Laura Nyro e o seu primeiro álbum: (Mais do que) Uma Nova Descoberta

Se existe cantora/compositora para com quem as artistas de música popular dos últimos 50 anos têm uma grande dívida é Laura Nyro, falecida a 8 de abril de 1997, com apenas 49 anos. Como disse uma estudiosa da sua obra, Patricia Rudden, “Laura Nyro e Joni Mitchell dividiam o mundo entre elas em 1968; hoje até tropeçamos em cantoras/compositoras”. Na época em que surgiu, Nyro era, tal como hoje, única. O papel que exerceu na cultura popular do último meio século já foi reconhecido, mas não em pleno, sendo ainda vergonhosamente subestimada.

laura nyro more than a new discovery (17)Na segunda metade dos anos 60, o panorama era dominado por artistas como Aretha Franklin, Diana Ross, Janis Joplin, Dionne Warwick, Dusty Springfield, Barbra Streisand e Joan Baez, que não compunham o próprio material nem eram instrumentistas virtuosas – o que contava era mais o fator “estrela”, pelo que muitas delas se apoiavam em produtores, editoras e compositores masculinos. Carole King ainda trabalhava como compositora de encomenda no Brill Building nova-iorquino. Rock, pop e soul eram dominados exclusivamente por homens. Até Joni Mitchell, contemporânea de Nyro e uma eterna reticente ao confessar quem a influenciou, assumiu, “sim, Laura Nyro, ela… podem dizer que sim”.

laura nyro more than a new discovery (21)O pai de Laura Nigro estava em digressão quando recebeu um telefonema do Bronx, em Nova Iorque e anunciou aos colegas da banda que era pai. Louis era trompetista profissional e deu à filha o nome de uma canção, o tema de Laura (1944) de Otto Preminger. Estávamos a 18 de outubro de 1947.

Para evitar conotações raciais com a pronúncia inglesa de Nigro, a família pronunciava o apelido “NAigro”. A filha alteraria o nome para “Nyro” depois do liceu, mas pronunciava-o como “Niro”. (Dando um exemplo, um dos heróis de Laura, Bob Dylan, também se pronuncia assim e não “Dailan”. Além disso, o nome continha NY, abreviatura de New York, cidade/território emocional de Nyro.)

O casamento dos pais tinha sido tão rápido que, quando o irmão do noivo desceu para colocar uma moeda no parquímetro, perdeu a cerimónia. A mãe, Gilda, era filha de judeus russos e Louis de pai italiano, sendo a sua mãe proveniente de Kiev, Ucrânia, embora não tivessem sido educados sob qualquer preceito rígido, o que aconteceria a Laura e ao irmão. A mãe era “uma ateia espiritual”, descreveu o irmão de Laura, Jan: “Não acreditava em Deus ou na religião, mas vivia uma vida profundamente espiritual”. Laura também nunca se ligou a religiões formais; considerava-as enfadonhas e corruptas. A religião incutida no lar dos Nigro era a do trabalho.

Durante a infância de Laura, os judeus nova-iorquinos viviam perto da Grand Concourse, no Bronx, também habitada pela população italiana. Na área, viviam ainda porto-riquenhos e irlandeses, proporcionando a sensação de comunidade e contraste entre pobreza e harmonia à distância de poucos quarteirões – o que influenciaria o trabalho e a visão de vida de Laura Nyro.

Com três anos.
Aos três anos.

Laura foi precoce a vários níveis: Aos três anos, já ouvia rádio, decorando melodias e letras e reproduzindo-as, para espanto dos familiares. Os Nigro proporcionaram à filha um lar onde pôde desenvolver a sua vocação – a coleção de discos incluía musicais da Broadway, concertos de piano e ópera, bem como Ravel e Debussy, compositores que tanto influenciaram os músicos de jazz. Quem cresceu nos anos 50, nos EUA, também não podia ficar indiferente à folk e, claro, ao rock and roll.

