Lincoln foi assassinado há 150 anos: A Grande Esperança de John Ford

No começo de Young Mr. Lincoln, o aspirante a advogado surge encostado a uma árvore a ler os Comentários sobre as Leis de Inglaterra do jurista Blackstone. O comentário de Lincoln é incisivo e profundo: “Caramba, é tudo o que é preciso saber sobre isto. O que está certo e o que está errado.” Ford decidiu de imediato que o seu Lincoln só podia ser Henry Fonda, ator que passara os últimos anos notabilizando-se em papéis secundários e tirando o protagonismo a estrelas como Tyrone Power em Jesse James (1939) com um estilo minimalista e carismático.

henry fonda lincoln (7)Se Nancy Hanks voltasse como fantasma
À procura de notícias do que mais amou,
Começaria por perguntar: “Onde está o meu filho?
O que aconteceu ao Abe? Que fez ele?
Não sabem do meu filho?
Tornou-se um homem alto? Divertiu-se?
Aprendeu a ler? Foi para a cidade?
Sabem o seu nome? Deu-se bem?”

Excerto do poema de Rosemary Benet, «Nancy Hanks» (nome da mãe de Lincoln).

henry fonda lincolnEm 1939, Fonda arrasava a concorrência. Também tinha uma afinidade especial com o presidente: Aos 20 anos, fizera uma digressão pelo Midwest com um imitador de Lincoln, interpretando o seu secretário num sketch escrito por si mesmo. Já lera a maioria dos livros sobre Lincoln e, no seu primeiro filme, The Farmer Takes a Wife, o seu personagem encontra-se com o assassino de Lincoln, John Wilkes Booth, noutro contexto. Portanto, em 1935, já se especulava que Fonda seria o próximo Lincoln do grande ecrã. O ator, porém, ofereceu resistência quando foi contactado pela Fox.

O estúdio persuadiu Fonda a submeter-se a um complicado teste de maquilhagem, com um nariz falso, e a um teste de câmara, o que espantou todos, inclusive o próprio ator:

“No dia seguinte, fui assistir, estava sentado na sala de projeção… vi aquele tipo e pensei, ‘diabos me levem! Parece o Lincoln!’ Então ele começou a falar e saía a minha voz, o que estragou tudo para mim. Disse-lhes: ‘Desculpem, amigos, isto não vai resultar’.”

Em 1939, estrearam três filmes de John Ford, Stagecoach, Young Mr. Lincoln (A Grande Esperança) e Drums Along the Mohawk. De certa forma, esta trilogia continha temas que seriam o foco das atenções do realizador durante o resto da sua carreira.

henry fonda lincoln (2)ORIGENS

Nesta época, a II Guerra Mundial estava iminente, e o papel dos EUA, enquanto superpotência, era posto em causa. Este contexto terá motivado John Ford a procurar uma nova perspetiva do passado americano, revendo os valores nacionais. A expansão para o Oeste continha alguns elementos mais sombrios, que Ford “poliu” por não querer examiná-los ao pormenor, pelo menos, nessa altura. Havia muito de patriótico a retirar das jornadas pelo faroeste, mas Ford tornou-as ambivalentes, adicionando grande dose de nostalgia desencadeada por um passado distante e desaparecido. O realizador sentia-se otimista quando aos EUA e ao suposto modo de vida democrata.

lincoln memorial (4)Assim compreende-se o retrato favorável de várias figuras históricas como Lincoln e o Mayor Frank Skeffington (interpretado por Spencer Tracy em The Last Hurrah, de 1958). Ford adquirira uma visão da política bastante positiva do tio e do pai, mas foi o irmão mais velho, Francis Ford, com quem dera os primeiros passos no cinema, a determinar o interesse de John Ford por Lincoln. Francis, além de ator, era argumentista, realizava e também era dono de uma produtora cinematográfica ligada à Universal.

