Laura Nyro – New York Tendaberry: Debaixo da pele de cimento

laura nyro new york tendaberry (8)Aos 22 anos, Laura Nyro edita New York Tendaberry, uma espécie de carta de amor à cidade por parte da nativa do Bronx. Foi um sucesso imediato de crítica e público. O produtor Roy Halee chamou-lhe um dos maiores discos de sempre. Suzanne Vega escreveria: “A música de Laura fazia-nos sentir alegres e tristes e sábios, ao mesmo tempo. Era música urbana profundamente sentida sobre sexo, morte e amor – os seus limites eram apenas a fúria, a glória, Deus e o Diabo… ela fazia coisas comuns, como o estado do tempo, o Rio Hudson ou as crianças a brincar na rua, reluzirem com energia espiritual. Nova Iorque era, para Laura Nyro, o que as charnecas eram para Emily Brontë – selvagens, românticas, indomáveis, e eu adorei-a por isso.”

Outros cantores interpretavam agora as composições de Nyro, sublinhando a ideia de que era “uma artista entre artistas”, apreciada pelos seus pares. O sucesso comercial que os Fifth Dimension tiveram com «Stoned Soul Picnic» fez com que Clive Davis e David Geffen convencessem Laura Nyro a lançar uma das suas composições em single. «Save the Country» era uma canção assumidamente política e inspirada pelo assassínio de Robert Kennedy, a 5 de junho de 1968. Este seguira-se ao de Martin Luther King, a 4 de abril. Em tempos conturbados, a mensagem de Nyro era direta, “salvem as pessoas, salvem as crianças, salvem o país, agora!”

laura nyro new york tendaberry (9)No entanto, começaram aqui as interferências comerciais que haviam de ser um grande problema para a cantora. Clive Davis sugeriu que Bones Howe, produtor dos Mamas & the Papas e dos Fifth Dimension, fizesse soar o tema mas comercial. «Save the Country» foi gravado uma semana após o assassínio de Robert Kennedy, na mesma cidade onde este falecera, Los Angeles. Howe achou que o arranjo mais ligeiro, com palmas e coros, atenuava o comentário do tema. “Nessa altura, a música não tolerava nada com preocupações políticas. Era tudo, ‘fumem droga e divirtam-se'”, comentou o produtor.

laura nyro new york tendaberry (6)Nyro queria alcançar um público mais vasto, e a ideia agradou-lhe, de início. Durante os motins na Convenção Democrata de 1968, «Save the Country» foi passada nas rádios, adquirindo notoriedade. Mas, em privado, Laura ficou furiosa por ter comprometido a sua integridade artística e antagonizou-se com o produtor do single:

“Olha, queres impingir isto às pessoas; eu não quero impingir nada. Só quero pôr a minha música lá fora e, se eles gostarem, vêm até mim.” Howe defendeu-se, dizendo que a sua função como produtor era essa: “Supõe-se que eu impinja isto às pessoas.”

Howe trabalhou mais tarde com Tom Waits e aprendeu que não tinha de funcionar obrigatoriamente assim:

“Se eu o soubesse na altura, teria tratado Laura de modo totalmente diferente. O mais certo é que dissesse a Clive, ‘não faça isto, é um erro’. Mas não havia mercado para álbuns. As pessoas só compravam um LP se gostassem do single e quisessem ouvir o resto. Todo o marketing da música era diferente.”

laura nyro new york tendaberry (20)Apesar do diferendo, Laura Nyro começava a dar que falar. O The New York Times fazia-lhe enormes elogios e previa um grande futuro para a compositora. Nyro começou a gravar este terceiro álbum no início de outubro de 1968, segundo revelou a um jornalista que a foi entrevistar a casa. O repórter William Kloman, do The New York Times, ficou espantado quando a cantora lhe ofereceu queijo, atum, Diet Pepsi, cheesecake e cones de gelado de chocolate.

Além do repasto, que descreveu no seu artigo, Kloman também assinalou que o álbum já tinha nome: New York Tendaberry. A palavra “tendaberry” foi inventada pela autora e derivava de “tender berry”, sinónimo do núcleo mais terno de Nova Iorque debaixo das “camadas de pele de cimento” da grande metrópole.

