilhetes para os concertos seguintes de Nyro em Nova Iorque.

laura nyro christmas and the beads of sweat (28)Como não sabia escrever música, a compositora anotava as letras e memorizava as melodias, trabalhando infatigavelmente até polir os temas a seu gosto, sem quaisquer preocupações comerciais. “Sei que há muitas pessoas que escrevem para um mercado. Não consigo fazer isso… está fora de questão.” Talvez para contrabalançar, Nyro e David Geffen escolheram Felix Cavaliere, dos Rascals, músico com vários sucessos comerciais para produzir:

“David Geffen telefonou-me e disse, ‘vou-te apresentar a pessoa mais difícil que já conheceste em toda a vida. Ninguém realmente a quer produzir devido à sua atitude. É extremamente difícil trabalhar com ela. Sei que ela gosta muito da tua música e julgo que era capaz de alinhar. Estarias interessado?'”

Cavaliere aceitou o desafio e encontrou-se com Nyro. Nas suas palavras, “conhecê-la era adorá-la”. “Ela era muito sensual. Ficámos muito amigos e, a certo ponto, pensei que podia passar disso, mas as coisas não foram nesse sentido.” Também uma amiga de Nyro afirma que aprendeu com ela nesse campo: “Não importava o nosso aspeto, era o modo como nos sentíamos na nossa pele. Ela vestia-se de maneira sexy, sentia-se sexy e transmitia uma imagem sexy.”

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Nyro praticava yoga e meditação, o que continuaria durante anos, diariamente, mas fazia batota na espiritualidade. Segundo uma amiga, “ela não podia passar sem carne, peixe, ovos ou sexo. Já para não falar em cigarros. De vez em quando, fumava alguma droga. Não seguia as regras mas gostava da filosofia”.

Para a gravação de Christmas and The Beads of Sweat, Felix Cavaliere recrutou Arif Mardin, orquestrador que trabalhara com Aretha Franklin e Dusty Springfield, por achar que não dava conta do recado sozinho. Deste modo, Cavaliere e Mardin chamaram músicos que ambos admiravam, como a célebre secção rítmica do lendário estúdio Muscle Shoals no Alabama: O baterista Roger Hawkins, Eddie Hinton na guitarra, o baixista David Hood e Barry Beckett no vibrafone. Isto para o Lado A do disco.

Para o Lado B, os produtores selecionaram instrumentistas nova-iorquinos de gabarito para a secção de ritmo e incluíram instrumentos orientais, como o “oud”, além de dois solistas célebres: Alice Coltrane na harpa e o virtuoso Duane Allman na guitarra. A ideia de ter dois lados distintos não terá sido propositada, segundo o produtor, simplesmente aconteceu.

Laura Nyro e Alice Coltrane nas sessões de Christmas and the Beads of Sweat.
Laura Nyro e Alice Coltrane nas sessões de Christmas and the Beads of Sweat.

Cavaliere entendeu logo que os temas de Laura Nyro eram “propriedade privada”, como descreveu: “Não adiantava argumentar com ela, pois não mudava nada. Bem, adeus rádio… tínhamos autenticamente de regatear com ela. Por exemplo, nas mudanças de ritmo. Quando temos uma canção e queremos que passe na rádio, não podemos parar de repente o ritmo, ir comer uma sanduíche e voltar, temos de jogar com a melodia e o ritmo seduz as pessoas. Mas ela parava, ficava toda sonhadora e retomava!”

Felizmente, os músicos, ainda que pouco habituados a tais excentricidades, aceitaram a orientação criativa de Nyro. “Com sotaque do sul, diziam, ‘sim, senhora, se é isso que quer, é isso que faremos’. Gostaram dela e seguiram-na”, relembra o produtor.