O irmão de John Ford desempenhara Lincoln nos seus próprios filmes, alguns datados da fase do cinema mudo, como From Rail-Splitter to President (1913). Francis possuía uma biblioteca sobre o antigo presidente e estudara a fundo a sua personalidade. A sua ambição era mesmo filmar uma obra em 12 partes sobre Lincoln. O fascínio pelo presidente passou para o irmão John – já na velhice, o cineasta falava de Lincoln como de John Wayne, ou seja, como se de um amigo se tratasse.

lincoln memorial (1)A visão do cineasta, como é exposta em Young Mr. Lincoln, perdurou na consciência coletiva dos EUA. Abraham Lincoln surge como um arquétipo da Justiça, alguém que põe de lado a justiça legal, em prol do humor, caridade e tolerância, uma figura que possui fé inabalável nos valores americanos e na decência que lhes está subjacente, com um certo grau de ambiguidade, o que contribui para o tornar mais humano.

henry fonda lincoln (4)O Lincoln de John Ford é, deste modo, um homem comum mas singular, à semelhança de Tom Joad de The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira); uma combinação que exigia um ator à altura. E que acabou por ser o mesmo que deu vida à criação de John Steinbeck: Henry Fonda, ator que filmaria o clássico de Steinbeck com Ford no ano seguinte.

Até o realizador soviético Sergei Eisenstein aplaudiu Young Mr. Lincoln, em 1945: “O argumento é informal, quase sem enredo ou mesmo anedótico. Parece, analisado com mais atenção, uma imagem cuidadosamente elaborada, sintetizando todas essas qualidades que brilhavam no papel histórico-político desempenhado por um gigante americano. Vi este filme pela primeira vez no dia antes de começar a II Guerra Mundial. Toca a essência do espírito nacional e popular com a sua unidade, a sua mestria, a sua beleza genuína. O ritmo da montagem corresponde ao timbre da fotografia.”

FONDA: PERFEITO PARA O PAPEL

O Lincoln de John Ford é assim uma figura mitológica, um homem fechado mas com sentido de humor, reverência pela lei e uma noção instintiva do bem e do mal. Era quase uma extrapolação do imaginário americano. Corajoso, inteligente, um visionário, respeitado por pobres e ricos e compassivo perante o sofrimento. E também conhecia a perda.

henry fonda lincoln (6)Ann Rutledge, o primeiro amor de Abraham Lincoln, surge no início do filme. Foi ela, a filha do taberneiro que empregava Lincoln na época, a reconhecer o seu potencial e incentivá-lo a estudar Direito. Em agosto de 1835, Ann morre, presume-se que de febre tifóide, o que terá abalado o jovem Lincoln, a ponto de se especular que teria enlouquecido.

No filme, a fixação de Abraham pelo túmulo de Ann é “embelezada”. Lincoln atira uma pedra ao rio e observa as ondulações. As imagens sobrepõem-se a blocos de gelo, e o futuro presidente fala com Ann como se ela ainda estivesse viva. Junto da campa, Lincoln faz uma proposta, segurando um ramo: Se este cair para o lado da lápide, ele seguirá o conselho de Ann e tornar-se-á advogado, se cair noutra direção, continuará a ser um empregado de loja. Este cai na direção do túmulo. “Bem, Ann, ganhaste… será o Direito.” E sorri: “Pergunto-me se o empurrei só um pouco na tua direção.”

henry fonda lincoln (1)Existe mais neste tipo de sequências do que é visível. Um historiador de cinema comparou a cena ao determinismo histórico de Tolstoi. Ou seja, os atos de Lincoln parecem determinados de antemão, mas também são fruto da singularidade do seu caráter. E Ford não se desvia da sua fé católica, sublinhando que Lincoln possui livre-arbítrio na escolha do seu destino.

Henry Fonda não faz apenas uma imitação de Lincoln mas uma interpretação: Parece compreender o vazio deixado por Ann, o que também se revela na sua interpretação memorável. Apesar de ser uma figura solitária, impede um linchamento com um discurso conciso: “Fazemos coisas em união que nos causariam muita vergonha se as fizéssemos sozinhos.” Frases como estas, calam uma multidão em fúria.

Henry Fonda e Eddie Collins.
Henry Fonda e Eddie Collins.

A cena quase foi censurada pelos estúdios, que só permitiram a inclusão devido ao facto de Lincoln citar as Escrituras e por as potenciais vítimas serem de raça branca. Recorde-se que, na década de 30, milhares de negros no Sul dos EUA eram linchados.