Absorvendo estas influências e sendo uma ávida leitora de poesia, Laura escreveu a sua primeira composição aos seis anos, que já continha quartas (intervalo musical), tocando-a sem parar. Parecia-lhe natural. “Vi a música como a minha primeira linguagem.” Foi quando uma tia disse à mãe que Laura tinha qualquer dom, o que se costuma dizer, só que neste caso, não foi engano.

Com um Steinway de 70 anos na sala, Laura não podia estar em melhor habitat. Começou a ter lições de piano, interrompidas passado pouco tempo, visto que a criança chegou a casa a chorar por o professor lhe gritar. Assim, Nyro tornou-se autodidata. O pai, que teve de lhe comprar um piano para que ela deixasse de “martelar” no Steinway, era formalmente treinado e soube avaliar esta aprendizagem: “Ela nem sequer sabia os acordes, inventava os dela e memorizava-os. Era espantoso, já que eram tão diferentes.” Ao longo da carreira, nunca foi grande guitarrista, mas aos 10 anos teve algumas lições de guitarra.

laura nyro more than a new discovery (13)A jovem Laura era ainda encorajada pelos pais a contactar com o meio cultural nova-iorquino, que, na época, incluía a New York Philarmonic liderada por Leonard Bernstein. Solitária, passava grande parte do tempo no quarto escrevendo poemas, o que chamou a atenção de um professor de escrita criativa, que lhe reconheceu um dom genuíno para a linguagem poética. “Eu tinha amigos, mas comecei uma viagem interior ainda muito nova.”

laura nyro more than a new discovery (22)Os judeus americanos costumavam passar férias nas Montanhas Catskill, no interior do Estado de Nova Iorque. Nestas temporadas, Laura passava grande parte do tempo ao piano, inventando melodias ou levantava-se cedo para tocar guitarra. Circunspeta e de falas suaves, Laura impressionou os colegas da sua idade com o óbvio talento musical e pelo facto de fumar. Não era uma rebelde, era uma não-conformista, como a descreveram. Sem arrogância ou agressividade, desconcertava as pessoas. Num concurso de canções, por exemplo, em que os miúdos se reuniam em equipas e interpretavam versões de temas conhecidos, Laura inventou todos os da sua equipa e arrasou a concorrência.

AS RUAS DE NOVA IORQUE

Apesar dos bons tempos em ambiente campestre, foi Nova Iorque e a música das ruas que mais atraiu Laura Nigro desde cedo: O doo-wop, as harmonias de grupos de etnia branca, negra e hispânica que se reuniam em esquinas e no Metro. Este estilo vocal a capella seria integrado no movimento Motown, dando supremacia ao gospel e à soul. O doo-wop urbano de Nova Iorque era cantado por rapazes, mas Laura depressa se envolveu, cantando rock and roll com um grupo de quatro jovens porto-riquenhos numa estação de Metro. Estes locais eram escolhidos pela acústica e eco que proporcionavam. A estação na esquina da Grand Concourse e da 170th Street tornou-se o primeiro local público de atuação para Laura.

Na rádio, passavam os primeiros grupos femininos como as Chantels e as Shirelles, que não cantavam sobre patetices adolescentes, mas outros temas mais “adultos”. Patti LaBelle e as Blue Belles foram outra influência, e Laura Nyro viria, anos depois, a gravar um álbum com LaBelle. Martha and the Vandellas, Smokey Robinson and the Miracles ou Curtis Mayfield and the Impressions eram outros grupos prediletos de Laura, que também idolatrava Billie Holiday, Sarah Vaughan e Nina Simone. Era ainda grande admiradora de Miles Davis, John Coltrane e Joan Baez. Foi com os visionários Coltrane e outros músicos de jazz que aprendeu as primeiras estruturas melódicas e harmónicas que incorporou na sua música.

laura nyro more than a new discovery (19)A rapariga judia começava a atrair as atenções masculinas, não só pelos talentos musicais. Chamavam-lhe “zaftig”, uma expressão yiddish que equivale a “voluptuosa”. Os pais não a enviaram para um liceu normal, mas sim para o High School of Music and Art, vocacionado para alunos com aptidão para música e artes visuais. Laura foi aceite devido ao talento para o desenho. O estudo de música clássica, canto de ópera, teoria musical e escalas não lhe agradou. E a atitude dos professores era mesquinha: Se não se toca música clássica, não se toca música.