A aparição de Nyro na TV, no Kraft Music Hall Presents the Sounds of the Sixties, apresentado por Bobby Darin, juntamente com Stevie Wonder e Judy Collins, foi praticamente a única. Nyro surgiu vestida à ‘Morticia’ de A Família Addams e cantou «He’s a Runner» e «Save the Country». A cantora não se sentia à-vontade perante as câmaras, ainda que a sua atuação e presença fossem cativantes. A 1 de janeiro de 1969, surgiu também no Critique, outro programa onde cantou seis temas e foi entrevistada.

Nyro nunca caiu nos lugares-comuns dos músicos. A sua vida privada era rodeada de secretismo. Se a viam com um homem, nada dizia. “Eu nunca lhe perguntava nada”, diz a amiga Ellen Sander. “Ela era muito generosa e simpática comigo, mas sempre achei que o preço a pagar por isso era não fazer muitas perguntas. Sei que era muito vulnerável perante os homens na sua vida, mas também sei que era, em parte, intencional, os relacionamentos eram uma grande fonte de inspiração para ela.” Nyro chegou a admiti-lo numa entrevista em que disse: “Suponho que sim. Se conheço um homem que me agrada, digo ‘bom material’!”

Joni Mitchell e Laura Nyro.
Joni Mitchell e Laura Nyro.

Excetuando estes comentários humorísticos, Nyro era realmente muito fechada, ao contrário de Joni Mitchell que teve relações bastante divulgadas com David Crosby, Graham Nash, Jackson Browne e James Taylor, deixando um rasto de corações partidos e obtendo a alcunha de “patroa do ano” pela Rolling Stone. Nyro não ficava atrás de Mitchell nas conquistas, mas era mais reservada e circunspecta.

O baixista dos Blood, Sweat and Tears, Jim Fielder, foi um dos seus namorados sérios e, Nyro aliás, dava-se bem com o grupo. Fielder era um homem afável, sem o génio de Nyro, mas com um temperamento semelhante.

laura nyro new york tendaberry (7)O novo disco surgiu numa fase em que Nyro era mais experimental, a vários níveis. Foi também um trabalho mais sombrio. Charlie Calello iria produzi-lo, tal como fizera em Eli and the Thirteenth Confession, mas achou que os novos temas precisavam de ser trabalhados e, uma vez que Laura já não ouvia os seus conselhos, pôs a ideia de lado. Não recebera royalties por Eli e, apesar de ainda ter gravado três temas, percebeu que o trabalho seria árduo e desistiu, prevendo que seria novamente mal pago.

A Guerra do Vietname despoletara uma cólera quase universal. Não eram tempos pacíficos. O álbum não era sobre isso, mas a complexidade acrescida dos temas exigia um produtor ainda mais metódico que Calello. Nyro escolheu um amigo de David Geffen, Roy Halee, que trabalhara com Simon e Garfunkel e Bob Dylan. “Penso que ela adorava Simon e Garfunkel e ouvira que um tipo chamado Halee fizera o primeiro álbum de Dylan, e quis tentar comigo. David certamente não se opôs”, explica o produtor.

Roy Halee e Nyro no estúdio durante a gravação de New York Tendaberry.
Roy Halee e Nyro no estúdio durante a gravação de New York Tendaberry.

Roy Halee nunca vira Nyro a tocar perante um público e, quando esta tocou para ele, Halee decidiu que a voz e o piano deviam ser gravados ao vivo em estúdio, com outros instrumentos adicionados a posteriori. “As canções eram tão intensas que achei que, ao menos, devíamos tentar a melhor combinação piano/voz possível”, diz Halee. “O único problema era que o timing dela não era muito bom, e era difícil para os músicos seguirem-na, especialmente a secção de ritmo. Gravar assim é como lançar dados e, se o álbum tem lacunas, é nessa área. Mas eu só queria registá-la a ela e ao piano da maneira como soava ao vivo.”

Halee não se importava com o tempo que o projeto demoraria. A Columbia deu o tempo todo a Nyro e ao seu perfecionismo. Isto levou a que a gravação do piano e da voz se arrastasse durante meses. Halee trabalhava ao mesmo tempo em Bridge Over Troubled Water de Simon e Garfunkel. “Passávamos três ou quatro noites numa canção. Acho que não havia um orçamento porque íamos para o estúdio e continuávamos a ir sem parar.”