RETRATO DO PRESIDENTE QUANDO JOVEM

Os atos do jovem Lincoln adquirem mais importância por já sabermos o seu destino. A figura que nos é mostrada chega a ser, por vezes, caricata, mas inclui-se no “povo”, termo mais complexo do que a palavra muitas vezes depreciativa implica. Segundo John Ford, “a ideia do filme era dar a sensação que, mesmo enquanto jovem, podíamos ver que haveria algo de extraordinário neste homem”.

henry fonda lincoln (10)Em 1939, Ford já era pioneiro da Sétima Arte e também demonstrava um otimismo populista que viria a atenuar-se ao longo do tempo, dando lugar à perda de possibilidades, da simplicidade primitiva e da família – temas que viria a abordar futuramente.

Estas temáticas já estão presentes em Young Mr. Lincoln, por exemplo, no modo como Ford filma Ann Rutledge e Lincoln passeando na margem de um rio, que adquire uma atmosfera opressiva devido aos sombrios troncos das árvores e a uma vedação partida. É quando Ann insiste com Lincoln para que este vá para a Faculdade e singre na vida. O futuro presidente responde com um olhar fixo: “És mesmo bonita, Ann.” “Alguns tipos que conheço não gostam de cabelo ruivo.” “Eu adoro cabelo ruivo”, murmura Lincoln. O uso das sombras nesta sequência pressagia a morte prematura de Ann.

henry fonda lincoln (8)Já na sequência em tribunal, Abraham Lincoln é um político consumado e astuto, manipulador das emoções populares, encenando com precisão os acontecimentos para obter o que considera ser a verdade e a justiça, conceitos que considera mais importantes e o distinguem do advogado vulgar, que não embolsa fortunas certamente a praticar o bem. O futuro presidente é mesmo acusado de apreciar os aplausos e a risota do público com os seus apartes humorísticos.

henry fonda lincoln (12)O autor do argumento, Lamar Trotti, foi descrito pelo produtor Darryl F. Zanuck como uma autoridade em Lincoln. Ter-se-á baseado num julgamento a que assistiu quando era repórter de crime na Georgia, acrescentando um pormenor do julgamento de Duff Armstrong em 1857, em que Lincoln provou a inocência do seu cliente ao consultar um almanaque de modo propositadamente dramático.

Aqui, Lincoln defende dois rapazes acusados de um homicídio, e cuja mãe se nega a dizer qual deles o cometeu. Ora, esta situação de irmão contra irmão é uma engenhosa metáfora para a chacina ocorrida na Guerra Civil Americana.

A ideia central da obra foi descrita assim: “Lincoln enquanto reconciliador simbólico das forças contraditórias da vida americana.” Sabemos hoje que a “esperança” de Lincoln não se concretizou e, no filme, a figura do presidente e a atuação de Fonda também carregam este fardo. Lincoln é uma figura atormentada, quase agoirenta, pois, embora vença o caso em tribunal e faça História, esses atos trarão os seus custos num mundo violento e numa América violenta.

henry fonda lincoln (3)O final de Young Mr. Lincoln é símbolo disso mesmo. O presidente pára, como se hesitasse, sai de câmara, e começa a chover, entre trovões e relâmpagos. Lincoln enfrentará o seu destino. O homem torna-se numa lenda quando Ford sobrepõe a esta imagem a estátua do célebre Memorial de Lincoln. Refira-se que a chuva foi acidental na rodagem da cena, nas traseiras a céu aberto dos estúdios da Fox, enquanto Fonda subia o monte, num plano panorâmico. Ford, que era conhecido por estes felizes acasos, brincou, dizendo em voz alta: “As lágrimas das multidões…”

lincoln memorial (5)A cena reflete também algo muito especulado por historiadores, que, baseando-se nos escritos do presidente, achavam que este previu o seu destino e aceitou de livre vontade seguir o próprio caminho. Também aqui, personagem e ator se fundem: Ambos foram símbolos da democracia e da consciência americana.

A emblemática cena foi rodada num local que foi vendido e desapareceu em 1961, para dar lugar ao progresso e ao luxuoso desenvolvimento financeiro e residencial de Century City, a oeste de Los Angeles. No local, encontra-se agora a Avenue of the Stars. John Ford visitou a área em 1970 durante a filmagem do documentário televisivo The American West of John Ford. Henry Fonda perguntou-lhe se se recordava daquele sítio. O realizador retorquiu: “Não. Que maldito lugar. Não faço ideia onde raio estamos.”