Laura começou a fazer gazeta e, pouco antes de se formar, foi falar com o reitor, dizendo-lhe que tiraria uma “licença sem vencimento” de três semanas. Obviamente, tal desaforo não caiu bem para uma aluna que já faltava indiscriminadamente às aulas. Um professor reagiu tão negativamente que só a intervenção da mãe a salvou. Quatro anos depois, este professor teve de pagar para a ver tocar no Carnegie Hall. E, em 1970, Laura recusou-se a receber um prémio que a escola lhe atribuiu.

laura nyro more than a new discovery (28)DESCOBERTA NA LISTA TELEFÓNICA

Desistindo da ideia de ingressar na Faculdade, Laura começou a trabalhar como babysitter, tarefa na qual era pouco competente, mas, pelo menos, sabia cantar para os bebés. Começa então a compor as suas canções, aplicando-se com mais seriedade, numa altura em que sentia grande afinidade com Bob Dylan. Gravou demos e conheceu produtores, que não lhe deixaram grande impressão; perguntavam-lhe se conseguia fazer melodias simples. Um deles foi (o cantor xaroposo) Bobby Darin, que a aconselhou a compor algo parecido com «What Kind of Fool Am I». Laura assentiu e, quando voltou, sentou-se ao piano e cantou para Darin uma composição chamada, “What Kind of Fool Are You”!

laura nyro more than a new discovery (6)Por um lado, não a conseguiam categorizar, nem ela queria. Não estava interessada em moldar o seu talento de acordo com o gosto alheio. Foi nesta altura que alterou o apelido para Nyro. Tal como o seu talento, era um apelido único na lista telefónica de Nova Iorque. E foi justamente lá que Laura Nyro foi descoberta.

Artie Mogull, que recentemente formara a companhia Dwarf Music com Bob Dylan, tinha um piano em segunda-mão que precisava de ser afinado e deparou-se com o nome de Lou Nigro na lista. O pai de Laura era agora afinador de pianos, ocupação mais estável que a de músico.

“O tipo vem ao meu escritório e diz que a filha escreve canções. Eu disse-lhe, ‘faça-me um favor, afine o raio do piano!’ Ele não parava, por isso, disse-lhe, ‘Jesus Cristo, ela que apareça amanhã e me toque umas músicas’. No dia seguinte, aparece uma rapariga pouco atraente e as primeiras canções que me tocou foram «Stoney End», «And When I Die» e «Wedding Bell Blues».” (Os três temas seriam êxitos nas vozes de outros artistas.)

Mogull ficou tão impressionado que lhe propôs de imediato um contrato de management, gravação e publicação das suas composições, achando que se deparara com uma potencial Dylan no feminino. Laura Nyro grava então uma maqueta com as suas canções, que, pensava, iriam ser gravadas por outros cantores, como era prática habitual. Mogull chama Milt Okun, que trabalhava com Peter, Paul and Mary para o cargo de produtor.

Okun ficou igualmente espantado com Nyro, reconhecendo-lhe um talento prodigioso, mas achava que ela se “dispersava” e “precisava de alguém que lhe dissesse quais as regras”. Portanto, acedeu em trabalhar com a jovem, mas apenas se as suas composições fossem mais moldadas de acordo com a rádio AM. “Laura não estava interessada nos meus comentários, mas felizmente a mãe dela estava lá. Uma vez, ouvi-as a discutirem nas escadas, ‘não podes ter uma canção com 10 minutos!’ E Laura dizia, ‘mas é assim que é!'”