Laura Nyro podia ser terrível nas sessões de gravação. Certa vez, o produtor deu-lhe a escolher entre dois vocais e alguém comentou que um era mais “comercial”, uma blasfémia. “Deus nos livre!” afirma Cavaliere. A cantora foi sorrateiramente ao estúdio e apagou-o. No dia seguinte, disse, “e agora, qual dos dois preferes?” “Era uma pirralha”, diz o produtor. “Tínhamos um relacionamento próximo e ela bem podia dar-me um soco. E era uma miúda do Bronx, sabia bater.”

laura nyro christmas and the beads of sweat (24)O anti-comercialismo de Laura Nyro, ironicamente, teve consequências opostas: «Up on the Roof» (composto por Gerry Goffin e Carole King) era a única versão do álbum, e tornou-se o single mais bem-sucedido da carreira de Nyro.

Arif Mardin relata que, durante a gravação do tema, Nyro pediu aos músicos que a secção de metais reluzisse. “Aqueles tipos eram da velha guarda, de charuto na boca, liam a secção de corridas de cavalos no jornal. Imaginem o olhar que lhe deitaram.” Mas um violinista entendeu: “Ela quer ponticello.” (Tocar o violino junto da “ponte” do instrumento.) E saiu como pretendido.

Cavaliere ficou também irritado quando viu Laura a ouvir as misturas do álbum num rádio Panasonic. “‘Isso custa 50 dólares, como te atreves a criticar as misturas, se as ouves em mono?!’ ‘É assim que quero ouvir’, dizia ela. Nunca teremos outra assim. Eu simplesmente adorava-a”, diz o produtor.

laura nyro christmas and the beads of sweat (25)Felix Cavaliere recorda que Nyro tinha ideias muito específicas: “‘Não quero o baixo muito alto aqui, o guitarrista pode tocar ali.’ Certificámo-nos de que tudo era gravado como queria.” Arif Mardin também teve problemas com as intransigências de Laura, mas era paciente. O road manager de Nyro afirma que “outros compositores se tornaram assim mais tarde, mas ela foi a primeira”. “Tinha tal visão sobre o que realmente importava a nível emocional que deu uma lição a todos. Trazia ao de cima o melhor de muita gente. E era tão talentosa que as pessoas queriam trabalhar com ela.”

Uma amiga concorda: “As pessoas chamam a isso perfecionismo, mas é a única forma que pode existir para um artista. As pessoas que a respeitavam, respeitavam isso. Não é querer ser difícil. Gente virada para os negócios, empresários e pais nem sempre entendem.” Apesar das demoras, bastaram quatro meses para gravar o álbum, bastante menos do que New York Tendaberry.

O orçamento continuava a derrapar, visto que Nyro tinha por hábito interromper as gravações para grandes almoços, convidando todos os músicos, que não se faziam rogados. O problema é que eram muito bem pagos, e tais pausas equivaliam a um prejuízo enorme de tempo em estúdio para a editora.

OS PECADOS DA POLÍTICA E AS POLÍTICAS DO PECADO

O título de Christmas and the Beads of Sweat deriva de duas canções, «Christmas in My Soul» e «Beads of Sweat». O ambiente é mais descontraído que em New York Tendaberry. O álbum contém vários temas que se tornariam incontornáveis na carreira de Nyro como «When I Was a Freeport and You Were the Main Drag» que fala de um amante que trata mal a companheira. A resposta da personagem feminina: “Bom, tenho muita paciência, querido, e é muita paciência a perder.”

laura nyro christmas and the beads of sweat (22)«Blackpatch» é outro retrato de Nova Iorque, com observações quase literárias, como a de uma mulher com “vestígios de batom num charro à espera de um fósforo”. As drogas pesadas são abordadas em «Been on a Train», desta vez sob o ponto de vista de alguém que quer ajudar. «Upstairs by a Chinese Lamp» já integra o Lado B e possui uma sonoridade exótica, descrevendo uma mulher sonolenta a uma janela, sob um “candeeiro chinês” sonhando com um homem. Nyro tinha um candeeiro deste tipo, pelo que sempre se especulou que seria ela.