O filme mostra o crescimento do jovem Lincoln em New Salem e Springfield, no Illinois, incluindo uma cena do desfile do Dia da Independência, sugerindo uma História condensada dos EUA entre 1776 e a Era de Lincoln. O presidente é assim mostrado subtilmente como decisivo na História americana, a figura que “travou” (nos dois sentidos) a Guerra Civil para manter a União e pôs fim à escravatura.

“LINCOLN ERA UM DEUS”

Henry Fonda aceitou o papel com relutância:

“Achei que não podia interpretar Lincoln. Para mim, ele era um deus.” John Ford, conhecido pela sua agressividade verbal (e não só), ripostou: “Mas que merda é esta de não quereres fazer o filme? Achas que o Lincoln era um grande emancipador fodido, hã? Ele é um jovem advogado principiante de Springfield, por amor de Deus!”

henry fonda lincoln (11)Fonda recordou que, quando John Ford foi encarregado de realizar, o chamou para uma reunião.

“Lembro-me de entrar no seu escritório da mesma forma que um recruta iria comparecer à frente de um almirante. Ele olhou-me por debaixo da aba do chapéu… e tinha um lenço na boca ou um cachimbo ou mastigava qualquer coisa quando me disse, ‘foda-se, que merda é esta que ouço, de não quereres desempenhar o papel?’ Ele só consegue falar se empregar todos os palavrões! E o que fez foi envergonhar-me.”

henry fonda lincoln (9)A obra foi rodada, na maioria, em redor de Sacramento e a estreia mundial deu-se a 30 de março de 1939, precisamente um século depois de os acontecimentos descritos terem sucedido. O filme foi imediatamente reconhecido e apreciado.

Ford imprimiu apenas um take de cada cena, ordenando que destruíssem os restantes, decidido a que não interferissem no seu mito, ou “conto de fadas”, como lhe chamaram. Raramente, no futuro, Ford seria tão otimista como nesta obra. No filme, Lincoln impede um linchamento – algo a que o jovem Fonda já assistira na infância. E o realizador invoca a situação de um homem complexo perante a barbárie de uma nação, sublinhando a complexidade do país, um país que continua violento. O mitológico Lincoln é uma espécie de esperança, a grande esperança.

Marjorie Weaver com Henry Fonda.
Marjorie Weaver com Henry Fonda.

Outro facto interessante é modo como Fonda o interpreta, contrastando a figura pública com um homem absorto em pensamentos. Através dos silêncios e do olhar, Fonda nem por um segundo cai em exageros, o seu trabalho é intemporal, fundindo o mito, o presidente e o ator num só. Mesmo nas cenas em que se impõe, como a sequência do tribunal, Fonda não descura a entoação e a linguagem corporal, sem cair na pompa e arrogância de outros personagens: “Cavalheiros… e concidadãos… presumo que todos saibam quem sou.”

Era uma época em que Ford estava dividido quando ao seu ideal de herói: John Wayne ou Henry Fonda. Este último era (ou parecia) mais liberal e menos autoritário do que Wayne, embora ambos tivessem traços em comum. As hesitações e vulnerabilidades de Wayne sempre agradaram ao público, nos papéis que desempenhou em filmes de John Ford. Por seu turno, Henry Fonda sempre teve queda para uma superioridade moral rígida e quase arrogante. Até no papel de Lincoln demonstra esta característica autoritária.

Marjorie Weaver, Henry Fonda 2
Marjorie Weaver e Henry Fonda.

Ford satiriza a falta de jeito de Lincoln e mostra-o a dançar de modo mecânico o tema «Oh, Dem Golden Slippers» com a sua futura esposa Mary Todd (Marjorie Weaver). John Ford voltaria a mostrar Fonda a dançar esta melodia numa cena de My Darling Clementine, em que o ator interpreta Wyatt Earp.

