Bruce Lee e o papel das mulheres no nascimento do Kung Fu

Há várias conceções erróneas acerca de Bruce Lee e das artes marciais em geral. Alguns pensarão que o Kung Fu, por exemplo, foi uma arte criada por homens, com fins violentos, nascida na China. Esquece-se muitas vezes que as mulheres tiveram um papel fulcral no nascimento das artes marciais, tal como Bruce Lee as aprendeu.

160ffc7f0680208ae8ce3f4dcf71d53fOutras ideias completamente inventadas e/ou ficcionais provêm do filme Dragon: The Bruce Lee Story (Dragão: A Vida de Bruce Lee, de 1993) um filme biográfico ridículo e que distorce por completo quem foi Bruce Lee, o que fez e pretendeu ensinar e aprender na sua passagem de 32 anos pelo mundo. E porquê as associações ao “dragão” aplicadas a alguém que nem se chamava Bruce Lee?…

A PEQUENA FÉNIX

A primeira criança dos Li tinha sido um rapaz, que morreu pouco tempo após o parto. Tradicionalmente, era considerado um mau presságio. Os Li adotaram uma rapariga, Phoebe, para enganar os espíritos, visto que a segundo filho tinha de ser do sexo feminino. O terceiro foi Peter, este sim, saudável.

O terceiro filho nasceu a 27 de novembro de 1940, o Ano do Dragão, segundo o zodíaco chinês. A hora – entre as 6 e as 8 da manhã era a Hora do Dragão. E foi quando nasceu Sai Fon no Hospital Jackson Street na Chinatown de São Francisco. Sai Fon significa “Pequena Fénix” e era um nome de rapariga, pois os pais queriam afastar os maus espíritos. Uma das suas orelhas foi furada. A mãe, Grace Li, mudou-lhe pouco tempo depois o nome para Jun Fan, que significa “Regressado de Novo”. A mãe achava que um dia o filho iria regressar ao seu local de nascimento. Foi a médica que auxiliou o parto, Mary Glover, a dar o nome, ou alcunha, à criança – chamou-lhe Bruce. Anos mais tarde, “Bruce” adotou a forma anglo-saxónica do apelido e assim “nasceu” Bruce Lee.

bruce-lee-headshotNo início do ano seguinte, a família Li regressa a Hong Kong, onde Bruce cresceu. Era uma cidade onde a miséria de milhões imperava, lado a lado com a prosperidade de outros. Bruce, apesar de proveniente de uma família sem dificuldades financeiras e de frequentar uma escola privada, formou o seu próprio gang de rua e envolvia-se em desacatos com frequência, para transtorno dos pais. O seu pai tentara-lhe ensinar Tai chi chuan para controlar as energias do rapaz, o que não deu frutos.

Bruce já participava em filmes, por esta altura, em pequenos papéis, e o seu pai trabalhava na Chinese Opera. Um tio do rapaz convidou William Cheung para o aniversário de Bruce, realizado neste local. Cheung praticava um estilo eficaz de Kung Fu, conhecido como wing chun. Frustrado, depois de mais uma luta de rua que o deixou em mau estado e ansioso por se defender dos arruaceiros, Bruce pediu dinheiro à mãe para ter lições na mesma escola de William Cheung. Este, a princípio, não o levou a sério. Mas face à sua insistência, levou-o ao Restaurant Workers Union Hall, onde aprendia, e apresentou-o ao seu mestre, Yip Man, que, simpatizando com o rapaz, lhe começou a administrar lições de imediato.

Yip Man e Bruce Lee.
Yip Man e Bruce Lee.

Foi Yip Man que focalizou as energias do obsessivo Bruce, pondo de lado as ideias de luta de rua e ensinando-lhe um método eficaz de combate e uma filosofia que mais tarde o rapaz desenvolveria ao seu modo, tornando-se no maior artista de artes marciais de sempre. Mas se conseguiu atingir tal patamar foi porque defendia: “Não tenham medo do fracasso. Não é o fracasso, mas as ambições pobres que são o crime. Nas grandes tentativas, até é glorioso fracassar.”

A ÍNDIA

Ilustração de Bodhidharma.
Ilustração de Bodhidharma.