laura nyro more than a new discovery (11)Okun trabalhou as estruturas das canções, e Mogull, que fora o responsável pelo contrato entre os Peter, Paul and Mary e a Warner, procurou uma editora, encontrando resistência e recusas: “Hoje, todos os que dizem que ficaram deslumbrados com ela, na altura, não acharam que tivesse talento.” O primeiro álbum de Laura Nyro foi lançado pela Verve/Folkways Records. A Verve, inicialmente vocacionada para o jazz, fora fundada em 1949, comprada pela MGM em 1958 e fundira-se à Folkways em 1964. Era agora mais abrangente. Jerry Schoenbaum fora o responsável pela música clássica na MGM – a Deutsche Grammophon – e tinha agora a tarefa de selecionar novos artistas folk e pop.

Laura Nyro, com 18 anos, fez uma audição para Schoenbaum e este gostou: “As músicas dela eram tão estranhas e diferentes de tudo em voga… a estrutura dos acordes era diferente, o número de compassos num só tema era diferente e as letras eram bastante interessantes. Não era a maior cantora que jamais ouvi, mas dava bem conta das canções. Por isso, disse-lhe que estávamos dispostos a arriscar.”

O PRIMEIRO DISCO

O produtor Milt Okun estava habituado a fazer arranjos para artistas folk, pelo que escolheu Herb Bernstein, que se afirmou “arrasado” com as composições de Laura, mas, tal como Okun, achou-as demasiado fora das convenções para serem êxitos. “Ela parava e mudava de tempo, a cada 16 compassos. Eu disse-lhe, ‘olha, sou tão artístico como qualquer pessoa, mas tens de pensar no aspeto comercial destas coisas. Se mudas o tempo a cada 30 segundos, vais perder o ouvinte mediano’.”

laura nyro more than a new discovery (16)Bernstein, contudo, respeitava a integridade da estreante. Milt Okun afirma que Nyro se sentia insegura em tocar ela própria o piano devido às suas noções pouco convencionais de ritmo. E também não era muito habitual uma mulher compor, tocar e cantar em simultâneo, nesses tempos, e ser encarada com seriedade. Ainda é um pouco vago, se foi ideia de Nyro ou dos produtores, mas esta foi a única vez que Nyro abdicou de tocar piano num disco seu.

O trabalho decorreu no estúdio Bell Sound, na West 54th Street, com Laura Nyro cantando com uma secção rítmica e regravando mais tarde alguns dos vocais. A mistura foi feita na MGM. Para uma das sessões, Nyro até trouxe alguns amigos do liceu… Os coros foram assegurados pelas Hi Fashions, um trio feminino ao qual se juntaram Linda November e Leslie Miller, cantoras que se especializariam em anúncios publicitários, e o colega de escola de Laura, Toni Wine. Os músicos contratados eram dos melhores de Nova Iorque; Bill La Vorgna na bateria, Lou Mauro no baixo, e os guitarristas Al Gorgoni, Jay Berliner e Bucky Pizzarelli. Na harmónica, Buddy Lucas e o célebre virtuoso Toots Thielemans.

laura nyro more than a new discovery (23)O orçamento de cerca de 15 mil dólares era reduzido e a técnica de gravação, rudimentar. As quatro pistas limitavam o produtor, que tinha obviamente de gravar vários instrumentos em simultâneo e/ou passá-los para outra pista, obtendo assim “espaço” na gravação. Recorde-se que os primeiros discos dos Beatles foram gravados deste modo. O processo exigia bastante criatividade e decisões imediatas. Em «Wedding Bell Blues», por exemplo, Bernstein teve de decidir logo qual o tipo de piano, em vez de poder experimentar com outro.

