Mel Gibson e os 25 anos de Hamlet: “O resto é silêncio”

O personagem mais importante para Mel Gibson não foi Mad Max, Martin Riggs de Arma Mortífera ou sequer Wallace de Braveheart. Foi Hamlet, talvez o maior papel alguma vez escrito para um ator e também um dos maiores desafios. E como é que um americano, que viveu tanto tempo na Austrália, representa um príncipe dinamarquês numa peça escrita por um inglês e sob a direção de um italiano na Escócia? Eis a questão que tentaremos descobrir, já que as restantes, colocadas por Shakespeare, iludem a Humanidade desde 1603, data em que Hamlet foi publicado.

mel gibson hamlet (22)Quatro séculos depois, encontramos Mel Gibson no Four Seasons Hotel de Beverly Hills, concordando em participar naquele que será o papel mais difícil e marcante da sua carreira. Foi aí que conversou com Franco Zeffirelli, realizador italiano com reputação de excêntrico e exuberante. Quando o cineasta perguntou a Gibson se queria interpretar Hamlet na versão cinematográfica, a resposta foi um silêncio pesado.

O enredo de Hamlet é, à superfície, simples. O Príncipe Hamlet tenta vingar a morte do rei, o seu pai, envenenado pelo tio que pretende apoderar-se do trono e casar com a rainha. Hamlet faz-se passar por louco para descobrir a verdade. O fantasma do pai de Hamlet surge pedindo-lhe vingança, e Ofélia, amada do príncipe, enlouquece devido à morte do seu próprio pai.

Helena Bonham Carter (Ofélia).
Helena Bonham Carter (Ofélia).

A princípio, Mel Gibson achou que era realmente de loucos filmar uma peça com 400 anos. Durante o repasto, que consistia em esparguete, ponderou. Gibson não apreciava o facto de Hollywood o subestimar; em 1990, sentia-se relegado para lucrativos papéis de herói de ação e pouco mais. Por outro lado, afigurava-se agora a hipótese de regressar às raízes: Gibson interpretara Shakespeare na juventude, e o estudo e representação dos seus clássicos tinham integrado a sua formação em arte dramática. Era, contudo, um papel em que inúmeros atores tinham fracassado. E, entre os bem sucedidos, contavam-se Laurence Olivier, John Gielgud, Alec Guinness, Derek Jacobi, Nicol Williamson e Kenneth Branagh. Herança pesada.

Paul Scofield, Ian Holm, Alan Bates, Helena Bonham Carter, Mel Gibson e Glenn Close.
Paul Scofield, Ian Holm, Alan Bates, Helena Bonham Carter, Mel Gibson e Glenn Close.

Gibson não demorou muito a decidir. No dia seguinte, após uma leitura para Zeffirelli, estava já desesperado por interpretar Hamlet. O seu agente, convencido de que não seria benéfico para a carreira do cliente, tentou dissuadi-lo. Começou de imediato a circular por Hollywood o rumor de que Gibson iria arruinar a carreira enquanto herói de ação, caso enveredasse por um trabalho da seriedade deste. O ator ripostou: “Não me importa o que dizem… estou-me borrifando.”

MAD MAX NO PERÍODO ISABELINO

Quando comecei a lutar por Hamlet, comecei a compreendê-lo. No meio da contenda, sem tempo para pensar, apenas para reagir, e completamente absorto nas ações de Hamlet, eu sou ele. O seu espírito entra em mim e, de algum modo, lutamos um contra o outro e juntos ao mesmo tempo. Ele faz-nos crescer um pouco.

mel gibson hamlet (13)Talvez o maior trunfo de Gibson, além do talento, fosse a circunstância de possuir a sua própria visão do personagem e da peça. “Todas as imagens… as pessoas a escutarem-se umas às outras e a espiarem-se mutuamente, e toda a intriga e negrume e trevas nas almas das pessoas. Era quase pré-Cristão – a Cristandade acabara de aparecer – é sombria, decadente e miserável, com mortes por todo o lado. Estou muito entusiasmado com a visão de Franco. Ele vai realizá-lo de modo muito rude, este retrato da Dinamarca pré-Cristã, onde os Vikings pagãos se matam uns aos outros e tecem intrigas a toda a hora.”