Vários séculos antes… Outro conceito mistificado é o das origens do Kung Fu, começando pelo termo, que não alude a nenhuma arte marcial. Significa “concretização de uma tarefa difícil” ou “trabalho árduo e tempo gasto”. A tradição diz que o pai do Kung Fu foi um monge indiano, Bodhidharma. No início do século VI, este monge abandonou o seu mosteiro com a intenção de disseminar os ensinamentos de Buda na China. Nas montanhas do norte, parou num mosteiro, Shaolin, cujo nome significa “árvore jovem”, uma denominação que remete para o velho ditado: Uma árvore flexível e que oscila pode resistir a ventos e tempestades.

Em Shaolin, traduzia-se escrituras budistas para chinês. Bodhidharma era um homem prático, contudo, e não acreditava em construir templos ou traduzir textos como meio de alcançar sabedoria ou mérito espiritual. Não foi bem-vindo em Shaolin e viveu nove anos numa caverna, como um eremita, passando longos períodos em meditação. Aos 70 anos, regressou a Shaolin, onde ninguém questionou os seus méritos ou intenções.

Foi Bodhidharma que reparou na “ineficácia” espiritual dos monges de Shaolin. Muitos adormeciam a meditar, pois o seu esforço intelectual tornara-lhes os corpos débeis. Por este motivo, criou uma série de exercícios, explicando: “Embora os caminhos de Buda sejam pregados para o bem da alma, corpo e alma são inseparáveis. Assim vou-vos ensinar um método através do qual poderão desenvolver a vossa energia de modo a atingirem a essência de Buda.”

Os exercícios consistiam em movimentos de combate e tinham também a vantagem de permitir aos monges que se defendessem de bandidos ao viajarem entre mosteiros. Ainda hoje, tais movimentos, que fundaram a escola do boxe de Shaolin, são a raiz dos vários estilos de Kung Fu. Quem considera as artes marciais uma fonte de violência e pancadaria (o que de facto é, quando o professor é mau e o aluno também) desconhece uma das bases de todas as artes marciais, que foi explicada por Bruce Lee deste modo:

“Como instrutores, devemos ser capazes de distinguir entre má prática causada por falta de aptidão por parte do aluno e pobre performance causada por falta de esforço. Devemos tratar o primeiro com paciência e o último com firmeza. Nunca devemos empregar o sarcasmo e o ridículo.”

Ainda a este propósito, uma das principais preocupações de Bodhidharma foi a de desenvolver o ch’i, que pode ser definido como “respiração”, “espírito” ou “força vital”. Trata-se de um fluxo de energia universal e, em termos do corpo humano, podemos entendê-lo como aquilo que governa o processo respiratório, o funcionamento do sistema nervoso e toda a atividade física, mental e emocional. Daí que haja tanta confusão sobre estas matérias no mundo ocidental, onde estes processos são atribuídos ao sistema endócrino, respiratório, circulatório, muscular e digestivo, separadamente. Na visão chinesa, estão inter-relacionados – o ch’i está na base das artes taoistas e da filosofia oriental.

O SOL E A LUA E O YIN/YANG

O ch’i é o resultado do Yin e do Yang: Todas as forças do mundo podem ser explicadas pela interação destas forças, de acordo com a filosofia chinesa. O Yang é o masculino e a força criativa, o calor, luz, som, atividade, Paraíso, infinito. O Yin representa feminino ou força recetiva. Frieza, trevas, quietude, Terra e o finito. Não são uma realidade concreta, mas sim, mudanças de estado e o fluir e interação de energia na base de todos os processos da existência.

Deste modo, a natureza cria uma terceira força, o ch’i. De modo mais direto: O fogo será o Yang e a água o Yin. Combinando os dois, temos o vapor, quase invisível mas capaz de gerar grande poder. O símbolo pictográfico chinês do ch’i é este: Um recipiente metálico contendo arroz quente e o vapor a subir. Temos também o exemplo de uma bicicleta em que os dois pedais não podem ser acionados em simultâneo; um empurra, o outro repousa, em alternância. O resultado é uma terceira força: O movimento em diante. Os mesmos princípios de regulação de forças estão presentes nas artes marciais.