Para desempenhar Ann Rutledge, foi escolhida uma atriz contratada pela Fox, Pauline Moore, que descreveria a experiência assim: “Uma das poucas coisas que fiz que parecia uma pessoa verdadeira. Eu não tinha interesse em ser uma rapariga cheia de glamour. Respeitava John Ford, por isso estava ansiosa por crescer, digamos assim, sob a sua orientação. Mas tal não sucedeu. Estávamos no Sacramento River. A tarde já ia avançada quando foi a minha vez. Estivera ali sentada a costurar vestidos para as minhas duas filhas. Ford perguntou-me: ‘Sabes o teu papel?’ Disse-lhe que sim. Ele disse: ‘Tira o batom.’ Respondi, ‘ótimo’. O caracterizador aplicou-me muita maquilhagem. E então vi Ford a pegar num lápis e a riscar um grande X em duas páginas do argumento. Pensei, ‘oh, não, aquele é o meu papel!'”

Na verdade, Ford riscou apenas seis falas e algumas palavras de uma cena de três páginas que a atriz interpretara anteriormente num teste de ecrã. Moore prossegue: “Ele não perdeu tempo, chamou-me e fizemos a cena. Nunca disse nada. Tive de lhe perguntar se estava tudo bem, e ele disse-me que sim. Achei que John era apenas um cavalheiro a fazer o seu trabalho. Ele sabia o que queria.”

OS HOMENS MODERNOS

O produtor Darryl F. Zanuck permitiu que John Ford fizesse filmes diferentes daqueles que realizara na RKO, admitindo trabalhos mais emocionalmente diretos. Entre 1935 e 1941, Zanuck, que partilhava o interesse de Ford por temas sociopolíticos e pela História dos EUA, deu-lhe espaço de manobra, ainda que ambos tivessem vários diferendos. Datam deste período Young Mr. Lincoln, As Vinhas da Ira e How Green Was My Valley (O Vale Era Verde), a par de outras obras inferiores.

lincoln memorial (3)Zanuck já admirava o cineasta e, em 1968, afirmaria: “Finalmente concluí que John Ford é o melhor realizador da História do cinema.” Durante a produção de Young Mr. Lincoln, o produtor assistiu às filmagens primárias e elogiou o trabalho como “honesto e real”, alertando para alguma lentidão no ritmo. “Não digo que devamos apressar Fonda, já que a lentidão e ponderação que deu ao personagem o torna magnífico, mas as coisas parecem arrastar-se a nível de atmosfera.” Ford não ligou ao reparo e manteve o tempo, que se adequa à narrativa.

Em Drums Along the Mohawk (Ouvem-se Tambores ao Longe), o produtor voltou a fazer “soar o instrumento”, mas Ford já não teve pachorra para semelhante rufar insistente e respondeu do local onde filmava: “As suas cartas e telegramas sobre ritmo assustam-me. Tanto o guião como a história pedem uma ação plácida e simples, que subitamente explode num tom ríspido, pesado e dramático. Tudo isto requer cuidado.”

“Ele era um tipo muito egoísta e podia ser um tirano, mas conseguia arrancar excelentes desempenhos às pessoas”, disse o ator Milburn Stone. “Em Young Mr. Lincoln, vi-o despedaçar o coração de um velho ator, alguém que fora amigo dele. Ford atacou-o de repente e simplesmente destruiu-o.” A filha de Ford, Barbara contrapõe: “Se ele tivesse mostrado o seu olhar bondoso, tinham-no espezinhado no set.”

Elia Kazan (bem como Orson Welles) estudava a técnica de filmar com as obras de John Ford. Young Mr. Lincoln foi um dos filmes que viu, vezes sem conta. Kazan perguntou-lhe uma vez como encontrava ideias sobre o modo de filmar uma cena. Ford respondeu, mal-humorado. “No set. Vá para o local bem cedo, antes de todos os outros lá estarem. Dê uma volta e veja o que tem.” “Ah, e depois olho para o argumento e encaixo a cena no local?”, perguntou Kazan. “Não”, rugiu Ford, “não olhe para o filho da puta do argumento. Isso vai confundi-lo. Já sabe a história. Conte-a através de imagens. Esqueça as palavras.” “E que mais?” “Os atores”, disse Ford. “Não os deixe representar. Realize como se fosse um filme mudo.”

Kazan encarava Ford como “um grande artista porque ele gosta do passado”. “É um homem moderno, mas consegue ver que aqueles valores da fronteira eram importantes. E é por isso que digo que me sinto mais próximo de Ford do que de qualquer outro. Não apenas devido ao modo como filmo, isso é superficial, mas porque tenho um pé no presente e outro no passado.”

David Furtado

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