Durante uma pausa nas sessões de gravação.
Durante uma pausa nas sessões de gravação.

A rápida evolução dos processos de gravação significava que agora Nyro dispunha de 16 pistas, em vez das 8 de Eli and the Thirteenth Confession e das 4 em More Than a New Discovery. Devido a isto, Nyro ainda se aplicou mais em gravar a sua voz nos coros, determinada a que tudo soasse a seu gosto, o que o produtor Halee não apreciou:

“Francamente, julgo que foi um erro dar-lhe carta branca. Laura e eu demo-nos bem no início, mas, à medida que fomos avançando, deixámos de nos dar tão bem, pois eu achava que estava a demorar muito e queria andar para a frente com aquilo.” Nyro planeou New York Tendaberry ao pormenor, mantendo diversos blocos cheios de anotações e, se não gostava do que ouvia, regressava ao estúdio.

laura nyro new york tendaberry (17)Também a Columbia já estava impaciente. Segundo o road manager de Nyro, Lee Housekeeper: “A editora ainda tinha a mentalidade de que um álbum devia ser gravado num dia ou dois, com orquestra e tudo. Laura era um alvo fácil, nesses tempos, porque se atrevia a ser criativa. E, ainda por cima, era mulher. Todos diziam que era demasiado indulgente consigo mesma, embora Simon e Garfunkel também demorassem tanto tempo a gravar. Mas eles vendiam biliões de discos e eram homens.” O mesmo acontecera aos Beatles, que demoraram centenas de horas a gravar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band no ano anterior.

A Columbia só permitia tanto tempo em estúdio porque Laura Nyro, embora não fosse um sucesso comercial tão grande como outros artistas, conferia grande prestígio e credibilidade à discográfica, permitindo a contratação de outros grupos e artistas de qualidade. O agente de Nyro, David Geffen, empregava esta estratégia junto do presidente da Columbia, Clive Davis, e foi assim que conseguiu que os Crosby, Stills and Nash fossem contratados.

laura nyro new york tendaberry (12)

“As pessoas tinham sempre medo que eu tentasse coisas novas”, lamentou Nyro à imprensa. “Com este álbum, no começo, ninguém sabia o que eu estava a fazer. Ninguém. Eu sabia o que estava a fazer… para termos uma coisa mesmo boa, temos de pagar um preço. Quando gravo, é tudo o que faço. Não sou um ser humano, não sou uma mulher. Não tenho de tomar benzedrina ou nada. Funciono com speeds naturais. Não durmo de noite. Não gosto de falar com ninguém.”

Nyro acabou de gravar os vocais apenas no Verão de 1969. Precisava agora de orquestrar o álbum. Roy Halee sugeriu Jimmie Haskell, que fizera os arranjos de «Old Friends» de Simon e Garfunkel. No estúdio, havia algum humor, com Nyro a “exigir” que Haskell usasse uma disparatada carapuça de aviador quando estava na mesa de mistura… Haskell achou prático: “Com aquela carapuça, eu nunca parecia irritado.”

laura nyro new york tendaberry (2)Haskell teve de se entender com a exigente compositora e decifrar uma das suas particularidades, a de descrever sons através de cores: “Em vez de dizer que queria metais numa parte, pedia ‘azul’. ‘Então um instrumento azul talvez seja uma viola de arco? E um instrumento castanho será um clarinete baixo?’ ‘Sim, isso funcionava’, dizia ela. ‘Um instrumento alto e castanho seria um trombone? E o branco serão os metais?'”