Obviamente, ter uma estrela no seu projeto significava, para Franco Zeffirelli, que não haveria falta de verbas. Especulou-se que só por este motivo o cineasta contratou Gibson. Por outro lado, a Warner Brothers ambicionava um contrato a longo prazo com o ator e, ao investir em Hamlet, com a companhia de Gibson a servir de fachada, a Warner faria bom negócio. Zeffirelli elogiou a coragem do ator: “Mel arriscou a sua vida e carreira aqui. Imaginem se se saísse mal. Seria a anedota da indústria.”

mel gibson hamlet (14)Zeffirelli tinha também ideias concisas para o exigente papel: “Tenho de quebrar a tradição. Nunca apreciei este suposto príncipe romântico, apresentado como o Hamlet definitivo. Já lhe retiraram tanta masculinidade que até foi representado por mulheres. Ele pode travar duelos e encaro-o como o oposto de vulnerável. Conhece os meandros do mundo mas tem o coração dividido. Vislumbra o seu dever mas não consegue seguir em frente.” O realizador era fã de Mad Max, que o cativava pela “energia, violência, o perigo do personagem. Via-o como uma figura Isabelina”. Zeffirelli refere-se a Isabel I de Inglaterra e ao Período Isabelino, durante o qual dramaturgos como Shakespeare e Christopher Marlowe alcançaram grande popularidade.

Glenn Close (Rainha Gertrudes).
Glenn Close (Rainha Gertrudes).

Mas o que convenceu Zeffirelli foi uma cena de Arma Mortífera (1987), em que o polícia representado por Gibson se tenta suicidar com uma pistola. “Impressionou-me. Comecei a pensar que estava aqui o meu Hamlet… e foi a voz, adorei a voz.”

O filme contava com 15 milhões de dólares de orçamento, e o ator reduziu substancialmente o seu cachet, concordando em receber menos de um milhão, ao que se somava uma percentagem do lucro, caso houvesse algum.

A atriz escolhida para representar a Rainha Gertrudes, a sua mãe, foi Glenn Close. Ainda antes dos ensaios, Gibson telefonou-lhe e admitiu que, em Hollywood, todos se riam dele. “Quero que se lixem”, rematou. Era o que sucedia. Um tablóide publicou em grandes letras, “Mad Max vai interpretar Dinamarquês Maluco”, em tom de chacota. A fama de doido do ator cognominado de “Mad Mel” não ajudava à festa.

Glenn Close não achou estranha a escolha: “Porque não? Sempre adorei o trabalho dele. Acho que possui a imaginação de um ator cujos recursos ainda não foram postos à prova.” No papel de Ofélia, Helena Bonham Carter ficou mais surpreendida: “Primeiro, achei uma manobra genial. Apercebi-me de que Mel não ia ser parvo e, se não estivesse à altura do papel, certamente não o faria.”

Outro fator foi a teimosia de Gibson, decidido em provar à crítica que era mais do que um herói de ação. De facto, na época, tal como hoje, muitos desconhecem que Mel Gibson estudou no National Institute of Dramatic Art, em Sydney, Austrália, tendo estudado Shakespeare, representado Romeu e Julieta, e tendo sido ainda considerado para Hamlet – foi rejeitado por ser muito jovem. Recorde-se que isto sucedeu ainda antes do êxito mundial de Mad Max, no final dos anos 70.

Mel Gibson e Helena Bonham Carter.
Mel Gibson e Helena Bonham Carter.

Quanto a Zeffirelli, já realizara duas adaptações de Shakespeare, A Fera Amansada (1967) com Elizabeth Taylor e Richard Burton, e Romeu e Julieta (1968). Tinha pensado em encenar Hamlet em 1979, com Richard Gere, o que não se concretizou.

SER OU NÃO SER… EIS A QUESTÃO

Mel Gibson tentou, pela enésima vez, deixar de fumar. A sua professora de técnica vocal, Julia Wilson Dickson alertou-o: As longas passagens de texto Isabelino tornar-se-iam mais fáceis se regulasse a respiração. De dois maços de Marlboro por dia, Gibson passou para pastilhas elásticas de nicotina, mascando-as constantemente, menos quando filmava. Isso facilitou discursos como o famoso solilóquio, que teve de ser repetido take após take, deixando o ator extenuado:

“Ser ou não ser… eis a questão; será maior nobreza da alma sofrer a funda e as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de infortúnios opondo-lhes um fim? Morrer, dormir… nada mais… É belo como dizer que pomos fim ao desgosto e aos mil males naturais que são a herança da carne. É esse um fim a desejar ardentemente. Morrer, dormir… dormir… e talvez sonhar. Sim, eis o espinho! Pois que sonhos podem vir desse sono da morte, depois de libertos do tumulto da vida? Eis o que deve deter-nos. Eis a consideração que nos traz a calamidade de uma tão longa vida. Pois quem suportaria as chicotadas e mofas do mundo, a tirania do opressor, a insolência do orgulhoso, as dores do amor desprezado, as delongas da lei, a arrogância do poder, o desdém que o mérito paciente recebe dos indignos, quando podia buscar a própria quietude com um simples estilete? Quem suportaria tais fardos, protestando e suando numa vida dura, se não fosse o receio de qualquer coisa após a morte, dessa região não descoberta e de cuja fronteira nenhum viajante regressa, que lhe quebranta a vontade e faz que antes queira sofrer os males da Terra do que voar para outros de que nada se sabe? Assim, a consciência faz de nós cobardes; assim, a cor primitiva da resolução descora perante a pálida luz do pensamento e empreendimentos de grande porte e importância desviam a sua rota e perdem o nome de ação.”

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O ator teve também de aprender esgrima e a montar a cavalo. As pistolas, caçadeiras, motos e carros de filmes anteriores não lhe serviam de muito em Hamlet. Todas estas pressões despoletaram nele uma obsessão pelo personagem. Sofria de insónias e chegou a declarar: “Há alturas em que, ao interpretar Hamlet, temos vontade de arrancar os cabelos, pois ele é o personagem mais enigmático alguma vez criado. A única coisa consistente nele é a sua inconsistência, e andamos atrás da própria cauda. Parece que estamos a enlouquecer, e isso até acontece um pouco…”

mel gibson hamlet (16)A rodagem de cinco meses foi árdua. Gibson instalou-se com a esposa (na época) Robyn numa quinta em Bedfordshire. Hamlet foi filmado nos Shepperton Studios e em castelos nas costas de Kent e da Escócia. O imponente Castelo de Dunnottar, a nordeste da Escócia, inaugurado em 1200, fez as vezes de Elsinore, onde a peça decorre.

Com o Castelo de Dunnottar em fundo.
Com o Castelo de Dunnottar em fundo.

Gibson ocupou também uma casa de oito quartos em Ascot, Berkshire, arrendada por 14.000 dólares/mês. Não era comum vê-lo por estas paragens, e o ator surpreendeu a empregada de uma tabacaria quando lá foi comprar 20 maços de Marlboro e pastilhas elásticas… os vizinhos não o associavam “ao tipo dos filmes que estoirava fulanos com uma caçadeira”…

A sua estadia foi pacífica, comparada com a de outras estrelas, excetuando um pequeno incidente com a escola onde inscreveu os filhos, alvos de bullying. O ator nunca simpatizara nada com os ingleses e achou o episódio um caso tipo do snobismo britânico. Todavia, passeou por Londres várias vezes, apenas acompanhado pela esposa a quem moía a paciência. Aos fins-de-semana, insistia que Robyn lhe lesse as outras partes do diálogo para que pudesse praticar. A barba também foi ideia sua – Gibson achava-a essencial mas teve, em conjunto com a sua assistente de maquilhagem, de convencer os produtores, alarmados com a ideia de que tal imagem não apelasse aos fãs do ator.

mel gibson hamlet (4)QUATRO QUILOS POR DIA

No set, havia tensão devido às exigências da peça e também devido ao facto de a casa de banho mais próxima se encontrar a 800 metros. O clima estava gélido, e o sol radioso não era propício à atmosfera de Hamlet, pelo que os técnicos passavam horas a tentar bloqueá-lo. Já para não falar dos paparazzi. Sob os holofotes, Mel Gibson envergava fatos justos e espessos que o faziam transpirar em abundância, chegando a perder quatro quilos por dia. Sofreu também uma distensão muscular ao erguer outro ator, adiando as filmagens durante 24 horas.

mel gibson hamlet (7)Depois da rodagem, Helena Bonham Carter mudou de opinião acerca de Mel Gibson: “Ele tem um sentido de humor muito básico. E bastante boçal e de pouca sofisticação. O seu rosto é maravilhoso e os olhos também, mas, fisicamente, é desproporcionado. Tem um corpo estranho, pernas curtas e um peito côncavo.” A atriz, porém, admitiu que Gibson era “um verdadeiro cómico, um brincalhão. É muito descontraído, quando passamos tempo com ele”.

mel gibson hamlet (3)A relação com Glenn Close correu melhor, embora a atriz também se tenha cansado das débeis anedotas de Gibson. Por isso, beijava-o: “Não eram beijos sexuais, eu beijava-o realmente para que ele parasse de falar!” As graçolas foram justificadas por Mel Gibson; o ator disse que dava em doido se se mantivesse no personagem constantemente, isto apesar do respeito e até cautela que lhe inspiravam os coprotagonistas:

“Foi muito parecido com aquele pesadelo de sermos atirados para o ringue com Mike Tyson. Bem, achei que estava lá com ele, só que acordado. Quando olhava em redor, no set, sentia-me tão intimidado. Às vezes, tinha mesmo vontade de correr para casa devido à ilustre companhia de atores em que estava incluído.”