Nyro não ficaria muito satisfeita com esta estreia nem com os arranjos de Bernstein: “Quero dizer, eu trabalho horas, meses, anos, uma vida inteira nas minhas canções. Houve imensas lutas, eu estava sempre a chorar… é para verem como aqueles velhos tipos me conheciam.” Há desde logo duas características típicas de Laura Nyro a extrair daqui: Nunca cederia a comercialismos e era perfecionista.

laura nyro more than a new discovery (18)As maquetas soam mais espontâneas, há mais alternâncias de tempos, precisamente o que os produtores não queriam. Mas, nessa época, a música era gravada assim – com fins comerciais e um processo a condizer. Laura Nyro não se queixaria demasiado, mas não voltaria a trabalhar assim, até porque os tempos e as técnicas de gravação estavam a mudar rapidamente, permitindo a cantores/compositores mais liberdade artística em estúdio.

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

laura nyro more than a new discovery (1)More Than a New Discovery (O “More Than” foi acrescentado por Jerry Schoenbaum) é lançado em fevereiro de 1967, sendo um dos aspetos mais curiosos a precocidade e profundidade das letras, aliadas à mistura de pop, soul, folk, rock, gospel, jazz e sonoridades da Broadway por parte de uma compositora de apenas 18 anos. Isto significa que compusera os temas ainda adolescente. Onde foi então buscar inspiração, com tão pouca experiência de vida, num álbum que ainda hoje mantém a genialidade?

«Buy and Sell» descreve-nos uma avenida onde a “cocaína e cervejas” ajudam a “passar o tempo e secar as lágrimas”. Sugeriu-se que podia ser a descrição da vida de uma prostituta. Há canções como «He’s a Runner» ou «I Never Meant to Hurt You», que demonstram a maturidade de clássicos de jazz. E o que dizer de «When I Die», escrito quando Nyro tinha 16 anos?: “Quando eu morrer, quando eu desaparecer, haverá uma criança a nascer e um mundo para prosseguir.” Nyro atribuiu este tipo de excertos à “sabedoria popular que os adolescentes têm”. Já quase com 30 anos, diria que “tudo funciona por ciclos e toda a gente vai morrer. Eu vou morrer. E vou trazer um nova vida a este mundo.” Seria verdade, disse-o ainda antes de ser mãe.

Muito do álbum assenta na observação, devido à inexperiência romântica de Nyro, que tivera dois namorados. Uma amiga diz que nem eram bem namorados, eram mais “situações de ata/desata”. Outra reflete, “ela era muito ingénua sobre a vida, nessa altura”. O irmão, Jan, atribui isto a uma “compreensão precoce das lutas humanas. Alguém pode ser um grande músico e não ter partes da sua personalidade completamente desenvolvidas. Laura tinha partes já formadas que se juntaram para compor grandes canções”.

laura nyro more than a new discovery (9)Nyro era também uma grande observadora. «Lazy Susan» baseia-se num vizinho do Bronx, Alan Merrill, que tinha uma paixoneta liceal por uma colega chamada Susan e se lamentava sobre isso a Laura. Este amigo achou que, na visão de Laura, Susan tinha a “vida facilitada” e sentia alguma inveja dela… daí a “preguiçosa Susan” da canção. “Flim Flam Man” (mais tarde reintitulado «Hands off the Man») baseava-se no tio de Laura, um homem cheio de encanto junto das mulheres, bem como planos grandiosos que fracassavam sempre. Barbara Greenstein discorda, dizendo que Nyro escreveu o tema de propósito para o filme de 1967, The Flim-Flam Man, com George C. Scott.

O single «Wedding Bell Blues», em que a protagonista quer casar com o personagem Bill foi, segundo Alan Merrill, escrito sobre o caso que a sua mãe teve com um ator de filmes série B chamado Bill, que era casado. “A minha mãe sentia-se frustrada por não poder casar com ele, e Laura prestava atenção à bisbilhotice familiar.” A própria mãe de Alan confirma e acrescenta: “O que ela escrevia era mesmo espantoso… era sobre qualquer pessoa. É o que qualquer grande artista pode fazer – ela tornou aquilo num romance universal, e não apenas no meu.” Aconteceu um episódio divertido – comprovando a afirmação de Helen Merrill: Nyro recebeu bastante em royalties, já que todas as raparigas que queriam casar com um namorado chamado Bill ligavam para as estações de rádio e pediam esta música.