A isto chama-se sinestesia, ter uma sensação derivada doutro sentido que é estimulado. É um sintoma neurológico, e especulou-se que Laura Nyro teria uma forma leve de sinestesia, já que descrevia a música em cores e texturas. Algo de semelhante sucedia a Joni Mitchell, que comentou: “Costumava ser embaraçoso, para mim e para Laura Nyro, em particular, tocar com músicos tecnicistas, nesses tempos. Ficávamos embaraçadas porque nos faltava o conhecimento formal e dávamos instruções aos músicos através de metáforas, descrições de cores ou termos pictóricos.”

laura nyro new york tendaberry (16)Jimmie Haskell ficou também estupefacto com o talento musical de Nyro. “Ela ia buscar umas progressões de acordes realmente fantásticas, tocava piano de forma estupenda, era uma grande orquestradora. Todos os acordes básicos e notas necessárias, mas sem floreados descabidos. As suas canções e voz estavam primeiro e o piano era uma base onde assentar as suas composições.”

Para ficar no estado de espírito certo ou porque achava mais interessante, talvez, Laura ia para as sessões de gravação numa carroça puxada por cavalos através do Central Park! A Columbia não se opunha nada. Afinal, ficava mais barato do que as limusines exigidas por outras vedetas.

A visita surpresa do herói de Nyro, Miles Davis.
A visita surpresa do herói de Nyro, Miles Davis.

Um momento especial para Nyro durante a gravação de New York Tendaberry foi a visita do herói da cantora, Miles Davis. Nyro pediu-lhe para fazer um solo de trompete numa canção, mas o músico recusou, dizendo, “não posso tocar nisto, tu já o fizeste”. Laura não ficou nada aborrecida com a recusa, considerou-a um elogio, sentindo-se empolgada com a presença de Davis.

Aliás, Nyro não era do tipo de se deslumbrar com celebridades ou músicos famosos. As duas únicas exceções foram Miles Davis e Bob Dylan, que conheceria pouco tempo depois. Outros visitantes em estúdio durante as sessões foram Paul Simon e Art Garfunkel.

laura nyro new york tendaberry (19)O novo arranjo de Nyro para «Save the Country», menos comercial mas igualmente apelativo, causou problemas aos músicos, que tentavam freneticamente seguir Laura e o seu piano. Haskell ficou mais uma vez espantado: “Ela deve ter ‘visto’ todo o arranjo na cabeça, quando os metais entram, a sensação de frenesim. Devia estar a ver a tal cor branca na cabeça…”

O trabalho custou à Columbia cerca de 50 ou 60 mil dólares, o dobro do habitual. David Geffen tentou reduzir o custo, “extraindo-o” do salário do orquestrador Haskell, que processou e obteve a recompensação (pouco substancial) que considerava justa.

No final, Roy Halee pôs de lado a impaciência e os desentendimentos e comentou: “Não posso ser objetivo, mas acho-o um dos maiores álbuns de música pop jamais feitos. Ela era original, e a música estava imbuída de George Gershwin. Era como um pop clássico americano, era mesmo. E é mais ela do que nos outros álbuns.” Também Jimmie Haskell ficou satisfeito: “Apenas capturámos o som, o som certo.”

Ao contrário de Eli and the Thirteenth Confession, que romantizava um homem, New York Tendaberry centra-se mais numa cidade e é testemunho da adoração que a nova-iorquina tinha pela Big Apple. Se Nyro funcionava por cores, não é difícil sobrepor uma imagem de Nova Iorque à sonoridade do álbum para quem o ouve.

Mesmo que contenha relatos de amor mais ou menos enigmáticos e da dor que lhes está subjacente, é um trabalho mais maduro, afastando-se da pop dos álbuns anteriores, entrando em sonoridades jazz e fazendo um uso brilhante dos silêncios, como sucede no tema-título.

laura nyro new york tendaberry (11)A genuinidade de New York Tendaberry é um dos seus trunfos. Tal não escapou aos fãs, a outros músicos de vários géneros musicais (Elton John confessou-se muito influenciado pelo modo de compor de Nyro neste álbum) e à crítica. Um fã relatou: Quando ouço, sinto-me transportado através da cidade, encontrando, por momentos, as personagens e a paixão que tem lugar todos os dias, terminando com o tema-título, canção cativante de amor a uma das maiores cidades de todos os tempos.” Os paralelos com Gershwin passam também por uma citação dele próprio, quando falou das suas composições inspiradas por Nova Iorque: “Tentei expressar o nosso modo de vida, o ritmo da nossa vida moderna com a sua velocidade, caos e vitalidade.”