Aos poucos, também Gibson foi conquistando o respeito dos colegas, como o grande ator inglês Ian Holm: “Mel Gibson é brilhante. Vai surpreender muita gente. É uma coisa diabólica, para semelhante mega estrela, arriscar tudo e representar Hamlet com uma data de ingleses. Ele sai-se impecavelmente!” Gibson respondeu: “Ele é um tipo fantástico… para inglês!”

Gibson improvisou certas cenas, como a da biblioteca, com Ian Holm (Polónio). Na frase em que o apelida de caranguejo, atira-lhe uma escada para cima, fazendo-o cair para trás. Zeffirelli achou que não destoava e manteve a sequência. Os métodos quase histéricos do realizador tornaram-se extremamente cansativos para Gibson. Aos amigos, disse que o cineasta se julgava Napoleão.

Bonham Carter com Ian Holm, que interpreta o seu pai. O ator fez grandes elogios a Gibson.
Bonham Carter com Ian Holm, que interpreta o seu pai. O ator fez grandes elogios a Gibson.

UM PAPEL ASSOMBRADO

mel gibson hamlet (26)O humor escondia a insegurança de Mel Gibson, que encarava Hamlet como uma progressão dos papéis que já desempenhara no início de carreira, na Austrália. O problema era que quase todos o viam como uma estrela de Hollywood grosseira a tentar provar um argumento. Gibson levou o papel tão a sério que se recusou a viajar até aos EUA para promover o filme. A Universal gastou uma fortuna ao enviar dezenas de jornalistas para Londres, com o fim de o entrevistar.

Na verdade, a recusa em viajar não foi capricho. Gibson temia estar à beira de um esgotamento nervoso, devido a tudo isto e à circunstância de ter rodado três filmes consecutivos. Achava que teria de fazer uma longa pausa após Hamlet. Quando Barbara Walters o entrevistou no set, Gibson não conseguia ocultar o cansaço. Por esta altura, já achava que o papel estava “assombrado”.

Sucedeu um episódio estranho, quase no fim da rodagem. Ao regressar dos Shepperton Studios, uma noite, Mel Gibson encontrou um presente à sua espera. Era uma caixa contendo uma camisa cosida à mão, com uma mancha de sangue numa manga. Trazia um bilhete, esclarecendo que aquela era a camisa que Laurence Olivier envergara na versão cinematográfica de Hamlet.

Primeiro, o ator ficou horrorizado. Depois, não resistiu à compulsão de a vestir e de se observar ao espelho. Ficou arrepiado, sentiu uma estranha presença na sala e voltou a colocar a camisa na caixa, para nunca mais a abrir. Foi um incidente que nunca discutiu, mas, de acordo com um colega, tê-lo-á assustado mesmo: “Sentia que o espírito de Hamlet estava com ele a toda a hora.”

mel gibson hamlet (17)Faltavam agora as críticas, especialmente as australianas, inglesas e americanas, visto que estas iriam ditar se o público veria ou não Hamlet. Não era um filme da série Arma Mortífera, o primeiro trabalho que filmara nos EUA, três anos antes. O ator empenhou-se numa digressão promocional e gravou um vídeo educativo, Mel Gibson Goes Back to School, em que fala a alunos de um liceu de Los Angeles sobre Hamlet, procurando explicar-lhes sem palavras caras de que trata a peça: “Grande história… oito mortes violentas, assassínio, incesto, adultério, uma mulher louca, veneno, vingança… e lutas de espada.” Os alunos ficaram entusiasmados, o que agradou ao ator.

Nos EUA, as críticas foram muito positivas. “O Hamlet de Gibson é forte e inteligente. O filme é dominado pela sua presença digna mas explosiva. Um Hamlet envolvente”, disse o New York Times. A Time elogiou este Hamlet “quase perfeito para Gibson com a sua linguagem física neurótica e barítono urgente. O New York Post ficou surpreendido, achando uma “dupla surpresa”, tendo em conta que o ator só podia ser julgado, até então, à luz dos filmes Mad Max e Arma Mortífera.