Michelle Yeoh, que interpretou Wing Chun num filme de 1994. Apesar de a sua formação ser na área do bailado e não possuir treino formal de artes marciais, Yeoh tornou-se muito popular.
Michelle Yeoh, que interpretou Wing Chun num filme de 1994. Apesar de a sua formação ser na área do bailado e não possuir treino formal de artes marciais, Yeoh tornou-se muito popular.

Uma saudação frequentemente vista em filmes é o gesto de colocar a mão aberta sobre o punho fechado. Também isto não é casual. Esta saudação e a postura das mãos simbolizam o sol e a lua. Os seus caracteres, em chinês, significam “Ming”. É um gesto de respeito, outra característica que se encontra na base de todas as artes marciais, quando devidamente ensinadas. Ora, a Dinastia Ming foi conquistada pela Dinastia Manchu e, em 1768, o Templo de Shaolin foi destruído. Apenas cinco pessoas sobreviveram: Os “Veneráveis Cinco”. Isto leva-nos ao papel que as mulheres tiveram na disseminação (e criação) das artes marciais, pois uma das sobreviventes desta catástrofe foi Ng Mui, a única mulher. Viveu escondida e continuou a praticar Kung Fu.

A LENDA DA PRIMAVERA ETERNA

Uma representação contemporânea de Ng Mui.
Uma representação contemporânea de Ng Mui.

Numa província distante, vivia Yim Wing Chun, cujo nome significa “Primavera Eterna”. A sua beleza atraiu as atenções de um gangster, que pretendia que Chun pusesse fim ao seu noivado e casasse com ele. Ao tomar conhecimento das ameaças, Ng Mui engendrou um plano. Sugeriu que o pai de Wing Chun escrevesse uma carta ao noivo, terminando o noivado, dizendo simultaneamente ao gangster que a carta teria de viajar uma longa distância. Assim, os planos de casamento teriam de ser adiados por um ano.

Esta tática de atraso imaginada por Ng Mui foi bem sucedida e o gangster aceitou a proposta do pai de Wing Chun. Esta queria aprender a lutar e começou a ser logo ensinada por Ng Mui, mas apercebeu-se de que um ano não bastaria para aprender todos os seus ensinamentos. Assim a professora reduziu drasticamente as técnicas ao mínimo, o que vai de encontro a outro princípio das artes marciais, o de limar o diamante em bruto.

Por exemplo, o Kung Fu de shaolin tinha 38 formas (ou katas nalgumas terminologias). Wing Chun reduziu-as a três: Sil lum tao (pequena ideia), chum kil (procurando a abertura) e o mortífero bil jee (dedos que apunhalam). Passado um ano, o pai de Wing Chun disse ao gangster que a filha só casaria com alguém que a derrotasse num combate sem armas. O criminoso orgulhava-se de ser um lutador eficaz mas não conseguiu derrotar o estilo direto e poderoso de Wing Chun com as mãos nuas.

Seis gerações depois, foi este o estilo aprendido por Yip Man, que começara a aprender aos 13 anos e começou a ensinar aos 56. Dois anos depois, deparou-se com Bruce Lee.

“BE WATER, MY FRIEND”

Bruce_Lee_1973O que mais atraiu Bruce Lee por esta técnica foi a economia e o facto de ser direta. As técnicas de Wing Chun davam ênfase ao desenvolvimento da energia com o mínimo de esforço e o máximo dano. O estilo Wing Chun baseia-se na ideia de que a distância mais curta entre dois pontos é uma linha reta, sem grandes movimentos circulares. Isto pode encontrar-se em inúmeras formas de artes marciais; e é o que distingue o Goju-ryu de outros estilos de Karaté.

Os pontapés, por exemplo, raramente são aplicados acima da cintura do oponente e é dada preponderância a uma distância curta de combate. Os ataques são dirigidos ao eixo central do corpo do oponente. Temos também o chi sao (mãos que perfuram), o que não é uma técnica de combate mas se destina a desenvolver a sensibilidade ao balanço mutável das forças físicas durante uma luta.  