Os dois rios que “cercam” Manhattan são logo referidos na canção de abertura, o East River e o Hudson. “Dois fluxos morrem, não me amas quando choro.” É a frase de abertura de «You Don’t Love Me When I Cry». Nova Iorque já não é palco de romances inocentes, mas lugar de sofrimento e prazer. «Gibsom Street» foca uma mulher que vai fazer um aborto a Gibsom Street, “do outro lado do rio, onde o demónio está esfomeado e onde o diabo é doce”. Emoções mais complexas e irónicas surgem nos amantes enigmáticos de «Captain Saint Lucifer». Em «Tom Cat Goodbye», Nyro canta mesmo “vou encontrar o meu amante e matá-lo”.

laura nyro new york tendaberry (5)Portanto, há bastante amargura no álbum, e a toada jazz torna-o mais melancólico. Ainda assim, “nada cura como o tempo e o amor”, como é referido no esperançoso «Time and Love». «Sweet Lovin’ Baby» é mais romântico, e Nyro não deixa de incluir erotismo, como em «Captain for Dark Mornings», que conta a história de ‘Lilianaloo’ e do seu “capitão”, metáfora para “amante”, ao longo do disco. O tema era muito apreciado em dormitórios femininos, diga-se de passagem.

Segundo Bones Howe, “ela andava sempre à procura do seu ‘capitão’. Era o homem dos sonhos dela. Está tudo nas letras. Como sucede a todos os bons escritores, foi modificado e disfarçado em certo grau. Mas ela viu-o em muitos tipos diferentes. Ela era uma mulher que ansiava muito por um amor perfeito.”

laura nyro new york tendaberry (14)A POETISA ESQUIVA

New York Tendaberry foi lançado a 24 de setembro de 1969. A capa mostrava Nyro com a cadela Beautybelle. Já depois de milhares de cópias terem sido impressas e postas em circulação, a cantora mudou de ideias e preferiu uma fotografia sua em casa, no terraço da 79th Street e, dado que a capa anterior não foi destruída como devia, tornou-se um artigo de coleção.

Desta vez, ao contrário do álbum anterior, a receção da crítica foi imediata e entusiástica. O álbum vendeu mais rapidamente que os anteriores álbuns de Laura Nyro, esteve 17 semanas no top da Billboard e alcançou o nº 32. Para Rex Reed, Nyro era “a cantora que mais fez por elevar a música pop ao nível da arte séria”. “Aos 22 anos, Miss Nyro tem um potencial incrível”, escreveu Robert Hilburn no Los Angeles Times. “Parece competir mais com os gigantes do passado (incluindo Gershwin) do que com os rivais do presente.”

De facto, Laura Nyro fazia jus à citação de Hemingway, segundo a qual qualquer escritor tem de ler os melhores escritores do passado e tentar batê-los, senão nem vale a pena o esforço.

O teor urbano de New York Tendaberry ia também contra os temas mais rurais, em voga na época. Dylan, na fase country, editara Nashville Skyline, e os Creedence Clearwater Revival também abordavam temáticas mais “campestres”. Os críticos assinalaram os contrastes do inspirado trabalho de Nyro. Aludiram às “batalhas líricas entre Deus e o Diabo” e ao “confronto entre religião e sensualidade” patentes nas letras. “Música crua e convulsiva, urbana, contemporânea, pessoal e grandiosa”, escreveu John Gabree. No New York Times, Don Heckman descreveu-a como “poetisa esquiva, a projeção na vida real das fantasias masculinas ocultas, algo que já conhecemos há muito, desde Safo a Edith Piaf. Laura Nyro é a mais recente”.

Desta vez, os artistas pop não lançaram tantas covers das canções, visto que o material não era tão comercial, exceção feita a «Save the Country» e «Time and Love». Só na Era punk, temas mais rudes como «Gibsom Street» poderiam apelar a músicos, o que mostra o quanto Nyro estava adiantada para o seu tempo. “Pareces uma cidade, mas sinto-te como uma religião”, canta Nyro nesta obra notável, grande tributo agridoce a Nova Iorque e comparável às elegias de Lou Reed, Suzanne Vega ou Paul Simon.

David Furtado

Anúncios

Comentários:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s