A sonoridade oriental prossegue em «Map to the Treasure», com a harpa de Alice Coltrane a sobressair. O “tesouro” aqui é o êxtase sexual, o que é sugerido pela intensidade do ritmo e da melodia. «Beads of Sweat» já entra no campo do hard rock, com o genial Duane Allman a liderar com segurança e contenção, sem ofuscar o tema. A terminar, «Christmas in My Soul» é uma canção de protesto em que Laura denuncia “os pecados da política e as políticas do pecado”. Os Black Panthers e os Chicago Seven são referidos, explicitando a preocupação de Nyro pelos direitos dos negros e dos nativo-americanos, incitando uma luta. O tema até inclui um rufar de tambor marcial.

A Columbia lançou o single «Up on the Roof» a 1 de setembro de 1970. Em novembro, Christmas and the Beads of Sweat foi recebido com ambivalência. Um bom exemplo disso foi novamente a Rolling Stone, que publicou duas críticas. Ed Ward disse mesmo: “Odeio Laura Nyro e a sua voz que soa a unhas a riscar uma ardósia.” Uma crítica posterior foi mais positiva, comparando Nyro a John Coltrane, mas ainda continha “reclamações” centradas no facto de a música ser tão virtuosa que excluía o simples prazer de ouvir, seja lá o que isso quer dizer. Quando se quer criticar, tudo serve… Por esta altura, Pearl de Janis Joplin dominava as atenções devido à morte recente da cantora.

Ainda que tenha mostrado uma Laura Nyro mais preocupada com temas universais e menos pessoais, caminho que seguiria futuramente, Christmas and the Beads of Sweat não é artisticamente tão conseguido como os álbuns anteriores. Mesmo assim, a jovem compositora conseguira a proeza de editar quatro álbuns em quatro anos, entre os 19 e os 23, um total de 44 canções originais e apenas uma versão.

Christmas and the Beads of Sweat foi um álbum problemático e não deixou de o ser ao longo das décadas devido ao título. Pensando que se tratava de um disco natalício, certas lojas apenas o punham à venda entre outubro e dezembro. O produtor, ciente disto, tentou que Nyro alterasse o título, ao que a cantora reagiu como se de um insulto se tratasse. A editora contornou-o com a desenxabida frase promocional, “canções para todos os dias do ano”. O Natal era quando Laura quisesse, e porque não?

David Furtado

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2 Comments Add yours

  1. Joana Simões diz:

    Boa tarde. Parabéns pelo trabalho. Laura Nyro era realmente uma artista fora de série e muito distante do que anda por aí hoje. Não fazia ideia desta competição ou rivalidade com a Janis Joplin, acho que não têm nada a ver uma com a outra! Como dá a entender, julgo eu, no artigo anterior, isto partia mais das inseguranças de Janis. Tenho seguido a história de Nyro desde o primeiro capítulo, embora só tenha descoberto o site a partir do Eli and the Thirteenth Confession. E gostava de saber se vai continuar, porque esta jornada é realmente apaixonante e há muito pouco sobre ela em sites e blogues. E se posso fazer um pedido, requisitava o Gonna Take a Miracle, que é o álbum seguinte, sem contar com a reedição do primeiro disco. Nem dá para acreditar que ela se quis retirar aos 24 anos, mas havia poucas como ela!!! As fotos também estão bem escolhidas.Obrigada.

    1. Obrigado, Joana. Distante?… De outra galáxia, talvez. 😉 Não vejo grande comparação entre Joplin e Nyro. A primeira era rock and roll star, a segunda, nunca o quis ser. Não tinham nada a ver uma com a outra. Pelo que li, acho até que Nyro ficou desiludida com estas atitudes inseguras, é verdade, de Joplin.
      Vou continuar, sim. A história de Laura Nyro merece ser contada e, ainda que este site não seja um “poço de sabedoria”, como um comentador uma vez disse aqui sarcasticamente, pretende-se divulgar a obra e a vida de artistas que hoje são ignorados por públicos ignorantes. Vejo que não é o seu caso, felizmente e fico até surpreendido ao encontrar uma fã de Laura Nyro em Portugal. Sim, por volta dos 24, Nyro já estava saturada do meio musical e também houve a desavença com David Geffen, que contribuiu muito para isso. Obrigado e comente quando quiser; gostava de saber a sua opinião sobre a música dela. David.

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