Ironicamente, o tema mal passou nas rádios de Nova Iorque, sendo um sucesso na Costa Oeste, nomeadamente em San Francisco, cidade dominada pelo acid rock, Janis Joplin e os Jefferson Airplane. A estreia ao vivo da nova-iorquina deu-se na Califórnia, mas Nyro nada tinha a ver com o espírito e a estética hippie e achou piada quando descreveram o seu estilo como “o som de San Francisco”. Gravou um vídeo de «Wedding Bell Blues» para o programa de Dick Clark, Where the Action Is, uma das suas raríssimas aparições televisivas. Surgia numa escadaria do Aquatic Park a fazer playback do tema e parecia prestes a sofrer um ataque de riso. O programa era, contudo, transmitido nacionalmente, pelo que depressa surgiram os fãs, ou a “tribo”, como Nyro lhes chamaria.   

laura nyro more than a new discovery (27)Toda esta maturidade “enganou” os ouvintes: Acharam que a cantora era muito mais velha, quando Nyro tinha apenas 19. Ellen Sander trabalhava como editora numa revista, em frente ao escritório do manager Artie Mogull e ouviu o disco a tocar no lado oposto do corredor: “A escrita era tão boa. Fiquei admirada. Pensei que fosse uma mulher mais velha e madura, escultural, com um passado na ópera ou no mundo do espetáculo. Um dia, pedi para passar lá e conhecer Laura Nyro… e o que vi, pareceu-me uma teenager.” Sander prossegue: “Laura quebrou o molde, por assim dizer. Era muito diferente de muitas personalidades do rock and roll que eu viria a conhecer.”

84 CONTRA 7

laura nyro more than a new discovery (8)Nyro era um talento especial, e a Verve tinha consciência disso, mas não sabia como a “comercializar”. Evidenciava-se uma terceira característica de Laura Nyro, a dificuldade de catalogação. A editora promoveu-a,  ignorando a sua sensibilidade. O anúncio de «Wedding Bell Blues» mostrava-a de vestido de noiva com um bouquet, e a citação “I don’t” e “nem todas as raparigas conseguem que o seu homem diga ‘sim'”. Mais patético foi o anúncio do segundo single, «Goodbye Joe», que declarava, “a miúda do «Wedding Bell Blues» perdeu outro homem e encontrou outro êxito!” Tal inépcia publicitária enfureceu Nyro.

Comercialmente, o álbum não foi nada de estrondoso, embora tenha sido uma das escolhas da Billboard, publicação que o descreveu como “a estreia de um grande talento”. «Wedding Bell Blues» atingiu apenas o 103º lugar. Mas recorde-se os tempos: As mulheres eram a minoria. A 17 de dezembro de 1966, havia 84 vocalistas masculinos no top 100 e apenas sete femininas.

Outra canção muito aclamada, «Stoney End», (mais tarde gravada por Barbra Streisand que com ela ganhou um disco de platina) tinha uma letra “problemática”: “Nasci do amor e a minha pobre mãe trabalhava nas minas, fui criada pelo bom livro Jesus, até ler nas entrelinhas.” A letra foi alterada na versão em single para o inofensivo “fui criada pelas regras de ouro”, excluindo alusões bíblicas potencialmente ofensivas para as boas famílias…

O produtor Milt Okun reconheceu de imediato um êxito em «And When I Die» e cuidou dos arranjos e produção do tema para os Peter, Paul and Mary. Laura Nyro não se opôs, pelo contrário, já que os adorava. O álbum do grupo manteve-se nas tabelas um ano, atingindo o nº 22. Três anos depois, os Blood, Sweat and Tears gravaram a mesma música e atingiram o Top 10. Laura Nyro provaria ser “mais do que” uma nova descoberta, de facto.

David Furtado

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