TRAGÉDIA REAL

Em dezembro de 1990, semanas antes da estreia de Hamlet, Anne Gibson morre aos 69 anos. Mel Gibson parte para a Austrália para se reunir à família, que ficara orgulhosa quando Mel fora escolhido para Hamlet. O facto de a mãe já não poder assistir, intensificou o seu desgosto, mas não o impediu de prosseguir a promoção do filme. Dias depois do funeral regressou à arena das conferências de imprensa, fumando um cigarro atrás do outro. Qualquer pergunta sobre Anne Gibson era interdita.

mel gibson hamlet (10)Um repórter perguntou-lhe como fora contracenar com Glenn Close, que tinha 43 anos e não era muito mais velha do que ele, no papel de sua mãe. “Foi fantástico. Foi tão bom que acho que a vou adotar…” Depois murmurou: “É ótimo trabalhar com ela… mas jovem para ser minha mãe…” Gibson abandonou a sala e um jornalista encontrou-o sozinho no corredor, a fumar. O ator explicou que estava a sossegar os nervos.

Regressando, encarou novamente a imprensa, abordando as semelhanças entre si mesmo e Hamlet: “Ele também tem um amplitude vulcânica de expressão dentro dele. E não sabe se é justificada. É uma pessoa muito honesta e justa… assim foi criado. Ele consegue contê-la, mas, por vezes, ela explode.”

PRÍNCIPE RICO, POBRE DUQUESA

A estreia em Los Angeles ajudou a angariar um milhão de dólares para recuperar o Shakespeare’s Globe Theatre de Londres, após três séculos de inatividade. No seu país adotivo, a Austrália, Mel Gibson tornou-se um herói de proporções ainda maiores com Hamlet. Continuando inseguro quanto ao desempenho, Gibson visitou a sua antiga escola de representação, o National Institute of Dramatic Art, inaugurando uma bolsa de estudo com o seu nome. Queria obter a aprovação dos professores mas também conversar com os alunos. Um deles perguntou-lhe se seria sempre perseguido pelo papel de Hamlet, ao que Gibson respondeu, “não vou deixar que esse pelintra me assombre”. Outro perguntou como reagia a tanto espalhafato. “A quem interessa? A mim, não. Sou rico.”

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Nem toda a imprensa australiana ficou convencida, acusando o protagonista de representar Hamlet para ver se o conseguia fazer e apelidando o seu trabalho de mediano. Em Inglaterra, seria mais complicado. A estreia teve direito à presença da realeza (que Gibson desprezava), no Odeon Haymarket londrino, no West End. A Duquesa de York, Sarah Ferguson, teve de esperar pelo ator, retido no trânsito. “Ainda bem que veio…” disse-lhe amargamente. O cabeçalho de um jornal proclamou com humor, “Enfim, a Pobre Fergie Aguarda o Príncipe Mel”…

Previsivelmente, os críticos britânicos, exigentes e habituados a encenações de Shakespeare, foram mais cautelosos. O Guardian achou que Gibson encarnara um “Hamlet simples, de falas nada complicadas, que não sabe o que lhe acertou, mas que tenta moldar o seu destino na mesma”. O The Times foi mais agressivo: “Mel Gibson declama com a clareza irreal de um relógio falante. É austero, angustiado, terno, brincalhão, todas as coisas que Hamlet devia ser. Mas, ainda que Mel Gibson não seja mau, nem por um instante, quase todos os outros membros do elenco são melhores. E, por muito esforço que ele faça, nunca conseguimos avançar para lá da superfície de Hamlet.”

mel gibson hamlet (20)Na época, falou-se de uma nomeação para o Óscar, o que não aconteceu, mas Gibson pode gabar-se de ter recebido o Will Award do Shakespeare Theater de Washington, prémio prestigiado e anteriormente atribuído aos igualmente conceituados Joseph Papp, Kevin Kline, Christopher Plummer e Kenneth Branagh.

Se Mel Gibson é ou não é um bom Hamlet, cabe a cada espectador decidir a questão. O ator considerava-o o único filme de que se podia orgulhar sem reservas. Manteve um diário durante as filmagens e confessou a amigos que desempenhar o príncipe dinamarquês produzira nele um impacto profundo que perduraria para sempre.

“Quero que esta produção seja um sucesso porque adoro Shakespeare e o mundo precisa de mais Shakespeare… pois está repleto de sabedoria, humor e beleza. Precisamos de mais disso.”

Bem, citando as derradeiras palavras de Hamlet, “o resto… é silêncio”.

David Furtado

Tradução do excerto de Hamlet: Ersílio Cardoso.

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