Explicando melhor, há um ponto de contacto quando duas pessoas se defrontam, o que desenvolve o “reflexo de contacto”. O conceito pode ser equiparado mais simplesmente ao pescador que não vê o peixe mas sente-o a morder. Ao desenvolver este reflexo, pode-se bloquear um ataque ou tentativa e contra-atacar de modo imediato e por reflexo. Por isso, já observámos lutadores treinando com os olhos vendados. O chi sao assenta mais em coordenação e não em situações práticas de combate. Mas é essencial devido ao intercâmbio de energias do Yin e do Yang, forças ativas que se complementam.

Terminando, assim se compreende um pouco melhor como Bruce Lee começou a aprender Kung Fu, numa forma aprimorada por uma mulher. Assim se compreende também melhor a sua frase: “Esvazia a mente, não tenhas forma nem molde… como a água. Podes pô-la numa chávena, ela torna-se a chávena. Se a pões na garrafa, ela torna-se a garrafa; se a puseres num bule de chá, ela torna-se o bule de chá. A água pode fluir ou demolir. Sê água, meu amigo.”

David Furtado

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4 Comments Add yours

  1. Carlos Chaves diz:

    Gostei bastante. Há aqui coisas que sabia e outras que não sabia como o filme sobre a vida de Bruce Lee ser tão “infiel” aos factos. Talvez isto se deva à influência da ex-mulher Linda Lee? Acho puro entretenimento , mas há alguns bons documentários sobre Bruce Lee e podemos encontrá-los nos extras dos dvds. Não me lembro de ver por lá a origem do nome do Bruce Lee tão detalhadamente. O papel das mulheres no kung fu e nas artes marciais isso desconhecia exceptuando Zhang Ziyi, no “Hero” que é a minha predilecta. E o filme é também muito bom, não sei se já viu. Sei que a Michelle Yeoh fez outros filmes, mas não os vi por haver falta de dvds legendados. Um bom trabalho, e continue. Já vi que tem aqui outro artigo sobre o Bruce Lee que também vou ler. Ele é o melhor, sem dúvida. Um abraço. Carlos.

    1. Caro Carlos, sabe-se que a Linda Lee não é apologista dos factos e sempre tentou fazer do marido um mito, ou algo de sobre-humano. O filme é como diz, “puro entretenimento”. Há bons e maus documentários sobre Bruce Lee… os mais comuns e que aparecem nos tais extras são aprovados por Linda Lee, que ganha monetariamente com a propagação desse mesmo “mito”. Vi alguns filmes com Zhang Ziyi e gostei, incluindo o Hero. A Michelle Yeoh e a Cynthia Rothrock fizeram bons filmes (alguns até extraordinários) de artes marciais. Quanto à legendagem, também tenho a mesma dificuldade. Tive de traduzir alguns devido à falta de legendas. É lamentável que as editoras nos obriguem a ver o que que queiram que vejamos, mas é assim o mercado. Abraço e obrigado, David.

  2. Friend who hates wordpress diz:

    Sigo o teu site ha mto tempo e digo que tens excertos dos teus textos na net, em blogs. Há ferramentas para veres isto. Acho que é estúpido isto. Leio o teu blog há 2 ou 3 anos, quando começou e gosto mas tens de ter mais atenção a isso. As efemérides do Lou Reed foram copiadas, os teus posts dos Dire Straits também e vê que até puseram “Die Straits” e não “Dire”. É uma pena que este material esteja á mão de quem não gosta e só quer sacar. Não escrevas este tipo de coisa é melhor estar calado e guardar o que se sabe. Tenho pena por que goste de ler, mas tem cuidado. Um amigo.

    1. Obrigado, “friend”. Essa dos “die straits” até tem piada. Lamentável gralha. Agradeço o alerta, que até tem fundamento. Há muitos bloggers sem ideias que optam pela via mais fácil: a de copiar ideias, parágrafos, etc. O site tem mais de três anos e isso não é novo, embora seja sempre aborrecido. Já houve várias queixas formais ao Google sobre os artigos de Raymond Chandler, Jack Kerouac e alguns excertos dos “die straits”. Isso depende deles, não de mim. Mas o nome diz tudo sobre essas pessoas e, infelizmente, o Google está mais preocupado em fazer dinheiro. Mas obrigado pelo alerta. Vou verificar essas situações e, caso seja oportuno, farei nova comunicação. (Convém não esquecer que o Google é um monopólio e pouco se interessa com ilegalidades, desde que não os prejudique.)

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